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sorvete de ego sabor tinta de caneta
15.1.12
Cânceres
Um objetivo na vida é essencial.
Há quem vague - eu vago - pela própria existência esperando que ocorra algo que justifique a escrotidão do cotidiano. Que vive esperando que ocorra um momento - abracadabra! - em que apareça, magicamente, a mudança.
A questão é que a mudança é um parto. Ou a gente faz uma força imensa, arranca da gente mesmo aquilo que quer conquistar - pagando pelas decisões com que precise arcar - ou aquela bola de mudança-que-quer-ser vai acabar arregaçando nossa buceta simbólica rumo à existência.
E aí você muda porque está com câncer. A gente morre de câncer porque fechou as pernas pra vida. Não há Nossa Senhora do Bom Parto que dê conta de arrancar uma mudança de uma vida cancerígena.
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História mais real impossível: amiga minha morava com a madrinha, uma mulher de seus quase cinquenta anos, criada pra cuidar do marido e que, esperando por uma fada-madrinha que lhe trouxesse um marido, não conseguiu nenhum.
Sabe-se lá o tamanho da bênção que essa mulher teve por não ter se casado. Foi uma rebeldia à sua própria revelia. Acabou tendo que cuidar da mãe, já que foi criada pra ser criada e não arranjou homem nenhum pra chamar de mestre.
A mãe da madrinha da minha amiga é daquele tipo de pessoa que assiste o Datena. Daquele tipo de pessoa que adora tragédia, que vê o mundo como um perigo, os jovens como perdidos. Sua vida, uma luta.
Ai de você se reclamasse de estar doente perto dessa mulher. Você até ganharia sua parcela de carinho em forma de dó, mas te prepare pra ouvir as mazelas da velha (que vai precisar provar pra você com todas as letras que é uma desgraçada).
Voltando à madrinha da minha amiga (filha da desgraçada), sei que hoje ela está com um câncer horrível na vagina. Minha amiga, outro dia, viu a madrinha batendo a mão na pelve e gritando a plenos pulmões 'EU NUNCA USEI ESSA MERDA E AGORA ESSA BOSTA ACONTECE COMIGO!".
Talvez se tivesse usado, né?
O mais maluco da história é que, além da quimioterapia, o tratamento é esfregar um creme vagina adentro, com a ponta dos dedos. O creme ferve e arranca toda a pele superficial da região e devasta a bucetude da mulher. Uma masturbação forçada e a seco, que por mais dolorida que seja pode ser parte da cura.
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Uma mulher que conheço tinha uma frase ótima: "O que é do burro vem no cocho". O problema é passar a vida amarrado, esperando que a comida venha, né?
Esperando marido. Esperando carreira. Aguardando significado.
Se o que é do burro vem do cocho, compensa ter objetivo nessa vida? Existe objetivo que não envolva outra pessoa ou alguma condição que a gente não consegue controlar?
A primeira amiga que citei, a que morava com a madrinha, não tem a menor vontade de casar. Quer viajar o mundo sozinha. É dessas pessoas capazes - eu só sou capaz disso da boca pra fora. A língua fica solitária demais sem alguém pra falar - ou pra roçar uma língua na outra. Pra lamber as feridas, talvez.
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"A língua é o chicote da bunda", dizia a mãe de uma outra amiga minha, querendo dizer que quem julga acaba pagando pelo que falou.
Agora não sei onde que o câncer vai ser em mim, se na bunda ou na língua. Nos dois, quem sabe? Melhor segurar a minha língua antes que eu tome no cu.
7.1.12
A Gretchen e Eu
Dizem os psicanalistas que para realmente se ouvir uma pessoa se faz necessária uma escuta flutuante, isto é, permitir que a mente percorra livremente as possibilidades de cada palavra dita pelo outro, sem se prender à linearidade do que está sendo dito.
Não sei se sou capaz disto. Flutuar exige uma ação, um certo domínio sobre a água. Minha escuta não flutua, bóia. Quando vejo, já estou em outra onda e não faço nem ideia do que a outra pessoa está falando.
Talvez em uma clínica isso seja diferente. Talvez ficar boiando faça parte do negócio: seu paciente está falando sobre a mãe, você se perde num devaneio e só acorda quando escuta a palavra "Gretchen". Você pede pro paciente explicar melhor, ele tem um insight sobre como o amor de mãe é feito a bunda da Gretchen - também têm suas profundezas, dança conforme a música, não é o mesmo de vinte anos atrás - e pronto, você é o melhor psicanalista da paróquia.
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- Você não vai acreditar onde eu fui hoje! - disse meu amigo, como se tivesse acabado de voltar de Júpiter.
- Júpiter?
- Um show da Gretchen, Flávio! Um show da Gretchen! E você não vai acreditar...
