9.1.19

Quem está ouvindo?

Você já deve estar sabendo, porque todo mundo está: o pinto do Eduardo Bolsonaro é pequeno.

Honestamente, eu não me importo com tirarem sarro dele.
Longe de mim defender um cara machista que quer mostrar que é fodão e tenta lacrar pra cima da ex-namorada.


Mas aí vem a enxurrada de memes tirando sarro do - suposto - micropênis dele.

E isso me incomoda.

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Já sei a defesa: "Mas o cara é um boçal, machista, qual o problema de usar do mesmo veneno que ele usa?"

O problema não é ele.
É que não é "só" com ele.

Toda vez que a gente abre a boca pra falar tem alguém ouvindo.

Chega a ser engraçado, porque a pessoa que ouve por tabela e que ninguém teve a intenção de magoar é quase sempre a que sai ferida.

Lembro de todas as piadas "de viado" que eu ouvi quando criança e da dor que elas causavam em mim, mesmo não sendo direcionadas à minha pessoa.

Lembro de quando alguém da família falava que algum gay da cidade era nojento, e de sentir que essa pessoa também teria nojo de mim.

Lembro da amiga que ouvia a mãe falando mal de gordo e que desenvolveu uma anorexia tenebrosa quando começou a ver o mínimo de mudança no ponteiro da balança.

Nenhum comentário foi diretamente endereçado para machucar, mas ecoava para sempre no coração de quem ouvia.

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Um comentário maldoso sobre uma característica que alguém não tem controle pode deixar feridas fundas.

Fazer um comentário desses mostra que você considera essa característica relevante para o valor de um indivíduo, e esse indivíduo pode estar ao seu lado, ansioso por um pouco de aprovação.

Se alguém já tem uma característica que lhe deixa inseguro, ouvir um comentário desses pode ser a gota que falta para fazer uma merda.

Porque pode parecer um sarro muito divertido, e tantas vezes eu rio junto, mas a graça passa rapidinho quando aparece um pré-adolescente no consultório que tentou o suicídio por causa da zoação dos colegas de escola com seu micropênis.

Longe de mim querer policiar a discórdia.
Brigar é natural, tirar sarro é natural e eu sei que a zoeira never ends, mas quero deixar o pedido: quando tentar atingir alguém, por favor, tente usar uma arma que só atinja aquela pessoa.

Tem sempre alguém ouvindo.

4.1.19

Não se empolgue

Esse ano eu vou perder dez quilos.
É só espremer mais meia horinha de academia por dia... E também mudar minha dieta, porque esse ano eu vou comer certinho.

E vou cuidar mais da minha pele. E meditar, só dez minutos por dia, não custa nada.
Também vou fazer trabalho voluntário. E ler! Vou ler meia hora por dia e ver menos TV.

Além disso, vou poupar 20% do meu salário todo mês.

Até o Carnaval, claro. Depois eu chuto o balde de novo e deixo minhas metas para o ano que vem.

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Que ótimo que as férias reabasteceram as suas energias e você está pronto para fazer uma revolução na sua vida.

Com a virada do ano, é bem possível que você esteja se sentindo invencível, e eu acho isso lindo, mas posso dizer? É coisa demais ao mesmo tempo. Você não vai dar conta de tudo isso - e tudo bem.

Antes de me acusar de estar torcendo contra seus planos, me deixe explicar porque é melhor você não esbanjar toda a sua empolgação de uma só vez.

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Um colega fisioterapeuta me ensinou a seguinte regra sobre boa postura: "Faça a postura mais alongada e forçada que puder, depois relaxe dez por cento".

Assim, a postura ficava bonita e a pessoa não ficava desconfortável, parecendo um manequim de loja. Outro benefício: é muito mais fácil se manter com a figura harmônica por mais tempo com um pouquinho de relaxamento do que com uma rigidez total.

Gosto de aplicar a mesma regra a novos hábitos: Mire na vida perfeita - e então relaxe um pouquinho.

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Não quero jogar água fria em ninguém (a não ser em mim mesmo, que tá calor pra cacete), mas pode ser que esse entusiasmo que sentimos quando começamos a buscar uma meta faça mais mal do que bem.

