<body><script type="text/javascript"> function setAttributeOnload(object, attribute, val) { if(window.addEventListener) { window.addEventListener("load", function(){ object[attribute] = val; }, false); } else { window.attachEvent('onload', function(){ object[attribute] = val; }); } } </script> <iframe src="http://www.blogger.com/navbar.g?targetBlogID=7293044&amp;blogName=Coment%C3%A1rios+Abertos&amp;publishMode=PUBLISH_MODE_BLOGSPOT&amp;navbarType=BLUE&amp;layoutType=CLASSIC&amp;homepageUrl=http%3A%2F%2Fcomentariosabertos.blogspot.com%2F&amp;blogLocale=pt_BR&amp;searchRoot=http%3A%2F%2Fcomentariosabertos.blogspot.com%2Fsearch" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no" frameborder="0" height="30px" width="100%" id="navbar-iframe" title="Blogger Navigation and Search"></iframe> <div></div>
Comentários Abertos
sorvete de ego pra todo mundo!

O Fruto

14.6.09
Primeiro eu falava mais do que devia, pois era exatamente isso que eu devia fazer. Me conduzi a um estado de ignorância fingida que de tão bem fingida passou a ser ignorância verdadeira. A ignorância sempre é verdadeira, a ignorância contém a verdade e só conhece a verdade quem é ignorante.

De tão bem fingido, ignorei a minha ignorância, incapaz de saber que tudo em mim já era perfeito como podem ser perfeitas as coisas feitas de barro e sopro divino que andam distraídas pelo planeta. E me acreditei errado. Pela palavra, tornei-me imperfeito - comi o fruto da palavra, que me deu a capacidade de enxergar o bem e o mal - Bem e Mal não existem, esse é o grande pecado, a alucinação original de que algo pode existir e ser errado ao mesmo tempo. Não existe errado na existência, errado é não existir.

Entorpecido pelo fruto, tentei corrigir meus pretensos erros calando a minha boca, tão acostumada a falar demais. O problema de acreditar em erro é que também se começa a acreditar em correção, e é impossível corrigir o que nunca foi errado. Fingi ser o que não era (pois o que eu era não podia ser divino, era falho e fraco e humano), e de tão bem fingido, calei mais que a minha boca: calei minha capacidade de falar e me retornar, cego, à ignorância.

Como numa máquina de escrever, bati na mesma tecla mil vezes. O erro já estava lá, pintado na folha, mas eu insisti em bater em outra tecla, repetidamente, com a força que angústia dá, borrando outra letra no lugar da original errada. Por mais errada que fosse a folha original, era imaculada, e a correção só lhe manchou e enfeou. Fiquei manchado e enfeado eu mesmo.

A alucinação do fruto é persistente e contínua, e continuei a ver o erro em mim como algo a ser extirpado, arrancado como uma vesícula cheia de pedras. Agora, meu silêncio era o defeito. Me fingi espontâneo e cheio de coisas a dizer, mas não consegui fingir bem o suficiente. Abrindo a boca, escapava de mim o hálito podre do fruto da Árvore do Conhecimento. Em silêncio, era isolado do mundo. Falando, o mundo preferia isolar-se de mim.

A árvore que era do Conhecimento, não o fruto. Antes do fruto, nada era certo ou errado, tudo simplesmente era. Também não havia nada de errado no fruto em si, mas fomos incapazes de engolir o fruto por inteiro. Tudo era inteiro, antes da primeira mordida. Tudo era completo na sua objetividade. Mas não pudemos engolir o fruto por inteiro. Tivemos que rasgá-lo em pedaços, quebrar com os dentes a sua integridade, digerir nojentamente o que lhe compunha. Daí a ilusão. Do Conhecimento que originou o fruto, criou-se a ilusão.

Como fomos longe! O fruto proibido nos embriagou tanto que nos juntamos para corrigir os pretensos defeitos do mundo juntos, e passamos a dar sentido ao sentido dos outros - com a repreensão de quem não é capaz de olhar para si mesmo de tão embriagado - e nos enganamos de sentido, e fomos no sentido errado, e em vez de matar a ilusão, matávamo-nos uns aos outros. Queimávamos uns aos outros desejando queimar com eles o que estava queimando em nós, nos poucos momentos em que a realidade inicial, o Conhecimento, tentava brotar e dizer que tudo era ilusão.