- Foi bom?
- ...ela não tem uma celulitezinha!
Não respondi. Não sei o que ele queria que eu respondesse. Na falta de respostas, ele solta a punchline:
- Ela tem CRATERAS!
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Sempre achei a Gretchen uma mulher honesta. Sempre bancou ser uma bunda. Não peitos. Não um rosto bonito. Uma bunda. A primeira mulher-bunda da história brasileira. Uma heroína.
Hoje ela já não ostenta (ou sustenta) mais a bunda de antigamente, mas ainda ostenta (e se sustenta com) a bunda. Um pouco caída, mais cheia de ondulações que as dunas do Maranhão, uma bunda com uma história pra contar.
Uma bunda de mãe, que a filha aprendeu tanto a admirar que preferiu não competir na mesma categoria.
Tenho tanto desejo pela bunda da Gretchen quanto por uma mina terrestre, mas preciso admitir que é uma coisa admirável.
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Tudo isso porque a Gretchen lançou uma música nova e aproveitou sua última chance de tentar emplacar um trocadilho erótico. Ela faz "I'm cool" soar, ao mesmo tempo, como "Ai meu cu", como o grunhido de um porco e como a música dos anjos.
Na minha opinião, a música do verão 2012, e ai de mim se o Michel Teló me pega falando isso.
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Na verdade, tudo isso por uma questão ainda mais importante: Será que a bunda da Gretchen flutua?
Na verdade, tudo isso por uma questão ainda mais importante: Será que a bunda da Gretchen flutua?
26.12.11
Alargadores
Perdi a conta das vezes
que minha boca escorreu sangue depois de escovar os dentes. Todos os
sorrisos que me obrigo a dar para cada um dos clientes que
cumprimento a cada dia nesse meu emprego dos infernos se descontam
com passadas cada vez mais vorazes da escova média sobre a minha
gengiva.
Meu hálito fica uma
mistura de menta e sangue A+, mas pelo menos a raiva arranja um jeito
de ir embora e, de quebra, lava a falsidade dos meus sorrisos.
–
“Tira esse negócio da
cara, Flávio, pelo menos enquanto eu estiver na sua casa, por
favor.”
Palavras ditas com tanto
pânico pelo meu primo que eu não posso deixar de conferir se o que
eu tenho na orelha é um alargador ou uma faca com um olho na ponta.
Não entendo como uma criança de doze anos de idade se deixa levar
tão fácil pelo pensamento medíocre da sua família.
(Me sinto mal chamando
minha família de medíocre. São pessoas especiais e que eu amo
muito, mas que escolheram a mediocridade de uma religião absurda
para confinar suas vidas.)
No olhar do meu primo eu
fui capaz de ver toda a pressão pela qual eu passei quando fui,
também, uma testemunha de Jeová.
–
Eu mal tinha batido a
idade pra ser considerado adolescente. Meu irmão me chama no quarto
e pergunta se fui eu que salvei uma foto de um homem nu no
computador.
Eram outros tempos, a
internet era lenta – valia mais a pena salvar uma foto quando ela
carregava do que procurá-la novamente mais tarde. Vídeos, nem
pensar. Eram tempos mais românticos, você criava uma relação
especial com cada uma das imagens pornográficas que tinha.
Era uma pasta com mais ou
menos uns quinze namorados imaginários, desfilando suas pirocas na
galeria de imagens do computador. Pasta oculta, claro.
Não sei porque salvei
aquela foto na pasta errada. Talvez eu quisesse ser descoberto.
Lembro da foto como se a
tivesse visto hoje: Um homem, negro, de meias brancas, uma perna
tocando o chão e a outra com o joelho dobrado, oferecendo o seu
mastro marrom e usando um gorro de Papai Noel.
Mesmo naquela altura da
adolescência eu não era ridículo o suficiente por me atrair por
uma imagem dessas. Provavelmente salvei o arquivo simplesmente porque
a conexão discada me permitiu abrí-lo.
“Sim, fui eu” -
confessei ao meu irmão, já com lágrimas nos olhos, “Foi Jeová
que te fez ver isso, foi Jeová!”.
Chorei e implorei perdão
pela minha alma suja durante toda aquela noite – torcendo para que
meu irmão não contasse nada aos meus pais.
–
Provavelmente eu tinha, à
época, a mesma idade que meu primo tem hoje quando olha para meu
alargador e se ofende profundamente.
–
A mãe dele, uma das
pessoas que eu mais gosto no mundo - mesmo que só por me identificar
com a completa inadequação ao resto da família – já foi expulsa
da igreja, algum tempo atrás. Por ter se divorciado do marido, foi o
maior escândalo, e ainda descobrir que estava grávida, depois.