Quanto maior a expectativa, mais dura a frustração.

Tem até nome pra quando esse ciclo de empolgação e queda é extremo e patológico - Transtorno Bipolar (que é muito diferente da ideia de pessoa triste num momento e feliz no outro que as pessoas costumam ter).

"Devagar e sempre" não é um ditado popular à toa. Gastar menos energia na largada garante mais fôlego mais adiante na corrida.

Por isso, tente pegar leve com as metas de começo do ano. Vá com calma. Vá com um pouquinho de desconfiança. Vá um pouco de cada vez. Vá sem a certeza de que vai chegar.

No final do ano você vai ver como conseguiu ir mais longe.

28.12.18

Especialistas

Volta e meia vejo alguém pedir isso:

"Preciso de indicação de um psicólogo especializado em transtornos alimentares"
"Procuro psicólogo especializado em problemas de concentração"
"Alguém tem o número de um terapeuta bom para fins de relacionamento?"

Olha, procurando bem você até encontra especialistas nisso.
São terapeutas focados em estratégias bem específicas para lidar com momentos pontuais da vida, e eles são excelentes.

Mas me perdoe se eu responder que não acho que é exatamente isso que você procura.

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Nem sempre nossos problemas são óbvios.
Uma dor de estômago pode ser só uma dor de estômago, mas pode ser sintoma de um câncer. Um cheiro de queimado ao ligar o chuveiro pode ser um sinal de que o problema não está no chuveiro, mas em toda a fiação da casa.

O médico e o eletricista, por isso, não vão focar só no que está aparecendo inicialmente, mas em tudo o que acontece ao redor, para saber exatamente o que está causando o problema de que você se queixa.

Por isso você não busca um médico especializado em receitar antiácido, nem um eletricista especializado em cheiro de queimado - você busca alguém que saiba encontrar exatamente onde o problema está.

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O sinal que te fez perceber que algo não está bem não é necessariamente o problema. Aliás, o sintoma é sinal de saúde. É a luz no painel indicando que tem algo de errado no motor do carro. Você não vai tentar resolver o problema mudando o painel do carro, vai?

Não se conserta o sinal e não se repara o sintoma: é necessário seguir os sinais a partir dali para que o verdadeiro problema seja encontrado e, aí sim, tratado.

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Buscar terapia é admitir que não se sabe tudo.
É confessar para si mesmo que a dificuldade para parar de fumar, a falta de concentração ou os acessos de ciúme não são o problema. São só relâmpagos que indicam uma tempestade muito maior que acontece em algum lugar dentro de si.

Investigar é preciso.
Fazer terapia é a generosidade de dizer para si mesmo: "Eu sou maior do que o meu problema", e a coragem de ir atrás dessa grandeza.

Entregando-se ao processo, você vai encontrar muito prazer em ser especialista em si mesmo.

23.12.18

Como brigar com a sua família


Me recuso a fazer um texto sobre como evitar discussões em família no fim do ano, até porque ele seria de uma linha só: "Não vá visitar sua família no fim do ano".

Pessoas e intimidade são receita certa pra criar conflito, e para evitá-lo, só evitando a intimidade com todo mundo - o que deixaria a vida bem chata, na minha opinião.

Melhor aprender a lidar com os conflitos.
E tem época melhor para isso do que o Natal?

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O mais complicado de discutir em família é que, em geral, a briga é com pessoas que você ama.

São pessoas com quem você discorda politicamente, mas que ama.
Pessoas com quem você brigou ano passado, mas que você ama.
Pessoas que você ficou sabendo que falaram mal do seu corte de cabelo pelas suas costas, e que te deduravam quando você roubava Bis do armário da cozinha da sua avó, mas você ama.

E é justamente por tanto amar que a discussão dói tanto.

"Eu te amo tanto e você vai defender esse político obviamente escroto?"
"Eu te amo tanto e você vai fazer pouco justo daquilo que eu mais me orgulhei de ter conquistado esse ano?"

Ou pior:
"Eu te amo tanto e você vai comer o último pedaço de pavê?"

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A melhor coisa para perguntar a si mesmo durante uma discussão em família é:
"Qual sentimento essa pessoa me gerou quando me falou isso?"

