12.7.18

Bota-fora

Engraçado como às vezes a gente encontra exatamente aquilo que estava procurando.

Quando eu tinha uns vinte anos, eu estava (como de costume) despedaçado por causa de um fim de namoro.

Eu que tinha posto fim na desgraça toda. Ele tinha desmarcado de ir no show do Roberto Carlos comigo porque tinha que lavar roupa, e a gente já não se via há três semanas.

Entendi o que estava desenhado, me emputeci e acabei tudo com um depoimento putíssimo no Orkut. Muita maturidade, como podem ver.

Mal engoli o choro desse relacionamento e já lancei pro universo: "Eu quero que a próxima pessoa no meu caminho seja uma pessoa que não vá embora".

--

A memória me apareceu enquanto uma paciente me contava sobre um momento muito complicado no seu próprio relacionamento difícil. Ela estava no meio de uma frase particularmente triste quando, sem conseguir segurar, eu soltei uma gargalhada.

Juro por Deus que não consegui conter.
Óbvio que eu não estava rindo da cara dela. Sessão terminada, eu expliquei.

Eu tinha lembrado justamente do que aconteceu no relacionamento com a pessoa-que-não-vai-embora que eu tinha pedido ao universo.

O relacionamento era complicado e, naquele dia específico, não foi diferente.

Há alguns dias eu tentava contato com ele, sem resposta. Naquela noite, uma hora da manhã, tocou a campainha do meu apartamento. Meu então namorado estava bêbado na porta, todo arrumadinho: Roupa de marca, corrente no pescoço, cabelo impecável e um par de botas daquelas amarelas que custam trezentos reais.

Eu tenho muitos defeitos e um deles é gostar de homem coxinha.

Enfim, ele tinha ido a uma balada, ficado bêbado, sentido saudade de mim e resolvido aparecer de surpresa na minha casa.

Ele contou aquilo como um grande ato romântico, tipo "podia ter ficado com qualquer pessoa, mas escolhi você!".

E eu caí na conversa.

--

Pelo menos por um tempo.
Já estávamos aos beijos no sofá quando me caiu a realidade na cabeça.

"Peraí, você ficou dois dias sem atender o telefone, foi pra balada, não conseguiu ninguém pra ficar e apareceu aqui pra me acordar de madrugada como se fosse um presente pra mim?"

Todo fidumégua fica ofendidíssimo quando é responsabilizado pela sua fidumeguice. Ele começou a brigar comigo na hora:

"Você só vê as coisas pelo lado ruim! Não tem como te agradar. Eu nem devia ter vindo aqui, eu vou embora. Vou voltar pra festa, que lá é melhor!"

Entrei em pânico.
Eu não queria que ele fosse embora, eu queria que ele ficasse! Eu ia me sentir péssimo se ficasse em casa sozinho enquanto sabia que a pessoa que eu amava estava numa festa.

A maior arma de uma pessoa abusiva é sempre a culpa na pessoa abusada.

--

Eu não ia deixar ele ir embora.
Agarrei a bota dele do chão e corri pro quarto. Deitei na cama, ainda abraçado na bota, e dei o recado:

"Quer ir embora? Vai. Mas vai descalço."

A maturidade sempre foi minha marca registrada. Mas funcionou.
Ele reclamou por uns dez minutos, desistiu, me abraçou na cama e dormiu.

Conseguiu exatamente o que queria: ficar comigo mesmo depois de deslizar feio e ainda me deixar culpado por ter ousado duvidar das suas intenções.

--

Ter tido uns relacionamentos péssimos parece ter sido melhor do que a faculdade de psicologia pra me ajudar a entender o relacionamento dos outros.

Hoje eu entendo que não adianta falar "Se isso não te faz bem, larga" pra alguém que está muito profundamente entrelaçado sentimentalmente com outra pessoa.

Cada relacionamento tem uma gigantesca quantidade de motivos inconscientes que o mantém.

Até desmontar cada culpa, entender cada apego, escutar cada restinho de carinho que exista ali... Não adianta aconselhar o óbvio.