Expulsa das testemunhas
de Jeová, expulsa da casa dos pais, encontrou o apoio do meu pai,
que lhe deu um quarto em nossa casa e um emprego. Eu devia ter uns
cinco anos.
Lembro de pedir todos os
dias para que minha tia me levasse para a casa dos meus avós. Ela me
levava, eu lembro bem de suas mãos tremendo enquanto caminhávamos,
e enquanto eu brincava com as panelas da minha avó ela chorava na
sala ao lado, enquanto escutava dos meus avós o tamanho da decepção
que ela era para a família.
–
Pouco depois, ela voltou
para o ex-marido, teve um outro filho tão encantador quanto o
primeiro, e deixou de ser uma decepção tão grande.
Claro que engordou uns
trinta quilos na jogada.
–
E se eu for raciocinar
com ela que meu alargador é só a ponta do iceberg, só um furo que
eu estuprei em mim pra simbolizar o quanto eu alarguei o meu
pensamento, eu provavelmente vou escutar uma resposta pronta sobre
como ela saiu, viu o mundo fora da igreja e voltou.
–
Minhas gengivas ainda
estão escorrendo sangue.
Meu primo, que eu peguei
no colo enquanto o resto da família fazia sua mãe chorar, virou um
deles – um apontador de dedo, um jogador de pedras disfarçadas de
amor. Um carneirinho amedrontado pela perspectiva da destruição
eterna.
–
Ainda assim, me dá uma
felicidade tão grande vê-lo.
Ver toda a minha família,
na verdade. Eles podem sentir horror de tudo o que represento, mas
ainda são minha família. E é meu dever ser exatamente tudo o que
realmente sou quando estou na presença deles.
Não vale à pena
disfarçar o que sou só para ganhar um pouco de aprovação e afeto.
Seria a mesma coisa que, aos doze anos, falar que o homem pelado com
um gorro de Papai Noel apareceu no computador por engano. Por culpa
de um vírus.
Hoje eu entendo o porquê
de, mesmo chorando, minha tia me levar todos os dias para brincar na
casa de minha avó. Nem sempre uma ovelha negra é uma ovelha
desgarrada. Isso, suponho, é amor.
21.12.11
Madrugadas
Nos momentos mais solitários e interessantes da vida, me vi obrigado a me entender com as madrugadas. Apenas um insone tem real
noção do que é a eternidade.
Os dias, por mais
monótonos que sejam, sempre tem algo que os diferenciem. Pode ser
uma nuvem a mais no céu, um calor despropositado em pleno junho ou
um carro que bate num hidrante e espalha água pela vizinhança, mas
alguma coisa sempre distingue um dia do outro.
As madrugadas, não.
A temperatura, por mais
que varie, nunca vai ser tão influente como o clima que só as
madrugadas sabem ter. As horas – que na madrugada são
consideravelmetne mais longas – passam com um ritmo de pêndulo em
slow motion. O tempo vai e volta. Quanto maior a indisposição para
o sono, mais lenta a noite.
Mais o corpo se inquieta
querendo correr. Se a cabeça se engana e pensa que pode dormir, os
joelhos resolvem pedalar e o oásis de sono chegando vai embora.
Um céu nublado não
deixa a madrugada mais escura. No máximo, colore o teto do mundo de
cinza.
Setenta e nove por cento
da escrita humana foi desenvolvida durante a madrugada.
Não é por saudade da
mãe que os bebês choram à noite. É por falta de saber lidar com a
madrugada. (No útero é sempre noite, mas o bebê não consegue
lidar com o fato de que a madrugada acaba. No fundo, ele sabe que o
correto seria não acabar).
Crianças cuja concepção
ocorreu de madrugada tem mais caráter.
Quem nunca sofreu de
insônia prefere cachorros. Quem tem gato, tem madrugada na vida. O
gato é a madrugada em forma de bicho.
Numa madrugada produtiva,
um ser humano é incapaz de diferenciar se está em 2010 ou em 1958.
As dores de crescimento
acontecem de madrugada. As lágrimas por amores que se vão. O gozo
pelo amor que fica. O sonho do que ainda está para voltar.
O dia é para o trabalho.
A madrugada é para a filosofia. Deus ajuda quem vive a madruga.
O dia é coletivo. A
noite é para o casal. A madrugada, por sua vez, é uma experiência absolutamente solitária.
Os dias passam rápido,
as madrugadas não passam jamais.
A manhã, quando chega, é
a tristeza do insone. É como um maratonista que corre na direção
oposta da linha de chegada.
A luz do sol que me
perdoe, mas a madrugada é essencial.
E, como diria o Sinatra,
In the wee small hours
of the morning
Is the time you miss
her most of all.
