14.9.18

Fotocópias



"Não quero ficar falando mal dos meus pais, sabe? Eu sei que eles me amam."






Troque "pais" por "namorado", "amiga" ou "irmã" e essa frase aparece mil vezes por dia num consultório de psicologia.






É um papo que vem com o disfarce de lucidez:






"Sim, minha mãe me falava que eu era um lixo todos os dias, mas eu entendo que isso foi tudo o que ela tinha a oferecer. Não posso pedir dela mais do que isso."






No papel isso é lindo. Fica parecendo que está tudo processado - tudo pensado, compreendido e perdoado - mas não está.


Está intelectualizado.






Por trás dessas palavras, a pessoa segura forte para não chorar. O sentimento continua exatamente onde estava quando aquilo aconteceu.






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Não quero promover o ódio contra quem - realmente - só nos deu o que pode dar.






Mas existe dentro de cada um de nós existe uma versão sob medida de todo mundo que já interagiu conosco, desenhada por todas as interações emocionais que tivemos com essas pessoas, e é essa versão que precisa ser trabalhada emocionalmente.






Não é raro um paciente visitar a família no fim do ano e voltar pra terapia falando "Nossa, pessoalmente nem pareciam as pessoas que eu passei tanto tempo aqui falando a respeito..."






Nessa hora fica óbvio o espaço emocional entre o que as pessoas são e o que sentimos por elas. Mem sempre quem gastamos saliva falando sobre o real de uma pessoa: em terapia, lidamos com a fotocópia emocional que a gente fez dela.






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A gente interage mais com as fotocópias emocionais que fazemos das pessoas que a gente ama do que com elas mesmas.






É isso que faz a paixão ser uma experiência tão impactante mesmo quando o objeto do nosso desejo está longe. Sua fotocópia (perfeitinha, tratada no Photoshop e tudo) está sempre ali dentro de nós, disposta a nos seduzir.






Da mesma forma que as mágoas: dentro de nós tem uma fotocópia da pessoa que nos magoou, empoeirada com o sadismo de anos de memória.






Quer dizer que a pessoa real é um monstro?


Não.






Quer dizer que a gente tá errado em falar dessa pessoa a partir da nossa mágoa?


Também não. Só se pode trabalhar a parte do outro que nos pertence.






Não interessa se a outra pessoa nos amou - lá nela, na fonte - se esse amor não chegou na gente, ou não foi percebido pel.a gente como amor.


Delivery extraviado não enche barriga.






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Não é preciso ter medo de falar mal das pessoas na terapia.


Não quer dizer que você não as ama ou que você só enxerga o lado negativo delas.






Só quer dizer que você está olhando para a sua realidade, a parte de você que se magoou e que precisa ser ouvida com sinceridade.






Falar "MAS A PESSOA NÃO TEVE INTENÇÃO DE MAGOAR!" para essa parte sua não vai tratar essa mágoa.






Intelectualizar não ajuda a resolver emoções: o que ajuda é sentí-las.






Sentindo tudo o que está guardado, você pode corrigir as imperfeições das fotocópias emocionais que você fez dos outros e lidar com versões muito mais reais dessas pessoas.






Só podemos lidar com as pessoas reais depois de lidar com os seus fantasmas. Assim, mágoas abrem espaço para o carinho e então enxergamos as pessoas ao nosso redor como elas são: humanas, bem-intencionadas e tão atoladas na merda quanto a gente

7.9.18

Facada

Meu sócio tem uma história ótima - quer dizer, horrível - com facada.

Estava ele no bar com amigos, se divertindo mais que o meu gato quando cai no cesto de lixo, quando um dos seus melhores amigos se aproximou com uma faca.

"O que você vai fazer com isso?", meu amigo perguntou.

O amigo, trêbado, não usou palavras pra responder.
Com um único gesto, cravou o facão na perna esquerda do meu sócio e a arrastou fundo até fazer uma linha reta até a outra perna.

Meu sócio, com muita sorte, sobreviveu. A amizade dos dois, não.

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O que ele ganhou, entretanto, foi uma história ótima para contar quando está no bar com - outros - amigos  (inclusive, como é lindo o amor de um ser humano pelo bar, que perdoa até uma facada, né?).

