16.8.18

Não agrade seus pais

É praticamente regra: até os melhores pais trabalham no esquema do amor condicional.

É assim que seres humanos funcionam: eu te amo mais que tudo, mas um pouquinho mais se você fizer o que eu quero.

Alguns pais - talvez inseguros do seu papel, ou na ânsia de ter filhos comportados, corretos e limpinhos - pegam mais pesado nessa hora.

Aí o amor fica bem reguladinho: Eu até te amo, mas só depois da lição feita.
E da louça lavada.
E do quarto limpinho.
E da nota dez.
E de não ficar com raiva nunca.

Amor, amor mesmo, fica lá pelo oitavo lugar na lista de prioridades.
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E não é que funciona?

Crianças são máquinas de agradar os outros - tipo cachorro - porque a sobrevivência delas depende do ambiente estar em paz.

Por isso, uma mãe insatisfeita gera um desconforto de morte. O que dá pra fazer pra aliviar essa angústia dela, que pra mim é fatal? Como fazer essa pessoa ficar bem e gostar de mim, pra que eu não morra de fome ou indiferença?

É, talvez a restrição de carinho não funcione tanto assim.

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O duro é a quantidade de adultos que ainda se vêem presos nesse ciclo.

O emprego é escolhido para mostrar responsabilidade, porque os pais não admitiriam um filho irresponsável.
O casamento é escolhido para mostrar respeito às tradições, porque Deus me livre de uma filha que transe antes do casamento.

Aí a história de vida não é mais escrita consigo mesmo em mente, só o outro.

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É uma pena, porque o aprendizado entre pais e filhos precisa se dar dos dois lados.

Se pais responsáveis dão limites aos filhos durante a infância, filhos responsáveis dão limites aos pais pelo resto da vida.
A rebeldia adolescente é um presente perfeito para pais cheios de expectativa.

É uma oportunidade para que eles se dêem conta de que dá pra amar além do limite. Filhos que decepcionam os pais os ensinam o que é amar de verdade.

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É agressivo? É. Mas haja agressividade no pintinho pra quebrar o ovo.
É curioso o que acontece quando os filhos conseguem dar esse salto e viver sem precisar corresponder à espera de seus pais.

Em vez de desprezo, recebem um respeito muito adulto. "Ok, meu filho soube dar conta da própria vida. Rompeu comigo e é capaz de viver sem mim."

De quebra, os pais ganham uma lição muito bonita: Não são donos dos caminhos dos seus filhos, e suas certezas conquistadas por toda uma vida não são as únicas.

Vai muita pancada até chegar nesse ponto, mas são pancadas importantes.
Depois das pancadas, a paz: adultos dos dois lados e a sensação de dever cumprido.

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Posso escrever o quanto for, mas não vou dizer tão bem quanto os Novos Baianos:

"Minha velha é louca por mim só porque eu sou assim
Meu pai, por sua vez, se liga na minha
E nos botecos onde passa não dá outro papo

Eu sou o caso deles
Sou eu que esquento a vida deles
No fundo, no fundo coloco os velhos no mundo
Boto na realidade
Mostro a eternidade

Senão eles pensavam
Que tudo era divino maravilhoso
Levavam tudo na esportiva
Ficavam contando com a sorte
E não se conformariam com a morte"

E tem presente melhor do que a realidade?

14.8.18

Neuzinha


A Neuza estudava comigo na faculdade.

Um pouco mais velha que a maior parte dos colegas, já tinha filha quase da minha idade quando começamos a estudar juntos. Mas não era por isso que ela se destacava.

Sabe quando dizem que alguém tem uma luz?
A Neuzinha tem holofotes dignos de um sambódromo.

Fiz tudo o que eu pude pra ficarmos amigos.
Não que seja difícil conquistar sua amizade, o duro é conseguir um horário. São tantos amigos, tanta gente querendo um pedacinho daquela mulher, que é um esforço hercúleo se manter próximo dela.

Mas compensa.
O brilho dela sempre me trouxe vantagens.

Estávamos no boteco? Vinha uma cerveja de brinde porque o dono do bar era apaixonado por ela.
Íamos na vidente? A cigana fazia até um café pra ficar conversando por mais tempo, só por gostar dela.
Precisávamos chorar uma notinha com o professor? Era só levar a Neuzinha junto que os décimos a mais eram garantidos.