18.12.11
Timidez
Nascer tímido não é, necessariamente, morrer tímido. Tímido seria provavelmente a última palavra que algum amigo meu usaria para me descrever.
Mesmo assim, eu procuro ter alguma privacidade. Algumas coisas privadas, nada realmente secreto.
O problema é quando você descobre que entrou num bate-papo de internet depois de brigar com o namorado, adicionou algumas pessoas no MSN (nunca mais tinha usado, mas minha mãe frequenta) e que agora todos seus amigos vêem "Flávio Voight adicionou NEGÃO_SARADO_QUER" nas suas atualizações.
--
O parágrafo anterior foi uma briga entre a primeira e a terceira pessoa, não foi? Na terapia, eu costumo falar "A gente faz" pra tudo que provavelmente só eu faço no mundo.
Aliás, foi a terapia que me fez escrever esse texto e atualizar esse blog depois de tanto tempo. Não dá pra ficar dois anos fazendo análise e falando que se sente bem quando escreve e... não escrever nunca.
Eu escrevia mais quando ouvia menos música. Escrevia pra aliviar os pensamentos bobos que nunca iam embora. Comecei a ouvir mais música pra me distrair e acabei passando 20 horas por dia com um fone-de-ouvido na orelha, um Asperger adquirido e a audição cagada. Parei de pensar e não escrevi mais.
Obrigado, Lady Gaga, por ajudar a literatura mundial.
--
Falando em terapia, eu estudo psicologia.
Estranho que esse é o meu blog e eu provavelmente nunca mencionei isso - talvez mencionasse se me dedicasse a atualizar mais de uma vez entre uma passagem do Halley e outra.
Agora pensa, eu arranjo um paciente um dia e ele procura meu nome no Google - que, até eu arranjar o paciente, já vai ter sido substituído por algum outro sistema de busca com menos jeito de yuppie-com-calças-até-o-umbigo.
Em vez de encontrar referências de um bom profissional, ele fica sabendo da minha amizade com o NEGÃO_SARADO_QUER.
--
Sabe aquelas fotos que ficam expostas por mais tempo do que o necessário, e fazem uma rua parecer com uma grande faixa colorida cheia de carros passando?
Então.
Eu sou assim. Não funciono sem super-exposição. Espero que meu namorado me perdoe.
2.9.11
Chucrute
Entrar para uma nova família não é tarefa fácil. Um sogro a conquistar, uma sogra a conquistar. Um sobrinho a fazer parar de vomitar na sua perna. Lógico, você desenvolve artifícios: um presente para o sogro, um elogio para a sogra, um empurrão discreto no sobrinho... E há ocasiões que podem facilitar o acesso à família da sua noiva (lembre-se: nesse momento você ainda tem vontade de entrar para a família, sem saber de onde está se metendo).
Ethel e Ervin, no entanto, eram os sogros perfeitos. Mantinham-se bêbados a maior parte do tempo, para disfarçar a surdez que já não era tão parcial assim. Mesmo quando ouviam, não entendiam muito bem o português - que chegaram a falar bem, antes da aposentadoria. Você dizia "bom dia", Ervin respondia "Opa!" e ria. Você dizia "Adorei o chucrute, Ethel" e recebia "Ah!" e uma gargalhada como resposta.
Hugo já tinha passado dois natais com a família da noiva. Ficou surpreso de passar tanto tempo sem nenhuma ameaça de morte caso o casamento não viesse logo. Era a família perfeita. Até a cunhada era boa gente. Não tinha bom papo, mas ficava quieta e sorria - até que arranjou um namorado.
Na estratégia de Hugo, isso era ótimo. No mínimo, um aliado. Quem sabe, um amigo. Um outro abençoado para dividir a família perfeita, uma pessoa a mais na mesa do Natal. Um bêbado a mais, um que pelo menos teria papo além de soltar pum e rir alto durante a ceia.
--
Era noite de Natal. O cunhado apareceu com flores para Ethel, que ficou maravilhada. "Por que eu nunca pensei nisso antes, pôxa?", pensou Hugo. Mancada. Ethel sorriu e disse "Que genro lindo que eu fui arranjar!".
Pânico. Ethel... falava? Bom, era um evento raro naquela família, mas acontece. Fazer o quê? O elogio era mérito do cunhado - mas tudo bem, mais hora ou menos hora ele também daria uma mancada e ficariam elas por elas.
O cunhado tirou uma faca enorme da mochila e foi em direção ao sogro. "Agora fodeu", pensou Hugo, "que bom.".
Ervin ergueu as mãos para o céu, fez cara de surpresa no rosto gordo e careca (ele conseguia ser gordo até na careca, como todo bom alemão de idade) e ninguém entendeu sua alegria.
