Sexo: não adianta, nenhum de nós é confortável com ele. Virgens, prostitutas, solteiros e casados, pais e filhos, estamos todos em agum grau desconcertados pela nossa necessidade de sexo. O ser humano tem uma demanda brutal, incontrolável, por dois tipos de contato carnal – o entre duas pessoas e o entre os dentes e a carne de um Big Mac.
Encontramos nossos refúgios, entretanto. Já que ninguém vive sem – e quem vive costuma dizer que é casado com o Espírito Santo, que ou é um fantasma ou é uma Unidade Federativa inteira, o que desacredita um pouco a abnegação toda – acabamos achando artifícios que nos permitam mergulhar no sexo sem tanta preocupação com a nossa roupa de banho.
Um exemplo disso é a A.D.D.P – a Amiga Desencanada de Plantão, aquela a quem você recorre quando precisa ir para o combate e arranjar no braço uma pessoa corajosa o suficiente para transar com você. A A.D.D.P.não compartilha das suas neuroses quanto ao sexo, ela fala sobre sexo com a naturalidade de quem fala de flores. (Nota: a A.D.D.P geralmente é do sexo feminino. Todos os homens, em geral, assumem esse papel em algum momento de suas vidas, enquanto as mulheres são A.D.D.P. Para a vida toda.)
Ela fala alto. Ela usa decote, ela está sempre com um rolo novo e uma história divertida para contar sobre aquela vez em que ela pulou a cerca para entrar numa festa concorridíssima e acabou sendo pega pelo segurança, que a comeu de quatro enquanto ela planejava a forma certa de atacar o próximo pretendente na festa.
Martina era A.D.D.P. De todas as mulheres que já tinham cruzado com ela. Mulheres que conversavam com Martina na fila do pão já a chamavam de lado pedindo dica de lubrificante e perguntando se liberar a bundinha dói. “Dói nada, com paciência, cuspe e vontade tudo se consegue”, dizia Martina. Era invejada. Como Martina podia ser tão desencanada? “Bem-resolvida”, diziam as amigas.
Primeiro que “desencanada” é provavelmente a pior palavra na língua portuguesa. A idéia de uma pessoa estar presa em um cano, conseguir por uma fatalidade sair dele e portanto estar livre das preocupações dos outros mortais é patética.
Pois a primeira vez de Martina foi uma desgraça. Uma adolescente insegura como todas as adolescentes são, teve a sorte/azar de encontrar um homem que a encantou de tal forma que ela venceu a barreira da timidez e o convidou para sair. Ele disse que na casa dele era mais confortável. Ela foi.
Filme. Beijos. Paciência. Álcool. Roupas no chão.
Martina respirou fundo e pensou “É agora”. Ele veio sobre ela, e ela fantasiara com aquele momento por toda sua pequena vida, e ele era o homem mais experiente do mundo, e ele era seu príncipe, e ele parou e pediu ajuda.
Não conseguia colocar a camisinha sozinho. “Eu nunca fiz isso antes”, disse ele, morrendo de vergonha, “espero que você entenda”. Ela entendeu. Se fez de entendida e botou a camisinha nele (tinha aprendido numa revista. Todo seu conhecimento sobre sexo vinha de revistas, ela lia pilhas e pilhas, sabia de cor milhões de maneiras de como seduzir um homem – aliás, se surpreendia com as dicas dessas revistas em como os homens eram atraídos por fantasias de tigre, chantilly na vagina e banheiras cheias de gelatina. Mas se as revistas diziam, só podia ser verdade).
Camisinha colocada, clima interrompido mas a batalha continuava. Era hora de invadir as paredes de Tróia. Martina teve, também, a sorte/azar de ter um primeiro namorado muito bem dotado. A falta de experiência dos dois fez o ato todo ser tão elegante como três elefantes dançando balé em um piso coberto por bolinhas de gude.
Machucou. Doeu. Não deu pra terminar. Martina deixou pra outro dia. “Pelo menos eu tentei”. Pelo menos ela tentou.
Mas aí aconteceu que todos os rapazes que lhe cruzavam o caminho queriam tudo de cara, tudo o que ela tivera a sorte/azar de ter dado para alguém paciente antes. Se com paciência não dava certo, imagina sem!
Só que Martina era bem informada, e continuou dando conselhos para todas as amigas que se aproximavam. Era uma revista ambulante. As amigas invejavam toda a desenvoltura de Martina para falar de sexo.
Do primeiro para cá, já passaram uns dez anos. Martina teve a sorte/azar de sobreviver todo esse tempo sem sexo. Ela já não tem muita esperança; comprou um vibrador que ainda está na gaveta, sem usar por medo de doer. Já animou dezenas de amigas: “Imagina, colega! É fácil. Respira fundo e deixa que ele cuida de tudo!”. “Não, tenta você por cima, aí você goza mais fácil!”. “Tira a cabeça do chuveirinho, deixa na entradinha um pouco, e depois solta tudo no vaso!”.
As amigas comentavam entre elas sobre como Martina devia ser uma maluca na cama. Uma devassa. Uma mulher tão bem-resolvida. Mal sabiam elas, a amiga desencanada de plantão tinha entrado pelo cano. Semi-nova e semi-virgem – mas ótima na teoria.
Éter
Postado por
Flávio Voight
on 16.1.10
/
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E o meu pior castigo nessa vida é ser todo feito de intenção. De boa intenção o inferno está cheio, falam. Discordo. As intenções, boas ou más, moram no limbo.
