23.10.17

Aumentando o volume

Depois de um debate em sala de aula na faculdade, uma professora me chamou - uma professora incrível, que eu respeito muito até hoje.

"Flávio, não me entenda mal, tá? Mas eu já vi alunos brilhantes saindo da faculdade e não conseguindo emprego porque se expuseram demais nas aulas. Você revela muito de si, as pessoas se aproveitam disso. Toma cuidado, tá?"

Fiquei triste pensando no que essa professora deve ter sofrido na carreira dela pra fazer um gesto desses. Ela realmente estava tentando me proteger.

Mas eu, vindo do interior, quebrado, criado testemunha de Jeová, homossexual assumido e sem contatos na capital, ia ganhar o quê por me esconder?
Pra quem está por baixo no jogo, não adianta cuidar do personagem para parecer algo mais aceitável.

A gente sabe que o jogo não está ao nosso favor.

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Tentar acomodar as expectativas sociais nas nossas atitudes é - pelo menos no nível do raciocínio - um ótimo negócio: se a minha experiência de vida é considerada incômoda, eu escondo essa parte de mim e fica tudo bem.

Mas não fica. Esconder uma parte de si - qualquer parte, de uma sexualidade a uma opinião - enfia a gente numa panela de pressão emocional.

"E se descobrem que eu sou gay?"
"E se ficam sabendo que eu tenho passagem pela polícia?"
"E se descobrem que, na verdade, eu não sou esse trabalhador que eu mostro pro mundo, e gosto mesmo é de ficar tomando cerveja no bar?"

E toma gasto energético pra tentar se esconder.

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É questão de transformar a vergonha em orgulho. Quando a gente revela de verdade o que é, ganha a posse da nossa história. Fofoca de coisa que todo mundo já sabe não tem força.

Contemos nossa história antes. Mostremos nosso defeito como bandeira. Quanta coisa a gente não aprendeu sendo diferente de todo mundo?
Pra depois querer jogar isso fora, pra parecer igual a todo mundo? Só porque um monte de gente igual não suporta uma diferencinha?

Eles não vão gostar da gente de nenhum jeito.
Adianta perder o próprio poder por causa disso?

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O mais duro de tudo é que a bandeira da ignorância tá lá, hasteada, com um monte de boçais morrendo de orgulho dela e chamando a gente de errado!

E qual a reação que muitos tem? De se esconder mais. De justificar. De "não é bem assim".

Frescura. Melhor bancar o que somos.

Nós somos, sim, os subversivos. Nós somos, sim, os que querem destruir a família tradicional - porque sabemos que esse conceito de família não faz bem a ninguém. Somos os que querem que transexualidade e homossexualidade sejam consideradas coisas normais, sim - porque são! Os que acham que religião demais faz mal - porque faz!

Somos os viados, os boêmios, os malucos, os que não gostam das coisas do jeito que estão e acham que tem mais é que mudar tudo mesmo.

Nós temos a opinião que temos porque apanhamos na cara, porque sofremos com a opinião oposta, porque estudamos o suficiente pra achar o que achamos.

Pra quê seguir tentando se explicar tanto, e tentando se justificar pra quem acha que direitos humanos e arte são coisas de pedófilos comedores de criancinha?

Diminuir nossa opinião é jogar nossas histórias no lixo. É abrir mão da potência que adquirimos com muita dor.

E daí que estão reclamando do nosso barulho? É hora de aumentar o volume.

20.10.17

Cumprimentos

Já existiu um mundo em que, guerras e traições à parte, havia mais honra entre os homens. Havia um código, um sinal universal que garantia a comunicação e o respeito entre todos os portadores do sexo masculino: o aperto de mão.

O que começou como uma maneira de mostrar mutuamente que ninguém tinha uma espada na mão dominante, e que qualquer assassinato que ocorresse ali aconteceria em termos mais justos, virou uma linguagem. Apertar mãos com a pressão correta, pelo tempo suficiente pra indicar conforto e firmeza, era uma capacidade a ser dominada para conquistar o respeito em sua comunidade.

Em poucos segundos, se determinava quem era o mais forte da relação, quem dominaria a conversa, quem sairia ganhando na ransação do momento.

Eram tempos mais simples, até que um cretino resolveu cumprimentar com a mão em pé e o dedão pra cima, em vez de pra frente.

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A hora em que um homem inventou de cumprimentar outro de uma maneira diferente que o aperto de mão tradicional foi o equivalente moderno da Torre de Babel.

