21.4.18

Não existe amor

Muita gente tem bastante consciência dos padrões de relacionamento que tem.

Não é uma coisa difícil perceber. Todo mundo tem um "tipo", ou algum tipo de personalidade que parece reaparecer em pessoas diferentes a cada vez que ela se aventura no amor. Lá pelo terceiro ou quarto relacionamento frustrado, você percebe que as coisas se repetem e você tem alguma coisa a ver com isso.

Infelizmente, muita gente para por aí. Acabada a frustração do último relacionamento, a busca pelo padrão de pessoa ideal volta com força.

É então que o bolo desanda.

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Amadurecer é uma desilusão depois da outra, e isso é bom.

Todos crescemos com um monte de ilusões na cabeça.
Queremos ser cantores, jogadores de futebol, apresentadores de TV, e é sempre uma frustração quando a gente se dá conta que esse sonho não vai dar certo.

É triste, mas logo a gente se enfia numa faculdade ou num emprego diferente, se envolve com aquilo e acaba gostando.

É o mesmo gozo do trabalho dos sonhos? Não.
Mas nas conquistas pequenas, nas dificuldades cotidianas e nos lugares conquistados pouco a pouco mora um prazer que é muito mais real e gerador de orgulho do que se você tivesse virado o Neymar ou a Beyoncé.

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Mesmo quando achamos ser muito pé no chão e sem expectativas, existe uma sensação interior que é nosso ideal de amor.
Faça você mesmo o teste: feche os olhos e imagine como seria a pessoa perfeita. Como ela te faz se sentir? Como é o sexo? Como ela se dá com seus amigos?

Existe uma checklist imensa de sensações que você, pensando nisso ou não, procura em alguém. Quando aparece alguém próximo de completar essa lista , o mecanismo de ilusões é ligado na potência máxima.

Aí começam as fantasias, as cobranças e - inevitavelmente - as frustrações.
Ou a pessoa cabe naquilo, ou você cai de cara na sensação de abandono e falta de sentido.

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Infelizmente, a gente reluta muito mais pra aceitar que a pessoa ideal não existe do que pra entender que não vai conseguir ser milionário nessa vida.

É uma das poucas ilusões em que a gente se apega pela vida toda. No amor, tem muita gente adulta ainda querendo ser a Beyoncé.

Como é grande a libertação de se desapegar da ideia de que vai surgir alguém capaz de satisfazer as sensações que a gente deseja em alguém.

NÃO EXISTE.
A PESSOA QUE VOCÊ QUER NÃO EXISTE.
O AMOR COMO VOCÊ IMAGINA NÃO EXISTE.
Não vai ter. Solta. Larga o osso.

E agora perceba como isso pode ser bom.

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"Mas a pessoa que está comigo é perfeita pra mim!"
Até ela fazer algo que você não gosta, né? Depois vai ser um monstro.
Na melhor das hipóteses, com muita maturidade, vocês vão conseguir desmontar as ilusões que um tem sobre o outro e viver um relacionamento muito mais humilde e simples do que você imaginava. Senão, frustração na certa!

"Mas eu não quero muita coisa, eu só quero alguém que me ame e me respeite!"
Não conte com isso. É pouco, mas ainda pode não existir.
Além do mais, você não precisa disso pra viver. É você que não se ama nem se respeita quando se desgasta em ilusão depois de ilusão.

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"Então eu vou ter que aceitar qualquer relacionamento?"
Não! Justamente essa parte é a melhor de todas: ou você começa a ver as pessoas pelo que elas realmente são, em vez da sua expectativa, e com isso tem relacionamentos muito mais reais, livres e com menos espaço pra frustração, ou você vai ficar mais tranquilo em dizer não para as pessoas que aparecem, por saber que não é por meio delas que virá a satisfação das suas angústias.

"Isso quer dizer que eu vou ficar sozinho pra sempre?"
Talvez. Muita gente se sente muito sozinha mesmo estando num relacionamento. Muita gente
É triste, mas é a realidade. Aceitar que papai noel não existe te fez bem, não fez? Aceita que você não ia ser o Neymar te fez bem, não fez?

Talvez aceitar que a solidão seja o padrão da experiência humana possa te dar o mesmo benefício.
É duro, mas é maduro.

