11.5.18

Faz um moleque em mim


De tempos em tempos alguma música religiosa explode e faz sucesso além das fronteiras das rádios evangélicas. Eu tenho um gosto musical bem amplo, mas peço compreensão por não ser o maior versado em música gospel.

E mesmo quando eu escuto música assim, meu ouvido me trai.

Eu explico:
Estava assistindo um programa desses de TV local, com produção simples e dificuldades orçamentárias, e a convidada do dia era a filha adolescente de um dos membros da equipe do programa. Celebridades "A", sabe como é?

Enfim, a moça cantava - com uma dicção pior do que a da Ariana Grande - uma música que fazia muito sucesso nas rádios, mas que eu não tinha ouvido ainda.

A melodia era bonitinha, em ritmo de pagode romântico:

"Entra na minha casa, entra na minha vida,
Mexe com minha estrutura, cura todas as feridas..."

Achei fofo. Só me surpreendi quando chegou a frase final do refrão, com a adolescente cantando com sua dicção de quem usa aparelho, enquanto o pai orgulhoso dançava atrás:

"FAZ UM MOLEQUE EM MIIIIIIMMMM"

--

Eu juro que eu tento ser moderno nos assuntos de amor.

Na real, eu até sou. Pra mim, todo mundo transa do jeito que quiser, na hora que quiser e com a fantasia do Teletubbie que preferir. Não é problema meu.

Mas já aconteceu de eu perceber que sou assim muito mais na teoria do que na prática.

Eu, por mim mesmo, sou quadradão.

Sou monógamo chato, morro de ciúmes quando penso em compartilhar quem eu amo com outra pessoa e sou uma completa negação quando o assunto é sexo casual. Acabo perguntando da família da pessoa antes mesmo de abrir o zíper, só pra rolar uma intimidade antes.


--

Passei semanas com aquela música romântica-safada na cabeça.
Fiquei até meio complexado. Tá que a música era bonitinha, mas uma frase sobre trepar até fazer um moleque depois de tantas frases sobre curar feridas e a importância do amor me pareceu pesada.

Contei a história do programa de TV pra uma amiga.
"Tô preocupado, acho que eu tô virando conservador! Mas porra, 'faz um moleque em mim' é tenso!"

"É milagre, idiota!", ela respondeu. "A música fala de Deus!"

Ah, tá.

--

Tenho vários amigos com medo de estarem ficando conservadores demais.

"Eu só queria chegar e transar, sabe? Chegar metendo. Mas eu fico esquisito, não consigo curtir."

ou

"Eu não sou evoluído suficiente para o poliamor."

Com culpa! Culpa de não ser supersolto e aberto em questões românticas e sexuais. Mas não se trata de uma questão de evolução, não. É só escolha.

O sexo é uma questão íntima. Nunca vai deixar de ser.

O grau de tranquilidade com um semidesconhecido esfregando as virtudes na sua cara varia de pessoa pra pessoa.
O grau de tranquilidade com um conhecido esfregando as virtudes na cara do seu namorado também vai variar.

Liberação de verdade é permitir-se fazer o que lhe fizer se sentir melhor, seja na devassidão, seja na abstinência.

Você tem todo o direito de ser pudico e não perder pontos na evolução liberal da consciência universal.

O que importa é ser tranquilo com o outro fazendo o que quiser também.

--

Mas nada tira da minha cabeça que a adolescente do programa de TV talvez estivesse cantando moleque em vez de milagre mesmo, só pra sacanear.

Os jovens de hoje são um perigo.

3.5.18

Psicanálise, essa vilã


(ou: Minha birra com a psicanálise)

Essa história tem dois começos.
O primeiro começo é o começo da minha faculdade. Primeiro dia de aula, primeiro período, primeira turma. Entra na sala uma mulher amorenada com os cabelos tingidos de ruivo, penteados de modo a dar volume na medida certa para demonstrar imponência.

Suas roupas, uma combinação calculada entre algo executivo e uma explosão de cores. Nos pés, botas. No rosto, um sorriso que requereria quatro rostos para caber inteiro.