Porque entender o óbvio é fácil. Sentí-lo, nem tanto.

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Ainda assim, quando a gente precisa fazer esforço mais pra que alguém fique ao nosso lado, é porque a pessoa já partiu.

Em algum momento é preciso largar a bota.

Não basta que a pessoa fique. É preciso que ela queira ficar.

3.7.18

O refém

Nunca imaginei que fosse capaz disso.
Eu, que sempre valorizei tanto a liberdade, fiz um refém.

Cruelmente o apanhei na rua para prendê-lo, e o mantenho em cativeiro na minha própria casa.

As janelas estão completamente lacradas para impedí-lo de ir embora.
Às vezes, quando eu dou bobeira, ele foge pela porta e corre como um jato, desesperado que está pela chance de uma existência livre.

Não adianta.
Eu o recapturo e o boto de volta pra dentro. Tranco a porta e redobro a atenção.

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Eu sou um sequestrador sádico.

Minha vítima come e bebe do chão, e também é obrigada a fazer suas necessidades em plena vista. Dignidade nenhuma.

A comida é sempre a mesma. Ele implora para comer aquilo que eu como, mas eu olho firme nos olhos dele e digo "Sua comida tá no chão!". Escorraço ele da cozinha.

Sem contar que eu o chamo de um apelido ridículo. É pra humilhar, mesmo.

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Não pensem que ele é um refém tranquilo.

Ele luta tudo o que pode.
Pela manhã, enquanto ainda estou dormindo, ele pula no meu rosto numa tentativa óbvia de me sufocar e se livrar do déspota que o oprime.

Não adianta. Eu sou mais forte que ele, e ele logo fica trancado para fora do quarto. Que durma no chão, e não adianta reclamar.

Não duvido que, no dia que ele consiga o que quer, ele devore minha carniça com um sentimento misto de fome e vingança.

Meus braços estão cheios de marcas das mordidas e arranhões que ele me dá. De vez em quando ele me ataca de emboscada, no corredor, sem que eu perceba.
Ele certamente me mataria, se tivesse a chance.

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Minha motivação é psicopata.
Gosto de ter um ser à disposição para que eu o agarre e abrace e faça do seu corpo o que quiser, no momento em que eu quiser.

Ele resiste aos meus avanços, mas eu sou mais forte. O espremo contra mim até que ele grite de dor e consiga fugir.

Mas quando menos espera, eu o ataco novamente.

Sua vida é pura prisão e submissão.
Meu próximo passo é castrá-lo. Não apenas o privarei de sua liberdade, o privarei de suas bolas.

Quem diria que eu seria tão bom nesse negócio de sadismo.

--

Quer dizer, talvez não tão bom assim.

Estou completamente atarefado e preciso sair agora, mas não consigo.
O único motivo de estar escrevendo esse texto é que o refém está deitado no meu colo e dormindo tão bonitinho que eu não consigo tolerar a possibilidade de me mexer e acabar lhe acordando.

Mesmo um refém desprezado merece um pouquinho de sono tranquilo.

Mas a vida tem seus revezes. Tenho achado até que, quem sabe, o refém dele possa ser eu.


20.6.18

O caminho do perdão é pavimentado com ódio


Pra uma sociedade que tanto odeia, é uma hipocrisia imensa o quanto censuramos o o ódio. 

Qualquer um já ouviu de alguém:
"Dê a outra face." 
"Seja a pessoa superior."
"Guardar mágoa faz mal."

Realmente, mágoa não faz nenhum bem pra ninguém. O que ninguém fala sobre abandonar uma mágoa é o passo a passo de como fazer isso.

Mágoa, infelizmente, não se digere só engolindo.

--

A gente não guarda nada que não possa ter uma utilidade no futuro. Se você guarda uma mágoa, é muito improvável que ela tenha surgido do nada. 

Alguma coisa ruim aconteceu contigo - mesmo que fosse só uma expectativa frustrada - e a mágoa ficou armazenada como referência para não sofrer de novo. 

É instinto de sobrevivência.