Chegamos ao ponto de não saber viver sem o pecado. A alucinação foi tão longe que nos perverteu inteiros, e se não há religião, há o corpo que tenta se dizer imperfeito, e iludidos, tentamos curá-lo. Não há cura para o corpo. Não há correção. Não há melhora, porque não existe pecado.

O fruto se revira no meu estômago e tenta sair, tudo o que entra tenta sair - nem sempre consegue, somos todos prisões - e o vomito. Perdem-se os adjetivos, perdem-se os erros, perdem-se os nomes. Ganha-se um pouco de lucidez (o fruto já foi digerido em parte, já corre no meu sangue a maldição de querer nomear tudo como certo e errado, permitido ou não permitido). Minha consciência fica vaga e lenta, e estou absorvido em observar sem nomear o que vejo. O que vejo, aliás, agora faz parte de mim. Regrido a quando era perfeito (por desconhecer a alucinação do imperfeito), e tudo é uma coisa só.

Mas sou homem, e sou fraco, e estou sem alimento. Não conheço nada além do fruto. Me entrego a ilusão, viciado que sou. A fome me faz animal, desesperado por alimento a ponto de pular na jugular de qualquer coisa que passe a minha frente. Vou até a Árvore, tomo do fruto e dou mais uma mordida. Volto a falar mais do que devia.

À espreita, uma serpente me sorri.
Por Flávio Voight às 12:55 AM :: E-mail :: 5 Comente Abertamente :: permalink


O velho Paço

5.6.09
Ficava numa praça perdida entre outras tantas praças da grande cidade. Estava lá desde 1800 e qualquer coisa. O Paço era só mais uma construção antiga entre todas as outras que sobreviveram lá e cá.

Viu gerações nascerem e morrerem. Recebeu tanta gente, no seu tempo áureo - disputadíssimo, local em que pessoas medíocres recebiam honras mais ou menos. Pessoas não tão importantes assim, que adoravam o sentimento de importância que vinha de estar nos seus salões.

Perdeu a glória aos poucos. A sua imponência parecia zombar da sua inutilidade. A cidade se acostumou com o trambolho de concreto na praça. Construiu trambolhos maiores, que roubaram a importância do velho paço.

Recebia apenas a visita do vento frio que entrava por suas vidraças quebradas, que passava assobiando canções de abandono. Volta e meia abrigava um mendigo que conseguia dormir mesmo com o barulho e frio trazidos pelo vento.

Suas gigantescas paredes externas passaram a escorar prostitutas cansadas de se apoiar nos estreitos saltos durante a noite. Às vezes, recebiam a honra de um bêbado mijando. Ratos passavam por lá e cá, freqüentadores assíduos.

O Paço assistia. Viu pessoas brigando por coisas que também viu serem esquecidas. Viu, enojado, a pequena praça que lhe fazia companhia ganhar um calçamento feio de petit-pavet.

Viu as casas que lhe cercavam darem lugar a edifícios. Viu o tempo fazer seus remendos e estragos em tudo o que lhe rodeava - e em si mesmo. A paisagem mudou, mas permanecia o Paço, como um velho que não consegue morrer mesmo se sentindo um estorvo para os que ficaram.

Até que um dia um pequeno visionário qualquer se compadeceu do Paço. Convenceu um, convenceu outro, e começou a restauração. As paredes de madeira podre, do lado de dentro, foram todas quebradas e reconstruídas com um tijolo fajuto, que daria um ar mais histórico.

O Paço foi percebendo que era velho, não histórico. Pra ser histórico, precisava mudar. Viu suas lajes estupradas por encanamento e fiação elétrica. Viu as vidraças quebradas serem trocadas por outras de acrílico, semelhantes às antigas mas mais baratas. Recebeu pintura nova. Quadros valiosos.

Foi reinaugurado com pompa. A iluminação nova foi caríssima, e o Paço nunca pareceu tão imponente - nem nos tempos em que era novidade. As pessoas que passavam por ali sem notar o velho, notaram o histórico. Abismadas. Tiravam fotos, achavam lindo.

Voltou a glória. Mas, embalsamado vivo, o Paço não achou mais nada. Ganhou a eternidade, pelo menos por algum tempo. Mas perdeu a alma.
Por Flávio Voight às 2:17 AM :: E-mail :: 6 Comente Abertamente :: permalink


Alerta Vermelho

1.6.09
Alerta vermelho: comecei a pensar. Foi difícil tirar a nuvem que embaçava minha visão do que eu realmente pensava - desliguei-a lentamente. Preocupação, mandei embora. Meus pais, mandei embora. Senso comum, mandei embora.