Já acompanhei ele revelando a história algumas vezes e as reações são sempre ótimas:
"Caralho, e como foi até chegar ao hospital?"
"Como é a sensação de levar uma facada? Dói muito?"
"Vocês continuam amigos?"

Quando ele fica bem empolgado mesmo, ele abaixa as calças e mostra a cicatriz: um corte, bem fundo, nas coxas quase na altura da virilha.

A reação das pessoas fica ainda mais intensa:
"MAS QUASE QUE PEGOU NO PINTO!"

No meu caso, eu só acho o máximo que ficou parecendo uma marca de cinta liga no meio da perna peluda dele.
Se fosse eu, até tatuaria um lacinho vermelho em cada lado.

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Mais dramática que a história do meu amigo, só a minha mãe.

Lembro de uma vez que meu irmão e eu inventamos alguma desculpa para não ir à igreja e ela descobriu.

Ela nos fez sentar no sofá da sala, levantou em silêncio, caminhou solenemente até a cozinha e voltou com a maior faca que encontrou lá.

Deitou a faca na mesinha de centro, bem calmamente, e começou a falar:
"Querem parar de ir na igreja? Tudo bem."

Ficamos em silêncio. Impossível estar tudo bem, Ela continuou:
"Tudo bem mesmo. Ótimo. Mas saibam que a dor é pior DO QUE ENFIAR UMA FACA NO MEU PEITO! Então ENFIEM UMA FACA NO MEU PEITO DE UMA VEZ!"

Meu irmão me olhou mordendo a bochecha pra não rir. Ela continuou:
"ENFIEM A FACA! ENFIEM A FACA NO MEU PEITO, VAI!"

Nós dois desobedecemos.

Ainda assim, continuamos achando motivo pra não ir pra igreja porque, honestamente, era melhor levar uma facada.

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Daí que teve a facada no Bolsonaro, também.

Só que eu prefiro passar um dia inteiro com o ex-amigo do meu sócio num bar cheio de espadas de Samurai,  não, prefiro passar um mês todo na igreja de mãos dadas com a minha mãe do que dar minha minha opinião a respeito.

Pra me fazer falar, só pagando. O preço vai ser altíssimo.
Uma facada.

4.9.18

Devolva o bolo



O melhor antidepressivo é o Zoloft. Ou o Prozac. Ou a Paroxetina.

Mas, apreciações de produto farmacêutico à parte, não há antidepressivo melhor do que um bom café com bolo.
Foi isso que eu fui procurar na minha horinha de folga de ontem.

Fui a um café descoladinho do bairro chique da cidade, pedi um capuccino e um pedaço de bolo.

Era bastante cafeína, mas não achei isso fosse me impedir de dormir naquela noite.

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Esse deve ter sido o ano em que eu menos li livros em toda a minha vida, mas em compensação, as séries estão super em ordem.

Por exemplo, ontem de madrugada fiz uma maratona do Kitchen Nightmares, o programa em que o chef de cozinha Gordon Ramsay vai a restaurantes com dificuldades, experimenta os pratos e xinga todo mundo até que a comida fique boa.

Tenho uma afinidade especial por programas de TV que tem um especialista gritando com pessoas sem noção. Ver gente que agiu errado de propósito sendo punida é uma coisa que me acalma.

O programa do Ramsay é um absurdo atrás do outro. Carne crua misturada com carne assada, comida mofada guardada há meses... O chef experiente, claro, mete a boca em todo mundo.

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Tem pouca gente que eu admiro sem nenhuma restrição.

Deixa ver... Jesus Cristo? Nelson Mandela? Joan Rivers?


Um nome é certo na lista: o de qualquer pessoa que saiba fazer um bolo de milho que fique molhadinho.

Se café com bolo é antidepressivo, um café com bolo de milho bem feitinho trata transtorno até da vida passada - mesmo que só por uns minutos.

Só pude imaginar que a fatiazinha minúscula de bolo de milho do lugarzinho descolado fosse uma delícia, porque seria muita coragem cobrar oito reais por um pedacinho de bolo daquele tamanho que não fosse nada menos que um contato direto com Deus.