Intenções: a morada do futuro. O futuro não chega. Nenhuma intenção se realiza. Quando há realização, não houve intenção prévia. A intenção planeja, a realização faz. Não existe futuro para quem realiza. É a mão no papel lutando contra a mão na massa.
Pretendo encontrar uma pessoa que depile minhas intenções. Que me arranque a pele que veste a vergonha de ser como os outros. Que me cutuque os olhos vermelhos até que fiquem cegos e secos. Que me proíba as lágrimas.
Eu posso mudar o mundo. Eu posso mover montanhas. Eu posso, mas não vou. Eu sou cabeça (fraca, úmida), não corpo. Eu sou intento, eu sou desatento demais para efetuar minhas vontades. Eu sou vento.
É pela intenção que eu me realizo. Eu quero tudo, eu quero o mundo, eu quero agora. Eu quero ser soberano, mas me recuso a lutar pelo meu reino. Por mais jardins que eu plante, as flores que nascerão vão brotar da terra. Prefiro meus jardins suspensos de pensamento, minha flora que bóia no éter.
Eu sou você amanhã. Mas só amanhã.
Por hoje, eu sou incapaz - mas juro, minha intenção é das melhores.
Intenções: a morada do futuro. O futuro não chega. Nenhuma intenção se realiza. Quando há realização, não houve intenção prévia. A intenção planeja, a realização faz. Não existe futuro para quem realiza. É a mão no papel lutando contra a mão na massa.
Pretendo encontrar uma pessoa que depile minhas intenções. Que me arranque a pele que veste a vergonha de ser como os outros. Que me cutuque os olhos vermelhos até que fiquem cegos e secos. Que me proíba as lágrimas.
Eu posso mudar o mundo. Eu posso mover montanhas. Eu posso, mas não vou. Eu sou cabeça (fraca, úmida), não corpo. Eu sou intento, eu sou desatento demais para efetuar minhas vontades. Eu sou vento.
É pela intenção que eu me realizo. Eu quero tudo, eu quero o mundo, eu quero agora. Eu quero ser soberano, mas me recuso a lutar pelo meu reino. Por mais jardins que eu plante, as flores que nascerão vão brotar da terra. Prefiro meus jardins suspensos de pensamento, minha flora que bóia no éter.
Eu sou você amanhã. Mas só amanhã.
Por hoje, eu sou incapaz - mas juro, minha intenção é das melhores.
Cuidados Médicos
Postado por
Flávio Voight
on 5.1.10
/
Comments: (1)
No urologista:
- Mas não se preocupe, esse corrimento deve parar em duas semanas.
- Ufa. Então tá tudo bem, doutor?
- Só tomar esse comprimido por duas semanas e evitar venezuelanas desmaiadas sem camisinha.
- Fácil de falar, difícil de fazer.
- Pra terminar a consulta, o senhor está sabendo da nova campanha de higiene peniana que o governo está fazendo?
- Campanha de higiene peniana? Mas pra quê campanha, é tão prático, dá pra lavar o pinto na pia mesmo.
- Eu já li isso em algum lugar. Mas enfim, leve o panfleto contigo.
O urologista entrega um panfleto ilustrado. A imagem? Um pênis, uma barra de sabão que provavelmente é do mesmo tipo utilizado por lavadeiras que trabalham em rios e uma torneira. Apenas uma legenda salva a imagem de alguma possível conotação sexual: "ÁGUA E SABÃO: OS MELHORES AMIGOS DO SEU AMIGO".
O paciente sorri.
- Ah, verdade! São amigos mesmo. Pelo menos, são amigos do meu. Todo fim de semana, meu pênis, uma torneira e uma barra de sabão vão juntos ao cinema.
- Como?
- Meu pinto tem carteirinha de meia-entrada.
- O que seu pinto estuda?
- Higiene bucal. Quer que eu demonstre?
- Como?
- Não que seja fino como um fio dental... Quer dizer, o senhor acabou de ver.
- Seu pênis tem corrimento, é melhor que o senhor evite sexo oral desprotegido pelos próximos dias.
Desconforto.
- Uhn, era uma piada, doutor.
- E também não seria legal expôr seu pênis no cinema. Quer dizer, eu vou com meus filhos lá.
- Isso também era uma piada.
- Ufa.
- E se não fosse piada, seria num cinema pornô.
- Mas é aí mesmo que eu levo minhas crianças.
O paciente deixa passar aqueles segundos necessários para se definir se a ironia dita era mesmo ironia.
- Ah, mas e o doutor não quer que seus filhos vejam pintos?
- Não os com corrimento.
- Ah, tá.
- Cinema pornô deixa pagar meia entrada com carteirinha?
- Bom, não sei...
- É cultural, não é?
- É a primeira sílaba de cultural, sim.
- Vou mandar fazer uma pra mim.
- O senhor não é estudante.
- Me recuso a pagar dezoito reais por um cineminha. Se for contar a entrada das crianças... Meu salário não aguenta.
- O senhor leva mesmo seus filhos no cinema pornô?
- Enfim, não vamos entrar em assuntos pessoais. Só uma pergunta, o seu pênis é habilitado em higiene bucal mesmo?
- Doutor, era só uma brincadeira...
- Que pena. Acho que o meu filho está com cáries...
- Acontece nas melhores famílias.
- Mas também, cada coisa que ele come quando vai ao cinema...
- Mas não se preocupe, esse corrimento deve parar em duas semanas.
- Ufa. Então tá tudo bem, doutor?
- Só tomar esse comprimido por duas semanas e evitar venezuelanas desmaiadas sem camisinha.
- Fácil de falar, difícil de fazer.