E estava limpo. Tirei tudo o que não era exatamente o que eu pensava. Arranquei o que me ensinaram a pensar. Cheguei aonde? No vácuo. Pôxa vida, eu não pensava nada por mim mesmo?

Tá certo, vou começar do zero. Olhar pra qualquer coisa e pensar sobre ela. Pensar de verdade, pensar por mim mesmo. Pensar. Olhei pra uma cadeira. Porra, por que é que sempre que eu olho pra alguma coisa aleatória procurando inspiração me aparece justo uma cadeira na frente?
Mas tudo bem. Vou tirar meus preconceitos da cadeira. Às vezes ela tem uma tonelada de possibilidades de pensamento sentada nela e eu nem percebo.

Mas se tiver uma tonelada de possibilidades na cadeira, ela não ia se espatifar? Não, não. Não tem possibilidade na cadeira. Quem sabe me sentando nela... Não, as possibilidades iam parar todas na minha bunda - e minha bunda não é tão fã de possibilidades.
Melhor desistir da cadeira.

Um cachorro late, lá fora. Boa idéia, vou pensar sobre o cachorro. Cachorro. Quatro patas. Mamífero. Não, isso não é pensar, isso é acumular informações. Vamos lá, pensar. Pensando. Cachorro. Porra, maldito cachorro que não pára de latir. Não consigo pensar com esse barulho todo. A natureza foi planejada pra me impedir de pensar.

Será que existe deus? Se existe, garanto que ele não quer que eu pense. Nem vou entrar nos méritos de religião (se bem que, tem lugar melhor pra pensar do que na igreja? Não em coisas filosóficas, mas eu tenho uma teoria que diz que as igrejas são o melhor lugar possível pra se fazer uma lista de supermercado). Então, se existe deus, por que ele fez um cachorro que late tanto? Por que ele fez o Faustão, aliás?

Espera aí, se o Faustão apareceu na minha cabeça, é porque eu não estou pensando direito. Vou esquecer o Faustão. Sai, Faustão, sai. Quem sabe se esse maldito cachorro parasse de latir, eu conseguiria esquecer o Faustão.
Se o Faustão sentasse nessa cadeira, certeza que ela espatifaria. Certeza.

Por que eu tô imaginando o Faustão latindo na minha cadeira? Não é uma imagem bonita. Daqui a pouco aparece a Leonor Corrêa e eles começam a uivar, aposto. Por onde anda a Leonor Corrêa?

Chega. Chama a nuvem de novo. Alerta vermelho: desisti de pensar. Onde eu posso comprar uma Veja aqui perto?
Por Flávio Voight às 5:14 PM :: E-mail :: 4 Comente Abertamente :: permalink


Fagocitose

27.4.09
Arre, estou farto de gente normal. Também não quero semideuses. Quero demônios por inteiro, pessoas sem medo da própria humanidade. Quero a minha porcentagem de toda a matéria negra que é maioria no universo. Quero poder vampirizar os meus demônios, sugar sua vulgaridade doce, a doçura que aprendemos a banir de nós mesmos.

O mundo não é cão-come-cão. Acredito que os cães tenham mais dignidade. Somos primitivos demais para caçar em matilha, acabamos concorrendo e perdendo a caça. Não somos muito mais inteligentes do que um anticorpo que ataca o próprio corpo pensando estar fazendo o bem. Nos fazemos mal, e adoramos. Amar é devorar o próximo pelo prazer da indigestão.

Sou como o vinho: azedo com o tempo. Torno-me intragável, mais e mais a cada dia. Meu bouquet não encontrou lábio que o merecesse no tempo de sua doçura. Agora deleito-me da distância, dos calos deixados por pequenos machucados que receberam importância demais e que permeti que doessem uma dor desnecessária.

Brincar de esfinge é deliciosamente idiota e humano. Decifra-me ou o quê? Decifro-te antes, com garfo e faca na mão. Depois você me devora de volta e ficamos todos em fagocitose. Como é prazerosa a indigestão!

Pura imagem! O que me falta falar? "Oh, sou amargo e acho bonitinho?". Só me falta gesticular com um cigarro aceso. Talvez acarinhar um gato enquanto faço a minha mais ensaiada cara de cu. Milhões de anos de evolução, dezenas de músculos no rosto, tantas expressões possíveis e eu decido usar nenhuma. Aquela mesma cara que tinha minha ancestral ameba. Medo do ridículo?