Nós, homens, não falamos mais a mesma língua na hora do cumprimento.
Olhamos invejosos para as mulheres e seus beijinhos no rosto. Quanta intimidade! Quanto conforto consigo mesmas! Quanta confiança na certeza de que a outra mulher não está com uma espada escondida, pronta para matá-la!

As mulheres dominam todas as outras formas de comunicação muito melhor do que nós, o aperto de mão era tudo o que a gente tinha.

Mas nós, homens, temos tradição em não saber apreciar o que está - literalmente - em nossas mãos.

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Toda interação social entre dois homens, nos dias de hoje, começa com momentos de ansiedade e tensão.

Ao se deparar com outro homem vindo em sua direção, um homem tem milésimos de segundos para tentar adivinhar qual aperto de mão usar com essa pessoa. Em pouco tempo, você precisa enquadrar o homem que vem na sua direção em algum perfil.

Tem os tradicionais, que cumprimentam com o aperto de mão tradicional, sisudo, sério. Esse cumprimento já foi sinal de respeito, mas foi apropriado pelos assaltantes como uma forma de dizer "Se você nem me cumprimenta, tá me dando motivo pra te assaltar, e se cumprimenta, tá dando abertura".
Além dos assaltantes, o aperto de mão tradicional é muito utilizado por advogados e corretores de imóveis. São áreas muito parecidas.

Tem os que querem fazer um cumprimento informal, então espalmam a mão na sua com toda a força que tem, com uma intimidade que casais juntos há décadas não conquistam. Esses são os engraçadinhos, os que tem ambições de fazer stand up comedy, os que vão passar horas te explicando como funciona o futebol americano sem você pedir.

Tem aqueles que já chegam balançando a mão desde as costas, estendidas, pra fazer aquela puxadinha e dar aquele soquinho adolescente de uma mão na outra, um cumprimento que diz "Eu tenho trinta e cinco anos e brigo com a minha mãe pra assistir o que eu quero na televisão".

Tem os cumprimentos combinados, com coreografias individuais para cada amigo, cada um com sua dança particular. Esses são utilizados por pessoas com muito sofrimento dentro de si.

Se você erra na hora de adivinhar o jeito certo de cumprimentar o outro rapaz, vai ter de enfrentar longos segundos de toque descoordenado e perdido entre uma mão e outra, um pânico intenso na hora de encontrar um novo cumprimento em comum, que funcione.

Não é à toa que precisamos ser violentos e encontrar oportunidades pra bater uns nos outros. O toque entre dois homens é uma zona de desconforto e nebulosidade.

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E os tapinhas nas costas?
Não há nada mais desconfortável que encontrar a dinâmica do abraço entre dois homens.

Você só abraça um homem com o qual já sente alguma intimidade, mas não há como saber qual a intimidade dele com você. Aí? Quando o momento é de celebração, então, o que você faz?
Começa avaliando, com um toque sutil de ombros. Talvez um, talvez dois tapinhas nas costas. Nada que ultrapasse três segundos.

Abraço, abraço mesmo, só no cadáver do seu pai, na hora do enterro. E ainda corre o risco do velho abrir os olhos só pra te dizer, com a boca costurada, que é pra você segurar a onda.


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É difícil subverter essa confusão toda e encontrar uma maneira universal de cumprimentar homens.

Todos os cumprimentos existentes tem seu grau de polêmica, e minha tentativa de inovar cumprimentando todo homem que eu encontro com um demorado beijo de língua foi recebida com níveis mistos de reprovação e reciprocidade.

Mas é um desafio que precisamos enfrentar. Insisto que uniformizar o cumprimento vai trazer tranquilidade e paz. Dizem que a incidência de crimes na adolescência cai em 45% em comunidades onde o aperto de mão é regulamentado, mas carece de fontes.

Só sei que enquanto não encontrarmos uma maneira de encontrar a paz entre os homens através do aperto de mão, é melhor não cumprimentar ninguém.

No máximo, ao cruzar com um conhecido na rua, assentir com a cabeça e falar um constrangido "Opa!".

E morrer um pouquinho por dentro.

8.10.17

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais."

O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer aprovação, de quem quer ver em mim um pai que diga "Isso! Faça esforço! Trabalhe duro e se controle! Bom garoto!".

Me recuso a fazer esse papel. Não estou no mercado de melhoramento de pessoas. Encontre outro terapeuta se é isso que você quer.