- Pra terminar a consulta, o senhor está sabendo da nova campanha de higiene peniana que o governo está fazendo?
- Campanha de higiene peniana? Mas pra quê campanha, é tão prático, dá pra lavar o pinto na pia mesmo.
- Eu já li isso em algum lugar. Mas enfim, leve o panfleto contigo.
O urologista entrega um panfleto ilustrado. A imagem? Um pênis, uma barra de sabão que provavelmente é do mesmo tipo utilizado por lavadeiras que trabalham em rios e uma torneira. Apenas uma legenda salva a imagem de alguma possível conotação sexual: "ÁGUA E SABÃO: OS MELHORES AMIGOS DO SEU AMIGO".
O paciente sorri.
- Ah, verdade! São amigos mesmo. Pelo menos, são amigos do meu. Todo fim de semana, meu pênis, uma torneira e uma barra de sabão vão juntos ao cinema.
- Como?
- Meu pinto tem carteirinha de meia-entrada.
- O que seu pinto estuda?
- Higiene bucal. Quer que eu demonstre?
- Como?
- Não que seja fino como um fio dental... Quer dizer, o senhor acabou de ver.
- Seu pênis tem corrimento, é melhor que o senhor evite sexo oral desprotegido pelos próximos dias.
Desconforto.
- Uhn, era uma piada, doutor.
- E também não seria legal expôr seu pênis no cinema. Quer dizer, eu vou com meus filhos lá.
- Isso também era uma piada.
- Ufa.
- E se não fosse piada, seria num cinema pornô.
- Mas é aí mesmo que eu levo minhas crianças.
O paciente deixa passar aqueles segundos necessários para se definir se a ironia dita era mesmo ironia.
- Ah, mas e o doutor não quer que seus filhos vejam pintos?
- Não os com corrimento.
- Ah, tá.
- Cinema pornô deixa pagar meia entrada com carteirinha?
- Bom, não sei...
- É cultural, não é?
- É a primeira sílaba de cultural, sim.
- Vou mandar fazer uma pra mim.
- O senhor não é estudante.
- Me recuso a pagar dezoito reais por um cineminha. Se for contar a entrada das crianças... Meu salário não aguenta.
- O senhor leva mesmo seus filhos no cinema pornô?
- Enfim, não vamos entrar em assuntos pessoais. Só uma pergunta, o seu pênis é habilitado em higiene bucal mesmo?
- Doutor, era só uma brincadeira...
- Que pena. Acho que o meu filho está com cáries...
- Acontece nas melhores famílias.
- Mas também, cada coisa que ele come quando vai ao cinema...
Culpa dela
Postado por
Flávio Voight
on 16.12.09
/
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Lá vem a noiva, a bela noiva.
A noiva que nunca imaginou que uma limousine pudesse ser tão claustrofóbica. O vestido sufocando-lhe as pernas e o corsete obrigando as costelas a fazerem agressivas cócegas nos pulmões - cócegas que não faziam riar, cócegas que lhe feriam. Ela queria mesmo era chamar a mãe, e chorar no seu colo.
Não adiantaria nada, ela já tinha chorado no colo da mãe na noite anterior. A mãe conseguiu acalmá-la e convencê-la de que o nervosismo era natural, obrigatório antes de um acontecimento tão importante na vida de uma mulher.
De uma mulher, só de uma mulher.
Não se pensa no noivo numa hora dessas? Bem, o noivo não devia ter um corsete lhe apertando. É mais fácil manter a calma quando o diafragma não está amortecido.
A noiva nunca ligou muito para o noivo, mesmo. Ela se sentiu solitária a vida toda, não podia se dar ao luxo de dispensar tão incrível cavalheiro, o homem ligeiramente barrigudo mas encarável, com uma feiúra que, na luz certa, passava por beleza. Ele estava ali e a queria. Isso bastava.
Bastava?
Lá vem a noiva, a bela noiva.
A noiva que nunca imaginou que maquiagem pudesse fazer tanto calor. "Ainda bem que existe maquiagem à prova de água", pensou ela enquanto o buço jorrava litros de lágrima que não podia sair pelos olhos.
A noiva que pagou o aluguel do vestido em prestação. O noivo era rico, mas nunca lhe deu muitos presentes. Só alguma coisa que mostrasse como o casamento seria um bom negócio. "Depois do casamento", se iludia a noiva, "eu recupero o investimento".
Lá vem a noiva, a prudente noiva.
Aquela que sabia investir até no casamento. Aquela que sabia que se aprende a amar, e que paixões são perda de tempo. Paixões são coisa de gente carente. Não que ela não fosse carente, mas a carência sabia que nunca seria extinta e sabia que dinheiro não é tão fácil assim.
Lá vem a noiva.
A limousine estacionada a duas quadras da igreja. O noivo se atrasou.
Pela primeira vez, uma emoção direcionada a ele. Raiva. O noivo era cortês, fazia esforço para agradá-la na cama - ela que não fazia muito esforço pra gostar -, era polido e distinto. Pontual. Sempre pontual.
Ela que tinha o direito de se atrasar, oras. Não ele! Ela que era a esperta da história, não ele! Ele era a pessoa disposta a pagar pelo produto "Noiva Perfeita", e ele deveria desempenhar o papel "Marido ideal". O "Marido Ideal" não se atrasa, pombas.
Lá vem o noivo.
E a noiva se frustra. Seria tão bom se ele não tivesse aparecido. Mas apareceu. A limousine ruma para a igreja.
Hora de fechar o negócio. Ela capricha na cara de princesa da Disney. Torce para que ninguém perceba o Nilo que brota do seu buço.