Mas olha... Coragem não faltou.
O bolo era duro, esquisito, provavelmente de uns três dias antes.

Gostaria de dizer que estava intragável, porque se fosse intragável eu teria conseguido devolver. Mas estava tragável.
Por isso, traguei, quietinho, os oito reais de bolo sabor tristeza.

Nada mais frustrante que comida mal feita e bem paga.

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Afinal de contas, qual o problema de comer quietinho e ir embora sem perturbar ninguém? A moça da cozinha não tem culpa que eu achei o bolo ruim. Vai que alguém briga com ela? Vai que eu incomodo?
Não ia me custar nada ficar quietinho.

Mas custou sim.
Depois de assistir uns episódios do chef Ramsay devolvendo pratos e cobrando dedicação da cozinha, fiquei puto.

E aí passei a madrugada inteiro acordado, fazendo cenas na minha cabeça e brigando comigo mesmo por ter comido aquele bolo quieto.

Entendi porque gosto tanto de programas de TV com protagonistas justiceiros e que botam gente folgada no lugar: porque é muito raro eu ter colhão pra fazer isso eu mesmo.

Por que diabos é tão mais fácil aceitar o prejuízo em silêncio do que correr o risco de ser mal visto por outra pessoa e exigir o que se quer?

Preciso trabalhar isso em mim.
Ou, pelo menos, tomar um cafezinho com bolo pra ficar mais calmo.

O que vier primeiro.

16.8.18

Não agrade seus pais

É praticamente regra: até os melhores pais trabalham no esquema do amor condicional.

É assim que seres humanos funcionam: eu te amo mais que tudo, mas um pouquinho mais se você fizer o que eu quero.

Alguns pais - talvez inseguros do seu papel, ou na ânsia de ter filhos comportados, corretos e limpinhos - pegam mais pesado nessa hora.

Aí o amor fica bem reguladinho: Eu até te amo, mas só depois da lição feita.
E da louça lavada.
E do quarto limpinho.
E da nota dez.
E de não ficar com raiva nunca.

Amor, amor mesmo, fica lá pelo oitavo lugar na lista de prioridades.
--

E não é que funciona?

Crianças são máquinas de agradar os outros - tipo cachorro - porque a sobrevivência delas depende do ambiente estar em paz.

Por isso, uma mãe insatisfeita gera um desconforto de morte. O que dá pra fazer pra aliviar essa angústia dela, que pra mim é fatal? Como fazer essa pessoa ficar bem e gostar de mim, pra que eu não morra de fome ou indiferença?

É, talvez a restrição de carinho não funcione tanto assim.

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O duro é a quantidade de adultos que ainda se vêem presos nesse ciclo.

O emprego é escolhido para mostrar responsabilidade, porque os pais não admitiriam um filho irresponsável.
O casamento é escolhido para mostrar respeito às tradições, porque Deus me livre de uma filha que transe antes do casamento.

Aí a história de vida não é mais escrita consigo mesmo em mente, só o outro.

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É uma pena, porque o aprendizado entre pais e filhos precisa se dar dos dois lados.

Se pais responsáveis dão limites aos filhos durante a infância, filhos responsáveis dão limites aos pais pelo resto da vida.
A rebeldia adolescente é um presente perfeito para pais cheios de expectativa.

É uma oportunidade para que eles se dêem conta de que dá pra amar além do limite. Filhos que decepcionam os pais os ensinam o que é amar de verdade.

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É agressivo? É. Mas haja agressividade no pintinho pra quebrar o ovo.
É curioso o que acontece quando os filhos conseguem dar esse salto e viver sem precisar corresponder à espera de seus pais.

Em vez de desprezo, recebem um respeito muito adulto. "Ok, meu filho soube dar conta da própria vida. Rompeu comigo e é capaz de viver sem mim."

De quebra, os pais ganham uma lição muito bonita: Não são donos dos caminhos dos seus filhos, e suas certezas conquistadas por toda uma vida não são as únicas.

Vai muita pancada até chegar nesse ponto, mas são pancadas importantes.
Depois das pancadas, a paz: adultos dos dois lados e a sensação de dever cumprido.