13.4.18

Pode incomodar

É tão frequente acontecer que eu até acho graça no sofrimento da pessoa bem educada demais.

Ela é uma fofa. Chega, cumprimenta, participa de longe, mas não se aproxima muito.
Não fica tempo demais na casa de ninguém.

Se você oferece um pedaço do doce que está comendo, ela diz que já comeu em casa, mesmo que esteja com o próprio Amazonas de saliva escorrendo da boca.

Ela recebe hóspedes e dorme no sofá da sala pra visita dormir na cama dela.

Esse é o jeito correto de viver, pensa ela. Ela é uma cidadã exemplar. Ela toma remédio pra gastrite.

Ela não incomoda ninguém.

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Eu rio dessa gente mas rio com respeito, porque eu sou igualzinho.
Cansei de passar vontade ou negar ajuda por achar que seria trabalho demais para o outro.

E é mais ou menos essa a sensação que a Pessoa Educada Demais tem o tempo todo: ela é um atrapalho, ela é um atravanco, e isso não se faz.

Ela gasta tanta energia tentando ser agradável, o cidadão-modelo de um mundo ideal, que vai parar numa crise de pânico.
Falta ar, falta energia, dá vontade de gritar e sair correndo.

Mas ela não grita nem sai correndo, credo.
Isso incomodaria os outros.

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Me interessa saber de onde vem essa ideia maluca de que não incomodar ninguém faz uma pessoa ser bem quista.

Quem fala isso obviamente nunca teve um cachorro na vida.

Por que cachorro enche o saco, né?
Se ele quer sair, vai ficar latindo e te arranhando até você pegar a coleira e levá-lo até a esquina.
Se ele quer fazer cocô e você não o deixa sair de casa, vai deixar um presentinho bem em cima do seu travesseiro.
Se ele quer carinho, vai enfiar a cabeça no seu colo, não interessa o que você esteja fazendo.

Um cachorro se recusa a fingir que não existe e que não tem necessidades.
A coisa mais triste do mundo seria um cachorro que não quer incomodar ninguém e fica no cantinho o tempo todo.

(e nem venham me falar que gato é assim, porque gato é tranquilo até o momento em que ele te acorda quatro da manhã com uma patada na cara porque está com fome).

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Ainda assim, todo mundo gosta de cachorro (menos quem não gosta, mas aí quem não gosta deles sou eu).

Isso acontece porque uma relação genuína é muito gostosa.
O cachorro pede as coisas com tanto carinho, com tanta abertura, e tem tanta gratidão pelo que recebe, de um jeito tão gostoso e tão honesto... Que ele conquista odireito de incomodar.

Dizem que filho é assim também, mas eu nunca tive um filho me trazendo uma coleira na boca pra saber.

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Não tô defendendo gente mal educada, longe disso.
Aliás, saio correndo de gente que fala alto demais, pede muito favor ou não percebe a hora de sair de perto.

Mas até essas pessoas tem algo a ensinar pra alguém que nunca se mostra por medo de incomodar.

Podar partes da gente pra não incomodar é jogar fora qualquer chance de uma interação genuína.
Você não cria conflitos, mas também não conhece o sabor de ser aceito. Ninguém nunca lhe conhece de verdade, só a fachada que você apresenta.

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Por isso minha nova meta é sair incomodando o máximo que eu posso.

Tá comendo e nem me ofereceu? Vou pedir um pedaço.
Tá saindo de carro na direção que eu tô indo? Vou pedir carona.
O livro que eu tô lendo tá mais interessante do que a pessoa que quer falar comigo? Vou pedir licença e continuar lendo.

Nada de ficar calado, eu vou é fazer esforço pra incomodar mais.

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"Mas Flávio, se todo mundo ficar desse jeito o mundo vai ficar insuportável!"

Só pra quem não sabe defender o próprio espaço.
Gente folgada incomoda todo mundo, mas incomoda muito mais quem não sabe dizer não. Questão de saber dar - e aceitar - limites.

Se todo mundo agir assim, pedindo o que quer e dizendo não para o que não quer, a convivência geral vai ficar muito mais fácil.

Afinal, até o cachorro mais dócil rosna quando não quer tomar banho.
Ainda temos muito o que aprender com eles.