Porque dificilmente a raiz da briga está no assunto tratado.

Talvez você não esteja puto com o seu tio porque ele defende o Bolsonaro, mas porque você sente que, ao defendê-lo, ele está colocando os interesses dele acima do que é importante para você e com isso se sente diminuído, ou ameaçado.

Talvez você não esteja chateada com a sua mãe porque ela criticou seu peso, mas porque se sente desimportante para ela quando ela não valida as suas conquistas e opiniões, e isso lhe faz se sentir desprezada, ou excluída.

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O passo seguinte é lembrar que, mesmo metendo os pés pelas mãos, essas pessoas também (provavelmente) te amam.

Pessoas que se sentem amadas aceitam muito mais coisas do que você imagina. Passei por isso quando rompi com a religião da minha família e comecei a ser visto com maus olhos por boa parte das pessoas de lá.

O que eu fiz?
Muito esforço para provar que o meu problema era com a religião deles, principalmente a parte que queria me dizer onde enfiar meu pinto, e não com eles.

Toda vez que encontrava um deles, dava o maior abraço que podia. Perguntava como estavam, lembrava de alguma coisa da vida deles e parabenizava, falava de como eram importantes para mim. Era afeto puro.

Por mim tudo bem que eles pensassem o que quisessem de mim, mas não iriam sair dali sentindo que eu não os amava.
Vocês não fazem ideia de quantos muros eu derrubei desse jeito.

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O próximo passo é tentar virar a chave da discussão para algo mais produtivo.

Sinto muito, mas você não vai conseguir convencer seu tio a votar na esquerda. Você não vai conseguir convencer sua mãe de que você está feliz com o peso em que está.

O que você pode fazer é falar abertamente sobre os sentimentos que tem.
Abra o jogo! Festa de família é para fazer barraco mesmo.

Diga para o seu tio que você sente que ele não gosta de você e pergunte para ele por que ele faz questão de tentar diminuir suas opiniões.
Fale para a sua mãe que você se sente cansada de tentar agradá-la, e diga que sente que ela não te ama. Pergunte se ela se sentiria amada se você a criticasse também.

Vai adiantar pra ficar tudo pacífico? Não.
Mas pelo menos você vai estar falando sobre o problema real. Se a conversa for bem, você resolve uma mágoa antiga.

Se for mal, você está livre para passar o 25 de dezembro do ano que vem numa festa em que as pessoas estejam mais de acordo com o seu jeito de ser. Precisando, pode me convidar também.

Feliz fim de ano e boas brigas!

11.12.18

O melhor ou o máximo

Joguei aqui no Google e um carro popular chega a velocidade máxima de 180 km/h.

Digamos que você compre um.
Aí, como ele consegue chegar a 180 km/h, você começa a acelerar ele o tempo todo para chegar nessa velocidade.

Dane-se que é só pra ir de uma esquina a outra, você precisa chegar no máximo.

O carro fica difícil de controlar, começa a gastar muito, os pneus começam a durar cada vez menos, e você se frustra.

Não deu boa.

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Aí você começa a tentar corrigir o problema por levar no mecânico.

"Queridão, aqui fala que o consumo médio é de 13 km/l, mas eu tô fazendo 8."
"Você costuma pisar muito?"
"Sim, mas ele tem que render. Não diz que faz esse consumo? Exijo que faça esse consumo."

O mecânico nem dá muita bola. Faz alguma gambiarra de ajuste e o carro até começa a gastar um pouco menos, mas você não se satisfaz. Está lento.

Ele tem que ser o mais econômico E o mais rápido.

Enjambre aqui, enjambre ali, o carro até melhora um pouco mais na velocidade mas... começa a fazer muito barulho.

E você não gosta.
Ele tem que ser o mais econômico, o mais rápido E o mais silencioso.

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Concorda comigo que ninguém seria doido de tratar um carro assim?

Então por que diabos a gente se trata desse jeito?
A gente permitiu que enfiassem na nossa cabeça que se a gente não satisfaz todos os critérios possíveis a gente não vai ser feliz.

E se o corpo não está trincado, você não está bem o suficiente.
Se o salário não está alto, você não está bem o suficiente.
Se o namorado não for o mais bonito do rolê, você não está bem o suficiente.