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Minha amizade não era nada inocente.
Eu queria um pouco daquilo pra mim. Precisava aprender com ela como ter essa capacidade de fazer todo mundo se apaixonar.

Não aprendi nada, mas pelo menos conseguia uma ajudinha de vez em quando.

Quando eu brigava com meu namorado, passava o telefone pra Neuza e pedia:
"Briga com ele por mim?"
Em duas ou três frases que ela falava, o moço já ficava pianinho uma semana inteira.

Quando eu estava solteiro e querendo ficar com alguém, passava o celular pra Neuza e pedia:
"Faz ele me querer, por favor?"
De novo, duas ou três frases bastavam pra deixar os caras interessados - até eu voltar a conduzir a conversa e cagar com tudo de uma vez.

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Neuzas à parte, esses dias uma amiga veio me pedir conselhos amorosos.

"Flávio, você entende dessas coisas, me ajuda. Eu tô apaixonada por um cara do meu trabalho, certo?"
"Certo não é, mas diga."
"E eu tive um surto de coragem, adicionei ele no Facebook"
"Ele aceitou?"
"Sim."
"Que legal!"
"Mas aí eu pensei que eu não tenho ninguém do trabalho no Facebook, e que ele ia achar estranho... E que eu ia me encontrar com ele na segunda-feira..."
"E aí?"
"E aí eu bloqueei ele e tô morrendo de vergonha."

Porra, colega.
Aconselhei do jeito que eu posso e disse que é super normal dar em cima de alguém, e que não era pra tanto, mas... honestamente, eu sou um hipócrita.

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Outro dia eu fiquei interessado num amigo do meu irmão.
Meu irmão é tão firmeza que fez as relações diplomáticas por mim. Sondou de lá, sondou de cá e falou pra ir fundo que tava no papo.

Infelizmente eu não sei ir fundo, não.

Pôxa vida, não era pra ser difícil. Eu tenho experiência em jogar charme, passo todos os meus dias conversando com pessoas, era pra lábia ser tranquilíssima.

Fiquei dias com a janela do menino aberta no Messenger até tomar uma atitude.
Percebam a genialidade do meu papo:

"Nossa, passou um mendigo aqui pedindo água que tinha a voz igualzinha a sua!"
e, dois minutos depois:
"Putz, janela errada! Foi mal!"

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Contei pro meu irmão e ele ficou indignado:
"PQP, Flávio, era só dizer Oi! OI! Eu já tinha feito o meio de campo, custava dar só um oi?"

Droga.

Nisso o menino respondeu:
"kkk acontece"

O que eu fiz, gênio que eu sou?
Não respondi mais, pra ele pensar que eu realmente me enganei de pessoa e eu não passar por idiota.

Nunca mais disse um "a" pra ele, por maior que fosse o crush.

Eu devia ter dado chance é pro mendigo que veio pedir água, que pelo menos puxou a conversa.

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O que eu quero dizer é que preciso monetizar a Neuza.
Talvez se ela virasse coach e desse uns cursos?

"DEZ PASSOS PRA SE INSINUAR SEM MORRER DE VERGONHA"
"WORKSHOP: Dando oi pra pessoa que você tá a fim"
"PAQUERA HIGH STAKES: Como fazer um flertezinho de alta performance"

Dá pra cobrar bem caro. Eu pagaria.

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Também dava pra montar uma sala com vários computadores, e deixar ela o dia todo se passando por outras pessoas.

Problemas de sedução? Chama a Neuzinha.
Passando por um divórcio? Converse com a Neuza.
Assassinou uma pessoa e agora namora só por cartas que recebe na cadeia? A Neuza escreve por você.

Tudo a um precinho muito camarada.

Claro que vou cobrar meus dez por cento da Neuzinha pela ideia.
Se eu não tenho lábia suficiente pra ser feliz no amor, pelo menos vou ter pra ficar rico.

11.8.18

Nós, psicóticos


Passar tempo ao lado de uma pessoa psicótica é como visitar um país em que a cultura é completamente diferente, a língua é outra e todos querem te bater.