9.4.18

Por que os sonhos importam na terapia?


Eu gosto muito de gente cética que procura terapia.
São pessoas extremamente racionais, que já leram muito, que não acreditam em qualquer coisa, que vão com um pé atrás para o processo terapêutico.

Em geral, essas pessoas torcem muito o nariz quando eu falo da importância de trazer relatos dos seus sonhos para a terapia.

Eles me olham como se eu fosse o Cigano Voight, leitor de tarô, interpretador de sonhos e ladrão de maridos.

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Mas não tem nada de místico em observar os sonhos.

A função do sonho é geralmente associada ao armazenamento de memórias. Por isso geralmente alguma coisa que vimos ou fizemos recentemente aparece no sonho. É uma manifestação visível de uma memória nossa sendo guardada.

Mas não importa só qual evento é guardado pelo sonho. Importa também em que gaveta das nossas memórias esse sonho é gravado.

Por isso é comum acontecer algum sonho como "Estava na minha antiga escola, mas o professor da minha turma era o meu chefe".

É bem possível que isso signifique que há algum sentimento relacionando o chefe (o acontecimento atual, a memória a ser guardada) ao ambiente escolar (a gaveta onde o inconsciente escolheu guardar a memória).

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Por isso que não pode existir um manual de interpretação de sonhos, e também por esse motivo a interpretação do sonhador é muito mais importante que a do terapeuta: é ele quem domina o território das memórias relacionadas a cada símbolo contido ali.

É através das associações que o paciente faz que vamos entender porque esse sonho foi guardar justo aquela memória bem naquela gaveta.

Pode ser que ele esteja reproduzindo com o chefe, por exemplo, uma dinâmica de poder que tenha aprendido na época de escola.

Assim, olhando pro que mais existe naquela gaveta da memória, é possível tratar o sentimento que ficou pendente daquela época e libertar o momento atual da influência daquele conteúdo que tinha ficado recalcado.

Aí, no decorrer de um processo terapêutico, essas associações vão ficando mais e mais profundas, e os efeitos dessa investigação mais libertadores.

É uma redução grosseira, mas dá pra entender a ideia.

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Quem quiser se aprofundar na ciência da interpretação dos sonhos, que é bem mais profunda do que descrevi aqui, vai precisar recorrer a vários autores com várias visões diferentes sobre o assunto.

Mas não adianta: nada é capaz de decifrar um sonho tão bem quanto a inquietude e a entrega criativa do próprio sonhador.

É um processo longo, árduo e profundo rumo ao próprio autoconhecimento.

E é justamente por me dedicar tanto a esse processo que eu passei o dia inteiro tentando entender porque diabos eu sonhei que tava cortando a unha do dedão do pé da Glória Maria.

Atualizo vocês assim que tiver notícias.

29.3.18

Fenômeno

Até a leitura mais inútil pode acrescentar alguma coisa na nossa vida.
Estava lendo uma lista de artigos mais esquisitos da Wikipédia e um deles falava de um tal "Fenômeno de Mariko Aoki".

Nesse fenômeno, algumas pessoas tem uma forte vontade de defecar quando entram em livrarias ou bibliotecas.

Essa Mariko Aoki escreveu um artigo nos anos oitenta contando da sua atividade intestinal em bibliotecas e recebeu um punhado de respostas de leitores falando que sentiam o mesmo.

O artigo cita uma série de comentários de médicos e psicólogos que falam que o fenômeno é uma lenda urbana e que não existe.

Não existe o caralho, seus filhos da mãe.

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Vocês não fazem ideia de como eu fiquei feliz de encontrar esse artigo.

Desde sempre, eu não posso entrar numa biblioteca e caminhar um pouco que meu intestino subitamente acorda e começa a cantar "Jesus Cristo, eu estou aqui!".

Mesmo desconfortável, de vez em quando eu comentava com algum amigo algo como "Nossa, você não tem vontade de cagar quando vem na biblioteca?", e a resposta padrão era "Credo, não! Nada a ver."

Não era nem um acontecimento que me incomodasse tanto -- infelizmente eu não tenho andado por bibliotecas na frequência que eu gostaria. Ainda assim, como foi bom saber que aquilo que eu sinto realmente existe!