Simpática e dura, ela anuncia seu nome para a turma e coloca o nome da matéria no quadro. Psicologia do Desenvolvimento I. Já saiu explicando que a base daquilo tudo era a psicanálise, e que não tinha como dar aula daquela matéria sem passar pela história daquilo.

Aquela professora tinha nascido para usar a boca, no sorriso ou na palavra. Ela usava a boca até para gesticular.
"Vocês percebem a dimensão disso?", perguntava ela à turma depois de explicar algum ponto, apaixonada pelo que tinha acabado de dizer, a boca aberta escancarada, como se mostrando a alma boquiaberta pela sua paixão.

Mais tarde, na intimidade, alguns colegas me confessaram quantas vezes distrairam a mente nela num momento solitário de prazer noturno. "Imagina aquela mulher fazendo um boquete!", diziam eles, com os resquícios de hormônio da adolescência ainda à tona.

--

A mulher era um furacão. Livro publicado, mestrado interessante, coxas de fora, o próprio pôster de um falo.

"Você acha que uma pessoa que faz análise é uma pessoa melhor?", perguntei num dia de mais ousadia.

Ela respondeu sem titubear:
"Eu acho que uma pessoa que faz análise é uma pessoa mais tranquila, mais bem sucedida, mais rica e mais feliz."

Vendido.
Eu seria paciente dela, e a psicanálise seria meu futuro.
Eu queria aquilo pra mim.

--

Se eu começo falando da minha relação com a psicanálise falando dessa professora, foi porque, para mim, ela foi na época a personificação da psicanálise. Dessa relação saíram muitas leituras da área, muitos outros professores, cursos, palestras e eventos de psicanálise.

Tudo ali me parecia fazer sentido. A dureza, a frieza, a pessoa a desvelar seus problemas por conta própria, o papel do terapeuta sendo apenas o de apontar onde o inconsciente escorria. Era um processo difícil, mas especial. Eu me sentia especial

Fiz anos de análise com aquela professora, e meus colegas morriam de inveja.

De início chorei um desconto considerável para conseguir pagar as sessões, mas os valores foram subindo com o tempo. "A análise precisa pesar no bolso da pessoa", diziam os entendidos, e eu concordava.

Custava toda a minha bolsa de estágio? Custava. Mas alguma coisa ali valeria a pena. Era um investimento que eu fazia no meu futuro, e daí que as minhas roupas estavam velhas e rasgadas?

Eu sofria, mas a psicanálise faria meu sofrimento valer a pena.

Passei por muitas fases: de falar longamente sobre a infância, de discutir meus relacionamentos, meus traumas, de gozar longamente com meus aprendizados trazidos pelos atos-falhos que meu inconsciente me presenteava, de levantar do divã e falar "Olha pra minha cara!" para a analista, de sentir que eu não precisava de um gesto sequer dela para me sentir ouvido e acolhido.

Foi intenso.

Eu não sei se era tão profundo assim aos vinte anos de idade para aproveitar tão bem aquela estufa de pensamentos soltos, mas eu gostava bastante.

--

Cheguei ao fim da faculdade, meu estágio acabou, precisava começar uma carreira... Estava numa crise tremenda quando a minha terapeuta anunciou:
"Flávio, agora você é um profissional. Sua sessão passará a custar cento e oitenta reais."

Cacete. Se hoje esse valor é alto, na época era ainda mais - o salário mínimo devia ser uns seiscentos e pouco - e em dobro para um desempregado como eu. De tão inocente, escutei aquilo como uma aposta no meu futuro. Só podia querer dizer que ela acreditava que eu conseguiria pagar aquilo.

"Não tenho como agora", respondi, "mas se você me der dois meses, eu vou fazer o possível pagar esse preço."

Eu fiz o possível mesmo. Procurei emprego, trabalhei, fiz bico, contei bilhete de loteria, entreguei panfleto, trabalhei em shopping, mas não fui capaz.

Finalmente minha análise me cobrou um preço que eu não pude pagar.

Só eu sei como me senti frustrado quando larguei a análise, ainda que com a promessa de voltar assim que pudesse.