Psicose, pra quem não é do ramo, é um termo guarda-chuva pra casos de extrema desorientação e falta de contato com a realidade. O pensamento é desorganizado e não há representação simbólica que conforte o desespero que isso provoca.

Ainda na faculdade me enfiei em uns estágios na área. Acompanhamentos terapêuticos, estágios em hospitais psiquiátricos, coisas assim.

Nem gosto de compartilhar detalhes dos casos porque é muito fácil reduzir uma pessoa com um transtorno desses ao comportamento bizarro que ela tem. É mais fácil lidar com "o cara que enfiou um lençol inteiro na bunda e depois tirou pra mostrar como ele estava sujo por dentro" do que com "a pessoa com um desespero que não se acalma jamais e que, num momento de angústia pesada, precisou agredir seu corpo em busca de um fiapo de segurança".

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Eu, todo anta, levei um susto ao perceber que psicologia não era só o aconselhamento no final do Casos de Família, e que a gente precisaria lidar com a loucura real, escarrada na nossa cara.

Chegava em casa do estágio e caía no choro. Talvez por excesso de empatia, talvez pelo impacto de uma doença mental que não faz esforço nenhum para fingir que não existe.

Desde então, não trabalhei mais com esse tipo de quadro. Tem profissionais muito melhores que eu pra aguentar esse tranco.

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Eu lembrei dessa história porque eu também estou sofrendo de um transtorno muito difícil.

No caso, a sinusite.

"Mas Flávio, isso não faz o menor sentido numa conversa numa conversa sobre transtornos mentais!"

Fresco eu sou mesmo, mas explico como isso fez algum sentido - ainda que psicótico - na minha cabeça: Sem conseguir respirar direito, minhas noites tem sido horríveis.

Quando consigo pegar no sono, os sonhos são intermináveis e brutais. As histórias não fazem sentido, a falta de ar cria pensamentos repetitivos de perseguição e violência que não parecem acabar nunca e a sensação é de angústia constante.

Dou uma acordadinha de leve, com a cama encharcada de suor, e caio no sono novamente.

Outra vez, pesadelos, desorientação e angústia. A operação se repete a noite inteira.
Que fase.

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Ainda assim, só uma fase. Eu sei que a noite (se não a sinusite) vai acabar e tudo vai voltar ao normal.

Acordar é um alívio, mas também me assusta.
Serve pra mostrar como é uma benção ter um mínimo de organização de pensamento.

Ter noção de onde está, de quem é, do que são as coisas ao seu redor... Nossa vida toda se baseia nessa noção de segurança, que a gente toma por certa, mas que não é.

Nos choca tanto estar perto de uma pessoa com transtorno psicótico grave por que eles deixam na cara como a nossa pretensa sanidade é frágil.

Para eles, a noite de pesadelos não acaba.

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Por isso faz tão mal a ideia de confinar pessoas com um comportamento fora do padrão em hospitais psiquiátricos.

Em geral, a loucura é inofensiva. Até positiva, se a gente olhar o quanto ela escancara os problemas que a sociedade procura esconder.

Uma pessoa considerada louca não precisa ser (mais!) isolada, reprimida, e escondida. Precisa de afeto, ainda que o afeto a uma pessoa "louca" seja um dos mais difíceis de se dar.

Um afeto absurdo, não lógico, escapa às relações de consumo a que estamos acostumados.

Mas o amor real vive mesmo no campo do absurdo.

Aprender a amar o absurdo do outro pode ser um bom veículo pra conseguir amar os próprios absurdos - que, venhamos e convenhamos, não são poucos.

Se fossem, a loucura não incomodaria tanto assim.

31.7.18

Verdades

Surreal a conversa que tive no Uber voltando do consultório ontem.
Foi entrar no carro e o motorista perguntou:

"Você acha que a psicologia é capaz de curar uma pessoa com um transtorno?"

Será que era um pedido sutil de ajuda? Às vezes acontece. Já aconteceu de Uber chorar e marcar sessão enquanto me levava ao supermercado.

Devolvi a pergunta com um "Como assim?", mas ele repetiu exatamente o que tinha dito. Típico de quem não quer uma resposta, e sim uma deixa pra dizer alguma coisa planejada.