Para essa referência não ficar ali pra sempre, algo em você vai precisar se sentir seguro e confiante de que aquilo que te magoou não vai te prejudicar de novo. O que cura a mágoa é se sentir forte novamente.

E o que nos faz sentir fortes?
Raiva. Ódio. 

"Ódio é uma palavra muito forte", diria a Sandy.
É mesmo. E é por isso que ele nos impede de sermos pessoas muito fracas.

--

O perdão é um ótimo lugar para se chegar - mas muitas vezes o caminho até ele é feito de ódio. 

Primeiro você sente ódio da outra pessoa.
Depois você sente raiva de si mesmo por ter deixado aquilo acontecer.
Então, sente aversão da situação inteira.
Depois jura pra si mesmo que nunca mais vai deixar algo assim acontecer contigo. Se sente resoluto. Indignado. Forte.

E depois - só depois! - não sente mais nada. A mágoa já ensinou o que tinha que ensinar.

--

Quem fica preso na vaidade de ser a pessoa iluminada que não sente nada negativo fica com a mágoa pendente por décadas. 

Sinta raiva de quem lhe prejudicou. Sinta ódio. Sinta o que você quer tanto sentir e não deixa. 

Brigue, se for o caso. Até Jesus Cristo rodou a baiana algumas vezes. 

Quando você permite que um sentimento aconteça inteiro, sem julgamentos, ele tende a passar.

Não se preocupe.
Você não é um monstro por sentir ódio. Você é só uma pessoa a caminho do perdão. 

Não se preocupe, o perdão vai chegar.
E, se não chegar, talvez seja porque perdoar não seja a melhor coisa boa pra esse momento.

--

E se lhe julgarem por sentir raiva ou ódio, e te disserem que você precisa perdoar a todo custo, e que você é uma pessoa inferior por ter sentimentos assim... Peça a essas pessoas que tentem lhe perdoar.

Duvido que consigam. 

14.6.18

Alternativos



Tá, pobre que é pobre eu nunca fui.

De longe, mais sobrou do que faltou na mesa e eu nunca passei uma grande vontade. De onde eu vim até tinha um ou outro colega que pôde viajar pro exterior enquanto estudava, mas esse não era o padrão. Em boa parte dos colégios que eu estudei, algum colega aparecer com um tênis novo era a notícia do dia.

A primeira notícia do dia, pelo menos, porque a segunda era ver o colega chorando no canto depois de todo mundo correr pra pisar no tênis dele pra batizar.

--

Também nunca sobrou grana.

Meus pais conseguiam me dar um celular, mas era um trazido do Paraguai com uma marca desconhecida. Eu conseguia um moletom legal, mas era na promoção de queima de estoque e vinha com o cadarço do capuz faltando.

Ainda assim, na realidade colégio-estadual-minha-colega-não-faz-educação-física-porque-só-tem-um-sapato, dava pra tirar uma onda.

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Dei meia dúzia de sortes e a vida foi melhorando. A grana entrou e hoje eu consigo comprar aqueles luxinhos que bastante gente tem. Dá pra comprar um celular bacana, dá pra comprar um notebook com uma maçã atrás, dá pra botar uma foto de uma fatia de bolo de quinze reais no Instagram de vez em quando.

Mas não é uma coisa fácil.

Se teve uma coisa que o cinto apertado me ensinou, foi a viver no custo benefício.

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Como não dava pra comprar o celular da propaganda na novela, eu aprendi a buscar na internet por outros modelos.

Qual o nome daquela marca que tá se firmando no mercado agora e vende a mesma quantidade de memória RAM e um processador alternativo-mas-que-funciona por um terço do preço? Porque era essa que eu descobria, e essa que eu desejava.

Meu sonho de consumo não era mais a calça que o modelo usava no outdoor, mas sim descobrir aquela lojinha numa rua escondida que vende umas calças bonitinhas a três por cem.

Eu arrumo o cabelo, mas o gostoso mesmo é alguém elogiar e eu falar "Guri do céu, você sabia que vaselina sólida é exatamente igual a essas pomadas de efeito molhado? E é oito reais um potão!".