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Não quero dizer que aprimorar suas qualidades seja uma coisa ruim. Não é, não é mesmo.

Mas se você trabalha pela lógica do "Eu preciso melhorar, eu preciso me controlar mais", você está caminhando justamente para direção oposta de uma melhora.

"Tô me obrigando a ser mais paciente."
Se você precisa se obrigar, você não está sendo paciente. Adianta estar com aparência de calma e carcomido por dentro, cheio de vontade de empurrar alguém escada abaixo?

Por que não se deixar sentir a impaciência? Por que não senti-la profundamente, escutando o motivo de ela estar ali? Tentando ver o que esse sentimento te lembra, quando ele começou e deixando ele simplesmente existir?

Por que não sentir o sentimento que está ali, gritando dentro em você, até o fim e então aprender a lição que ele te traz?

Não.
Você quer forçar a barra: "EU VOU SER PACIENTE AGORA!".
Sem paciência nenhuma consigo mesmo, olha que ironia.

Certeza que vai dar certo, amigão. É bem desse jeito que você vai se tornar uma pessoa melhor: no grito.

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Provavelmente o que te torna impaciente, ou ansioso, ou depressivo - entre um milhão de outros fatores, favor contextualizar um pouco antes de jogar pedra aqui no tio - é essa olimpiadização da vida: não importa viver, importa ganhar o pódio.

Melhorei, agora eu sou paciente! Cadê minha medalha de ouro?

Talvez compense mais ver a vida como um passeio, sem um objetivo final, mas aproveitado a cada passo, do que vê-la como uma corrida, com um objetivo específico que precisa ser atingido o mais rápido possível mas que - apesar de todo o foco e disciplina exigidos para chegar lá - só vai te levar pro túmulo mais rápido?

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"Mas eu preciso melhorar! Isso me faz mal!"

Calma aí.
Só de acreditar que você tem coisas a melhorar, provavelmente, você já está melhorando. Só por estar atento. Só de estar passeando com calma e olhando por onde anda, seus passos vão ser mais corretos.

É devagar, mas é um processo. Não se afobe.

Se você acredita que precisa melhorar, e bate a cabeça pra chegar em algum ponto de suposta felicidade, sem nunca parar pra apreciar as pequenas evoluções do caminho... Você está correndo quando deveria estar passeando.

Está todo esbaforido, jogando uma perna na frente da outra com a intenção de chegar rápido em um lugar quando é justamente o andar cuidadoso que vai te fazer entender o caminho.

De tanto queremos ter paciência, calma, e hábitos melhores, acabamos ansiosos. E, com isso, acabamos jogando toda possibilidade de evolução fora.

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Anunciar "Estou aprendendo a ser paciente", enquanto olha para cada perda de paciência que se tem pelo caminho, é mais rico do que "Preciso ser paciente" que se obriga a fingir tranquilidade onde existe turbilhão.

Ter paciência - ou ser um melhor ouvinte, ou comer melhor, ou desenvolver o hábito da leitura - se aprende justamente pelo processo de tentar ter essa qualidade.

Se você tentar ensinar qualquer coisa para uma criança com agressividade e pressa, você vai ter uma criança assustada e desinteressada, incapaz de absorver mesmo um conceito simples.

Com carinho, entretanto, se ensina qualquer coisa - mesmo que se leve um pouquinho mais de tempo. Então por que não ser carinhoso consigo mesmo na hora de tentar adquirir uma qualidade?

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Você não "precisa" melhorar. Você quer melhorar.
O desejo tem muito mais força do que a obrigação.

Juntando o desejo com um pouquinho de carinho, você chega em qualquer lugar.
Enquanto isso, aproveite o passeio.

2.10.17

Gratidão não é amor

Qual a pior parte de ter um filho?
Pensa aí, rapidinho. Qual seria a parte mais difícil de ser pai ou mãe de alguém?

Preocupação demais? Muito gasto? Ter uma criança irritante e incômoda sob os seus cuidados vinte e quatro horas por dia?

Gosto de fazer essa pergunta aos meus pacientes, mas nem sempre para investigar o que elas acham sobre paternidade. É que sensação que se tem sobre ter filhos quase sempre reflete aquilo que a gente sente que foi para os pais.

Se você sente que ter filhos é uma preocupação constante, talvez tenha sentido que seus pais não tiveram paz ao te criar, cheios de preocupações.