Eu estava com grandes dificuldades pessoais na época, e precisava muito de terapia. Tudo bem, eu tentaria me virar sem, mas eu me sentia um fracasso. Aquilo deveria ter me deixado mais forte, e eu me sentia mais desamparado que nunca, além de abandonado pela minha terapeuta.

Todos falavam que o processo era longo, difícil e libertador. Eu só conheci a parte do longo e difícil. E caro. E frustrante.

Na pretensa folha em branco da figura do analista, havia uma pessoa com demandas e visões que transpareciam durante a terapia. No silêncio que deveria me proporcionar um encontro comigo mesmo, um espaço para que meu narcisismo florescesse sem bloqueios. Nos momentos ocasionais de castração, às vezes a ferida pegava forte demais onde não havia preparo para tanto.

Doeu fundo perceber que não havia nada de mágico ali.
Uma pena, o marketing era lindo.

--

O segundo começo dessa história foi dez anos depois, em uma sessão de terapia com outro terapeuta.

Eu me abria, um pouco relutante, em algumas questões profundas em que eu não tocava desde os meus tempos no divã. Trazia comigo, como também trazia naquela época, mil preconceitos e culpas.

Eram questões antigas, pesadas, daquelas que a gente até tem vergonha de levar pra terapia, mesmo sabendo que é nas questões sombrias que um processo terapêutico brilha mais.

Eu dava ao que eu dizia o tom de texto com introdução, desenvolvimento e conclusão, afinal eu já tinha trabalhado aquilo mil vezes na terapia anterior. Erro de amador. Até o passado de uma pessoa é um processo em andamento.

"E se, por um instante, você tentasse fingir que isso esses sentimentos todos são normais?"

Só quem faz terapia sabe o poder devastador de uma pergunta óbvia feita pelo terapeuta.

Naquele segundo, meu corpo relaxou. O insight trazido pela pergunta foi maravilhoso, como se uma onda de perdão lavasse meu corpo.

Foram, sei lá, setenta sessões de psicanálise demolidas em um segundo por um profissional que se permitiu me sugerir um exercício rápido baseado em um palpite que ele tinha sobre meu sentimento.

Mas a onda trazida pelo insight teve seu rebote e eu fiquei muito, muito triste, não pelas questões que eu tratava, mas pelo período em que eu gastei muito tempo e dinheiro em busca de uma resposta que sim, estava em mim mesmo, mas que precisava de uma pessoa um pouco mais invasiva no processo para ser acessada.

Me senti traído, me senti magoado, me senti solitário retroativamente pelos tempos no divã.
Foi como se eu tivesse desperdiçado o meu investimento e a minha esperança.

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Recebo muitos pacientes atordoados e feridos depois de buscarem uma terapia e darem de cara com a frieza e o silêncio de um consultório psicanalítico. Me parece cruel quando, sem didática alguma, se oferece a falta como resposta da falta.

Que tipo de profissional mesquinho e ruim - e nem todos os psicanalistas são assim, posso dizer - atende uma pessoa em choque pela perda de um ente querido e apenas fica em silêncio, deixando que a tensão domine a sessão e permitindo que a pessoa saia ainda mais desorganizada que chegou, achando que não adiantou nada procurar ajuda?

Um profissional de psicologia que se diz terapeuta no mínimo precisa ter a dignidade de deixar claro, no primeiro momento do tratamento, qual é a sua linha teórica e como ela deve funcionar. Nós somos os responsáveis por ensinar como nosso trabalho funciona. A didática é uma pedra fundamental do acolhimento terapêutico.

Para os que estão bem informados a respeito do que é uma análise tradicional, ela pode ser um prato cheio. Para alguém já terapeutizado em outra linha, ou mais informado a respeito do seu mundo interior, a estufa de ecos da psicanálise pode ser muito bem vinda - mas ela precisa ser uma escolha consciente.

Não é a abordagem mais indicada para alguém em grande sofrimento ou com dificuldades relacionais intensas, e eu não vejo muito esforço dos profissionais da linha em divulgar isso se não pela via do "Realmente, análise não é pra quem quer, é pra quem pode", que pode moer ainda mais a autoestima de alguém fragilizado.