Virou quase vício. Não tenho mais prazer na compra se ela não for uma barbada daquelas. Já até comprei coisas que eu nem precisava, mas que pareciam ter custo-benefício imbatível.

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Acontece até de alguém se assustar com a coisa que eu compro.

Outro dia eu até contei aqui da máquina de lavar que eu tinha comprado, que era toda diferentona e num modelo mais simples.

"Por que você não pegou uma Electrolux?", a pessoa pergunta, "Tá faltando dinheiro?"
O pessoal se preocupa, quase se prepara pra me chamar pra almoçar na casa deles se a situação estiver apertada.

Não é o caso.

É que eu vi a máquina por um preço melhor, toda esquisita, de-um-jeito-mais-simples-mas-funciona, e me vi ali.

Na gambiarra. Na coisa simples. No alternativo, que a riqueza não conhece mas que me atende bem. Talvez por eu mesmo ser assim, aprendi a gostar do esquisito e acessível.

--

E esse sou eu, vivendo de alternativos.

Com um celular que não passa na propaganda, mas que me deixa cheio de orgulho quando alguém fala que a câmera é ótima. Com um sofá que parece caro, mas que me deixa feliz mesmo quando alguém pergunta quando eu paguei e eu falo "AMIGO, PEGUEI COM CINQUENTA POR CENTO NAS CASAS BAHIA!

Com uma máquina de lavar esquisita, mas que eu posso mostrar como funciona e me sentir especial não porque tenho o caro, mas porque tenho o diferente.

Tem um gosto diferente. Espero ter conseguido explicar.

Mas é tipo crescer comendo mortadela e não conseguir gostar de carpaccio. O paladar se forma diferente. Pra mim é mais gostoso, fazer o quê?

A gente sai da pobreza, mas a pobreza não sai da gente.
Que bom.

11.5.18

Faz um moleque em mim


De tempos em tempos alguma música religiosa explode e faz sucesso além das fronteiras das rádios evangélicas. Eu tenho um gosto musical bem amplo, mas peço compreensão por não ser o maior versado em música gospel.

E mesmo quando eu escuto música assim, meu ouvido me trai.

Eu explico:
Estava assistindo um programa desses de TV local, com produção simples e dificuldades orçamentárias, e a convidada do dia era a filha adolescente de um dos membros da equipe do programa. Celebridades "A", sabe como é?

Enfim, a moça cantava - com uma dicção pior do que a da Ariana Grande - uma música que fazia muito sucesso nas rádios, mas que eu não tinha ouvido ainda.

A melodia era bonitinha, em ritmo de pagode romântico:

"Entra na minha casa, entra na minha vida,
Mexe com minha estrutura, cura todas as feridas..."

Achei fofo. Só me surpreendi quando chegou a frase final do refrão, com a adolescente cantando com sua dicção de quem usa aparelho, enquanto o pai orgulhoso dançava atrás:

"FAZ UM MOLEQUE EM MIIIIIIMMMM"

--

Eu juro que eu tento ser moderno nos assuntos de amor.

Na real, eu até sou. Pra mim, todo mundo transa do jeito que quiser, na hora que quiser e com a fantasia do Teletubbie que preferir. Não é problema meu.

Mas já aconteceu de eu perceber que sou assim muito mais na teoria do que na prática.

Eu, por mim mesmo, sou quadradão.

Sou monógamo chato, morro de ciúmes quando penso em compartilhar quem eu amo com outra pessoa e sou uma completa negação quando o assunto é sexo casual. Acabo perguntando da família da pessoa antes mesmo de abrir o zíper, só pra rolar uma intimidade antes.


--

Passei semanas com aquela música romântica-safada na cabeça.
Fiquei até meio complexado. Tá que a música era bonitinha, mas uma frase sobre trepar até fazer um moleque depois de tantas frases sobre curar feridas e a importância do amor me pareceu pesada.

Contei a história do programa de TV pra uma amiga.
"Tô preocupado, acho que eu tô virando conservador! Mas porra, 'faz um moleque em mim' é tenso!"