"Eu aceito".
Ela aceitou a mentira de que ele era o príncipe encantado.
Ela fingiu ter vocação pra Cinderella.
Ainda hoje, ela diz que não foi culpa dela.
A noiva que nunca imaginou que uma limousine pudesse ser tão claustrofóbica. O vestido sufocando-lhe as pernas e o corsete obrigando as costelas a fazerem agressivas cócegas nos pulmões - cócegas que não faziam riar, cócegas que lhe feriam. Ela queria mesmo era chamar a mãe, e chorar no seu colo.
Não adiantaria nada, ela já tinha chorado no colo da mãe na noite anterior. A mãe conseguiu acalmá-la e convencê-la de que o nervosismo era natural, obrigatório antes de um acontecimento tão importante na vida de uma mulher.
De uma mulher, só de uma mulher.
Não se pensa no noivo numa hora dessas? Bem, o noivo não devia ter um corsete lhe apertando. É mais fácil manter a calma quando o diafragma não está amortecido.
A noiva nunca ligou muito para o noivo, mesmo. Ela se sentiu solitária a vida toda, não podia se dar ao luxo de dispensar tão incrível cavalheiro, o homem ligeiramente barrigudo mas encarável, com uma feiúra que, na luz certa, passava por beleza. Ele estava ali e a queria. Isso bastava.
Bastava?
Lá vem a noiva, a bela noiva.
A noiva que nunca imaginou que maquiagem pudesse fazer tanto calor. "Ainda bem que existe maquiagem à prova de água", pensou ela enquanto o buço jorrava litros de lágrima que não podia sair pelos olhos.
A noiva que pagou o aluguel do vestido em prestação. O noivo era rico, mas nunca lhe deu muitos presentes. Só alguma coisa que mostrasse como o casamento seria um bom negócio. "Depois do casamento", se iludia a noiva, "eu recupero o investimento".
Lá vem a noiva, a prudente noiva.
Aquela que sabia investir até no casamento. Aquela que sabia que se aprende a amar, e que paixões são perda de tempo. Paixões são coisa de gente carente. Não que ela não fosse carente, mas a carência sabia que nunca seria extinta e sabia que dinheiro não é tão fácil assim.
Lá vem a noiva.
A limousine estacionada a duas quadras da igreja. O noivo se atrasou.
Pela primeira vez, uma emoção direcionada a ele. Raiva. O noivo era cortês, fazia esforço para agradá-la na cama - ela que não fazia muito esforço pra gostar -, era polido e distinto. Pontual. Sempre pontual.
Ela que tinha o direito de se atrasar, oras. Não ele! Ela que era a esperta da história, não ele! Ele era a pessoa disposta a pagar pelo produto "Noiva Perfeita", e ele deveria desempenhar o papel "Marido ideal". O "Marido Ideal" não se atrasa, pombas.
Lá vem o noivo.
E a noiva se frustra. Seria tão bom se ele não tivesse aparecido. Mas apareceu. A limousine ruma para a igreja.
Hora de fechar o negócio. Ela capricha na cara de princesa da Disney. Torce para que ninguém perceba o Nilo que brota do seu buço.
"Eu aceito".
Ela aceitou a mentira de que ele era o príncipe encantado.
Ela fingiu ter vocação pra Cinderella.
Ainda hoje, ela diz que não foi culpa dela.
Astronauta
Postado por
Flávio Voight
on 27.11.09
/
Comments: (5)
Acontece que sempre que eu olho pela janela tem um avião passando.
São muitos aviões passando todo dia, e cada um vai para um lugar diferente. E eu não consigo nem sair do apartamento!
O décimo-sétimo andar do prédio-poleiro me parece suficiente para viver em paz, quando eu não lembro que divido meu espaço com gente que ouve cada grito que eu solto quando me sinto sozinho demais e o silêncio me aperta a faringe.
É pra não parecer sozinho. Olha só, eu rio! Os vizinhos sabem que eu rio. Tem dias que eu chego em casa e rio bem alto, por horas a fio. É pra eles saberem que eu sou feliz. Só que ninguém é feliz assim, de ser só feliz, então tem dias que eu também choro. Mas eu choro sempre bem baixinho, porque bem baixinho é o meu jeito de chorar. Eu choro bem baixinho porque eu sei que se eu chorasse bem alto, eu ia incomodar os outros.
Aí, pra que saibam que eu não sou feliz o tempo todo e que eu não sou doente de só ficar em casa rindo, eu dou uns soluços bem altos. Aí eles percebem.
E pra não pensarem que é solidão, de vez em quando eu pego o celular e vou pra janela pra conversar com alguém. Meu celular não tem créditos. Não tem nem bateria, acho. Não lembro quando foi a última vez que conversei com alguém. Mas eu estou ali, todos os dias, meia hora na janela falando ao telefone.
"Estou com saudades!", eu me despeço bem alto. "Mal posso esperar pra te ver de novo". E desligo de mentirinha.
Aí eles sabem que eu gosto de alguém. E que eu sinto saudades.
Mal sabem eles que eu não gosto, nem sinto saudades - simplesmente porque eu não conheço o outro lado da linha. Não há outro lado na linha.
E quando eu desligo o celular de mentirinha, eu olho pra cima e vejo um avião passando.
Sempre que eu olho pela janela tem um avião passando. E ele passa por cima de mim, me atropelando sem saber.
Sem saber que um dia eu vou sair desse apartamento.
Que um dia eu vou gostar de alguém de verdade, e sentir saudades de verdade, e pegar um avião e ir pra bem longe, pra bem perto de onde a saudade apontar.
