Bárbara

Bárbara sentava na minha frente, e tinha o sobrenome esquisito (vindo de um pai desconhecido). Era tão gordinha e esquisita quanto uma garota de sete anos pode ser. Eram os anos noventa, e ainda assim o cabelo dela era estranho. Crespo, grande, de um loiro que eu nunca tinha visto antes. Um loiro com vergonha de ser loiro. Um loiro que faria Marilyn Monroe sair correndo de medo.

A santíssima trindade: Bárbara, Isabela e Fernanda. Loira esquisita, Morena magra demais e Loira que dá vontade de casar. A hierarquia era a seguinte: Fernanda seria a minha esposa-troféu. Todos os garotos da sala eram completamente enfeitiçados por ela e sua inocente propensão a nos castrar. Com a maturidade que eu tinha aos seis anos, era lógico que ela ia cair no meu papo.

Mas se ela não caísse, e fosse acabar nos braços de um outro homem, um outro homem de seis anos muito mais rico, com muito mais Hot Wheels que eu, tudo bem. Isabela me adorava. Seu cabelo era liso e esnobe, preto como um pneu de Hot Wheels (perdoem minhas metáforas, eu só tinha seis anos de idade e uns cinco de poesia - aliás, é muito difícil arranjar uma rima para Hot Wheels).

Enfim, Isabela era uma segunda opção simplesmente por Fernanda ser um avião, com sua beleza impossível de atingir. Uma miss em miniatura. Mas calma, estou me deixando levar pela emoção. O planejamento aqui deveria ser lógico. Então, na impossibilidade de Fernanda e eu casarmos antes de chegar a primeira série, Isabela seria o caminho a seguir.

Ela era magra demais. Era a garota com os menores peitos do jardim de infância. Ela usava sutiã. Isso me irritava e atraía. Por debaixo do uniforme da escolinha, uns fiapinhos de tecido cor-de-rosa. Nunca entendi isso direito. O que mais me atraía em Isabela eram suas bonecas. Barbies. Barbies magérrimas como Isabela era.

Mas se Isabela e eu nos divorciássemos, eu sabia que Bárbara estaria me esperando. Gordinha, esquisita, loiro-urubu nos cabelos. Minha mãe era gorda, Bárbara era gorda e maternal (aliás, nossa relação começou no maternal mesmo). Bárbara era minha última opção, mas seríamos felizes juntos. Ela e seu amor por mim, eu e minha recém-adquirida humildade e renúncia pelos desejos por beleza exagerada.

Minha única confidente nesses planos era Jandira, a empregada lá de casa, o carinho em forma de pessoa, pessoa em forma de rugas e pele maltratada. Jandira me esperava todos os dias com um copo de Nescau e um sorriso com dentes a menos.

Até o dia em que eu cheguei em casa e Jandira não estava lá. Minha mãe me explicou, enquanto eu olhava perplexo e também com dentes a menos, que o dinheiro estava difícil e que Jandira teve que ir pra outro lugar. Acho que mordi minha mãe, mas não lembro muito bem, tamanho o choque que levei com a notícia.

Nada que abalasse meus planos de casamento com Fernanda, ou quem sabe Isabela, ou ainda Bárbara se tudo desse errado. Até o dia em que eu saí da escola e encontrei Jandira no portão. Ela tinha voltado! Corri para abraçá-la. Ela disse que estava com saudades e que sempre lembrava de mim no emprego novo.

O emprego novo? Bárbara correu portão afora, também para os braços de Jandira. Mulher venenosa, tinha roubado minha babá.

Acho que foi por aí que eu me apaixonei.

A óbvia porta

Assustado, ele me perguntou:
- Como você sabe que eu sou gay?

Pensei em uma forma de explicar.
- Como você sabe que uma porta é uma porta?
- Basta olhar para ela.
- Então.
- Não pode ser tão óbvio. Eu não sou tão óbvio.

As feições masculinas estavam lá, a voz grossa, os pêlos. A chucrice. Mas eu conseguia enxergar, eu conseguia enxergar.
- Olha essa porta - e apontei a porta de saída.
- O que tem?
- Ela é da cor da parede.
- Sim?
- Ela está na mesma linha reta que a parede.
- Não estou te entendendo.
- Ela está pregada na parede, pelo amor de deus.
- Onde você quer chegar com isso?