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Posso escrever o quanto for, mas não vou dizer tão bem quanto os Novos Baianos:

"Minha velha é louca por mim só porque eu sou assim
Meu pai, por sua vez, se liga na minha
E nos botecos onde passa não dá outro papo

Eu sou o caso deles
Sou eu que esquento a vida deles
No fundo, no fundo coloco os velhos no mundo
Boto na realidade
Mostro a eternidade

Senão eles pensavam
Que tudo era divino maravilhoso
Levavam tudo na esportiva
Ficavam contando com a sorte
E não se conformariam com a morte"

E tem presente melhor do que a realidade?

14.8.18

Neuzinha


A Neuza estudava comigo na faculdade.

Um pouco mais velha que a maior parte dos colegas, já tinha filha quase da minha idade quando começamos a estudar juntos. Mas não era por isso que ela se destacava.

Sabe quando dizem que alguém tem uma luz?
A Neuzinha tem holofotes dignos de um sambódromo.

Fiz tudo o que eu pude pra ficarmos amigos.
Não que seja difícil conquistar sua amizade, o duro é conseguir um horário. São tantos amigos, tanta gente querendo um pedacinho daquela mulher, que é um esforço hercúleo se manter próximo dela.

Mas compensa.
O brilho dela sempre me trouxe vantagens.

Estávamos no boteco? Vinha uma cerveja de brinde porque o dono do bar era apaixonado por ela.
Íamos na vidente? A cigana fazia até um café pra ficar conversando por mais tempo, só por gostar dela.
Precisávamos chorar uma notinha com o professor? Era só levar a Neuzinha junto que os décimos a mais eram garantidos.

--

Minha amizade não era nada inocente.
Eu queria um pouco daquilo pra mim. Precisava aprender com ela como ter essa capacidade de fazer todo mundo se apaixonar.

Não aprendi nada, mas pelo menos conseguia uma ajudinha de vez em quando.

Quando eu brigava com meu namorado, passava o telefone pra Neuza e pedia:
"Briga com ele por mim?"
Em duas ou três frases que ela falava, o moço já ficava pianinho uma semana inteira.

Quando eu estava solteiro e querendo ficar com alguém, passava o celular pra Neuza e pedia:
"Faz ele me querer, por favor?"
De novo, duas ou três frases bastavam pra deixar os caras interessados - até eu voltar a conduzir a conversa e cagar com tudo de uma vez.

--

Neuzas à parte, esses dias uma amiga veio me pedir conselhos amorosos.

"Flávio, você entende dessas coisas, me ajuda. Eu tô apaixonada por um cara do meu trabalho, certo?"
"Certo não é, mas diga."
"E eu tive um surto de coragem, adicionei ele no Facebook"
"Ele aceitou?"
"Sim."
"Que legal!"
"Mas aí eu pensei que eu não tenho ninguém do trabalho no Facebook, e que ele ia achar estranho... E que eu ia me encontrar com ele na segunda-feira..."
"E aí?"
"E aí eu bloqueei ele e tô morrendo de vergonha."

Porra, colega.
Aconselhei do jeito que eu posso e disse que é super normal dar em cima de alguém, e que não era pra tanto, mas... honestamente, eu sou um hipócrita.

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Outro dia eu fiquei interessado num amigo do meu irmão.
Meu irmão é tão firmeza que fez as relações diplomáticas por mim. Sondou de lá, sondou de cá e falou pra ir fundo que tava no papo.

Infelizmente eu não sei ir fundo, não.

Pôxa vida, não era pra ser difícil. Eu tenho experiência em jogar charme, passo todos os meus dias conversando com pessoas, era pra lábia ser tranquilíssima.

Fiquei dias com a janela do menino aberta no Messenger até tomar uma atitude.
Percebam a genialidade do meu papo:

"Nossa, passou um mendigo aqui pedindo água que tinha a voz igualzinha a sua!"
e, dois minutos depois:
"Putz, janela errada! Foi mal!"

--

Contei pro meu irmão e ele ficou indignado:
"PQP, Flávio, era só dizer Oi! OI! Eu já tinha feito o meio de campo, custava dar só um oi?"

Droga.