E aí o apartamento vai me parecer tão pequeno.
E depois de um tempo, o mundo vai me aparecer tão pequeno.
E depois de mais tempo, aviões não vão mais me bastar.
Aí eu viro astronauta, e fujo desse planeta pra nunca mais voltar.
São muitos aviões passando todo dia, e cada um vai para um lugar diferente. E eu não consigo nem sair do apartamento!
O décimo-sétimo andar do prédio-poleiro me parece suficiente para viver em paz, quando eu não lembro que divido meu espaço com gente que ouve cada grito que eu solto quando me sinto sozinho demais e o silêncio me aperta a faringe.
É pra não parecer sozinho. Olha só, eu rio! Os vizinhos sabem que eu rio. Tem dias que eu chego em casa e rio bem alto, por horas a fio. É pra eles saberem que eu sou feliz. Só que ninguém é feliz assim, de ser só feliz, então tem dias que eu também choro. Mas eu choro sempre bem baixinho, porque bem baixinho é o meu jeito de chorar. Eu choro bem baixinho porque eu sei que se eu chorasse bem alto, eu ia incomodar os outros.
Aí, pra que saibam que eu não sou feliz o tempo todo e que eu não sou doente de só ficar em casa rindo, eu dou uns soluços bem altos. Aí eles percebem.
E pra não pensarem que é solidão, de vez em quando eu pego o celular e vou pra janela pra conversar com alguém. Meu celular não tem créditos. Não tem nem bateria, acho. Não lembro quando foi a última vez que conversei com alguém. Mas eu estou ali, todos os dias, meia hora na janela falando ao telefone.
"Estou com saudades!", eu me despeço bem alto. "Mal posso esperar pra te ver de novo". E desligo de mentirinha.
Aí eles sabem que eu gosto de alguém. E que eu sinto saudades.
Mal sabem eles que eu não gosto, nem sinto saudades - simplesmente porque eu não conheço o outro lado da linha. Não há outro lado na linha.
E quando eu desligo o celular de mentirinha, eu olho pra cima e vejo um avião passando.
Sempre que eu olho pela janela tem um avião passando. E ele passa por cima de mim, me atropelando sem saber.
Sem saber que um dia eu vou sair desse apartamento.
Que um dia eu vou gostar de alguém de verdade, e sentir saudades de verdade, e pegar um avião e ir pra bem longe, pra bem perto de onde a saudade apontar.
E aí o apartamento vai me parecer tão pequeno.
E depois de um tempo, o mundo vai me aparecer tão pequeno.
E depois de mais tempo, aviões não vão mais me bastar.
Aí eu viro astronauta, e fujo desse planeta pra nunca mais voltar.
Humberto
Postado por
Flávio Voight
on 26.11.09
/
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Como era homem que o mundo pediu pra nascer naquele exato minuto, naquela cidade árida do Centro-Oeste? Porque o resultado do pedido saiu muito estranho.
Não foi erro na fôrma, nasceu um entre muitos iguais. Mas nasceu estragadinho. Como quando você vai ao supermercado e está escolhendo pepinos, e vê aquele pepino lindo, verde e pepinesco. Vai apalpar o pepino (não me pergunte o porquê de eu ter escolhido um pepino, sometimes a cucumber is just a cucumber), e percebe o pepino tem uma bolota pepínica grudada ao lado. Nem o psicanalista mais bem-resolvido compraria aquele símbolo fálico. Nada de errado com o pepino, mas é estranho.
Estou dando a impressão de que Humberto era um machão, comparando-o com pepinos desse jeito. Também não era efeminado, sua voz grossa de assustar, sua presença estranha. Mas tinha uma delicadeza mais do que feminina nos modos.
Humberto não queria desagradar. É só acordar com a pá virada um dia para entender como as pessoas desagradam. As pessoas não dizem bom-dia, as pessoas não pedem favor, as pessoas saem desleixadas, as pessoas... são pessoas demais e gente de menos.
E usou toda a força com a qual nasceu para forjar uma armadura. Endureceu (não por dentro, porque permanecia frágil, conscientemente frágil, mas Humberto pensava que podia esconder isso dos outros). Endureceu de medo.
Humberto nunca tinha dançado, não em público. Às vezes, quando ainda era criança, dançava em frente à televisão quando via algum artista. Depois odiava o artista. Odiava! Maldito artista! Por quê o artista podia dançar e ele não?
Ele não dançava.
Mas quarenta anos passam como passa uma agulha sobre um disco de vinil – às vezes travando, às vezes furando, mas passando. Humberto engessado, os anos passando.
Mas Humberto quis dançar. Foda-se o Centro-Oeste, pensou ele – mas pensou com outras palavras, foder não fazia parte de seu vocabulário ou de seu repertório de atitudes. Juntou o dinheiro que ganhava na Vigilância Sanitária – seu empolgante emprego de segunda a sexta-feira, quando ele não era o heróico Homem de Gesso, que não sentia nem movia nem dançava – e comprou uma passagem para São Paulo.
Desconhecidos. A Revolução, como Humberto chamou o acontecido daquele dia em diante, foi uma festa. A primeira festa de Humberto. Desconhecidos assustados pelo jeito engessado de ser. Desconhecidos fascinados pela falta de desenvoltura social. Desconhecidos que não davam a mínima. Paulistas.
A música, alta e estranha. As mulheres, girafas, altas e estranhas. Os homens, correndo seminus e pulando em piscinas, estranhos. Humberto se sentiu em casa.
Humberto dançou! E quem disse que ele não sabia dançar?