Se você sente que ter filhos é um trabalho horrível, irritante e do qual é melhor fugir, talvez você tenha tido a sensação de que seus pais achavam lidar contigo algo irritante e do qual eles preferiam estar longe.

Não é uma regra, mas pode ser útil para explorar qual sentimento que tínhamos ao receber o amor de nossos pais - já que, para uma criança, tudo o que se recebe dos pais é encarado como amor.

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Normalmente quem sente que foi um grande trabalho para os próprios pais responde a isso com um grande sentimento de gratidão por eles.

Quer dizer, todo mundo se sente grato aos pais, já que é impossível criar alguém sem muito sacrifício, mas onde existe um sentimento muito grande de gratidão pelo amor recebido, existe também uma crença de que esse esforço precisa ser retribuído. E é aí que mora o problema.

A resposta natural para o amor não é a gratidão. Amor, quando sentido livremente, traz consigo uma sensação natural de alegria e tranquilidade, junto com desejo de se transmitir amor para o mundo. Para todos, não apenas para de onde esse amor inicial veio.

Ou seja: quem recebe amor puro retribui com amor puro, não com meio-amor-meio-gratidão.

A gratidão é uma resposta para quando se sente que alguém fez um esforço por você. Um esforço que você, talvez, sinta não ter merecido.

Por isso que gratidão demais faz mal: ela pode esconder sensações profundas de baixa autoestima.

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É importante olhar para como nos sentimos em relação aos nossos pais porque esse tipo de sensação costuma se repetir em outros relacionamentos.

Se a sensação maior for a de gratidão, os relacionamentos tendem a ser vistos como baseados em trocas. Você fez algo por mim, eu faço algo por você em compensação.

O complicado é que amar com base no “Você demonstrou carinho por mim, então eu preciso lhe retribuir com alguma coisa” é a semente mais comum para relacionamentos abusivos.

Porque quanto maior a sensação de gratidão por um pedaço de carinho, menor precisa ser o carinho recebido para se sentir envolvido com alguém. A partir disso, as exigências ficam cada vez menores e as tolerâncias, cada vez maiores.

Excesso de gratidão é o que faz alguém acreditar que pode apanhar de vez em quando, porque a outra pessoa também tem seus problemas e, veja só, é uma pessoa tão boa quando está bem. Basta um mínimo de carinho ocasional para justificar todo um relacionamento.

A gratidão prega que “Eu mereço ser amado enquanto fizer algo”, e lutar contra isso é muito trabalhoso. Para amar além da gratidão, é preciso acreditar que é possível ser amado sem estar fazendo um esforço constante por isso - como um filho desejado que não precisa fazer nada além de existir para ser amado pelos pais.

Amar mesmo é acreditar que só existir basta, que você merece ser amado mesmo quando não pode fazer algo pelo outro (ainda que fazer coisas por quem se ama seja ótimo!).

Viver assim abre a porta para relacionamentos mais maduros. Sem ingratidão e sem a ausência de esforço mas fazendo pelo outro e recebendo coisas dele por outros motivos além do dever: Por desejo. Por vontade.

Por falta de palavra melhor, por amor.

27.9.17

Voo

Acabei de fazer minha primeira viagem de avião.

Por alguns anos, isso me incomodava.
Sonhava direto que estava prestes a embarcar pra algum lugar e opa!, cadê a passagem?, ou opa!, cadê o passaporte?, ou opa! desculpe, o Edson Arantes do Nascimento comprou todos os lugares desse voo e você vai ter que voltar.

A vontade era grande, mas o orçamento não deixava.
"Pôxa, vinte e três anos e eu nunca viajei de avião na vida?", eu reclamava.

E então vinte e quatro. vinte e cinco; os amigos conhecendo o mundo; vinte e seis, vinte e sete e pronto!
Risca a listinha, viagem feita.

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Não fiquei nervoso na hora. Queria ter ficado.

Queria ter sentido frio na barriga, medo, uma emoção forte. É uma primeira vez, cacete, e quantas primeiras vezes ainda restam depois de uma certa idade? Tem que aproveitar bem quando aparece uma.
Sei lá quando tinha sido a última vez que eu tive uma primeira vez de alguma coisa.

Mas fiquei frustrantemente tranquilo.
A única sensação forte mesmo foi de que eu precisava de um Dramin. Ninguém me avisou que quando o avião balança de um lado pro outro, você balança junto.

Agora, olha... o mundo é bonito, de cima. E bem pequeno.
E bem rápido.