"É milagre, idiota!", ela respondeu. "A música fala de Deus!"

Ah, tá.

--

Tenho vários amigos com medo de estarem ficando conservadores demais.

"Eu só queria chegar e transar, sabe? Chegar metendo. Mas eu fico esquisito, não consigo curtir."

ou

"Eu não sou evoluído suficiente para o poliamor."

Com culpa! Culpa de não ser supersolto e aberto em questões românticas e sexuais. Mas não se trata de uma questão de evolução, não. É só escolha.

O sexo é uma questão íntima. Nunca vai deixar de ser.

O grau de tranquilidade com um semidesconhecido esfregando as virtudes na sua cara varia de pessoa pra pessoa.
O grau de tranquilidade com um conhecido esfregando as virtudes na cara do seu namorado também vai variar.

Liberação de verdade é permitir-se fazer o que lhe fizer se sentir melhor, seja na devassidão, seja na abstinência.

Você tem todo o direito de ser pudico e não perder pontos na evolução liberal da consciência universal.

O que importa é ser tranquilo com o outro fazendo o que quiser também.

--

Mas nada tira da minha cabeça que a adolescente do programa de TV talvez estivesse cantando moleque em vez de milagre mesmo, só pra sacanear.

Os jovens de hoje são um perigo.

3.5.18

Psicanálise, essa vilã


(ou: Minha birra com a psicanálise)

Essa história tem dois começos.
O primeiro começo é o começo da minha faculdade. Primeiro dia de aula, primeiro período, primeira turma. Entra na sala uma mulher amorenada com os cabelos tingidos de ruivo, penteados de modo a dar volume na medida certa para demonstrar imponência.

Suas roupas, uma combinação calculada entre algo executivo e uma explosão de cores. Nos pés, botas. No rosto, um sorriso que requereria quatro rostos para caber inteiro.

Simpática e dura, ela anuncia seu nome para a turma e coloca o nome da matéria no quadro. Psicologia do Desenvolvimento I. Já saiu explicando que a base daquilo tudo era a psicanálise, e que não tinha como dar aula daquela matéria sem passar pela história daquilo.

Aquela professora tinha nascido para usar a boca, no sorriso ou na palavra. Ela usava a boca até para gesticular.
"Vocês percebem a dimensão disso?", perguntava ela à turma depois de explicar algum ponto, apaixonada pelo que tinha acabado de dizer, a boca aberta escancarada, como se mostrando a alma boquiaberta pela sua paixão.

Mais tarde, na intimidade, alguns colegas me confessaram quantas vezes distrairam a mente nela num momento solitário de prazer noturno. "Imagina aquela mulher fazendo um boquete!", diziam eles, com os resquícios de hormônio da adolescência ainda à tona.

--

A mulher era um furacão. Livro publicado, mestrado interessante, coxas de fora, o próprio pôster de um falo.

"Você acha que uma pessoa que faz análise é uma pessoa melhor?", perguntei num dia de mais ousadia.

Ela respondeu sem titubear:
"Eu acho que uma pessoa que faz análise é uma pessoa mais tranquila, mais bem sucedida, mais rica e mais feliz."

Vendido.
Eu seria paciente dela, e a psicanálise seria meu futuro.
Eu queria aquilo pra mim.

--

Se eu começo falando da minha relação com a psicanálise falando dessa professora, foi porque, para mim, ela foi na época a personificação da psicanálise. Dessa relação saíram muitas leituras da área, muitos outros professores, cursos, palestras e eventos de psicanálise.

Tudo ali me parecia fazer sentido. A dureza, a frieza, a pessoa a desvelar seus problemas por conta própria, o papel do terapeuta sendo apenas o de apontar onde o inconsciente escorria. Era um processo difícil, mas especial. Eu me sentia especial

Fiz anos de análise com aquela professora, e meus colegas morriam de inveja.

De início chorei um desconto considerável para conseguir pagar as sessões, mas os valores foram subindo com o tempo. "A análise precisa pesar no bolso da pessoa", diziam os entendidos, e eu concordava.