Mordi a isca mesmo assim e larguei meu discursão, que vou editar um pouquinho pra acelerar a história:
"Existem muitos transtornos diferentes bla bla bla psicoterapia pode auxiliar num processo de cura bla bla bla não existe cura para a vida bla bla  autoconhecimento, bla bla bla não é só pra louco, bla bla bla saúde mental."

Ele, conforme previsto, disse o que já tinha planejado.
"Mas vocês não acreditam em Deus, né?"

Eu respondi que o que importa é a fé do paciente, mas ele não estava querendo ouvir muita coisa. Ele queria me convencer que o negócio pra tratar depressão era Jesus Cristo, e aí foi pérola atrás de pérola.

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"Vocês acreditam em livros escritos por homens, mas os homens são falhos!"
"E os homens que escreveram a Bíblia?", revidei.
"Acontece que a Bíblia é sagrada! Por exemplo, você sabia que antigamente se dizia que a Terra era plana?"

Mal sabia ele que eu fui uma criança-crente, treinada de berço pra falar de Bíblia.

"Sim", respondi, "e a Bíblia já dizia sobre o círculo da Terra em Isaías 40, mas e a parte que fala de jumenta falante, não te parece absurda?"

Eu não contava com o fato de ele ser um mestre da retórica, que quebrou completamente as minhas pernas com sua resposta:

"A jumenta é só um símbolo! Mas veja... Se a evolução existe, como que um homem nunca teve um filho macaco?"

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Buguei.
Fiz o possível pra responder com calma e didática cada argumento que ele disse, mas o caminho de volta pra casa era curto. Eu nem discutiria se ele não tivesse começado o papo insinuando que a minha profissão não é útil.

Não foi maldade da parte dele. Ele provavelmente é uma pessoa angustiava que precisa muito de uma resposta definitiva para as suas angústias, a ponto de arriscar receber uma avaliação negativa minha por falar sobre o que acredita.

Dei cinco estrelas. O carro estava limpo e tinha balinha boa.

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Fazer ensino superior era muito mal visto na organização religiosa em que eu fui criado.

O discurso era de abertura completa para o questionamento, mas tudo tinha limite.
Pesquisar podia, mas só nos livros da própria organização.
Perguntar podia, mas só para os irmãos de fé.
Pregar podia, mas ler algo de uma religião diferente era apostasia, máximo crime.
Fazer ensino superior podia, mas pra quê, se o Armagedom já tá pra chegar?

Nem chamávamos aquilo de igreja. Dizíamos "Verdade".

Toda vez que alguém saía de lá, um irmão comentava: "Você viu que Fulano largou a Verdade?"

Como podia alguém largar A VERDADE? Quem poderia alguém ser tão ignorante?

Eu, né.

Adolescente, comecei a catar coisas para ler, escondendo os livros no guarda-roupa pra ninguém encontrar.

Meus pais chegaram a encontrar meu esconderijo algumas vezes, e os livros foram parar no fogo.

Já era tarde demais. Eu já tinha percebido que a Verdade era uma mentira.

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Anos mais tarde, senti falta de uma fé em que eu pudesse depositar meus anseios.

A mitologia das entidades da Umbanda é maravilhosa para explicar os conceitos junguianos de Sombra - ainda vou escrever alguma sobre isso -  então por curiosidade resolvi dar uma chance pra essa religião.

Fui ao terreiro frequentado por uma amiga e me senti em casa.
Mesmo não sentindo cem por cento que as incorporações eram verdadeiras, eu já tinha feito as pazes com a ideia de que a fé exige uma aposta no invisível.

Tempos depois, a casa recebeu um novo Pai de Santo.
Imponente, bom de papo, fez cursos com gente muito respeitada na religião, tinha um bom conceito. Recebia entidades deslumbrantes, que inspiraram o povo do terreiro a construir uma sede nova para receber mais gente.

A corrente da casa fez vaquinhas, pegou empréstimo e pegou até na enxada pra construir o novo terreiro - agora, no quintal da casa do Pai de Santo.
Muito generoso ele, cedeu até o terreno sem cobrar.

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Eu, pra variar, estava quebradíssimo. Não tinha dinheiro pra doar e os dias em que o pessoal ia bater laje no terreiro eram justamente os únicos dias em que eu tinha um bico que me garantia um trocado.