Arrematei:
- Ela continua sendo uma porta. Uma óbvia porta. Por mais que tenha tudo pra se confundir com a parede;
- Eu não sou uma porta.
- Porque não se deixa abrir. Mas deixa eu te dizer uma coisa, meu amigo: uma porta fechada perde completamente a utilidade.

Aí a gente fodeu.

O Rei do Penico

A vida era uma linda sucessão de descobertas divertidas até o momento da descoberta não-divertida que me mudou a vida: do alto do meu penico, eu dominava o mundo.

Só podia, só assim se explicava a aflição da minha família para que eu saísse dali: minha mãe, meu pai, minha avó, todos suplicantes, ajoelhados, falando "Vamos lá, campeão, você consegue! É só empurrar!". Isso no começo, lógico. Depois de alguns minutos de insistência, porém, não suportavam mais o meu olhar condescendente de quem manda, e tentavam usar de tirania. "Se você não fizer agora e quiser vir depois, eu não te trago!".

Bobagem deles. Era eu quem fazia as regras do jogo. Não me levavam depois? Tudo bem. Mas no momento que me esquecessem sem fralda, era a hora do ataque. Bombardeio químico. Não me importava em nada com o trabalho que eles (eles, o inimigo) teriam para lavar minhas calçolas.

O poder traz desafios, meus caros. Mas eu sempre fui meio Napoleão do meu bumbum, e conquistava outros territórios. Não me bastava o penico. Eu queria o mundo. O tapete de sala. O vaso de plantas na sala de jantar. Nenhuma terra era impossível para o meu domínio. Só não atingi outros continentes por uma questão de logística.

Aliás, talvez não tenha conquistado outros continentes por uma questão de incontinência, mesmo. Quem diria que contrair o esfíncter seria tão difícil. Tudo bem, eu sou persistente. Mamãe implora para que eu vá. Não vou. Um bom governante sabe resistir aos apelos do povo, quando estes não lhe são interessantes. Com toda a segurança do mundo, eu seguro.

É difícil a ponto de deixar escapar uns punzinhos, e quem não deixa? Mas eu no máximo disfarço com um sorriso besta - não tanto pelo pum, mais pelo rosto esperançoso de mamãe, que esperava uma manifestação mais concreta do meu poderio.

Mas tudo na vida muda e, talvez por alguma atitude relapsa no meu governo, fui transferido para o vaso sanitário. Pensei ter sido promovido, mas, que nada. É um reino de vários reis. Sou um mero vassalo do meu intestino.

Nada que tenha me irritado muito, até o dia em que mandaram que eu parasse de brincar com meu cetro na frente das visitas.

Diesel

Era um daqueles momentos em que você percebe que tem 19 anos e se sente velho. E se sente culpado por se sentir velho, sabendo que em cinquenta anos você vai olhar pra trás e rir do sentimento de agora. E talvez se sentir muito mais jovem do que você está se sentindo.

O pior de estar num momento ridículo é estar consciente do ridículo do momento. É como elevar o ridículo ao quadrado. Aí você apalpa o ridículo como se ele estivesse completamente fora de você, como se isso lhe excluísse dele, e tenta passar adiante ao próximo momento de sensatez.

Só que naquele dia, ele apalpou o ridículo, sentiu como o ridículo estava maduro, e tascou-lhe uma mordida. O fruto da árvore do conhecimento do que é ridículo. Naquele momento, apercebeu-se de como o ridículo era suculento. Se rendeu ao momento.

Juntou umas poucas coisas e correu pra beira da estrada. Dedo esticado, mão balançando. Sabe por quê os caroneiros balançam a mão tão vigorosamente? Para não perceberem que tremem. O dedo esticado pra apontar o caminho que se finge saber. Ele não se dava conta do nervoso. Sabia do passo que estava dando. Sabia que podia ser assaltado, seqüestrado, assassinado. Estuprado não, porque no cu não passava uma agulha. Sabia que podia dar tudo errado.