Biblioteca dá dor de barriga sim! Eu não sou louco!

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Pensar nisso me fez pensar em quantas pessoas vão de médico em médico com algum sofrimento e não são ouvidas.

Quantas pessoas chegam no meu consultório com problemas muito mais sérios que uma dor de barriga numa livraria e um histórico de gente dizendo que aquilo não é nada.


"Isso aí é drama!"

"Isso aí é normal!"

"Isso aí só está na sua cabeça!"

Como é cruel alguém que escuta a dor do outro e a desvaloriza. Seja uma dor pequena ou com fundo dramático, seja uma grande dor, TODO processo de cura começa reconhecendo que aquele sofrimento existe.

Toda melhora começa na escuta e na validação.

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Um experimento feito na Bélgica com pacientes de câncer separava os pacientes em dois grupos. Um, ao reclamar de dor, recebia do enfermeiro uma dose de remédio. O outro, ao reclamar de dor, recebia do enfermeiro a pergunta "Como é a sua dor?".

Cada paciente era ouvido com atenção e depois escutava o enfermeiro repetir palavra por palavra a descrição da dor que sentia. Então, vinha a pergunta: "Você acha que uma dose do medicamento pode ajudar?"

O grupo que tinha a dor ouvida pedia muito menos remédio do que os que apenas recebiam medicação quando reclamavam.

Quer dizer, nem sempre a gente quer a ajuda do outro pra resolver nosso problema. Queremos que alguém nos escute no momento solitário do sofrimento. Queremos o direito de sentir dor.

Negar a uma pessoa a validade do seu sofrimento é negar a essa pessoa o direito de existir integralmente.

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Dificilmente uma pessoa que procura terapia o faz por não ter recursos para mudar a própria vida.

A maior diferença que uma pessoa pode fazer é ouvir outra pessoa atentamente e dar a ela a sensação de que alguém a ouve.

Que o que ela sente é válido.
Que o que ela sofre é real.
Que ela pode existir em paz.

Que ela é normal e aceita... mesmo que ela sinta dor de barriga toda vez que entra numa biblioteca.

22.3.18

Sem ajuda

Tem um meme circulando que é mais ou menos assim:

"Na internet a pessoa é 'todos contra a depressão', 'ofereço meu apoio', mas na vida real é 'sai, pessoa tóxica', 'deixa esse bad vibes pra lá'."

A ideia é de que se alguém fala que depressão é importante e merece apoio, essa pessoa deve estar sempre disponível para ouvir e apoiar quem tem esse problema.

Não compartilho dessa opinião.

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Sabe porque as pessoas não estão disponíveis para te apoiar na sua depressão?

Talvez porque já estejam ocupadas tentando lidar com as dificuldades delas.
Se já não é fácil conviver com as próprias dificuldades e sofrimentos, mesmo estando saudável, quão mais difícil é conviver com uma pessoa que está num momento negativo.

Não é necessariamente culpa delas.
No fim das contas, a depressão é uma experiência extremamente individual, e por mais que um apoio seja bem vindo, não há outra pessoa responsável por te tirar desse estado senão você.

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"Mas as pessoas deveriam fazer um esforço!"

Deveriam. E você também.

Tratar a depressão como uma característica imutável, que vai te acompanhar o tempo todo, e que as pessoas deveriam tolerar a qualquer preço não é um bom ponto de partida para se recuperar dela.

A responsabilidade é sua.

A depressão não é uma condição pesada, triste e que nunca vai impedir completamente suas chances de felicidade. Ela é uma condição com fatores emocionais, físicos e sociais, e não precisa ser um ponto final na vida de ninguém.

Depressão tem tratamento, e esse tratamento funciona.

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Fazer terapia e tomar antidepressivos te deixar super contente o tempo todo, o Bozo das good vibes? Não, ainda bem.

A vida vai continuar sendo difícil e você vai continuar tendo que lidar com ela.

Mas você vai conseguir lidar com a sua vida de um jeito melhor.
Foco no "você".

Sinto informar, mas não é a obrigação de ninguém te oferecer apoio.

Seria bom se esse apoio viesse? Seria. Mas não vai vir, pelo menos não o tempo todo. Qualquer gentileza e carinho que vier é um presente maravilhoso, e realmente pode fazer bem.