Nisso o menino respondeu:
"kkk acontece"

O que eu fiz, gênio que eu sou?
Não respondi mais, pra ele pensar que eu realmente me enganei de pessoa e eu não passar por idiota.

Nunca mais disse um "a" pra ele, por maior que fosse o crush.

Eu devia ter dado chance é pro mendigo que veio pedir água, que pelo menos puxou a conversa.

--

O que eu quero dizer é que preciso monetizar a Neuza.
Talvez se ela virasse coach e desse uns cursos?

"DEZ PASSOS PRA SE INSINUAR SEM MORRER DE VERGONHA"
"WORKSHOP: Dando oi pra pessoa que você tá a fim"
"PAQUERA HIGH STAKES: Como fazer um flertezinho de alta performance"

Dá pra cobrar bem caro. Eu pagaria.

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Também dava pra montar uma sala com vários computadores, e deixar ela o dia todo se passando por outras pessoas.

Problemas de sedução? Chama a Neuzinha.
Passando por um divórcio? Converse com a Neuza.
Assassinou uma pessoa e agora namora só por cartas que recebe na cadeia? A Neuza escreve por você.

Tudo a um precinho muito camarada.

Claro que vou cobrar meus dez por cento da Neuzinha pela ideia.
Se eu não tenho lábia suficiente pra ser feliz no amor, pelo menos vou ter pra ficar rico.

11.8.18

Nós, psicóticos


Passar tempo ao lado de uma pessoa psicótica é como visitar um país em que a cultura é completamente diferente, a língua é outra e todos querem te bater.

Psicose, pra quem não é do ramo, é um termo guarda-chuva pra casos de extrema desorientação e falta de contato com a realidade. O pensamento é desorganizado e não há representação simbólica que conforte o desespero que isso provoca.

Ainda na faculdade me enfiei em uns estágios na área. Acompanhamentos terapêuticos, estágios em hospitais psiquiátricos, coisas assim.

Nem gosto de compartilhar detalhes dos casos porque é muito fácil reduzir uma pessoa com um transtorno desses ao comportamento bizarro que ela tem. É mais fácil lidar com "o cara que enfiou um lençol inteiro na bunda e depois tirou pra mostrar como ele estava sujo por dentro" do que com "a pessoa com um desespero que não se acalma jamais e que, num momento de angústia pesada, precisou agredir seu corpo em busca de um fiapo de segurança".

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Eu, todo anta, levei um susto ao perceber que psicologia não era só o aconselhamento no final do Casos de Família, e que a gente precisaria lidar com a loucura real, escarrada na nossa cara.

Chegava em casa do estágio e caía no choro. Talvez por excesso de empatia, talvez pelo impacto de uma doença mental que não faz esforço nenhum para fingir que não existe.

Desde então, não trabalhei mais com esse tipo de quadro. Tem profissionais muito melhores que eu pra aguentar esse tranco.

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Eu lembrei dessa história porque eu também estou sofrendo de um transtorno muito difícil.

No caso, a sinusite.

"Mas Flávio, isso não faz o menor sentido numa conversa numa conversa sobre transtornos mentais!"

Fresco eu sou mesmo, mas explico como isso fez algum sentido - ainda que psicótico - na minha cabeça: Sem conseguir respirar direito, minhas noites tem sido horríveis.

Quando consigo pegar no sono, os sonhos são intermináveis e brutais. As histórias não fazem sentido, a falta de ar cria pensamentos repetitivos de perseguição e violência que não parecem acabar nunca e a sensação é de angústia constante.

Dou uma acordadinha de leve, com a cama encharcada de suor, e caio no sono novamente.

Outra vez, pesadelos, desorientação e angústia. A operação se repete a noite inteira.
Que fase.

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Ainda assim, só uma fase. Eu sei que a noite (se não a sinusite) vai acabar e tudo vai voltar ao normal.

Acordar é um alívio, mas também me assusta.
Serve pra mostrar como é uma benção ter um mínimo de organização de pensamento.

Ter noção de onde está, de quem é, do que são as coisas ao seu redor... Nossa vida toda se baseia nessa noção de segurança, que a gente toma por certa, mas que não é.

Nos choca tanto estar perto de uma pessoa com transtorno psicótico grave por que eles deixam na cara como a nossa pretensa sanidade é frágil.