Mas havia uma neblina de calma na sua vista que permitia seguir com o plano de viajar sem planos. Não precisou esperar muito: logo um caminhão encostou, com seu motorista barbudo de braço esquerdo vermelhíssimo, o olhar de quem não sabe o que é dormir direito.

Embarcou. Caroneiro inexperiente, pensou que precisava puxar assunto. Ainda não tinha se acostumado com a música da estrada, com a percussão dos pneus pulando nos buracos do asfalto. Com a poesia do cheiro de óleo diesel.
- Tá quente, né?

O caminhoneiro se deixou levar pelo papo furado.
- Pra caralho.

Muito comunicativo, ele. O caroneiro fez esforço:
- Se bobear, chove no fim do dia.
- Se bobear chove. - e coçou a barba.
- Gosta de dirigir com chuva?

Não teve resposta.
- Gosta de dirigir com chuva?

Mais alguns segundos de silêncio, até que o caminhoneiro fez um movimento súbito e abraçou o volante com as mãos grossas. O caroneiro percebeu que não fazia sentido distrair um homem que já caía de sono e ainda dirigia. Tentou respirar um pouco daquela calma que sentiu antes da carona e ficou observando a estrada.

E se tocou que o que fazia sentido ali era a estrada. Não eram as cidades pelas quais passaria, não eram as paisagens que encontraria. Era a BR, era o asfalto e o pó. Era o diesel.

Começou sem destino, esperando encontrar um no meio do caminho. Só pra perceber que destino é uma coisa completamente desnecessária. Descia aqui, chacoalhava a mão e subia em outro carro. Em outro caminhão. Em outra vida.

Quem ia de carro, sozinho, dava carona com um medo só superado pela solidão extrema que justificava parar e acolher um completo desconhecido. Algumas dessas pessoas até que queria que o desconhecido fosse malvado, queria sofrer uma malvadeza, só pra não precisar continuar enfrentando a estrada.

Mas a cada carona ele explicava, sem precisar de mais do que olhar pra frente, que a estrada era cheia de ensinamentos. Não uma professora, professoras mastigam demais. A estrada era um livro. E ele era um autodidata da estrada.

E foi vivendo desse jeito: sem parar em lugar nenhum, só em movimento. Faixas brancas e amarelas que se sucediam sem fim. A cada dia percebendo como foi ingênuo no dia anterior.

A insensatez que deu início à viagem fez sentido.

Morreu um tempo depois, num acidente. Rosto e asfalto próximos e espalhados, como se fossem uma coisa só. Como um amante que morre num momento de clímax. Não chegou a experimentar a velhice, e nunca mais se sentiu velho, a estrada não envelhece. No fundo da boca esmagada, um gostinho de ridículo.

A estrada sentiu saudades, mas seguiu em frente.

Farinha

Estou sendo perseguido. Eu vejo minha sombra e eu vejo minha imagem espelhada nos vidros, e eu sei que isso me persegue. Eu lembro da minha família, ela também me persegue.

O meu futuro me persegue muito. Ele me caça, ele quer me ver morto. Ele quer repetir a história desgraçada de tanta gente que veio antes. Gente que fez rimas bonitas e que trabalhou das oito às seis, e que recebia salário e que se preocupava com o que os outros pensavam.

Viraram todos farinha. A farinha me persegue. A farinha quer me alimentar, quer que eu vire tão pó quanto eles. Não existe forma de fugir do pó, mas dos pós que eu possa ser, que não me torne farinha. Que seja cocaína, que seja glitter. Que seja proibido.

A atmosfera é azul e etérea, nublada com suspeita e ingenuidade. Eu estou escondido em uma casa abandonada, porque estou sendo perseguido. Aqui, debaixo dessa mesa, estou seguro. (Não seguro do que me persegue, mas seguro do que eu penso. É como dormir assustado com um ladrão querendo pular a janela, eu puxo o cobertor o mais alto possível e escondo o rosto. Eu me rendo, eu combino com o ladrão "Venha aqui, roube o que quiser, eu finjo que estou dormindo e você não me mata, e finge que acredita no meu sono e finge que não ouve os meus soluços",)

Eu me obrigo a ficar coberto, eu não posso ser visto. Eu estou sendo perseguido, bolas. O céu está lá fora, e está doido pra me atacar. Ele quer me arrancar pedaços, ele quer que eu ache as estrelas bonitas como todos os mortais acham. Não vou achar, As estrelas são feias.