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Me irrita muito o tom adotado por muita gente da área de que a psicanálise é algo muito brilhante e libertador, o grande caminho para uma vida plena, e que se você não é capaz de alcançá-la, é por ser uma pessoa pobre, seja de conteúdo ou de desejo.

Eu conheço bem esse discurso de "Se você não concorda, é porque não entende, e se não entende, é porque precisa se esforçar mais, ou você não tem valor". Eu vivi algo muito parecido na seita religiosa em que eu fui criado e da qual eu carreguei dores por anos. É um pensamento muito tóxico, e é incoerente quem conhece a fundo os círculos de psicanálise e diz que não percebe o tom messiânico que corre por ali.

Novamente, o que me incomoda não é a terapêutica em si tanto quanto a ideia de culto que permeia a área. Quem já circulou pelos ferventes círculos de psicanálise entende o tamanho da vaidade que existe ali.

Tenho plena noção do quanto as minhas queixas e mágoas sobre a psicanálise são visões anedóticas e muito pessoais, mas me irrita ouvir de quem tem carteirinha de torcedor para a linha terapêutica que os meus sofrimentos com aquilo tudo são devido a minha resistência, ou falta de insistência, ou falha em lidar com a minha própria angústia.

Fosse assim, outras linhas terapêuticas não teriam me proporcionado tamanha expansão, crescimento pessoal ou prazer.

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Todo o propósito desse texto é dizer que não há linha terapêutica sem grandes falhas. Ainda assim, me parece curioso que dificilmente eu sentiria o mesmo medo de ser apedrejado ao escrever sobre as falhas da Gestalt, ou da Cognitivo-Comportamental, ou das psicoterapias corporais. Essas áreas não se vendem como uma grande resposta poética para o sofrimento humano.

A psicanálise suscita grandes paixões e ódios porque se trata justamente disso: uma paixão, com suas distorções, lacunas e ilusões.
Comigo, foi meu primeiro amor. O fim dessa paixão deixou muito sofrimento e mágoas, mas também me preparou muito bem para os amores que vieram a seguir.

Tenho colegas excelentes que escolhem a psicanálise como trilha para o seu trabalho e tem resultados lindos.

Sei que projetamos muito de nós mesmos nos nossos amores, e talvez esses sentimentos todos que eu tenho a respeito da área sejam por causa dessa sensação de amor mal resolvido. Pode ser. Não posso dizer que meu tempo de analisando não me fez bem. Aprendi muito lá, e ainda uso muita coisa dali no meu trabalho.

Pode ser que os problemas tenham mesmo sido culpa minha. Pode ser que eu não tenha sido bom o suficiente para a psicanálise. Mas pode ser também que ela não tenha sido um amor tão bom assim, e que o relacionamento tenha sido um pouquinho abusivo.

E não é querer falar mal de ex, mas eu estou bem mais feliz hoje.

25.4.18

Lerdeza


Eu sou rápido.
Falo rápido, penso rápido, como rápido, minha cabeça funciona como aquela montagem do filme do Rocky em que corre, pula corda, sobe escadas correndo e fica muito bem preparado pra uma luta em quarenta segundos.

Sempre fui assim, ligeiro feito uma lebre.

A loucura é ver quanta gente confundia isso, nos tempos de escola, com ser inteligente. São duas coisas bem diferentes.

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Uns tempos trás um paciente meu se queixava:
"Eu não sei se vou prestar muito tempo nesse trabalho. Eu ando muito devagar, meu cérebro tá lerdo."

Eu quis provocar.
"E se você for lerdo?"

Ele não gostou da ideia e eu sugeri um exercício:
"Experimenta falar lá dentro da sua cabeça: 'Eu sou lerdo mesmo, eu sou bem devagar e não tô nem aí. Meu jeito é lerdo, eu sou lerdo e se quiser falar comigo vai ter que ser bem devagarinho! Eu sou lerdo e gosto!', e vê como você se sente."

O legal de exercícios assim é que o corpo tende a ser muito mais aberto. Perguntei como ele se sentia.
"Melhor. Confortável. Como se eu tivesse tempo pra fazer o que eu preciso."

Não tinha nada de errado nesse homem estar com o pensamento um pouco mais devagar do que o dos outros.