"Uma kornkepffelhanger! Uma kornkepffelhanger! A faca perfeita para sohn töten ärgerlich!"
Foi o maior porre de noite de natal na vida de Hugo.
--
Foram dez anos de natais perdidos. Hugo nunca mais teve coragem de olhar para a cara dos sogros. Ele era o pior genro da face da Terra. Tudo culpa daquele cunhado maldito.
A noiva (que já tinha até virado esposa, convencida de que a ideia de casar em Paris só com a presença do Hugo era só romantismo e não pânico de encontrar os sogros) insistia todos os natais. "Que é isso, amor... Mágoa boba. Leva uma faca você também!".
Hugo sabia que não encontraria a faca certa. Chegou até a ir a um psicólogo para se tratar - quem sabe fosse loucura mesmo, quem sabe os sogros não o odiassem. Quem sabe, depois de tanto tempo, eles odiassem mesmo era o cunhado. Quem sabe a faca tivesse perdido o fio.
Foram dois anos de terapia. Era outubro e Hugo já tremia de ansiedade. No próximo natal, visitaria os sogros. Essa mágoa ia acabar.
--
Ethel colocou neve de mentirinha (na verdade, isopor raspado até formar bolinhas) em todo o teto da casa (na primeira chuva, o isopor entupiu todos os bueiros da vizinhança). A casa nunca pareceu tão aconchegante.
Hugo entrou, cumprimentou os sogros. "Aop!", disse Ervin, e riu. "Oi!", disse Ethel, e riu, somente para ser interrompida pela entrada do outro genro.
"Seu Ervin!" - maldito cunhado - "Olha aqui, outra kornkepffelhanger pro senhor!".
Não deu nem tempo de Ervin falar que adorou e que tinha o melhor genro do mundo. Hugo pulou no pescoço do cunhado e apertou até que o mal estivesse feito. Um cunhado a menos no mundo.
"Opa!", disse Ethel, e gargalhou.
Ethel e Ervin, no entanto, eram os sogros perfeitos. Mantinham-se bêbados a maior parte do tempo, para disfarçar a surdez que já não era tão parcial assim. Mesmo quando ouviam, não entendiam muito bem o português - que chegaram a falar bem, antes da aposentadoria. Você dizia "bom dia", Ervin respondia "Opa!" e ria. Você dizia "Adorei o chucrute, Ethel" e recebia "Ah!" e uma gargalhada como resposta.
Hugo já tinha passado dois natais com a família da noiva. Ficou surpreso de passar tanto tempo sem nenhuma ameaça de morte caso o casamento não viesse logo. Era a família perfeita. Até a cunhada era boa gente. Não tinha bom papo, mas ficava quieta e sorria - até que arranjou um namorado.
Na estratégia de Hugo, isso era ótimo. No mínimo, um aliado. Quem sabe, um amigo. Um outro abençoado para dividir a família perfeita, uma pessoa a mais na mesa do Natal. Um bêbado a mais, um que pelo menos teria papo além de soltar pum e rir alto durante a ceia.
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Era noite de Natal. O cunhado apareceu com flores para Ethel, que ficou maravilhada. "Por que eu nunca pensei nisso antes, pôxa?", pensou Hugo. Mancada. Ethel sorriu e disse "Que genro lindo que eu fui arranjar!".
Pânico. Ethel... falava? Bom, era um evento raro naquela família, mas acontece. Fazer o quê? O elogio era mérito do cunhado - mas tudo bem, mais hora ou menos hora ele também daria uma mancada e ficariam elas por elas.
O cunhado tirou uma faca enorme da mochila e foi em direção ao sogro. "Agora fodeu", pensou Hugo, "que bom.".
Ervin ergueu as mãos para o céu, fez cara de surpresa no rosto gordo e careca (ele conseguia ser gordo até na careca, como todo bom alemão de idade) e ninguém entendeu sua alegria.
"Uma kornkepffelhanger! Uma kornkepffelhanger! A faca perfeita para sohn töten ärgerlich!"
Foi o maior porre de noite de natal na vida de Hugo.
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Foram dez anos de natais perdidos. Hugo nunca mais teve coragem de olhar para a cara dos sogros. Ele era o pior genro da face da Terra. Tudo culpa daquele cunhado maldito.
A noiva (que já tinha até virado esposa, convencida de que a ideia de casar em Paris só com a presença do Hugo era só romantismo e não pânico de encontrar os sogros) insistia todos os natais. "Que é isso, amor... Mágoa boba. Leva uma faca você também!".
Hugo sabia que não encontraria a faca certa. Chegou até a ir a um psicólogo para se tratar - quem sabe fosse loucura mesmo, quem sabe os sogros não o odiassem. Quem sabe, depois de tanto tempo, eles odiassem mesmo era o cunhado. Quem sabe a faca tivesse perdido o fio.