As estrelas são poucas, elas não são suficientes, elas não me impressionam. Elas mal brilham. Elas não me impressionam. Eu não sou mortal, eu não me impressiono com as estrelas. As estrelas são repetitivas, elas não podem me hipnotizar.

Por não ser mortal me escondo, por não ser mortal me protejo. Estão me perseguindo e querem me matar.

Hortelã para Cristo

E fui tentando fazer as coisas de sempre de um modo diferente. De algum modo inspirado na minha superstição de coisas pequenas - grudar chiclete na cruz é comigo mesmo, mas e se ontem eu grudei um chiclete vermelho nela e fui assaltado? Hoje, só pra garantir, vou grudar um verde. Hortelã para Cristo.

É como começar um texto pelo título: os títulos são rígidos, os textos são fluidos. Toda a fluidez do texto precisa se ancorar na rigidez do título. Palavras lânguidas, períodos infindáveis, emoções impossíveis de descrever descritas palavra por palavra só por presunção de quem escreve? Prenda-as a um título sórdido e tudo está remediado. Em algum lugar se cria uma ironia que justifica qualquer baboseira dita.

Deu certo? Repita o chiclete verde na cruz. Deu certo duas vezes, na terceira não? Veja, é preciso saber construir superstições. O que mudou de um dia pro outro que você não achou interferir? Alguma coisa interferiu.

Fez sexo oral no dia anterior? O chiclete tem o efeito diferente nesse caso. Você grudou o chiclete na cruz de cima para baixo ou de baixo para cima? Importantíssimo. Guarde os detalhes, boas superstições se fazem nos detalhes.

Tente jogar uma pedra num gato preto na minha frente pra ver se eu não te atiro uma pedra bem maior, na nuca. Superstições não podem envolver animais. Mantenha-se em detalhes que não possuem vida.

Medo de ser assaltado? Logo antes de passar pelos dois simpáticos meninos maltrapilhos que te esperam com a mão no bolso na esquina, faça quatorze minissinais-da-cruz com o indicador da mão direita em uma pequena superfície do seu corpo. Mantenha a discrição. Cuidado, fazer quatorze minissinais com o fura-bolo pode ser fatal. Fazer catorze minissinais, o apocalipse.

(Não precisa ser cristão para fazer o ritual. Dispa-se dos seus preconceitos religiosos, estamos falando de segurança pública!)

Um bom sistema de compensação é muito importante. Quando desequilibrar as suas energias com uma superstição mal executada, seja ligeiro em repará-la com alguma ação semelhante, mas de valor contrário. Explico: Durante um minissinal-da-cruz, você topou com o pé esquerdo no meio fio. O que fazer? Dê um jeito de topar também o pé direito. Da mesma forma, na mesma intensidade. Outro minissinal (agora sim, com o indicador da mão esquerda, pra contrabalançar), e volte ao ritual anterior.

Acumulo milhões dessas superstições pequenininhas. Já me disseram que eu tenho TOC. Eu respondi '-TOC, quem é?'. Só pra completar a frase. Pra bom entendedor, meia palavra basta. Para um supersticioso, nada de deixar a frase pela metade.

Me ocorre também que grudar chicletes na cruz pode ser uma ótima maneira de utilizar chicletes mascados, inúteis para reaproveitamento ou reciclagem.

(Pequena pausa pra contar de uma vez que fui a um restaurante árabe e fui recomendado pelo dono do estabelecimento a comprar um chiclete sabor pimenta, que segundo ele era uma maravilha. Obedeci e adorei, adoro pimenta. Também segundo o dono, se eu guardasse o chiclete enrolado num papelzinho na geladeira, no dia seguinte o sabor voltaria. Fiz a experiência - o gosto não voltou. Árabe também entra no balaio popular de que judeu é pão-duro? Será melhor corrigir a fala popular e mudar nosso preconceito para 'proveninente do oriente-médio pão-duro'? É importante no Brasil de hoje termos preconceitos que não sejam limitados por fronteiras.)