RI-DÍ-CU-LO. Demônios por inteiro, agora fico de demoniozinho de mim mesmo. Vou amar o ridículo. "Amar é o ridículo da vida", foi Fernando Pessoa? Ridículo é amar a vida. Ridícula é a vida de quem ama. Ridículo é tudo, e eu amo o que me faz rizível. Perdi a vontade de ter graça. Que a graça venha involuntariamente, que surja a graça da minha desgraça. Demorei demais para acolher o meu ridículo.

Ser gente enjôa, tentar ser semi-deus é querer virar uma estátua de mármore e quebrar na primeira vez em que algo atinge mais o "semi" do que o "deus". Não quero ser semi-nada. Já me basta ser semi-novo e não poder me trocar por outro modelo mais recente. Demônio, sim, demônio como fui proibido de ser. Divirto-me mais. Quero amores mais doídos, mais reais, menos bonitinhos. Dores de verdade, não de fachada. Experimentar a vida toda, não só as partes bonitas.

Não tente mais me decifrar. Fagocita-me, tô pedindo.
Por Flávio Voight às 12:32 AM :: E-mail :: 8 Comente Abertamente :: permalink


Lábios Ateus

25.4.09
Lábios lambidos
Saliva espalhada por tudo
O amor, definitivamente, não sabe ser higiênico.

Devolva-me:
- o tempo perdido
- as noites sem sono
- o Neruda que você me fez ficar sem ler, porque quis ir ao cinema
- a capacidade de sentir o aroma de perfume barato e não lembrar do seu cheiro
- o dinheiro que eu gastei em telefone
- o retrato que você roubou da minha carteira (se ainda tens, não sei, mas se tiver...)
- o tempo que eu gastei tentando entender seu gosto musical ruim
- a minha ingenuidade (que você quebrou)
- a minha ingenuidade (tinha sobrado um restinho, você fez questão)
- a minha ingenuidade (ok, eu sou patético)
- as horas gastas na frente do espelho pra me sentir bom o suficiente pra você
- o esforço que eu fiz pra que fôssemos compatíveis e tivéssemos assunto
- o meu ridículo

Pode ficar pra você:
- a minha idiotice (por ter sido tão ingênuo)
- algumas das memórias boas
- aquele boné nojento que você não tirava por nada nesse mundo
- minha dúvida sobre você ser careca e tentar esconder
- tudo o que eu te escrevi
- as cicatrizes da minha paixãozinha barata e seus reflexos metidinhos a artísticos
- (te interessa um pouco da ingenuidade que ainda ficou comigo?)

Lambi seus lábios
Lambeste os meus
Só me restaram
lábios ateus
No fim das contas
de que vale um lábio?
Lábios: os pára-choques da alma.
Por Flávio Voight às 12:45 AM :: E-mail :: 4 Comente Abertamente :: permalink


Passou

21.4.09
Passou batom. Passou rímel. Passou blush.
Passou fome uma semana inteirinha esperando o dia do encontro.
Passou o vestido à ferro ela mesma, com medo que a empregada queimasse.
Passou um café bem forte, sem açúcar, pra agüentar ficar em pé durante o dia.
Passou pela farmácia e comprou camisinha, só pra garantir.
Passou raiva quando o flanelinha na frente da farmácia a chamou de tia.
Passou o tempo tentando assar uma torta (que ela só ia olhar, nada de comer). Passou do ponto - de tão distraída, esqueceu do forno.
Passou as obrigações do dia seguinte para uma colega (aquelas colegas que sempre entendem).
Passou a noite inteira sentada, esperando.
A noite passou.
No dia seguinte, passou com o carro por cima do infeliz.
Passou o resto da vida com um sorriso bobo - na cadeia não se passa fome.
Por Flávio Voight às 7:08 PM :: E-mail :: 6 Comente Abertamente :: permalink


Bibliotecas

17.4.09
O mundo mudou, e hoje somos completamente dependentes da grande biblioteca virtual - como diria uma reportagem de televisão sobre a internet, ignorando que ninguém pega vírus numa biblioteca normal (a não ser transando no banheiro da biblioteca, e sem camisinha). O problema mesmo foi quando a internet resolveu meter a mão nas bibliotecas de verdade, aquela metida.

É prático poder renovar o livro só entrando no site da biblioteca e botando o código de barras da sua carteirinha? Prático, é. Só que livro de biblioteca não tem a mesma graça se você não lembrar no fim da tarde que hoje é o último dia para a devolução e tiver que sair correndo pra não pagar a - caríssima - multa de um real por dia de atraso.