Eu morria de vergonha de não poder ajudar. No final das giras, a corrente se reunia e o Pai de Santo incorporava um Exu para dar bronca na gente.

"VOCÊS PRECISAM SE DEDICAR MAIS! ACREDITAR MAIS! DAR MAIS DE SI!", ele brigava, "Não é o cavalo que tá falando, não é o médium que tá dizendo nada aqui! É o Exu Capa Preta que tá falando com vocês! Vocês estão sendo avaliados pelo serviço que estão fazendo, e quem está duvidando de mim pode vir se ver comigo!"

Engraçado que o Exu dele não mencionou nada sobre o fato de esse Pai de Santo estar roubando alguns mil reais das caixinhas de contribuição do terreiro todo mês, como descobrimos mais tarde.

Será que a Capa Preta encobria a visão?

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Tive experiências parecidas no kardecismo, nos círculos de psicanálise e até na porra do Crossfit.

Em todo lugar vai ter alguém dizendo que aquele é o caminho certo e a resposta pra tudo. O coach. A igreja. A Herbalife. A Nova Acrópole. O professor de ioga. O monge.

Morro de ranço disso.

Não consigo acreditar que alguém conheça o meio correto para transcender o sofrimento, porque não existe transcender o sofrimento.

Não existe alívio para a pena de ser humano.
Ninguém conhece a Verdade porque não há verdade em maiúscula: há verdades, no plural.

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Por isso tomo tanto cuidado pra não prometer que a psicoterapia vai mudar a vida de alguém.

Acredito sim que psicoterapia ajuda, acredito que possa ser transformadora, mas também acredito que pode acontecer de machucar uma pessoa ou outra, que eu posso fazer cagadas, que pode ferir alguém que a procure em busca de cura.

Não faço promessas e sei que tenho uma tendência grande a arrogância. Já levei tijolada o suficiente pra saber que não é possível saber tudo.

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Não acho que em algum momento eu vá acreditar cem por cento em alguma coisa novamente.

Não acho isso ruim. Alguma coisa acontece quando a gente abre mão de ter certezas na vida. Viver bem é brincar com possibilidades, não se cristalizar com verdades absolutas.

No fim das contas, a dúvida é uma amiga. Pode não ser a amiga mais confortável de conviver, mas é a que a gente tem.

Dá pra viver em paz com não saber a resposta. A vida é bonita o suficiente sendo só pergunta.

25.7.18

Aquele abraço

Fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez nesse fim de semana e trago opiniões.

Primeiro, sobre violência:
A gente que só conhece o Rio de Janeiro pelos olhos do William Bonner imagina que o negócio é só tiroteio o tempo todo, e olha... Se eu vi um tiroteio foi muito.

Tudo bem, eu fiquei num pedaço minúsculo de uma área rica da cidade, mas não achei tão violento assim.

Quer dizer, vi sim, mas voltada a um público muito específico: o Pedro.

Em todos os lugares que eu ía, encontrei pelo menos uma mulher gritando com pelo menos um Pedro.

- PEDRO, VOLTA AQUI!
- PEDRO, ANDA MAIS RÁPIDO!
- PEDRO, EU VOU ARRANCAR VOCÊ DAÍ!
- PEDRO, NÃO LAMBA O CORRIMÃO!

Às vezes o Pedro era um moleque de três anos, às vezes era um engravatado de quarenta (como no caso do corrimão), então eu entendi que é um preconceito sistemático quanto ao nome, mesmo.

Então, se você se chama Pedro, evite o Rio de Janeiro.

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Outro fenômeno estranhíssimo do Rio é o pessoal dando bom dia. Eu vi várias pessoas dando bom dia para lugar nenhum antes de me dar conta que entre elas e o lugar nenhum tinha eu.

O bom dia era pra mim!
Coisa doida. Você nem me conhece bem o suficiente pra ter certeza que quer que o meu dia seja bom!
Vai que eu falo "bolacha"? Você vai querer que o meu dia seja bom mesmo assim?

Além dessa simpatia estranha, aconteceu o fenômeno raríssimo de que as pessoas que marcaram comigo realmente queriam me encontrar de verdade!
Marquei dois encontros com amigos que de fato apareceram, e um terceiro em que eu mesmo dei o cano.