Retomando minha teoria: grudando todos os nossos chicletes mastigados em cruzes, formaríamos gigantescas cruzes. Um símbolo da nova cultura brasileira. A fé, a fé de Aleijadinho, a fé dos nossos artistas interioranos desconhecidos, a fé nas megacruzes de chiclete.

Servem de ponto turístico e pra contrabalançar os minissinais-da-cruz que eu faço cada vez mais, com medo de ser assaltado.

A Gorda

Como quem descascava uma mexerica, a gorda procurava amor. Pedacinho por pedacinho da casca rasgada e arrancada, a acidez sentida por debaixo das unhas, a avidez de engolir os gomos. A gorda era gorda de tanto amor que tinha para dar.

Se apaixonava, vez em quando. Por alguém acessível, ninguém que fosse fora de seu alcance (não há limites pra sonhar? experimente ser gorda e sonhar com um namorado lindo como o da sua amiga magra). É como se as pessoas se separassem em camadas de beleza, tolerando pessoas de nível semelhante, ignorando os intocáveis feios e fingindo não sonhar possuir alguém superior.

Sem hipocrisia, sem essa de todos somos iguais. Alguém mais feio que você tem chance contigo? Honestamente? Sem ter muitos dígitos na conta bancária? E esse era o problema da gorda, ela não sabia fingir. Não sabia fingir que não queria aquelas pessoas tão inalcançáveis, as bonitas. Não ousava quebrar as regras, ela não interagia com os mais bonitos - eles a excluiriam. Até as amigas, as amigas eram todas tão feias quanto. A diferença da gorda para com as amigas - algumas também gordas - era que ela não aceitava a própria camada.

Os bonitos são os magros, não são? Ela não era magra. Os bonitos são os magros, não são? As amigas tinham namorados feios. A gorda não queria um namorado feio. Qual o sentido de namorar se não o de contemplar uma beleza, mesmo que só você a veja, na outra pessoa? E a gorda, azarada. só via a beleza no que todos concordavam ser belo.

Na casa da gorda, dois cachorros. Um era de raça, um amor. Brincava, corria, uma simpatia, não havia quem não gostasse. O outro, vira-lata, fora socorrido pela família depois de ser atropelado e que, por esquecimento, acabou ficando ali mesmo. Um poço de carência, o vira-lata. Chorava alto, pulava em qualquer um que chegasse perto, implorava atenção.

A gorda amava o de raça sinceramente, porque este se fizera amar. O vira-lata era desprezado pela família inteira, mas a gorda também o amava. Por obrigação. Os olhos pedintes do vira-lata refletiam o olhar desesperado por amor da gorda. Era uma corda-bamba, porque se identificar com um vira-lata carente não é tão gostoso assim: ela odiava o vira-lata, quando esquecia que devia amá-lo. Cachorro mais insolente, chato, pidão.

Tinha um amor que amava há algum tempo, porque de vez em quando a gorda via beleza em alguém do seu mesmo nível, sem perceber que caía na armadilha em que suas amigas já haviam caído. Só um. Ele era magro, e ela amava isso a respeito dele. Tinha um corpo quase bonito, uma postura quase elegante. O rosto era um desastre, mas até que os dentões tinham seu charme.

Conheceram-se num ônibus, que ela pegou pra ver uma tia no interior. Os dois sentaram lado a lado e ele ousou puxar papo. Pouco depois, consumida por desejo e vontade de transigir, ela se entregou pela primeira vez ali mesmo, o banco de ônibus testemunha de umas poucas gotas de sangue e alguns gemidos abafados.

Trocaram telefones, mas nunca voltaram a se encontrar. Conversavam longamente ao telefone, fantasiando um reencontro. Combinaram casar. Combinaram que começariam uma vida juntos, e ela levaria o vira-lata (até os vira-latas merecem um dia de protagonista). Com o tempo as ligações foram ficando esparsas, e eles se perderam numa curva que a vida deu. Coincidências não resistem ao destino.