Uma pessoa mais desatenta escutaria a demanda dita por ele, de "preciso ser rápido" em vez de ouvir o pedido do corpo de "preciso de tempo", e que violência isso seria.

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O que muita gente precisa aprender é que se desenvolver rápido é muito diferente de desenvolver profundamente.

Sim, algumas pessoas tem muito mais rapidez na absorção e reprodução de conteúdos do que outras, mas isso só atinge uma camada muito superficial do pensamento.

Para absorver de verdade uma ideia, conhecê-la profundamente e sabê-la pelas entranhas, só com muita estrada. Você pode até tomar um vinho jovem e achar gostoso, mas algumas ideias precisam de um tempo no barril pra fermentar bem.

E mesmo que seja exatamente o mesmo aprendizado, uma pessoa que aprende uma língua lentamente, por exemplo, não vai ser menos beneficiada pelo seu aprendizado do outra que aprendeu o idioma em um mês.

Aprender rápido não é melhor do que aprender devagar. Não é uma questão de devagar e sempre, e sim de devagar e profundo.

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Sem contar que ninguém é lento pra tudo.

Eu posso escrever um texto em cinco minutos (a qualidade do que eu escrevo deixa isso bem aparente), posso absorver um sentimento muito rápido e posso fazer associações entre ideias diferentes em meio segundo.

Mas não me peça pra ter a mesma resposta rápida pra fazer conta.
Ou pra praticar esporte.
Ou pra cuidar de planta.
Ou pra me apresentar pra desconhecidos.
E pra mil outras coisas.

Mas, pra essas coisas, eu posso muito bem ser tartaruga e aproveitar o caminho, indo bem devagar, devagar, devagarinho...

21.4.18

Não existe amor

Muita gente tem bastante consciência dos padrões de relacionamento que tem.

Não é uma coisa difícil perceber. Todo mundo tem um "tipo", ou algum tipo de personalidade que parece reaparecer em pessoas diferentes a cada vez que ela se aventura no amor. Lá pelo terceiro ou quarto relacionamento frustrado, você percebe que as coisas se repetem e você tem alguma coisa a ver com isso.

Infelizmente, muita gente para por aí. Acabada a frustração do último relacionamento, a busca pelo padrão de pessoa ideal volta com força.

É então que o bolo desanda.

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Amadurecer é uma desilusão depois da outra, e isso é bom.

Todos crescemos com um monte de ilusões na cabeça.
Queremos ser cantores, jogadores de futebol, apresentadores de TV, e é sempre uma frustração quando a gente se dá conta que esse sonho não vai dar certo.

É triste, mas logo a gente se enfia numa faculdade ou num emprego diferente, se envolve com aquilo e acaba gostando.

É o mesmo gozo do trabalho dos sonhos? Não.
Mas nas conquistas pequenas, nas dificuldades cotidianas e nos lugares conquistados pouco a pouco mora um prazer que é muito mais real e gerador de orgulho do que se você tivesse virado o Neymar ou a Beyoncé.

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Mesmo quando achamos ser muito pé no chão e sem expectativas, existe uma sensação interior que é nosso ideal de amor.
Faça você mesmo o teste: feche os olhos e imagine como seria a pessoa perfeita. Como ela te faz se sentir? Como é o sexo? Como ela se dá com seus amigos?

Existe uma checklist imensa de sensações que você, pensando nisso ou não, procura em alguém. Quando aparece alguém próximo de completar essa lista , o mecanismo de ilusões é ligado na potência máxima.

Aí começam as fantasias, as cobranças e - inevitavelmente - as frustrações.
Ou a pessoa cabe naquilo, ou você cai de cara na sensação de abandono e falta de sentido.

--

Infelizmente, a gente reluta muito mais pra aceitar que a pessoa ideal não existe do que pra entender que não vai conseguir ser milionário nessa vida.

É uma das poucas ilusões em que a gente se apega pela vida toda. No amor, tem muita gente adulta ainda querendo ser a Beyoncé.

Como é grande a libertação de se desapegar da ideia de que vai surgir alguém capaz de satisfazer as sensações que a gente deseja em alguém.