Essa ansiedade e exaustão constante são reflexos diretos do nosso motor girando na maior velocidade possível, tentando economizar combustível e ficar em silêncio ao mesmo tempo.

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"Dê sempre o seu melhor" e "Realize seu máximo potencial!" são frases doentes.

Não é saudável dar o máximo de si. Tem uma diferença muito grande entre o "máximo" e "o melhor".

Um carro não precisa ser simultaneamente o mais rápido, mais frugal e mais silencioso para ter valor, precisa? Só precisa atender aquilo que ele se propõe a fazer.

Dar o seu melhor não é dar o seu máximo.
O melhor que você pode dar é ir bem naquilo que é sua aptidão natural e ser esforçado - e não obcecado - naquilo que não é.

É encontrar algum equilíbrio que não seja perfeito, mas pelo menos te atenda naquilo que é importante para você.

Fazendo isso, seu motor vai longe.

6.12.18

Um pequeno imprevisto

Essa história começa comigo transando.

Comigo!
Transando!

Eu nem acreditava que isso ia acontecer um dia.
Já tinha amigos com dois filhos quando chegou minha vez de perder a virgindade (tá certo que meus amigos casavam com quatorze anos porque as famílias não toleravam sexo antes do casamento, mas eu já me sentia um velho).

Foi uma sequência de acontecimentos aleatórios.
Se eu não tivesse conhecido um cara na internet, viajado quatrocentos quilômetros de ônibus para conhecê-lo e experimentado pela primeira vez os poderes mágicos da tequila, talvez estivesse virgem até hoje.

Minha mãe aprovaria.

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Mas essa história não é sobre eu transando.

É sobre quando eu estava voltando pra casa.
Fato consumado, peguei um ônibus de volta e tirei minha primeira soneca como adulto transante.

Acordei com um alvoroço no meio da estrada.
O ônibus parou e as pessoas desceram para ver o que acontecia de tão importante que fez o ônibus brecar com força em plena madrugada fria.

Curioso, desci também.
Bem na frente do ônibus, um carro tinha batido tão feio que ficou parecendo uma latinha de Bavária que um bêbado pisou em cima.

Dentro dele, uma pessoa ainda viva gritava pedindo ajuda.

Não deu tempo dos bombeiros chegarem antes que o carro ficasse em chamas.

As pessoas ao meu redor gritavam desesperadas. A pessoa dentro do carro também dava seu último grito.

Fogo alto, assustador. A madrugada continuava fria.

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Corri de volta para dentro do ônibus, tirei um caderno da mochila e comecei a escrever.

Estava determinado a fazer alguma coisa fazer sentido no meio daquela maluquice.

Rabisquei, rabisquei e acabei com um poema chamado "Eu, imprevisto". O Imprevisto,em primeira pessoa, falava sobre como era maior que todos nós.

Não coloco aqui porque ficou uma bosta.

Mas também, quem é que consegue escrever direito com gente gritando?

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No outro dia, procurei notícias sobre o acidente na internet e só achei manchetes como "Dezessete pessoas morrem nas estradas do Paraná durante o feriado".
Aparentemente, nada da cena que me fez perder o sono por um semestre foi importante o suficiente pra virar notícia.

Pelo menos a minha maneira adolescente de lidar com o trauma era mais bonita do que a de hoje. Não consigo mais fazer poemas. Se fosse hoje, provavelmente voltaria ao ônibus tentando contar piadas.

Tive até que me impedir de terminar o parágrafo anterior com uma frase como "Minhas partes ardiam tanto quanto as pessoas no carro".

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Nada de errado em rir de desgraça.
Cada um tem seu jeito de lidar com o imprevisível da vida.

Porque, Jesus Cristo, se tem uma coisa que a vida consegue ser é imprevisível.

Num dia, você perde a virgindade com um estranho da internet.
No outro, assiste gente morrendo na sua frente sem poder fazer nada.
De repente, mais de uma década se passou e você decide contar a história pra alguém, só pra compartilhar o absurdo e se lembrar do óbvio: nunca se sabe o dia de amanhã.