Bom, quem disse isso provavelmente estava certo. Ele não sabia, mas o que importava era dançar, não importava como.
E o grande feito do Homem de Gesso foi ter se deixado quebrar.
A carcaça pode até voltar com o tempo, pra evitar a criptonita do dia-a-dia. Mas Humberto era um super-herói, e ele dançava.
Mesmo sendo um pepino deformado.
Não foi erro na fôrma, nasceu um entre muitos iguais. Mas nasceu estragadinho. Como quando você vai ao supermercado e está escolhendo pepinos, e vê aquele pepino lindo, verde e pepinesco. Vai apalpar o pepino (não me pergunte o porquê de eu ter escolhido um pepino, sometimes a cucumber is just a cucumber), e percebe o pepino tem uma bolota pepínica grudada ao lado. Nem o psicanalista mais bem-resolvido compraria aquele símbolo fálico. Nada de errado com o pepino, mas é estranho.
Estou dando a impressão de que Humberto era um machão, comparando-o com pepinos desse jeito. Também não era efeminado, sua voz grossa de assustar, sua presença estranha. Mas tinha uma delicadeza mais do que feminina nos modos.
Humberto não queria desagradar. É só acordar com a pá virada um dia para entender como as pessoas desagradam. As pessoas não dizem bom-dia, as pessoas não pedem favor, as pessoas saem desleixadas, as pessoas... são pessoas demais e gente de menos.
E usou toda a força com a qual nasceu para forjar uma armadura. Endureceu (não por dentro, porque permanecia frágil, conscientemente frágil, mas Humberto pensava que podia esconder isso dos outros). Endureceu de medo.
Humberto nunca tinha dançado, não em público. Às vezes, quando ainda era criança, dançava em frente à televisão quando via algum artista. Depois odiava o artista. Odiava! Maldito artista! Por quê o artista podia dançar e ele não?
Ele não dançava.
Mas quarenta anos passam como passa uma agulha sobre um disco de vinil – às vezes travando, às vezes furando, mas passando. Humberto engessado, os anos passando.
Mas Humberto quis dançar. Foda-se o Centro-Oeste, pensou ele – mas pensou com outras palavras, foder não fazia parte de seu vocabulário ou de seu repertório de atitudes. Juntou o dinheiro que ganhava na Vigilância Sanitária – seu empolgante emprego de segunda a sexta-feira, quando ele não era o heróico Homem de Gesso, que não sentia nem movia nem dançava – e comprou uma passagem para São Paulo.
Desconhecidos. A Revolução, como Humberto chamou o acontecido daquele dia em diante, foi uma festa. A primeira festa de Humberto. Desconhecidos assustados pelo jeito engessado de ser. Desconhecidos fascinados pela falta de desenvoltura social. Desconhecidos que não davam a mínima. Paulistas.
A música, alta e estranha. As mulheres, girafas, altas e estranhas. Os homens, correndo seminus e pulando em piscinas, estranhos. Humberto se sentiu em casa.
Humberto dançou! E quem disse que ele não sabia dançar?
Bom, quem disse isso provavelmente estava certo. Ele não sabia, mas o que importava era dançar, não importava como.
E o grande feito do Homem de Gesso foi ter se deixado quebrar.
A carcaça pode até voltar com o tempo, pra evitar a criptonita do dia-a-dia. Mas Humberto era um super-herói, e ele dançava.
Mesmo sendo um pepino deformado.
Os vizinhos
Postado por
Flávio Voight
on 25.11.09
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Comments: (3)
Urgência e calma parecem se entrelaçar. É quando corro, quando estou atrasado - e estou quase sempre atrasado para tudo - é daí que emerge a calma que me mantém respirando e fazendo.
(a pressa inibe de fazer, a pressa não é inimiga da perfeição, e sim amiga demais do planejamento. Poupar tempo, poupar tempo, executar tarefas, mas como? se eu tenho tão pouco tempo, e o que consegue ser feito é feito pelo avesso)
É quando o despertador toca que eu passo a desenhar o dia que nasceu antes de que eu tomasse consciência dele. O dia é uma folha em branco, eu sou uma mão que - dependendo do dia - segura o lápis com mais ou menos força. E a Terra é a mesa que me apóia.
O problema é que a Terra gira, e não dá pra desenhar direito quando a mesa em que se apóia gira. E o meu punho não é tão firme, e eu não sou um desenhista talentoso, mesmo com dezenove anos de prática. E o que fazer do dia?
Desenhar olhos no dia? Como um psicótico que enxerga na indiferença alheia uma platéia atenta e julgadora que exige de mim a perfeição estalada de ruído musical. Não quero.
Desenhar com calma? Pra terminar mais rápido. E depois virar a página por ir dormir.
E é quando eu durmo que surge a urgência. É muito pensamento, é um planejamento desconexo e sem fim. É preocupação. É uma música que não quer parar de tocar. É uma memória incômoda. É fome,é inspiração, é impulso.
Mas eu posso lutar contra a urgência. É só fingir que se acostuma com ela. É só esperar, urgentemente, que a urgência acabe. Com sorte, eu caio no sono.
(Quando eu era menor, pensava que minha cama era capaz de voar. Que eu dormia e ela saía pela janela, flutuando sobre o mundo como um tapete mágico. Às vezes eu era mais esperto que ela, e logo antes de cair no sono, no meio daquela urgência toda, sentia um movimento. Abria os olhos muito rápido, muito atento, muito criança. A cama disfarçava e voltava a pousar em terra firme. Mas não me enganava, eu sabia que ela estava tentando voar.)