E outra, não é mais carteirinha, é cartão. Ficou tudo magnético demais, nem carimbo o cartão leva! Lembram dos carimbos de biblioteca? De morrer de orgulho porque teve de trocar quatro vezes de carteirinha no ano letivo, porque não sobrava mais espaço pra carimbar os livros?

Sem contar na delícia de olhar o cartão pendurado na parte de trás do livro, com as datas de devolução de quem pegou o livro antes de você. Ótimo pra ficar indignado: "Como assim, ninguém empresta Na Sala com Danuza desde 1997?", e depois comentar com todo mundo que as pessoas não lêem mais nada que preste.

E os códigos? Agora toda biblioteca tem vários computadores pra você procurar o livro pelo título, e é só dar Enter para saber em qual estante o livro está. Antes não, era preciso procurar a seção de Literatura, depois de Literatura Brasileira, depois de Clássicos, e achar o livro por ordem alfabética - escravidão! Tudo naqueles corredores frios, e aquela vontade de soltar pum que só um corredor de biblioteca consegue dar.

Me surpreende mesmo é que as bibliotecárias - essas sortudas - tenham se adaptado às mudanças. Se fosse eu no lugar delas, iam me encontrar abraçado nas fotos 3x4 e na cola de bastão, me recusando a largar as carteirinhas de papel. E os carimbos, meu deus? Largava o emprego, mas não os carimbos. Ia pra casa, carimbar todos os meus livros, todas as vezes que eu lesse. "Como assim, eu não leio Tereza Batista Cansada de Guerra desde 2006?". E dá-lhe carimbo.
Por Flávio Voight às 11:33 PM :: E-mail :: 6 Comente Abertamente :: permalink


Coração de Manteiga

19.3.09
Estava comendo um cachorro-quente olhando pela janela que dá pra rua, e me surpreendi com o olhar de uma criança, bem nova, que me fitava com inveja enquanto remexia o meu lixo. Todos os meus sentidos cristãos bonzinhos foram afetados, me senti o próprio anticristo. Por pouco não corri até a cozinha e peguei tudo de lá, só pra correr pela rua entregando e gritando "Não sofreis, trouxe víveres!". Enquanto viajava nas possibilidades de ser herói e na tristeza da figura quase bíblica da criancinha pobre, me peguei pensando que todos nós no mundo sofremos, em maior ou menor grau, aliás, que nem existe grau, já que não existe sofrimentômetro pra medir essas coisas.

Coisa de gente fútil com a barriga cheia. Aí, pra piorar, me lembrei da minha solidão (tudo ainda nos parâmetros que eu aprendi na escola bíblica, quando criança, aquelas unidades de medida tão brasileiras: "de dar dó", "um milhão de vezes", "me matei fazendo isso por você"), a minha solidão abismal (abismal! meu professor de catecismo morreria de orgulho lendo isso, morreria outra vez, já que ele se matava pelos alunos), e como eu sofro por essa solidão. Toda noite eu choro no travesseiro, vocês têm idéia da dor?

Meu travesseiro tem. Ele chora toda noite também, quando me vê chegando. "Merda, chegou o babão". Problema do travesseiro, quem mandou cair do ganso. É de pena caída do ganso que eles fazem travesseiros, né? Não pegam o coitado do ganso e passam o Satinelle nele, espero. Problema do ganso, também, quem mandou nascer ganso. Enfim, minha solidão. É tão ruim quanto o sofrimento da criancinha, pôxa. Ela não tem o que comer, eu não tenho quem me coma, o que é pior, hein? Aposto que a criança de rua deve fazer sexo muito mais frequentemente que eu, a sortuda.

E eu tenho bom coração, esses dias o cachorro roeu meu sapato de couro inteiro e nem bati nele tanto assim. Eu tenho coração de manteiga. E ninguém se interessa por mim, pôxa? Sempre cumprimentei pobre, sempre tratei preto como se fosse gente! Nos relacionamentos que eu tive, principalmente, me derreto todo. Levo café na cama, nem ligo de repartir o banheiro, brigo constantemente pra pessoa me dar valor, faço chantagenzinha o tempo todo pra fazer charme. O romance ideal.

Mas fica sempre um vazio, é tão triste. Quem sabe com outro cachorro-quente. Duvido que a criancinha gaste tanto tempo teorizando sobre mim.
Por Flávio Voight às 1:52 AM :: E-mail :: 12 Comente Abertamente :: permalink