Guardei o lanchinho de bordo para comer mais tarde. Comi tudo dez minutos depois do desembarque.
É que eu sei esperar, mas não muito.

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Sou um péssimo agente de viagens pra mim mesmo e escolhi o voo mais barato que consegui comprar, o que resultou num intervalo de oito horas entre o primeiro voo e a conexão que vem depois.
Oito horas é muito tempo.

Já passeei por Viracopos inteiro.
Já pesquisei por que é que o aeroporto tem esse nome (muito tempo atrás teve uma briga numa festa de igreja, o padre ficou bem puto e se referia ao incidente como "aquele viracopos maldito").

Andei na esteira rolante. Andei na esteira rolante no sentido oposto ao movimento da esteira rolante.
Apostei corrida na esteira rolante com a minha amiga. Apostei corrida de carrinhos de carregar mala.
Apostei corrida de carrinhos de carregar mala na esteira rolante.

Tomei um café que custou quinze reais.

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Também tive uma ideia para um livro.

Escrevi cinco páginas para ele, que, a partir de agora, se trata de um Projeto Oficial™, o que provavelmente quer dizer que essas cinco páginas vão ser tudo o que realmente vai ser escrito dele.

A ideia é contar as melhores histórias que eu tenho dos meus avós pra tentar entender o que é que eu tenho em comum com eles, duas gerações depois.

Sempre achei que os avós são uma maneira muito mais carinhosa para explicar uma pessoa do que os seus pais. Histórias com pais dão muita treta, os avós costumam ser um tipo de amor mais pacífico.

O livro ia chamar "De onde vem a voz".
Pegou? Pegou? A voz, avós, a voz?

Imaginem um livro bem bom, porque foi assim que eu imaginei, e é bem possível que ele fique só na imaginação mesmo.

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Tentei tirar uma soneca, mas o café de quinze reais tá fazendo valer o seu preço e me impediu.
Agora estou aqui, exausto e ligadaço, escrevendo esse boletim especial de acontecimentos irrelevantes, e ainda tenho mais três horas pela frente.

Quem sabe o próximo voo traga a emoção que o primeiro não trouxe.
Talvez voar seja que nem transar, que a primeira vez não é tudo aquilo e depois vai melhorando.

Talvez eu passe o tempo todo dormindo, porque até lá esse bendito café já deve ter dado efeito rebote.

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De qualquer forma, estou oficialmente de férias. Não tem avião suficiente no mundo, nem horas de espera suficientes pra tirar a alegria disso.

Por enquanto, eu não preciso ter foco nenhum. Acho que vou correr mais um pouco na esteira rolante pra passar o resto do tempo.

Tomara que o segurança não venha brigar comigo. Mas, se reclamar, já tenho a resposta pronta:
"É minha primeira vez, não sabia que não pode!"

Alguma vantagem precisa ter pra quem é novato.

Insatisfeitos

Nós somos seres insatisfeitos.
Desde o momento em que você chorou no berço e não foi prontamente atendido, seu cérebro ativou um sistema de sobrevivência: a fantasia.

Pra lidar com a opressora realidade de não ser cem por cento compreendido (se já é difícil para um adulto, imagine para um bebê), você começa a imaginar como seria ser plenamente amado.
Surge um personagem na sua cabeça, o de alguém que te entende e te ama sem reservas.
Alguém que te faz apenas bem e antecipa todos os seus desejos, além cujo único objetivo de vida é te deixar contente - sem falhas!

O mecanismo da fantasia existe por instinto de sobrevivência emocional: a fantasia é a reserva do nosso tanque de combustível, permitindo que sigamos em frente mesmo sem sentir amor.

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Por isso mesmo, ela vai nos acompanhar por toda a vida - mesmo quando estamos muito bem, só por via das dúvidas.

Você pode estar solteiro, imaginando alguém que esteja ao seu lado, namorando com essa pessoa todas as noites ao deitar a cabeça no travesseiro, por mais que pessoas não imaginárias que te amem apareçam e você não as deseje.

Você pode estar muito bem casado e imaginar que aquela pessoa que ficou no passado poderia ser a verdadeira melhor opção pra você (e, se tivesse se casado com ela, estaria fantasiando a mesma coisa a respeito da pessoa com quem realmente se casou).

Imaginar um afeto constante é o equivalente emocional da fome. É uma maneira de manter o cérebro ligado para não esquecer de encontrar recursos que o mantenham vivo.