NÃO EXISTE.
A PESSOA QUE VOCÊ QUER NÃO EXISTE.
O AMOR COMO VOCÊ IMAGINA NÃO EXISTE.
Não vai ter. Solta. Larga o osso.

E agora perceba como isso pode ser bom.

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"Mas a pessoa que está comigo é perfeita pra mim!"
Até ela fazer algo que você não gosta, né? Depois vai ser um monstro.
Na melhor das hipóteses, com muita maturidade, vocês vão conseguir desmontar as ilusões que um tem sobre o outro e viver um relacionamento muito mais humilde e simples do que você imaginava. Senão, frustração na certa!

"Mas eu não quero muita coisa, eu só quero alguém que me ame e me respeite!"
Não conte com isso. É pouco, mas ainda pode não existir.
Além do mais, você não precisa disso pra viver. É você que não se ama nem se respeita quando se desgasta em ilusão depois de ilusão.

--

"Então eu vou ter que aceitar qualquer relacionamento?"
Não! Justamente essa parte é a melhor de todas: ou você começa a ver as pessoas pelo que elas realmente são, em vez da sua expectativa, e com isso tem relacionamentos muito mais reais, livres e com menos espaço pra frustração, ou você vai ficar mais tranquilo em dizer não para as pessoas que aparecem, por saber que não é por meio delas que virá a satisfação das suas angústias.

"Isso quer dizer que eu vou ficar sozinho pra sempre?"
Talvez. Muita gente se sente muito sozinha mesmo estando num relacionamento. Muita gente
É triste, mas é a realidade. Aceitar que papai noel não existe te fez bem, não fez? Aceita que você não ia ser o Neymar te fez bem, não fez?

Talvez aceitar que a solidão seja o padrão da experiência humana possa te dar o mesmo benefício.
É duro, mas é maduro.

13.4.18

Pode incomodar

É tão frequente acontecer que eu até acho graça no sofrimento da pessoa bem educada demais.

Ela é uma fofa. Chega, cumprimenta, participa de longe, mas não se aproxima muito.
Não fica tempo demais na casa de ninguém.

Se você oferece um pedaço do doce que está comendo, ela diz que já comeu em casa, mesmo que esteja com o próprio Amazonas de saliva escorrendo da boca.

Ela recebe hóspedes e dorme no sofá da sala pra visita dormir na cama dela.

Esse é o jeito correto de viver, pensa ela. Ela é uma cidadã exemplar. Ela toma remédio pra gastrite.

Ela não incomoda ninguém.

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Eu rio dessa gente mas rio com respeito, porque eu sou igualzinho.
Cansei de passar vontade ou negar ajuda por achar que seria trabalho demais para o outro.

E é mais ou menos essa a sensação que a Pessoa Educada Demais tem o tempo todo: ela é um atrapalho, ela é um atravanco, e isso não se faz.

Ela gasta tanta energia tentando ser agradável, o cidadão-modelo de um mundo ideal, que vai parar numa crise de pânico.
Falta ar, falta energia, dá vontade de gritar e sair correndo.

Mas ela não grita nem sai correndo, credo.
Isso incomodaria os outros.

--

Me interessa saber de onde vem essa ideia maluca de que não incomodar ninguém faz uma pessoa ser bem quista.

Quem fala isso obviamente nunca teve um cachorro na vida.

Por que cachorro enche o saco, né?
Se ele quer sair, vai ficar latindo e te arranhando até você pegar a coleira e levá-lo até a esquina.
Se ele quer fazer cocô e você não o deixa sair de casa, vai deixar um presentinho bem em cima do seu travesseiro.
Se ele quer carinho, vai enfiar a cabeça no seu colo, não interessa o que você esteja fazendo.

Um cachorro se recusa a fingir que não existe e que não tem necessidades.
A coisa mais triste do mundo seria um cachorro que não quer incomodar ninguém e fica no cantinho o tempo todo.

(e nem venham me falar que gato é assim, porque gato é tranquilo até o momento em que ele te acorda quatro da manhã com uma patada na cara porque está com fome).

--

Ainda assim, todo mundo gosta de cachorro (menos quem não gosta, mas aí quem não gosta deles sou eu).