Mesmo muito depois, ela se lembrava. Ela não foi ignorada. Ela não foi sempre só a gorda. Ela foi amada. (Se ele realmente a amou, não importa. Talvez tenha amado. De qualquer forma, a gorda acreditava sinceramente nas memórias).

Quando, depois disso, recebia uma proposta amorosa de alguém, a resposta padrão era não. O amor - que ela já tinha experenciado, pensava - aparece, ele não precisa de propostas. Ah, e quando ele aparece são horas no telefone contando todos os defeitos que tem, pra que o outro diga "Você não é assim" e você sobe às nuvens, estufado pelas ilusões macias que ouviu. O outro, coitado, pensa que você é perfeito. Você, esperto, sabe que o outro é perfeito, e de todas as formas tenta evitar que ele descubra suas verdadeiras imperfeições.

Foi visitar a tia novamente, muitos anos depois. A tia não tinha importância na sua vida, era só uma tia, e a gorda não se importaria se ela fosse só mais uma tia no porta-retratos da estante. Era a viagem que tinha valor, as horas no ônibus lembrando da sensação de roçar silenciosamente no banco suado, a vez que fora amada. A única vez.

Na casa da tia, abriu um jornal esperando que o dia passasse rápido, para entrar no ônibus novamente. Na coluna social, o garoto do ônibus casando com uma outra mulher. Ainda mais gorda. A gorda se sentiu traída. "Tudo bem que eu não sou tudo isso, mas me trocar pela ainda mais gorda?". Era pior que traição, era trair e humilhar. Chorou no banheiro, enquanto passava grossas camadas de batom nos lábios gordos, tentando parecer revigorada. Ficou parecendo uma palhaça, os olhos vermelhos combinando com a boca. A palhaça mais triste que já fora vista.

Voltou para casa, com nojo do ônibus, um enjôo horrível que insistia em fazê-la suar no banco, lembrando-a mais ainda do dia em que fora usada (não, não fora amada, pensava ela, fora usava, roubada, profanada); Chegando, foi cumprimentada alegremente pelo cachorro de raça. A gorda se ajoelhou, olhou para os seus olhos orgulhosos de cão comprado, encheu-se de raiva e atacou o cachorro com um soco. Soco mesmo, desses dados em cara de gente. Com força, bem no focinho idiota do cachorro. Como era arrogante! Pois era só um cachorro, não devia ser arrogante.

Enquanto olhava o cachorro de raça tentar, perplexo, se reerguer, sentiu uma forte dor no braço. Era o vira-lata, com olhos de fúria que ela nunca tinha visto antes, defendendo o amigo. Puxou o braço, e o vira-lata parecia ter voltado ao normal, pidão e carente, como se nada tivesse acontecido. Abanava o rabo e chorava, o pênis exposto pelo cio.

A gorda cobre o braço como pode, algum sangue escorre. A mordida não fora tão profunda.

Puxou o vira-lata direto pelo pescoço, sem o levantar do chão, e o trouxe para dentro da casa. Era a primeira vez que entrava na casa, lugar antes reservado para as pessoas e cachorros de raça. Foram para o quarto. O cachorro assustado, tentava acompanhar a velocidade da dona, mas as patas não conseguiam direito e ele era arrastado.

Ela chorava. As lágrimas escorriam pelo canto dos olhos vermelhos inchados, lambiam suas bochechas vermelhas e gordas e morriam nos lábios, borrando o batom em sua boca vermelha e pintando de vermelho também seu queixo (o primeiro de seus vários queixos de gorda).

Lembrou dos doze anos de idade. Na escola, escutou sem querer um professor dizendo "Coitada dela, ela tem um rosto tão bonito, pena que é gorda". Nunca ouviu alguém falar "Coitada de fulana, tem um rosto tão bonito, pena que ela é magra demais". Gordas sempre tem o rosto bonito.

Arrancou as roupas do corpo e puxou o vira-lata para cima de si. O cachorro, instintivo, penetrou-a com força. Ela gritou de dor. Ela também não entendia. O cachorro assustado com a atenção inesperada e com o grito da dona, chorava. A gorda, sem condições de pensar, gemia. Sentia nas canelas gordas que quase não existiam (pareciam uma extensão das coxas, que só terminavam em pés enormes e roliços que lembravam patas de elefante) o peso das patas do cachorro, o pêlo sarnento dele se misturando com a pele dela.