Custava toda a minha bolsa de estágio? Custava. Mas alguma coisa ali valeria a pena. Era um investimento que eu fazia no meu futuro, e daí que as minhas roupas estavam velhas e rasgadas?

Eu sofria, mas a psicanálise faria meu sofrimento valer a pena.

Passei por muitas fases: de falar longamente sobre a infância, de discutir meus relacionamentos, meus traumas, de gozar longamente com meus aprendizados trazidos pelos atos-falhos que meu inconsciente me presenteava, de levantar do divã e falar "Olha pra minha cara!" para a analista, de sentir que eu não precisava de um gesto sequer dela para me sentir ouvido e acolhido.

Foi intenso.

Eu não sei se era tão profundo assim aos vinte anos de idade para aproveitar tão bem aquela estufa de pensamentos soltos, mas eu gostava bastante.

--

Cheguei ao fim da faculdade, meu estágio acabou, precisava começar uma carreira... Estava numa crise tremenda quando a minha terapeuta anunciou:
"Flávio, agora você é um profissional. Sua sessão passará a custar cento e oitenta reais."

Cacete. Se hoje esse valor é alto, na época era ainda mais - o salário mínimo devia ser uns seiscentos e pouco - e em dobro para um desempregado como eu. De tão inocente, escutei aquilo como uma aposta no meu futuro. Só podia querer dizer que ela acreditava que eu conseguiria pagar aquilo.

"Não tenho como agora", respondi, "mas se você me der dois meses, eu vou fazer o possível pagar esse preço."

Eu fiz o possível mesmo. Procurei emprego, trabalhei, fiz bico, contei bilhete de loteria, entreguei panfleto, trabalhei em shopping, mas não fui capaz.

Finalmente minha análise me cobrou um preço que eu não pude pagar.

Só eu sei como me senti frustrado quando larguei a análise, ainda que com a promessa de voltar assim que pudesse.

Eu estava com grandes dificuldades pessoais na época, e precisava muito de terapia. Tudo bem, eu tentaria me virar sem, mas eu me sentia um fracasso. Aquilo deveria ter me deixado mais forte, e eu me sentia mais desamparado que nunca, além de abandonado pela minha terapeuta.

Todos falavam que o processo era longo, difícil e libertador. Eu só conheci a parte do longo e difícil. E caro. E frustrante.

Na pretensa folha em branco da figura do analista, havia uma pessoa com demandas e visões que transpareciam durante a terapia. No silêncio que deveria me proporcionar um encontro comigo mesmo, um espaço para que meu narcisismo florescesse sem bloqueios. Nos momentos ocasionais de castração, às vezes a ferida pegava forte demais onde não havia preparo para tanto.

Doeu fundo perceber que não havia nada de mágico ali.
Uma pena, o marketing era lindo.

--

O segundo começo dessa história foi dez anos depois, em uma sessão de terapia com outro terapeuta.

Eu me abria, um pouco relutante, em algumas questões profundas em que eu não tocava desde os meus tempos no divã. Trazia comigo, como também trazia naquela época, mil preconceitos e culpas.

Eram questões antigas, pesadas, daquelas que a gente até tem vergonha de levar pra terapia, mesmo sabendo que é nas questões sombrias que um processo terapêutico brilha mais.

Eu dava ao que eu dizia o tom de texto com introdução, desenvolvimento e conclusão, afinal eu já tinha trabalhado aquilo mil vezes na terapia anterior. Erro de amador. Até o passado de uma pessoa é um processo em andamento.

"E se, por um instante, você tentasse fingir que isso esses sentimentos todos são normais?"

Só quem faz terapia sabe o poder devastador de uma pergunta óbvia feita pelo terapeuta.

Naquele segundo, meu corpo relaxou. O insight trazido pela pergunta foi maravilhoso, como se uma onda de perdão lavasse meu corpo.

Foram, sei lá, setenta sessões de psicanálise demolidas em um segundo por um profissional que se permitiu me sugerir um exercício rápido baseado em um palpite que ele tinha sobre meu sentimento.