Mas talvez esse presente não venha, e é você que vai ter que lidar com isso.

Sozinho.

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"Então não adianta pedir ajuda de ninguém?"

Não é por aí.
Peça ajuda! Desabafe, converse sobre as possibilidades de tratamento, ouça sugestões. Aceite a ajuda que lhe for oferecida, ainda que ela tenha limites e que você sinta que você merece mais atenção.

Só não espere que as pessoas possam estar disponíveis o tempo todo pra lhe atender, ainda que você precise disso. Essa expectativa vai piorar ainda mais sua situação.

Você realmente merece muito carinho e atenção, mas se isso não acontecer, é melhor trabalhar com o que você tem. Por isso que a depressão é, invariavelmente, uma experiência solitária.

Então pode ser melhor procurar uma ajuda especializada - ou pedir a ajuda de alguém que consiga lhe direcionar para isso.
Depois tem todo um outro trabalho: fazer a psicoterapia, ter um acompanhamento psiquiátrico, lidar com seus próprios demônios.

Não é fácil e é solitário, mas tem bons resultados.

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Você não precisa ser a pessoa cortada da festa por ser "bad vibes" pra sempre. Depois de bastante terapia, talvez tomando um medicamento, você vai se sentir melhor.

Aí sim, você pega a listinha de quem não foi compreensivo com você e corta da sua vida.

Mas talvez isso não te preocupe mais tanto, porque você conseguiu se levantar com a sua própria força e essas pessoas perderam a importância.

Quem sabe depois disso você até possa se tornar a pessoa que realmente dá apoio pra quem está passando por um problema.

Apoio com limites, claro.
Você também vai estar bastante ocupado cuidando - e usufruindo - da sua própria saúde mental.

13.3.18

Number two

O que ninguém tinha me avisado sobre ter uma clínica de psicologia foi que as maiores manifestações da sombra humana não acontecem na sala de atendimento.

Não, o ser humano se mostra mesmo é no banheiro.

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Eu lembro da primeira vez que tive contato com alguma loucura banheirística de consultório. Eu ainda trabalhava na clínica-escola da faculdade, e quando fui lavar as mãos depois de ir ao banheiro, tive uma surpresa ao olhar na lixeira.

Alguém tinha feito o esforço de
a) esperar um momento de menor movimento na clínica para fazer suas necessidades dentro da lixeira; ou
b) pegar um cocô de dentro do vaso sanitário e levá-lo até a lixeira do papel toalha, pra compartilhar sua obra com o mundo.
c) sei lá, levar um cocô de casa no bolso, tipo quem tá com um papel de bala na mão e espera até a próxima lixeira?

Saí do banheiro surpreso e fui comentar com a minha supervisora, que respondeu, sem mudar de expressão:
"Temos um perverso entre nós, então? Normal."

Ah, tá. Simplesmente alguém cagou na lixeira. Normal.

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Aqui na clínica nós não temos orçamento pra manter uma pessoa na limpeza todos os dias, então a maior parte do serviço de limpeza é feita por nós mesmos.

Dos ítens que a gente compra, as coisas acabam na seguinte ordem:
1 - papel higiênico
2 - copos de água
3 - papel toalha

O que me fez concluir que as pessoas limpam bastante a bunda, bebem bastante líquido e lavam pouco a mão.
Desde então, tenho limpado o bebedouro com mais frequência.

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Agora, o que me surpreende mesmo é que - mesmo no nosso espaço pequeno - as bizarrices de banheiro continuam.

Eu abro a gaveta para pegar um refil pro sabonete líquido? Tem papel higiênico usado lá.
Eu vou dar uma alinhada nos vasinhos de flor de cima da pia? Tem papel higiênico usado lá.
Eu vou dar uma passadinha de pano com desinfetante de leve pra dar um cheirinho bom no banheiro? Tem duas piscinas olímpicas de urina atrás do vaso sanitário - e mais papel higiênico usado.

O que me incomodaria menos se eu soubesse que pelo menos as pessoas saem de lá com a mão lavada.

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Ainda assim não posso reclamar. Minha colega que trabalha numa instituição muito maior comenta que isso acontece todo dia.