Para eles, a noite de pesadelos não acaba.

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Por isso faz tão mal a ideia de confinar pessoas com um comportamento fora do padrão em hospitais psiquiátricos.

Em geral, a loucura é inofensiva. Até positiva, se a gente olhar o quanto ela escancara os problemas que a sociedade procura esconder.

Uma pessoa considerada louca não precisa ser (mais!) isolada, reprimida, e escondida. Precisa de afeto, ainda que o afeto a uma pessoa "louca" seja um dos mais difíceis de se dar.

Um afeto absurdo, não lógico, escapa às relações de consumo a que estamos acostumados.

Mas o amor real vive mesmo no campo do absurdo.

Aprender a amar o absurdo do outro pode ser um bom veículo pra conseguir amar os próprios absurdos - que, venhamos e convenhamos, não são poucos.

Se fossem, a loucura não incomodaria tanto assim.

31.7.18

Verdades

Surreal a conversa que tive no Uber voltando do consultório ontem.
Foi entrar no carro e o motorista perguntou:

"Você acha que a psicologia é capaz de curar uma pessoa com um transtorno?"

Será que era um pedido sutil de ajuda? Às vezes acontece. Já aconteceu de Uber chorar e marcar sessão enquanto me levava ao supermercado.

Devolvi a pergunta com um "Como assim?", mas ele repetiu exatamente o que tinha dito. Típico de quem não quer uma resposta, e sim uma deixa pra dizer alguma coisa planejada.

Mordi a isca mesmo assim e larguei meu discursão, que vou editar um pouquinho pra acelerar a história:
"Existem muitos transtornos diferentes bla bla bla psicoterapia pode auxiliar num processo de cura bla bla bla não existe cura para a vida bla bla  autoconhecimento, bla bla bla não é só pra louco, bla bla bla saúde mental."

Ele, conforme previsto, disse o que já tinha planejado.
"Mas vocês não acreditam em Deus, né?"

Eu respondi que o que importa é a fé do paciente, mas ele não estava querendo ouvir muita coisa. Ele queria me convencer que o negócio pra tratar depressão era Jesus Cristo, e aí foi pérola atrás de pérola.

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"Vocês acreditam em livros escritos por homens, mas os homens são falhos!"
"E os homens que escreveram a Bíblia?", revidei.
"Acontece que a Bíblia é sagrada! Por exemplo, você sabia que antigamente se dizia que a Terra era plana?"

Mal sabia ele que eu fui uma criança-crente, treinada de berço pra falar de Bíblia.

"Sim", respondi, "e a Bíblia já dizia sobre o círculo da Terra em Isaías 40, mas e a parte que fala de jumenta falante, não te parece absurda?"

Eu não contava com o fato de ele ser um mestre da retórica, que quebrou completamente as minhas pernas com sua resposta:

"A jumenta é só um símbolo! Mas veja... Se a evolução existe, como que um homem nunca teve um filho macaco?"

--

Buguei.
Fiz o possível pra responder com calma e didática cada argumento que ele disse, mas o caminho de volta pra casa era curto. Eu nem discutiria se ele não tivesse começado o papo insinuando que a minha profissão não é útil.

Não foi maldade da parte dele. Ele provavelmente é uma pessoa angustiava que precisa muito de uma resposta definitiva para as suas angústias, a ponto de arriscar receber uma avaliação negativa minha por falar sobre o que acredita.

Dei cinco estrelas. O carro estava limpo e tinha balinha boa.

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Fazer ensino superior era muito mal visto na organização religiosa em que eu fui criado.

O discurso era de abertura completa para o questionamento, mas tudo tinha limite.
Pesquisar podia, mas só nos livros da própria organização.
Perguntar podia, mas só para os irmãos de fé.
Pregar podia, mas ler algo de uma religião diferente era apostasia, máximo crime.
Fazer ensino superior podia, mas pra quê, se o Armagedom já tá pra chegar?

Nem chamávamos aquilo de igreja. Dizíamos "Verdade".

Toda vez que alguém saía de lá, um irmão comentava: "Você viu que Fulano largou a Verdade?"

Como podia alguém largar A VERDADE? Quem poderia alguém ser tão ignorante?