Os cariocas estão sob a ilusão de que vivem em sociedade. Isso é estranhíssimo.

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Sobre turismo: A cidade é linda mesmo.

Agora, qual é meu ponto turístico favorito? Qual é o lugar a que eu quero retornar? Do que eu mais vou me lembrar sobre a viagem?

Um café em que eu só fui parar porque ninguém vendia pastel na feira hippie.

ELES TINHAM O MELHOR PÃO NA CHAPA DO MUNDO.
Custava dez reais a bagaças, mas eu nunca comi um pão na chapa tão gostoso. Era só farinha, água, manteiga e um encontro verdadeiro com a beleza do universo.

Pão de açúcar é o caralho, bom mesmo é esse pão na chapa.

Difícil explicar, mas nenhum ponto turístico deixou uma impressão tão boa em mim quanto aquele pãozinho. Nem mesmo o Cristo de braços abertos olhando pra vista mais bonita do mundo. Coisa de gordinho.

Cariocas com seus corpos perfeitos, eu respeito se vocês não me entenderem.
Podem me odiar, podem me xingar. Podem até me chamar de Pedro...
Mas eu vou voltar só pra comer o pão na chapa outra vez.

12.7.18

Bota-fora

Engraçado como às vezes a gente encontra exatamente aquilo que estava procurando.

Quando eu tinha uns vinte anos, eu estava (como de costume) despedaçado por causa de um fim de namoro.

Eu que tinha posto fim na desgraça toda. Ele tinha desmarcado de ir no show do Roberto Carlos comigo porque tinha que lavar roupa, e a gente já não se via há três semanas.

Entendi o que estava desenhado, me emputeci e acabei tudo com um depoimento putíssimo no Orkut. Muita maturidade, como podem ver.

Mal engoli o choro desse relacionamento e já lancei pro universo: "Eu quero que a próxima pessoa no meu caminho seja uma pessoa que não vá embora".

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A memória me apareceu enquanto uma paciente me contava sobre um momento muito complicado no seu próprio relacionamento difícil. Ela estava no meio de uma frase particularmente triste quando, sem conseguir segurar, eu soltei uma gargalhada.

Juro por Deus que não consegui conter.
Óbvio que eu não estava rindo da cara dela. Sessão terminada, eu expliquei.

Eu tinha lembrado justamente do que aconteceu no relacionamento com a pessoa-que-não-vai-embora que eu tinha pedido ao universo.

O relacionamento era complicado e, naquele dia específico, não foi diferente.

Há alguns dias eu tentava contato com ele, sem resposta. Naquela noite, uma hora da manhã, tocou a campainha do meu apartamento. Meu então namorado estava bêbado na porta, todo arrumadinho: Roupa de marca, corrente no pescoço, cabelo impecável e um par de botas daquelas amarelas que custam trezentos reais.

Eu tenho muitos defeitos e um deles é gostar de homem coxinha.

Enfim, ele tinha ido a uma balada, ficado bêbado, sentido saudade de mim e resolvido aparecer de surpresa na minha casa.

Ele contou aquilo como um grande ato romântico, tipo "podia ter ficado com qualquer pessoa, mas escolhi você!".

E eu caí na conversa.

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Pelo menos por um tempo.
Já estávamos aos beijos no sofá quando me caiu a realidade na cabeça.

"Peraí, você ficou dois dias sem atender o telefone, foi pra balada, não conseguiu ninguém pra ficar e apareceu aqui pra me acordar de madrugada como se fosse um presente pra mim?"

Todo fidumégua fica ofendidíssimo quando é responsabilizado pela sua fidumeguice. Ele começou a brigar comigo na hora:

"Você só vê as coisas pelo lado ruim! Não tem como te agradar. Eu nem devia ter vindo aqui, eu vou embora. Vou voltar pra festa, que lá é melhor!"

Entrei em pânico.
Eu não queria que ele fosse embora, eu queria que ele ficasse! Eu ia me sentir péssimo se ficasse em casa sozinho enquanto sabia que a pessoa que eu amava estava numa festa.

A maior arma de uma pessoa abusiva é sempre a culpa na pessoa abusada.

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Eu não ia deixar ele ir embora.
Agarrei a bota dele do chão e corri pro quarto. Deitei na cama, ainda abraçado na bota, e dei o recado:

"Quer ir embora? Vai. Mas vai descalço."