Mas a onda trazida pelo insight teve seu rebote e eu fiquei muito, muito triste, não pelas questões que eu tratava, mas pelo período em que eu gastei muito tempo e dinheiro em busca de uma resposta que sim, estava em mim mesmo, mas que precisava de uma pessoa um pouco mais invasiva no processo para ser acessada.

Me senti traído, me senti magoado, me senti solitário retroativamente pelos tempos no divã.
Foi como se eu tivesse desperdiçado o meu investimento e a minha esperança.

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Recebo muitos pacientes atordoados e feridos depois de buscarem uma terapia e darem de cara com a frieza e o silêncio de um consultório psicanalítico. Me parece cruel quando, sem didática alguma, se oferece a falta como resposta da falta.

Que tipo de profissional mesquinho e ruim - e nem todos os psicanalistas são assim, posso dizer - atende uma pessoa em choque pela perda de um ente querido e apenas fica em silêncio, deixando que a tensão domine a sessão e permitindo que a pessoa saia ainda mais desorganizada que chegou, achando que não adiantou nada procurar ajuda?

Um profissional de psicologia que se diz terapeuta no mínimo precisa ter a dignidade de deixar claro, no primeiro momento do tratamento, qual é a sua linha teórica e como ela deve funcionar. Nós somos os responsáveis por ensinar como nosso trabalho funciona. A didática é uma pedra fundamental do acolhimento terapêutico.

Para os que estão bem informados a respeito do que é uma análise tradicional, ela pode ser um prato cheio. Para alguém já terapeutizado em outra linha, ou mais informado a respeito do seu mundo interior, a estufa de ecos da psicanálise pode ser muito bem vinda - mas ela precisa ser uma escolha consciente.

Não é a abordagem mais indicada para alguém em grande sofrimento ou com dificuldades relacionais intensas, e eu não vejo muito esforço dos profissionais da linha em divulgar isso se não pela via do "Realmente, análise não é pra quem quer, é pra quem pode", que pode moer ainda mais a autoestima de alguém fragilizado.

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Me irrita muito o tom adotado por muita gente da área de que a psicanálise é algo muito brilhante e libertador, o grande caminho para uma vida plena, e que se você não é capaz de alcançá-la, é por ser uma pessoa pobre, seja de conteúdo ou de desejo.

Eu conheço bem esse discurso de "Se você não concorda, é porque não entende, e se não entende, é porque precisa se esforçar mais, ou você não tem valor". Eu vivi algo muito parecido na seita religiosa em que eu fui criado e da qual eu carreguei dores por anos. É um pensamento muito tóxico, e é incoerente quem conhece a fundo os círculos de psicanálise e diz que não percebe o tom messiânico que corre por ali.

Novamente, o que me incomoda não é a terapêutica em si tanto quanto a ideia de culto que permeia a área. Quem já circulou pelos ferventes círculos de psicanálise entende o tamanho da vaidade que existe ali.

Tenho plena noção do quanto as minhas queixas e mágoas sobre a psicanálise são visões anedóticas e muito pessoais, mas me irrita ouvir de quem tem carteirinha de torcedor para a linha terapêutica que os meus sofrimentos com aquilo tudo são devido a minha resistência, ou falta de insistência, ou falha em lidar com a minha própria angústia.

Fosse assim, outras linhas terapêuticas não teriam me proporcionado tamanha expansão, crescimento pessoal ou prazer.

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Todo o propósito desse texto é dizer que não há linha terapêutica sem grandes falhas. Ainda assim, me parece curioso que dificilmente eu sentiria o mesmo medo de ser apedrejado ao escrever sobre as falhas da Gestalt, ou da Cognitivo-Comportamental, ou das psicoterapias corporais. Essas áreas não se vendem como uma grande resposta poética para o sofrimento humano.

A psicanálise suscita grandes paixões e ódios porque se trata justamente disso: uma paixão, com suas distorções, lacunas e ilusões.
Comigo, foi meu primeiro amor. O fim dessa paixão deixou muito sofrimento e mágoas, mas também me preparou muito bem para os amores que vieram a seguir.