Alguém faz cocô no vaso, mas não levanta a tampa do vaso.
Alguém faz cocô na pia.
Alguém faz cocô no chão e escreve "VIADO" na parede.

O papel higiênico usado me parece muito mais inofensivo.

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O que faz alguém fazer de um banheiro um lugar de perversão e sujeira?

Um banheiro coletivo é um dos poucos lugares capazes de unir o público e íntimo com tanta intensidade. O que se faz ali é completamente secreto, ainda que todo mundo vá lá pra fazer a mesma coisa.

Ter um intestino foi algo tão higienizado que a escatologia é quase criminosa. Ninguém peida, ninguém caga e ninguém tem dor de barriga. A Disney chegou a mudar o nome do filme "Coco" no Brasil pra evitar que um trocadilho com cocô impedisse as pessoas de ir ao cinema.

De tanto fazer parecer que ter um intestino é a coisa mais horrenda do mundo, é muito natural que alguém que deseje fazer algo que pareça horrendo escolha a escatologia como caminho. Nada combina tanto com o lado B quanto o número 2.

Garantida pelo anonimato da tranca do banheiro, a pessoa se permite cometer a travessura que ela jamais cometeria em público. Os banheiros públicos são a sessão de comentários de internet do mundo real.

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Claro que não é todo mundo. De trinta, quarenta pessoas que a gente recebe por dia, é uma ou outra que, de vez em quando, faz uma dessas.

Mais difícil é explicar o que acontece nos banheiros de posto de gasolina. Não há um banheiro de posto de gasolina de beira de estrada que não esteja coberto de merda até o teto. É uma mistura de perversão com a menina do Exorcista, só pode.

Deve ser por estar, além de tudo, longe de casa e em um lugar em que não se vai voltar tão cedo.

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Esses dias eu estava na fila do banheiro de um boteco quando um bêbado saiu da casinha aos gritos:

"Gente, eu caguei, mas eu caguei muito fedido. Vocês me perdoam?"
Ninguém respondeu, acho que porque ninguém perdoou. Ele continuou seu discurso em tom de palestra motivacional:
"Tá fedido, mas se cada um colaborar e cheirar um pouquinho, todos sobreviveremos!"

E talvez seja isso que todo ser humano quer: um pouco de companhia para lidar com as coisas da vida que não cheiram muito bem.

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Agora cês me dão licença, que eu preciso tirar uma pilha de papel higiênico sujo do armário do banheiro.

6.3.18

Reggae Nights

Bullying todo mundo sabe como é.
Quem nunca sofreu, já fez, e na maior parte dos casos, já conheceu os dois lados da moeda.

Foi assim comigo.

Eu era muito amado pelos meus colegas de aula. Eles me davam apelidos ótimos.
Eu já fui "avestruz", porque meu pescoço cresceu antes de todo o resto do corpo, fazendo um menino de um metro e meio ficar com 1,70 do dia pra noite só com ganhos girafais.
Eu já fui "abelhinha", porque li corretamente o nome do trecho AB' numa aula de geometria.

O apelido mais comum, entretanto, era o mais afetivo. Eu era chamado de "Corre, viadinho".
Talvez fosse só "viadinho", mas o "corre" vinha tão certeiramente antes da outra palavra que o apelido já tinha virado nome composto.

Se eu não corresse, apanhava. De tanto que corri, pelo menos escapei de ser chamado de "gordinho".
Na média, até que não foi tão ruim.

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Teve uma vez, lá pela quinta série, que virou mania dos meninos inventarem musiquinhas pra cantar na sala de aula. De vez em quando, alguma caía no gosto da galera e todo mundo da turma cantava a mesma música ao mesmo tempo.

As letras eram coisas muito avançadas, geralmente rimando "cabeça oca" com "chupar piroca", numa mistura da infantilidade da quarta-série com as pretensões sexuais da pré-adolescência.

Escrever uma musiquinha dessas era um sinal de popularidade, e o que um aluno de quinta série quer mais do que popularidade? Pois eu seria popular dessa vez, e eu

Só tinha um outro menino na sala que ganhava de mim no quesito sofrer bullying. O nome dele era Acyr, e o bullying já começava por aí. Ele não tinha nada de tão terrível, a não ser pelo fato de ainda gostar de ser criança numa fase em que todo mundo estava muito preocupado em se mostrar o mais adulto possível.