A maturidade sempre foi minha marca registrada. Mas funcionou.
Ele reclamou por uns dez minutos, desistiu, me abraçou na cama e dormiu.

Conseguiu exatamente o que queria: ficar comigo mesmo depois de deslizar feio e ainda me deixar culpado por ter ousado duvidar das suas intenções.

--

Ter tido uns relacionamentos péssimos parece ter sido melhor do que a faculdade de psicologia pra me ajudar a entender o relacionamento dos outros.

Hoje eu entendo que não adianta falar "Se isso não te faz bem, larga" pra alguém que está muito profundamente entrelaçado sentimentalmente com outra pessoa.

Cada relacionamento tem uma gigantesca quantidade de motivos inconscientes que o mantém.

Até desmontar cada culpa, entender cada apego, escutar cada restinho de carinho que exista ali... Não adianta aconselhar o óbvio.

Porque entender o óbvio é fácil. Sentí-lo, nem tanto.

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Ainda assim, quando a gente precisa fazer esforço mais pra que alguém fique ao nosso lado, é porque a pessoa já partiu.

Em algum momento é preciso largar a bota.

Não basta que a pessoa fique. É preciso que ela queira ficar.

3.7.18

O refém

Nunca imaginei que fosse capaz disso.
Eu, que sempre valorizei tanto a liberdade, fiz um refém.

Cruelmente o apanhei na rua para prendê-lo, e o mantenho em cativeiro na minha própria casa.

As janelas estão completamente lacradas para impedí-lo de ir embora.
Às vezes, quando eu dou bobeira, ele foge pela porta e corre como um jato, desesperado que está pela chance de uma existência livre.

Não adianta.
Eu o recapturo e o boto de volta pra dentro. Tranco a porta e redobro a atenção.

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Eu sou um sequestrador sádico.

Minha vítima come e bebe do chão, e também é obrigada a fazer suas necessidades em plena vista. Dignidade nenhuma.

A comida é sempre a mesma. Ele implora para comer aquilo que eu como, mas eu olho firme nos olhos dele e digo "Sua comida tá no chão!". Escorraço ele da cozinha.

Sem contar que eu o chamo de um apelido ridículo. É pra humilhar, mesmo.

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Não pensem que ele é um refém tranquilo.

Ele luta tudo o que pode.
Pela manhã, enquanto ainda estou dormindo, ele pula no meu rosto numa tentativa óbvia de me sufocar e se livrar do déspota que o oprime.

Não adianta. Eu sou mais forte que ele, e ele logo fica trancado para fora do quarto. Que durma no chão, e não adianta reclamar.

Não duvido que, no dia que ele consiga o que quer, ele devore minha carniça com um sentimento misto de fome e vingança.

Meus braços estão cheios de marcas das mordidas e arranhões que ele me dá. De vez em quando ele me ataca de emboscada, no corredor, sem que eu perceba.
Ele certamente me mataria, se tivesse a chance.

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Minha motivação é psicopata.
Gosto de ter um ser à disposição para que eu o agarre e abrace e faça do seu corpo o que quiser, no momento em que eu quiser.

Ele resiste aos meus avanços, mas eu sou mais forte. O espremo contra mim até que ele grite de dor e consiga fugir.

Mas quando menos espera, eu o ataco novamente.

Sua vida é pura prisão e submissão.
Meu próximo passo é castrá-lo. Não apenas o privarei de sua liberdade, o privarei de suas bolas.

Quem diria que eu seria tão bom nesse negócio de sadismo.

--

Quer dizer, talvez não tão bom assim.

Estou completamente atarefado e preciso sair agora, mas não consigo.
O único motivo de estar escrevendo esse texto é que o refém está deitado no meu colo e dormindo tão bonitinho que eu não consigo tolerar a possibilidade de me mexer e acabar lhe acordando.

Mesmo um refém desprezado merece um pouquinho de sono tranquilo.

Mas a vida tem seus revezes. Tenho achado até que, quem sabe, o refém dele possa ser eu.


Não agrade seus pais

É praticamente regra: até os melhores pais trabalham no esquema do amor condicional. É assim que seres humanos funcionam: eu te amo mais q...