Foram dois anos de terapia. Era outubro e Hugo já tremia de ansiedade. No próximo natal, visitaria os sogros. Essa mágoa ia acabar.
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Ethel colocou neve de mentirinha (na verdade, isopor raspado até formar bolinhas) em todo o teto da casa (na primeira chuva, o isopor entupiu todos os bueiros da vizinhança). A casa nunca pareceu tão aconchegante.
Hugo entrou, cumprimentou os sogros. "Aop!", disse Ervin, e riu. "Oi!", disse Ethel, e riu, somente para ser interrompida pela entrada do outro genro.
"Seu Ervin!" - maldito cunhado - "Olha aqui, outra kornkepffelhanger pro senhor!".
Não deu nem tempo de Ervin falar que adorou e que tinha o melhor genro do mundo. Hugo pulou no pescoço do cunhado e apertou até que o mal estivesse feito. Um cunhado a menos no mundo.
"Opa!", disse Ethel, e gargalhou.
1.9.11
Xerox (ou, Vasco da Gama Fotocópia Clube)
A camisa do Vasco da Gama chacoalhava na janela, presa por dois grampos num varal improvisado (preso entre uma porta fechada de guarda-roupa e o vãozinho da grade do berço). O bebê assistia o vaivém da camisa sem entender direito se aquilo era um urubu indeciso entre entrar e sair pela janela ou se era a noite oscilando com o dia - mas sabia que aquilo ia marcar sua vida para sempre.
A mãe não era vascaína, era o pai. Não me pergunte o forrobodó que acontecia na cabeça da criança quando, aos seis meses, foi jogado para cima pelo pai num grito de gol, em pleno estádio de futebol. Sorte (do bebê, ou do pai?) que caiu novamente nos braços paternos, aliviando a culpa do pai, que olhou para a esposa furiosa com cara de "Olha, coordenação motora! A gente vê por aqui.".
Os meses sem sexo (entre marido e esposa, não entre pai e filho) decorrentes da cena não foram penalidade suficiente: foi o primeiro gol comemorado entre os dois (pai e filho, não entre marido e esposa). Pelo pai, com um grito e um pulo. Pelo filho, com um berro e uma chupeta perdida.
A partir de então, era Vasco da Gama para toda a família.
--
As coisas acontecem mais ou menos assim: A gente nasce mudo (de palavras, não de barulho. Em barulho a gente já nasce fluente) e vai copiando tudo o que os pais falam, balbuciando e errando até falar exatamente as coisas que nossos pais nos falaram. As palavras foram copiadas, a impressão da fotocópia começa a acontecer).
Depois, não nos satisfaz mais falar só as palavras que nossos pais falam: os filhos começam a andar com passos iguais ("Olha lá, ele é tortinho pra esquerda igual o pai! Vai ser comuna!") e a reagir da mesma maneira: "Essa Coca é minha, filha da puta", que eu realmente ouvi da voz de um menino de uns três anos que conversava com a mãe, me fez pensar que o menino era filho de um pai viciado em Coca (espero que seja Cola).
Aí, quando a gente cresce e fica puto da cara com o espelho por ele mostrar o rosto do nosso pai e não o nosso, e vê que se fodeu exatamente da mesma maneira que nosso pai se fodeu na vida (perpetuando um ciclo de fodelança familiar-não-incestuosa), o jeito é procurar um jeito de se distrair.
É então que você vai pro jogo de futebol torcer pelo Vasco.
--
Tá certo que nem sempre a cópia sai muito bem. Talvez o processo de reprodução só se conclua quando o filho passa a beber a mesma cerveja que o pai e a reclamar dessa porra de antena que nunca pega da mesma maneira.
(Aliás, essa ideia de falar que vai reproduzir quando a espécie procria me incomoda um pouco. Porra, não é mais fácil criar uma criança? Tem que reproduzir, igualzinho?)
Quem sabe o processo não seja como o de uma fotocópia, e sim como um carimbo. Você é seu pai, esfregado numa almofada de tinta e pressionado contra uma folha em branco. Igualzinho, mas tudo ao contrário.
Seu pai concorda com isso desde o dia em que teve de te bater porque você gritou "Mengo!". Te ajeita, carimbão.
A mãe não era vascaína, era o pai. Não me pergunte o forrobodó que acontecia na cabeça da criança quando, aos seis meses, foi jogado para cima pelo pai num grito de gol, em pleno estádio de futebol. Sorte (do bebê, ou do pai?) que caiu novamente nos braços paternos, aliviando a culpa do pai, que olhou para a esposa furiosa com cara de "Olha, coordenação motora! A gente vê por aqui.".