Talvez daí que apareça a urgência de estar na cama. Ela é uma estação de trem, um aeroporto, uma fronteira. Um ponto de partida. E os minutos antes de dormir são o copo trêmulo de whisky na mão enquanto se espera o embarque para uma nova página em branco que surge com o toque de um despertador.
O que é o sono? Calma ou urgência? A preguiça quando se acorda é urgente, é um soldado na trincheira lutando contra a necessidade de levantar e abandonar o conforto morno de um acolchoado. Mas e o sono? Quem sabe seja verdadeira a minha ilusão infantil e o sono seja uma viagem forçada. Turismo espiritual, à minha revelia.
Mas eu acordo antes que o despertador me chame. Um barulho insistente de passos surge por detrás da parede que me permeia. Só escuto um chiado insistente de desespero. Algumas vozes, distantes por uma parede, que falam coisas que eu não reconheço e que são urgentes. Eu escuto.
Não sei o que se passa, mas não é assim que eu queria desenhar esse dia. A mesa gira como se estivesse possuída, e agora é meu horário de descanso, eu não nasci pra ilustrar a noite, eu nasci pra desenhar o dia - enxergando tudo claramente, com expediente controlado.
A porta do apartamento ao lado se tranca por fora. Escuto passos no corredor, o casamento que mora ao meu lado está saindo. Silêncio.
O silêncio chuta minha calma, joga todas suas fichas para que eu me torne alerta; Fico escutando o silêncio até que ele me conte o que aconteceu com o casamento que mora ao meu lado. Sou interrompido por um carro que sai, furioso, portão afora.
O lápis está na minha mão e a madrugada está alta. Será que morreu alguém? Qual será o nome dos meus vizinhos? Será que eles se incomodam do barulho que eu faço? Será que morreu alguém?
Decido que morreu a mãe dela. Ele está ansioso. Ela está sem muita reação, e buscou uma roupa e uma bolsa qualquer no cabideiro que eu imagino que o casamento guarde no canto do quarto, e abandonou a cama desarrumada como imagino que ela nunca a abandone. Ele só pensa em decidir, em ligar o carro e ir para algum lugar.
Ele age por instinto, não por sentimento. Ela agora deve estar em silêncio, gelada e branca, no banco do passageiro, enquanto ele leva uma multa que vai ser difícil de pagar por causa das despesas do enterro. Ela nunca se sentiu tão perdida. Ele nunca amou tanto a esposa como naquele momento.
O silêncio volta. Eles já devem estar longe, agora. Espero que ela se sinta melhor, amanhã. Que daqui a pouco ela consiga quebrar o choque e chorar. E que ele consiga apertar o corpo dela contra o seu, como quem diz "Se pudesse, te engoliria e você não sofreria mais, e o meu calor seria o teu calor e não sofrerias mais".
Será que a morte é urgente? A sogra (dele) já está num sono profundo. A cama metálica da geladeira do hospital, sabendo que ela não está olhando, deve estar preparada para voar sobre o mundo. Se ainda a mãe (dela) pudesse abrir os olhos, faria a cama pousar, mas não é mais capaz. A morte é a coisa mais urgente que existe.
E nessa urgência, adormeço.
(a pressa inibe de fazer, a pressa não é inimiga da perfeição, e sim amiga demais do planejamento. Poupar tempo, poupar tempo, executar tarefas, mas como? se eu tenho tão pouco tempo, e o que consegue ser feito é feito pelo avesso)
É quando o despertador toca que eu passo a desenhar o dia que nasceu antes de que eu tomasse consciência dele. O dia é uma folha em branco, eu sou uma mão que - dependendo do dia - segura o lápis com mais ou menos força. E a Terra é a mesa que me apóia.
O problema é que a Terra gira, e não dá pra desenhar direito quando a mesa em que se apóia gira. E o meu punho não é tão firme, e eu não sou um desenhista talentoso, mesmo com dezenove anos de prática. E o que fazer do dia?
Desenhar olhos no dia? Como um psicótico que enxerga na indiferença alheia uma platéia atenta e julgadora que exige de mim a perfeição estalada de ruído musical. Não quero.
Desenhar com calma? Pra terminar mais rápido. E depois virar a página por ir dormir.
E é quando eu durmo que surge a urgência. É muito pensamento, é um planejamento desconexo e sem fim. É preocupação. É uma música que não quer parar de tocar. É uma memória incômoda. É fome,é inspiração, é impulso.
Mas eu posso lutar contra a urgência. É só fingir que se acostuma com ela. É só esperar, urgentemente, que a urgência acabe. Com sorte, eu caio no sono.
(Quando eu era menor, pensava que minha cama era capaz de voar. Que eu dormia e ela saía pela janela, flutuando sobre o mundo como um tapete mágico. Às vezes eu era mais esperto que ela, e logo antes de cair no sono, no meio daquela urgência toda, sentia um movimento. Abria os olhos muito rápido, muito atento, muito criança. A cama disfarçava e voltava a pousar em terra firme. Mas não me enganava, eu sabia que ela estava tentando voar.)
Talvez daí que apareça a urgência de estar na cama. Ela é uma estação de trem, um aeroporto, uma fronteira. Um ponto de partida. E os minutos antes de dormir são o copo trêmulo de whisky na mão enquanto se espera o embarque para uma nova página em branco que surge com o toque de um despertador.
O que é o sono? Calma ou urgência? A preguiça quando se acorda é urgente, é um soldado na trincheira lutando contra a necessidade de levantar e abandonar o conforto morno de um acolchoado. Mas e o sono? Quem sabe seja verdadeira a minha ilusão infantil e o sono seja uma viagem forçada. Turismo espiritual, à minha revelia.