O cachorro é o melhor amigo do homem, e ela estava confusa por misturar amor e amizade. Ele, chorão e carente. Ela, chorona e carente. Almas gêmeas. Pela segunda vez, a gorda foi amada. O amor de um cão é sempre fiel.

O inferno

Eram duas mil pessoas dentro de um ônibus (pelo menos era apertado como se fossem. Se alguém soltasse um pum ali, ele voltaria cu adentro procurando um lugar mais agradável pra poder respirar). Se a voz do povo é a voz de Deus, naquele momento Deus resmungava:
- Puta que pariu! Deus me livre do valor dessa passagem, alguém aí começa a andar! tem gente passando mal por aqui, faz favor! O preço da passagem tão alto e a gente se espremendo?

O homem mal conseguia puxar o ar. Sorte ter o pescoço comprido e estar num patamar superior ao resto das pessoas. Era como se conseguisse enxergar o ar ficando turvo de tanta gente querendo respirá-lo. Ironicamente, as janelas estavam todas fechadas, vedando a possibilidade de um ventinho resgatador chegar para debochar do aperto daquela gente. Era tanta gente num lugar só, que se ele desse um pulinho, não voltaria a tocar os pés no chão.

Criança chorando. (Devia ser uma criança invisível, o choro era abafado e ela não parecia estar em lugar nenhum. Quem sabe seguiu o exemplo do pum e engatinhou vagina adentro na mãe, lutando por um lugar mais confortável; como se ouvia o choro não sei, quem sabe era uma vagina de boa acústica.)

Chuva do lado de fora. A mesma chuva que o fez pegar o ônibus naquele dia, pra não se molhar. A fila pra entrar no ônibus era enorme, e ele se molhou mesmo assim. Pelo menos chegaria mais cedo em casa. Mão no bolso de trás, pra segurar a carteira. Não dá pra dar bobeira nos dias de hoje.

Parecia um auto-pervertido, um masturbador da mão na bunda. Enquanto o companheiro do lado aproveitava do pouco espaço pra se esfregar na bunda senhoril que o sucedia (sem perceber que um outro companheiro atrás se esfregava na sua), ele apertava forte a mão na bunda. Quase dez reais e um xerox autenticado da carteira de identidade na carteira, ele não podia se dar ao luxo de ser roubado.

O bom da superlotação de um ônibus é que se quebra um pouco do gelo que os ônibus geralmente têm. Ônibus pode ser mais frio do que um elevador, porque elevadores não envolvem competição. Ônibus são as olimpíadas da frieza. Ninguém olha no olho de ninguém - maldito aquele que inventou as cadeiras de frente uma para a outra, forçando que o passageiro fique olhando para o lado pra não precisar fingir um meio-sorriso quando os olhos por acaso encontrarem o do passageiro que senta à sua frente. Ônibus apertado é a iluminação espiritual, uma aglomeração de almas capaz de superar qualquer procissão. E todo mundo pede pelo amor de deus por um espacinho a mais. É a definição mais perfeita de fé.

(Por exemplo, a fé de se conseguir espremer até a porta quando se chega no ponto de descida. Comece três quilômetros antes, puxe a cordinha assim que o ônibus passar do ponto anterior e torça, reze, dê a luz ao seu próprio menino Jesus, e ainda assim corra o risco de não conseguir descer no seu ponto.)

Ele sorriu. Ele não ligou pra mão que lhe beliscava o rim (ou era a costela de outra pessoa, mas que cutucava, cutucava). Ele não ligou pro congestionamento que o fez demorar mais para chegar em casa do que se tivesse ido à pé. Ele não ligou pela loucura financeira que cometia pagando o passe do ônibus quando poderia muito bem ter caminhado aquelas setenta e cinco quadras e ainda queimado umas calorias. Ele não ligou pra nada. Só segurou bem a mão na própria bunda, e enfrentou o ônibus.

Quando desceu, sentiu a própria calça cair.
- Puta que pariu, alguém arrancou meu botão!

Ônibus são o inferno.