Isso acontece porque uma relação genuína é muito gostosa.
O cachorro pede as coisas com tanto carinho, com tanta abertura, e tem tanta gratidão pelo que recebe, de um jeito tão gostoso e tão honesto... Que ele conquista odireito de incomodar.

Dizem que filho é assim também, mas eu nunca tive um filho me trazendo uma coleira na boca pra saber.

--

Não tô defendendo gente mal educada, longe disso.
Aliás, saio correndo de gente que fala alto demais, pede muito favor ou não percebe a hora de sair de perto.

Mas até essas pessoas tem algo a ensinar pra alguém que nunca se mostra por medo de incomodar.

Podar partes da gente pra não incomodar é jogar fora qualquer chance de uma interação genuína.
Você não cria conflitos, mas também não conhece o sabor de ser aceito. Ninguém nunca lhe conhece de verdade, só a fachada que você apresenta.

--

Por isso minha nova meta é sair incomodando o máximo que eu posso.

Tá comendo e nem me ofereceu? Vou pedir um pedaço.
Tá saindo de carro na direção que eu tô indo? Vou pedir carona.
O livro que eu tô lendo tá mais interessante do que a pessoa que quer falar comigo? Vou pedir licença e continuar lendo.

Nada de ficar calado, eu vou é fazer esforço pra incomodar mais.

--

"Mas Flávio, se todo mundo ficar desse jeito o mundo vai ficar insuportável!"

Só pra quem não sabe defender o próprio espaço.
Gente folgada incomoda todo mundo, mas incomoda muito mais quem não sabe dizer não. Questão de saber dar - e aceitar - limites.

Se todo mundo agir assim, pedindo o que quer e dizendo não para o que não quer, a convivência geral vai ficar muito mais fácil.

Afinal, até o cachorro mais dócil rosna quando não quer tomar banho.
Ainda temos muito o que aprender com eles.

9.4.18

Por que os sonhos importam na terapia?


Eu gosto muito de gente cética que procura terapia.
São pessoas extremamente racionais, que já leram muito, que não acreditam em qualquer coisa, que vão com um pé atrás para o processo terapêutico.

Em geral, essas pessoas torcem muito o nariz quando eu falo da importância de trazer relatos dos seus sonhos para a terapia.

Eles me olham como se eu fosse o Cigano Voight, leitor de tarô, interpretador de sonhos e ladrão de maridos.

--

Mas não tem nada de místico em observar os sonhos.

A função do sonho é geralmente associada ao armazenamento de memórias. Por isso geralmente alguma coisa que vimos ou fizemos recentemente aparece no sonho. É uma manifestação visível de uma memória nossa sendo guardada.

Mas não importa só qual evento é guardado pelo sonho. Importa também em que gaveta das nossas memórias esse sonho é gravado.

Por isso é comum acontecer algum sonho como "Estava na minha antiga escola, mas o professor da minha turma era o meu chefe".

É bem possível que isso signifique que há algum sentimento relacionando o chefe (o acontecimento atual, a memória a ser guardada) ao ambiente escolar (a gaveta onde o inconsciente escolheu guardar a memória).

--

Por isso que não pode existir um manual de interpretação de sonhos, e também por esse motivo a interpretação do sonhador é muito mais importante que a do terapeuta: é ele quem domina o território das memórias relacionadas a cada símbolo contido ali.

É através das associações que o paciente faz que vamos entender porque esse sonho foi guardar justo aquela memória bem naquela gaveta.

Pode ser que ele esteja reproduzindo com o chefe, por exemplo, uma dinâmica de poder que tenha aprendido na época de escola.

Assim, olhando pro que mais existe naquela gaveta da memória, é possível tratar o sentimento que ficou pendente daquela época e libertar o momento atual da influência daquele conteúdo que tinha ficado recalcado.

Aí, no decorrer de um processo terapêutico, essas associações vão ficando mais e mais profundas, e os efeitos dessa investigação mais libertadores.

É uma redução grosseira, mas dá pra entender a ideia.

--

Quem quiser se aprofundar na ciência da interpretação dos sonhos, que é bem mais profunda do que descrevi aqui, vai precisar recorrer a vários autores com várias visões diferentes sobre o assunto.