Tenho colegas excelentes que escolhem a psicanálise como trilha para o seu trabalho e tem resultados lindos.

Sei que projetamos muito de nós mesmos nos nossos amores, e talvez esses sentimentos todos que eu tenho a respeito da área sejam por causa dessa sensação de amor mal resolvido. Pode ser. Não posso dizer que meu tempo de analisando não me fez bem. Aprendi muito lá, e ainda uso muita coisa dali no meu trabalho.

Pode ser que os problemas tenham mesmo sido culpa minha. Pode ser que eu não tenha sido bom o suficiente para a psicanálise. Mas pode ser também que ela não tenha sido um amor tão bom assim, e que o relacionamento tenha sido um pouquinho abusivo.

E não é querer falar mal de ex, mas eu estou bem mais feliz hoje.

25.4.18

Lerdeza


Eu sou rápido.
Falo rápido, penso rápido, como rápido, minha cabeça funciona como aquela montagem do filme do Rocky em que corre, pula corda, sobe escadas correndo e fica muito bem preparado pra uma luta em quarenta segundos.

Sempre fui assim, ligeiro feito uma lebre.

A loucura é ver quanta gente confundia isso, nos tempos de escola, com ser inteligente. São duas coisas bem diferentes.

--

Uns tempos trás um paciente meu se queixava:
"Eu não sei se vou prestar muito tempo nesse trabalho. Eu ando muito devagar, meu cérebro tá lerdo."

Eu quis provocar.
"E se você for lerdo?"

Ele não gostou da ideia e eu sugeri um exercício:
"Experimenta falar lá dentro da sua cabeça: 'Eu sou lerdo mesmo, eu sou bem devagar e não tô nem aí. Meu jeito é lerdo, eu sou lerdo e se quiser falar comigo vai ter que ser bem devagarinho! Eu sou lerdo e gosto!', e vê como você se sente."

O legal de exercícios assim é que o corpo tende a ser muito mais aberto. Perguntei como ele se sentia.
"Melhor. Confortável. Como se eu tivesse tempo pra fazer o que eu preciso."

Não tinha nada de errado nesse homem estar com o pensamento um pouco mais devagar do que o dos outros.

Uma pessoa mais desatenta escutaria a demanda dita por ele, de "preciso ser rápido" em vez de ouvir o pedido do corpo de "preciso de tempo", e que violência isso seria.

--

O que muita gente precisa aprender é que se desenvolver rápido é muito diferente de desenvolver profundamente.

Sim, algumas pessoas tem muito mais rapidez na absorção e reprodução de conteúdos do que outras, mas isso só atinge uma camada muito superficial do pensamento.

Para absorver de verdade uma ideia, conhecê-la profundamente e sabê-la pelas entranhas, só com muita estrada. Você pode até tomar um vinho jovem e achar gostoso, mas algumas ideias precisam de um tempo no barril pra fermentar bem.

E mesmo que seja exatamente o mesmo aprendizado, uma pessoa que aprende uma língua lentamente, por exemplo, não vai ser menos beneficiada pelo seu aprendizado do outra que aprendeu o idioma em um mês.

Aprender rápido não é melhor do que aprender devagar. Não é uma questão de devagar e sempre, e sim de devagar e profundo.

--

Sem contar que ninguém é lento pra tudo.

Eu posso escrever um texto em cinco minutos (a qualidade do que eu escrevo deixa isso bem aparente), posso absorver um sentimento muito rápido e posso fazer associações entre ideias diferentes em meio segundo.

Mas não me peça pra ter a mesma resposta rápida pra fazer conta.
Ou pra praticar esporte.
Ou pra cuidar de planta.
Ou pra me apresentar pra desconhecidos.
E pra mil outras coisas.

Mas, pra essas coisas, eu posso muito bem ser tartaruga e aproveitar o caminho, indo bem devagar, devagar, devagarinho...

Bota-fora

Engraçado como às vezes a gente encontra exatamente aquilo que estava procurando. Quando eu tinha uns vinte anos, eu estava (como de costu...