Os meses sem sexo (entre marido e esposa, não entre pai e filho) decorrentes da cena não foram penalidade suficiente: foi o primeiro gol comemorado entre os dois (pai e filho, não entre marido e esposa). Pelo pai, com um grito e um pulo. Pelo filho, com um berro e uma chupeta perdida.
A partir de então, era Vasco da Gama para toda a família.
--
As coisas acontecem mais ou menos assim: A gente nasce mudo (de palavras, não de barulho. Em barulho a gente já nasce fluente) e vai copiando tudo o que os pais falam, balbuciando e errando até falar exatamente as coisas que nossos pais nos falaram. As palavras foram copiadas, a impressão da fotocópia começa a acontecer).
Depois, não nos satisfaz mais falar só as palavras que nossos pais falam: os filhos começam a andar com passos iguais ("Olha lá, ele é tortinho pra esquerda igual o pai! Vai ser comuna!") e a reagir da mesma maneira: "Essa Coca é minha, filha da puta", que eu realmente ouvi da voz de um menino de uns três anos que conversava com a mãe, me fez pensar que o menino era filho de um pai viciado em Coca (espero que seja Cola).
Aí, quando a gente cresce e fica puto da cara com o espelho por ele mostrar o rosto do nosso pai e não o nosso, e vê que se fodeu exatamente da mesma maneira que nosso pai se fodeu na vida (perpetuando um ciclo de fodelança familiar-não-incestuosa), o jeito é procurar um jeito de se distrair.
É então que você vai pro jogo de futebol torcer pelo Vasco.
--
Tá certo que nem sempre a cópia sai muito bem. Talvez o processo de reprodução só se conclua quando o filho passa a beber a mesma cerveja que o pai e a reclamar dessa porra de antena que nunca pega da mesma maneira.
(Aliás, essa ideia de falar que vai reproduzir quando a espécie procria me incomoda um pouco. Porra, não é mais fácil criar uma criança? Tem que reproduzir, igualzinho?)
Quem sabe o processo não seja como o de uma fotocópia, e sim como um carimbo. Você é seu pai, esfregado numa almofada de tinta e pressionado contra uma folha em branco. Igualzinho, mas tudo ao contrário.
Seu pai concorda com isso desde o dia em que teve de te bater porque você gritou "Mengo!". Te ajeita, carimbão.
14.3.11
Equívoco
Ela olhou pra mim como se eu fosse um leproso. Mais, olhou pra mim como se eu fosse um leproso que estuprara sua mãe.
Tudo bem, a primeira impressão nem sempre é a que fica. Marcar encontros pela internet pode dar nisso, até acho que a chance de terminar em decepção é de quase 100%. Isso só não me abala porque acho que a chance de qualquer relacionamento terminar em decepção é de quase 100%.
Ela me seguiu com os olhos conforme eu entrava no restaurante. A impressão que eu tinha é que ela pensava "Pode não ser ele. Pode ser uma coincidência. Pode ser outro homem com topete, gravata azul e uma rosa na lapela, tem tantos homens que se vestem assim no mundo."
Quem sabe o pensamento continuasse, "e que merda, Leocilde, se ele falou que ia de topete, gravata azul e rosa na lapela, já era um puta de um indício de que ele seria um cafonão desses."
Agora, eu não me decepcionei nadinha. Não que ela fosse uma beldade (e, chamando Leocilde, alguém vai ter uma chance na vida de se tornar uma beldade?), mas eu já esperava que ela fosse gordinha, cabelo loiro descolorido mais do que devia e tentando compensar o cabelo ralo com uma quantidade de laquê capaz de sufocar um animal pequeno.
Não tinha mais jeito de adiar. Me aproximei:
"Com licença... Leocilda?"
"LeocildEEE." Ela fez questão de demonstrar que não estava satisfeita. "Você deve ser o Jean."
"Eu mesmo."
Puxei a cadeira pra sentar.
"Desculpa o atraso, é que o trânsito..."
"Você não está atrasado, eu é que cheguei antes."
Ela falava sem tirar o olho da cestinha de pães à sua frente. Uma simpatia.
"Você não parece muito com a sua foto... Você não disse que usava óculos."
"É pra te ver melhor", disse eu, e ri amarelo.
Ela não gostou da referência à Chapeuzinho. Talvez sua vó tenha sido devorada por um lobo. Ou fugiu com um lenhador. Ou fugiu com um lobo, nunca se sabe.
Nisso, um outro homem entra no restaurante e começa a perambular por entre as mesas, como se procurasse alguém. Não encontrou e sentou-se no bar, com cara de quem espera. Olhava para o relógio a cada trinta segundos, só pra confirmar que trinta segundos tinham se passado.