Você pode estar super bem alimentado mas vai salivar ao pensar numa refeição bem preparada.
Mesmo enquanto está comendo, pode acontecer de alguém falar de outra comida e te dar vontade de comer aquela. Isso não quer dizer que sua refeição de agora seja ruim.

Jogar tudo para o alto a cada pequeno sinal de insatisfação só prova que não evoluímos muito do bebê que abriu o berreiro ao não ser prontamente atendido pela mãe.
Estar um pouquinho insatisfeito não quer dizer que você precisa mudar tudo na sua vida.
Só quer dizer que você está vivo - e lutando para sobreviver.

22.9.17

Popstars

É fácil entender o sucesso de programa Popstar, na Globo.

Atores, apresentadores, artistas bem sucedidos em outras áreas se amontoam e se estapeiam pra soltar a voz em público. A cada canção bem recebida, choram como se não tivessem tido outro sonho na vida a não ser cantar.

E, realmente, talvez não tivessem.
Eu também, famoso fosse, ia querer estar lá, fazendo karaokê de Tim Maia e soltando minha voz grave e rouca pelo ar.

Todos nós tivemos nossas grandes paixões profissionais.
Se desse certo pra todo mundo, seríamos todos rockstars, astros de Hollywood ou o Neymar.

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É importante saber separar o saber do ofício.

Um arquiteto com um grande interesse em pessoas pode saber muito mais profundamente sobre a psicologia humana do que um psicólogo formado, ainda que não saiba praticar psicoterapia.

Um pedreiro com um grande interesse em música pode sentir muito mais profundamente um solo de guitarra do que um músico formado, ainda que não saiba explicar as escalas pelas quais o guitarrista passa.

Um cineasta com um grande interesse por matemática pode não saber resolver equações avançadíssimas, mas vai sentir uma emoção tremenda ao entender como um grande cálculo se executa do começo ao fim que talvez um matemático não saiba perceber.

Um dentista pode amar poesia. Um poeta, quem vai dizer que não?, pode achar lindo um tratamento de canal.

Um psicólogo com um grande interesse em música pode cantar muito mal, mas te indicar uns discos pouco conhecidos bacanas e... Tá, nesse caso não se aplica.

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Essa compreensão profunda e amor pela arte por quem não é artista acontece porque a distância - a falta, a sensação de não poder realmente alcançar o que ama - traz uma angústia que aprofunda as experiências que residem brevemente nos sentidos antes de voltar ao mundo dos sonhos.

Em tempos de escolher uma carreira aos dezessete anos, com a pressão de ganhar dinheiro e fazer o que ama pelo resto da vida, saber que o que se toma de ofício não é necessariamente uma garantia de amor eterno pode parecer pesado.

Mas saber que tornar da paixão um ofício pode trazer angústia e frustração - não financeiramente, como todos os pais pregam, mas na alma, por trazer o seu amor para perto demais, sob uma ótica muito real e cruel, capaz de desmontar as ilusões - pode ser libertador.

É como casar com a pessoa dos seus sonhos: o casamento começa e os sonhos acabam.
Amar à distância pode fazer o amor ficar muito mais interessante. Se o objetivo for manter o sonho, melhor guardar as alianças para si.

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Talvez meu conselho para quem está procurando uma profissão seja esse: faça o que ama, mas não dependa disso totalmente.

Case-se com um ofício que lhe seja fácil e pouco desgastante e persiga sua paixão como quem persegue um amor com astúcia: cuidadosamente, sem se mostrar disponível demais, sem depositar todas as suas expectativas e dando ocasional bote, quando a situação ideal aparecer.

Quem sabe você tenha sorte e sua tórrida paixão mantenha-se luxuriosa e intensa por anos a fio.
Quem sabe sua grande paixão seja melhor como uma amizade para toda a vida.

Amores mudam pela vida, ainda que haja amores duradouros.
Seu ofício pode não ser o que você sempre sonhou, mas pode ser aquele amor que te esquenta os pés no fim da noite e te faz se sentir satisfeito.

Aí, de vez em quando, você masturba sua imaginação botando um bom disco pra tocar e canta junto a plenos pulmões, se sentindo uma estrela do rock. Não há nada de errado em fantasiar com uma grande paixão enquanto se vive um amor maduro.

Aumentando o volume

Depois de um debate em sala de aula na faculdade, uma professora me chamou - uma professora incrível, que eu respeito muito até hoje. &quo...