Enquanto os outros meninos fingiam que já tinham pelos no saco - aqueles que já tinham mostravam para os outros no canto da sala de aula, comprovando assim sua maturidade -, o Acyr estava mais preocupado em brincar de carrinho.

Todo mundo implicava com ele. Pra mim, era praticamente um alívio. Por alguns minutos por dia, eu não precisava correr de ninguém.

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Acontece que eu não queria paz. Eu queria glória.
Inventei uma musiquinha ao ritmo de Reggae Nights, do Jimmy Cliff (minha única fonte de inspiração era a rádio Antena 1 que meu pai tocava no carro enquanto me levava pra aula).
Em cima da melodia chupinhada, a letra era a seguinte:

"MORRA ACYR!
Mas antes tem que levar suspensão
Quero te ver por dentro de um caixão
Seu meeerdaaaa"

Não era nenhum Chico Buarque, mas colou. Não lembro quando cantei isso na sala pela primeira vez, mas o sucesso foi estrondoso. Não precisei cantar duas vezes para a sala inteira me acompanhar, apontando o dedo pro menino.

"Morra, Acyr" foi meu primeiro e único êxito musical.

Vocês não sabem o prazer que eu sentia vendo a sala inteira cantando uma coisa que eu tinha feito, sem tirar sarro de mim.

Meu momento rockstar não durou muito. Uma semana depois, alguma música sobre peido era o novo hit da sala, o Acyr continuava brincando de carrinho e eu continuava correndo pra não apanhar.

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No fundo, no fundo, eu sabia que o que eu estava fazendo era errado. Eu até gostava do Acyr. A gente fazia trabalho junto, a mãe dele me encontrava no supermercado e era legal comigo.

Mas eu precisava me sentir por cima. Uma pessoa que não tem outra coisa para se afirmar que não seja o status não sabe como lidar com ser "menos" do que os outros, e se precisar rebaixar o outro pra se sentir melhor, vai usar toda a força que tem pra isso.

Estou escrevendo esse texto porque tive a notícia de que o menino que eu cantava desejando a morte se suicidou na noite de ontem.

Mentira, não tenho notícias dele. Deve estar bem vivo, casado, a família cheia da grana. Se tivesse notícia ruim alguém teria me contado.

MAS JÁ PENSOU A CULPA QUE EU ESTARIA SENTINDO SE ELE SE MATASSE?

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O mecanismo do bullying é extremamente simples. É uma pessoa que se sente mal tentando se sentir melhor colocando alguém pra baixo. Esse alguém está mal preparado pra lidar com isso e passa a pancada adiante, num círculo de destruição.

É tipo a música do Fulano roubou pão na casa do João, só que com requintes de crueldade:
"O Flávio é um bostão, além de viadão!"
"Quem, eu?"
"Sim, você!"
"Eu não!"
"Então quem é?"
"É o Acyr!"
"O Acyr é um bostão, além de viadão!"

Por isso não adianta combater o bullying só ensinando que todos tem valor e precisam se amar. Precisamos ensinar cada criança a medir seu valor para além do que possui ou é fisicamente.
Ensinar que aprovação social não é tudo e que existem outras maneiras de se sentir amado e respeitado, mesmo que elas não sejam tão imediatas quanto a aprovação dos colegas.

Não é uma solução mágica que vai deixar todo mundo amigo de todo mundo, mas vai ajudar quem sofre bullying a ter mecanismos de sobrevivência que não sejam jogar a batata quente no coleguinha mais próximo.

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Acyr, se esse texto chegar até você, gostaria de te pedir desculpas. Eu não sabia o que estava fazendo. Me mande um alô que eu te pago uma cerveja.

Quem sabe a gente botando o papo em dia eu consiga me redimir de ter sido tão idiota com você e a gente fique bons amigos outra vez.

Mas, se você terminar a noite tirando uma arma do bolso e falando "Agora corre, viadinho!", não vou poder dizer que eu não mereci.

Não existe amor

Muita gente tem bastante consciência dos padrões de relacionamento que tem. Não é uma coisa difícil perceber. Todo mundo tem um "tipo...