A Leocílde parecia cada vez mais impaciente comigo. Pediu licença. "Vou ao toilette." O vocabulário era tão pretensamente fino que me irritava.
Enquanto caminhava rumo ao banheiro (provavelmente para pular pela janela), o homem que esperava por alguém a cutucou.
"Com licença, Leocilda?"
Ela ficou com cara de espanto.
"Sim, sou eu."
Ele estendeu a mão.
"Prazer, Jean!"
Qual a probabilidade?
Ela nem fez questão de voltar para a mesa e reparar o equívoco comigo. Sussurrou qualquer coisa no ouvido do homem e saíram juntos.
Fiquei decepcionado, não nego. Por mais que estivesse esperando uma decepção, não esperava esse tipo de engano acontecendo. Comecei a olhar ao meu redor, tentando tirar algo de bom da experiência. Vi uma mulher, loira, sozinha em uma mesa. Mais sem graça que a última, mas, pela cara, parecia menos presunçosa.
Caminhei até ela.
"Com licença... Leocilde?"
"LeocildAAA".
"Prazer, Jean... Peraí, você não tinha dito que usava óculos."
Claro, era só um equívoco. Agradeci, era uma decepção a menos por aquela noite.
Pelo menos até que eu visse os pêlos no pé dela.
Tudo bem, a primeira impressão nem sempre é a que fica. Marcar encontros pela internet pode dar nisso, até acho que a chance de terminar em decepção é de quase 100%. Isso só não me abala porque acho que a chance de qualquer relacionamento terminar em decepção é de quase 100%.
Ela me seguiu com os olhos conforme eu entrava no restaurante. A impressão que eu tinha é que ela pensava "Pode não ser ele. Pode ser uma coincidência. Pode ser outro homem com topete, gravata azul e uma rosa na lapela, tem tantos homens que se vestem assim no mundo."
Quem sabe o pensamento continuasse, "e que merda, Leocilde, se ele falou que ia de topete, gravata azul e rosa na lapela, já era um puta de um indício de que ele seria um cafonão desses."
Agora, eu não me decepcionei nadinha. Não que ela fosse uma beldade (e, chamando Leocilde, alguém vai ter uma chance na vida de se tornar uma beldade?), mas eu já esperava que ela fosse gordinha, cabelo loiro descolorido mais do que devia e tentando compensar o cabelo ralo com uma quantidade de laquê capaz de sufocar um animal pequeno.
Não tinha mais jeito de adiar. Me aproximei:
"Com licença... Leocilda?"
"LeocildEEE." Ela fez questão de demonstrar que não estava satisfeita. "Você deve ser o Jean."
"Eu mesmo."
Puxei a cadeira pra sentar.
"Desculpa o atraso, é que o trânsito..."
"Você não está atrasado, eu é que cheguei antes."
Ela falava sem tirar o olho da cestinha de pães à sua frente. Uma simpatia.
"Você não parece muito com a sua foto... Você não disse que usava óculos."
"É pra te ver melhor", disse eu, e ri amarelo.
Ela não gostou da referência à Chapeuzinho. Talvez sua vó tenha sido devorada por um lobo. Ou fugiu com um lenhador. Ou fugiu com um lobo, nunca se sabe.
Nisso, um outro homem entra no restaurante e começa a perambular por entre as mesas, como se procurasse alguém. Não encontrou e sentou-se no bar, com cara de quem espera. Olhava para o relógio a cada trinta segundos, só pra confirmar que trinta segundos tinham se passado.
A Leocílde parecia cada vez mais impaciente comigo. Pediu licença. "Vou ao toilette." O vocabulário era tão pretensamente fino que me irritava.
Enquanto caminhava rumo ao banheiro (provavelmente para pular pela janela), o homem que esperava por alguém a cutucou.
"Com licença, Leocilda?"
Ela ficou com cara de espanto.
"Sim, sou eu."
Ele estendeu a mão.
"Prazer, Jean!"
Qual a probabilidade?
Ela nem fez questão de voltar para a mesa e reparar o equívoco comigo. Sussurrou qualquer coisa no ouvido do homem e saíram juntos.
Fiquei decepcionado, não nego. Por mais que estivesse esperando uma decepção, não esperava esse tipo de engano acontecendo. Comecei a olhar ao meu redor, tentando tirar algo de bom da experiência. Vi uma mulher, loira, sozinha em uma mesa. Mais sem graça que a última, mas, pela cara, parecia menos presunçosa.
Caminhei até ela.
"Com licença... Leocilde?"
"LeocildAAA".
"Prazer, Jean... Peraí, você não tinha dito que usava óculos."
Claro, era só um equívoco. Agradeci, era uma decepção a menos por aquela noite.
Pelo menos até que eu visse os pêlos no pé dela.
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