Mas eu acordo antes que o despertador me chame. Um barulho insistente de passos surge por detrás da parede que me permeia. Só escuto um chiado insistente de desespero. Algumas vozes, distantes por uma parede, que falam coisas que eu não reconheço e que são urgentes. Eu escuto.
Não sei o que se passa, mas não é assim que eu queria desenhar esse dia. A mesa gira como se estivesse possuída, e agora é meu horário de descanso, eu não nasci pra ilustrar a noite, eu nasci pra desenhar o dia - enxergando tudo claramente, com expediente controlado.
A porta do apartamento ao lado se tranca por fora. Escuto passos no corredor, o casamento que mora ao meu lado está saindo. Silêncio.
O silêncio chuta minha calma, joga todas suas fichas para que eu me torne alerta; Fico escutando o silêncio até que ele me conte o que aconteceu com o casamento que mora ao meu lado. Sou interrompido por um carro que sai, furioso, portão afora.
O lápis está na minha mão e a madrugada está alta. Será que morreu alguém? Qual será o nome dos meus vizinhos? Será que eles se incomodam do barulho que eu faço? Será que morreu alguém?
Decido que morreu a mãe dela. Ele está ansioso. Ela está sem muita reação, e buscou uma roupa e uma bolsa qualquer no cabideiro que eu imagino que o casamento guarde no canto do quarto, e abandonou a cama desarrumada como imagino que ela nunca a abandone. Ele só pensa em decidir, em ligar o carro e ir para algum lugar.
Ele age por instinto, não por sentimento. Ela agora deve estar em silêncio, gelada e branca, no banco do passageiro, enquanto ele leva uma multa que vai ser difícil de pagar por causa das despesas do enterro. Ela nunca se sentiu tão perdida. Ele nunca amou tanto a esposa como naquele momento.
O silêncio volta. Eles já devem estar longe, agora. Espero que ela se sinta melhor, amanhã. Que daqui a pouco ela consiga quebrar o choque e chorar. E que ele consiga apertar o corpo dela contra o seu, como quem diz "Se pudesse, te engoliria e você não sofreria mais, e o meu calor seria o teu calor e não sofrerias mais".
Será que a morte é urgente? A sogra (dele) já está num sono profundo. A cama metálica da geladeira do hospital, sabendo que ela não está olhando, deve estar preparada para voar sobre o mundo. Se ainda a mãe (dela) pudesse abrir os olhos, faria a cama pousar, mas não é mais capaz. A morte é a coisa mais urgente que existe.
E nessa urgência, adormeço.
Aos meus treze anos
Postado por
Flávio Voight
on 23.11.09
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Comments: (0)
Sabe aqueles sonhos que você tem? O chato do tempo é que ele consegue dissolver a graça desses sonhos. Maturidade é isso, e ela nunca acaba. A cada ano você repete o ritual de achar o sonho anterior estapafúrdio.
E o que é que decide por nós? A sorte. E não se preocupe, a sorte está do seu lado. Não na hora, não de um jeito que você bata o olho e diga "Veja só, quanta sorte!". Mas é aquela velha história do bordado, depois de um tempo a sorte explica como foi que aconteceu e como foi que aquilo foi melhor pra você.
Mas sabe a incerteza? Ah, querido. Ela nunca passa.
Então. Sobre aqueles sonhos: não foram ainda. Talvez nunca venham a ser. Talvez venhamos a nos acostumar com isso (vamos ver daqui a alguns anos, na minha carta aos meus vinte e nove).
E quando o tempo passa e a gente está disposto a largar algumas mãos e segurar outras, simplesmente para largá-las depois, a gente aprende. E aprender é ótimo. O ruim é que é um conhecimento de dentro, de passado, completamente inútil para o presente. A gente pode acumular todo o conhecimento do mundo, mas quer saber? A gente nunca aprende. Nunca mesmo.
Então não posso te dar conselhos. Só evite cortar o cabelo sozinho, você vai ver como fica a parte de trás daqui a algum tempo e passar vergonha retroativa. E não fume na frente dos outros, você ainda não sabe fumar. Quando aprender, vai passar vergonha retroativa. E punheta não dá espinha.
Do eu,
E o que é que decide por nós? A sorte. E não se preocupe, a sorte está do seu lado. Não na hora, não de um jeito que você bata o olho e diga "Veja só, quanta sorte!". Mas é aquela velha história do bordado, depois de um tempo a sorte explica como foi que aconteceu e como foi que aquilo foi melhor pra você.
Mas sabe a incerteza? Ah, querido. Ela nunca passa.
Então. Sobre aqueles sonhos: não foram ainda. Talvez nunca venham a ser. Talvez venhamos a nos acostumar com isso (vamos ver daqui a alguns anos, na minha carta aos meus vinte e nove).
E quando o tempo passa e a gente está disposto a largar algumas mãos e segurar outras, simplesmente para largá-las depois, a gente aprende. E aprender é ótimo. O ruim é que é um conhecimento de dentro, de passado, completamente inútil para o presente. A gente pode acumular todo o conhecimento do mundo, mas quer saber? A gente nunca aprende. Nunca mesmo.
Então não posso te dar conselhos. Só evite cortar o cabelo sozinho, você vai ver como fica a parte de trás daqui a algum tempo e passar vergonha retroativa. E não fume na frente dos outros, você ainda não sabe fumar. Quando aprender, vai passar vergonha retroativa. E punheta não dá espinha.
Do eu,