9.11.18

Tudo é por acaso


Sabe quando você aprende uma palavra nova, e de repente você começa a reparar em um monte de gente falando ela o tempo todo?
Ou quando alguém perto de você engravida e você começa a ver grávidas em todo lugar?

Estou assim com essa bendita frase.

Começou outro dia na sala de espera do médico.
Uma moça chegou completamente esbaforida, perguntando se ainda dava tempo de fazer a consulta. A secretária falou que, por coincidência, tinha um encaixe bem naquele momento.

"Ufa! Meu marido passou mal e eu precisei dar uma carona pra ele até o trabalho. Que bom que teve esse encaixe."

"Pra você ver", disse a secretária, "que nada é por acaso".

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Fiquei encucado. Se alguma coisa ali era, era por acaso.

Por acaso, o marido dela comeu algo estragado. Por acaso, teve um desarranjo. Por acaso, ganhou uma carona da esposa e, não menos por acaso, alguém tinha desistido de sua consulta.

Por acaso, tudo deu certo.

A frase começou a me perseguir a partir desse dia, e é incrível a quantidade de vezes que alguém larga esse chavão por aí:

"Demorei uma hora a mais pra sair da consulta, mas quando passei na padaria tinha saído pão quentinho bem na hora! Nada é por acaso!"

"Fui sair de casa e encontrei adivinha quem! Minha vizinha! Nada é por acaso!"

"O acidente matou meus quatro filhos e meu gato, mas no mesmo dia eu vi uma flor bem bonita. Sinal de Deus! Nada é por acaso, né?"

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Até eu comecei a usar a frase mais vezes. Conseguia encaixá-la em absolutamente qualquer situação:

"Moço, espera um pouquinho que eu tô sem troco", dizia a caixa do mercado.
"Tudo bem", eu respondia com ares de guia espiritual. "Nada é por acaso".
Ela concordava e sorria.

Um amigo levava um cano da namorada, eu consolava com "Nada é por acaso", uma prima pintava o cabelo e a cor saía errada, o consolo era o mesmo, o Uber comentava da chuva e eu filosofava: Nadépuracaso! Nadépuracaso!

E sempre, toda miserável vez, a outra pessoa concordava.

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Ser humano é viver em um estado constante de quase-desespero. Se as coisas vão bem, dá pra levar tranquilo, mas se algo dá errado... A angústia se aproxima mais rápido que um parente pobre de um vencedor de loteria.

ALERTA GERAL! Meu marido passou mal! Não vai conseguir dirigir hoje! Vou perder a consulta no médico! Não vou conseguir outro horário!
TÁ TUDO DANDO ERRADO!
QUAL O SENTIDO DESSA MERDA DE VIDA?

Talvez a escalada não seja tão veloz assim pra todo mundo, mas a falta de sentido está sempre ali, à espreita, pronta pro ataque.

Por isso é tão gostoso quando aparece um clichê pra nos consolar e dizer "Ei, calma! Viu como uma coisinha encaixou no meio desse mundo de incoerências? Existe sentido nessa loucura! O universo não é um caos completo! Você vai ficar bem".

Ufa.
Nada é por acaso.

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Pra lidar com a imprevisibilidade da vida, só com esse olhar generoso mesmo.

"Eu apanhei um monte na escola, mas olha como eu fiquei empático! Agora eu sou assistente social e tudo se encaixou!"

"Fui atropelado e quebrei sessenta e sete ossos, mas hoje eu sou um motorista muito mais cauteloso! Certamente salvo vidas a cada dia com minha excelente direção defensiva!"

Isso não quer dizer que as coisas tenham acontecido POR um motivo.

Quer dizer que encontramos um motivo pra elas. Que, no meio de um monte de sofrimento e tragédias que nos pegam de surpresa, a gente foi capaz de se organizar e encontrar algum sentido, apesar do sofrimento.

Não, nada é por acaso se a gente fizer questão de atochar sentido na bagunça que topar nosso caminho.

Ao mesmo tempo, tudo é por acaso - a não ser que a gente faça não ser.

Quem está ouvindo?

Você já deve estar sabendo, porque todo mundo está: o pinto do Eduardo Bolsonaro é pequeno. Honestamente, eu não me importo com tirarem sarr...