Mas não adianta: nada é capaz de decifrar um sonho tão bem quanto a inquietude e a entrega criativa do próprio sonhador.

É um processo longo, árduo e profundo rumo ao próprio autoconhecimento.

E é justamente por me dedicar tanto a esse processo que eu passei o dia inteiro tentando entender porque diabos eu sonhei que tava cortando a unha do dedão do pé da Glória Maria.

Atualizo vocês assim que tiver notícias.

29.3.18

Fenômeno

Até a leitura mais inútil pode acrescentar alguma coisa na nossa vida.
Estava lendo uma lista de artigos mais esquisitos da Wikipédia e um deles falava de um tal "Fenômeno de Mariko Aoki".

Nesse fenômeno, algumas pessoas tem uma forte vontade de defecar quando entram em livrarias ou bibliotecas.

Essa Mariko Aoki escreveu um artigo nos anos oitenta contando da sua atividade intestinal em bibliotecas e recebeu um punhado de respostas de leitores falando que sentiam o mesmo.

O artigo cita uma série de comentários de médicos e psicólogos que falam que o fenômeno é uma lenda urbana e que não existe.

Não existe o caralho, seus filhos da mãe.

--

Vocês não fazem ideia de como eu fiquei feliz de encontrar esse artigo.

Desde sempre, eu não posso entrar numa biblioteca e caminhar um pouco que meu intestino subitamente acorda e começa a cantar "Jesus Cristo, eu estou aqui!".

Mesmo desconfortável, de vez em quando eu comentava com algum amigo algo como "Nossa, você não tem vontade de cagar quando vem na biblioteca?", e a resposta padrão era "Credo, não! Nada a ver."

Não era nem um acontecimento que me incomodasse tanto -- infelizmente eu não tenho andado por bibliotecas na frequência que eu gostaria. Ainda assim, como foi bom saber que aquilo que eu sinto realmente existe!

Biblioteca dá dor de barriga sim! Eu não sou louco!

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Pensar nisso me fez pensar em quantas pessoas vão de médico em médico com algum sofrimento e não são ouvidas.

Quantas pessoas chegam no meu consultório com problemas muito mais sérios que uma dor de barriga numa livraria e um histórico de gente dizendo que aquilo não é nada.


"Isso aí é drama!"

"Isso aí é normal!"

"Isso aí só está na sua cabeça!"

Como é cruel alguém que escuta a dor do outro e a desvaloriza. Seja uma dor pequena ou com fundo dramático, seja uma grande dor, TODO processo de cura começa reconhecendo que aquele sofrimento existe.

Toda melhora começa na escuta e na validação.

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Um experimento feito na Bélgica com pacientes de câncer separava os pacientes em dois grupos. Um, ao reclamar de dor, recebia do enfermeiro uma dose de remédio. O outro, ao reclamar de dor, recebia do enfermeiro a pergunta "Como é a sua dor?".

Cada paciente era ouvido com atenção e depois escutava o enfermeiro repetir palavra por palavra a descrição da dor que sentia. Então, vinha a pergunta: "Você acha que uma dose do medicamento pode ajudar?"

O grupo que tinha a dor ouvida pedia muito menos remédio do que os que apenas recebiam medicação quando reclamavam.

Quer dizer, nem sempre a gente quer a ajuda do outro pra resolver nosso problema. Queremos que alguém nos escute no momento solitário do sofrimento. Queremos o direito de sentir dor.

Negar a uma pessoa a validade do seu sofrimento é negar a essa pessoa o direito de existir integralmente.

--

Dificilmente uma pessoa que procura terapia o faz por não ter recursos para mudar a própria vida.

A maior diferença que uma pessoa pode fazer é ouvir outra pessoa atentamente e dar a ela a sensação de que alguém a ouve.

Que o que ela sente é válido.
Que o que ela sofre é real.
Que ela pode existir em paz.

Que ela é normal e aceita... mesmo que ela sinta dor de barriga toda vez que entra numa biblioteca.

Faz um moleque em mim

De tempos em tempos alguma música religiosa explode e faz sucesso além das fronteiras das rádios evangélicas. Eu tenho um gosto musical bem ...