Eu, né.

Adolescente, comecei a catar coisas para ler, escondendo os livros no guarda-roupa pra ninguém encontrar.

Meus pais chegaram a encontrar meu esconderijo algumas vezes, e os livros foram parar no fogo.

Já era tarde demais. Eu já tinha percebido que a Verdade era uma mentira.

--

Anos mais tarde, senti falta de uma fé em que eu pudesse depositar meus anseios.

A mitologia das entidades da Umbanda é maravilhosa para explicar os conceitos junguianos de Sombra - ainda vou escrever alguma sobre isso -  então por curiosidade resolvi dar uma chance pra essa religião.

Fui ao terreiro frequentado por uma amiga e me senti em casa.
Mesmo não sentindo cem por cento que as incorporações eram verdadeiras, eu já tinha feito as pazes com a ideia de que a fé exige uma aposta no invisível.

Tempos depois, a casa recebeu um novo Pai de Santo.
Imponente, bom de papo, fez cursos com gente muito respeitada na religião, tinha um bom conceito. Recebia entidades deslumbrantes, que inspiraram o povo do terreiro a construir uma sede nova para receber mais gente.

A corrente da casa fez vaquinhas, pegou empréstimo e pegou até na enxada pra construir o novo terreiro - agora, no quintal da casa do Pai de Santo.
Muito generoso ele, cedeu até o terreno sem cobrar.

--

Eu, pra variar, estava quebradíssimo. Não tinha dinheiro pra doar e os dias em que o pessoal ia bater laje no terreiro eram justamente os únicos dias em que eu tinha um bico que me garantia um trocado.

Eu morria de vergonha de não poder ajudar. No final das giras, a corrente se reunia e o Pai de Santo incorporava um Exu para dar bronca na gente.

"VOCÊS PRECISAM SE DEDICAR MAIS! ACREDITAR MAIS! DAR MAIS DE SI!", ele brigava, "Não é o cavalo que tá falando, não é o médium que tá dizendo nada aqui! É o Exu Capa Preta que tá falando com vocês! Vocês estão sendo avaliados pelo serviço que estão fazendo, e quem está duvidando de mim pode vir se ver comigo!"

Engraçado que o Exu dele não mencionou nada sobre o fato de esse Pai de Santo estar roubando alguns mil reais das caixinhas de contribuição do terreiro todo mês, como descobrimos mais tarde.

Será que a Capa Preta encobria a visão?

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Tive experiências parecidas no kardecismo, nos círculos de psicanálise e até na porra do Crossfit.

Em todo lugar vai ter alguém dizendo que aquele é o caminho certo e a resposta pra tudo. O coach. A igreja. A Herbalife. A Nova Acrópole. O professor de ioga. O monge.

Morro de ranço disso.

Não consigo acreditar que alguém conheça o meio correto para transcender o sofrimento, porque não existe transcender o sofrimento.

Não existe alívio para a pena de ser humano.
Ninguém conhece a Verdade porque não há verdade em maiúscula: há verdades, no plural.

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Por isso tomo tanto cuidado pra não prometer que a psicoterapia vai mudar a vida de alguém.

Acredito sim que psicoterapia ajuda, acredito que possa ser transformadora, mas também acredito que pode acontecer de machucar uma pessoa ou outra, que eu posso fazer cagadas, que pode ferir alguém que a procure em busca de cura.

Não faço promessas e sei que tenho uma tendência grande a arrogância. Já levei tijolada o suficiente pra saber que não é possível saber tudo.

--

Não acho que em algum momento eu vá acreditar cem por cento em alguma coisa novamente.

Não acho isso ruim. Alguma coisa acontece quando a gente abre mão de ter certezas na vida. Viver bem é brincar com possibilidades, não se cristalizar com verdades absolutas.

No fim das contas, a dúvida é uma amiga. Pode não ser a amiga mais confortável de conviver, mas é a que a gente tem.

Dá pra viver em paz com não saber a resposta. A vida é bonita o suficiente sendo só pergunta.

Fotocópias

"Não quero ficar falando mal dos meus pais, sabe? Eu sei que eles me amam." Troque "pais" por "namorado&qu...