9.11.18

Tudo é por acaso


Sabe quando você aprende uma palavra nova, e de repente você começa a reparar em um monte de gente falando ela o tempo todo?
Ou quando alguém perto de você engravida e você começa a ver grávidas em todo lugar?

Estou assim com essa bendita frase.

Começou outro dia na sala de espera do médico.
Uma moça chegou completamente esbaforida, perguntando se ainda dava tempo de fazer a consulta. A secretária falou que, por coincidência, tinha um encaixe bem naquele momento.

"Ufa! Meu marido passou mal e eu precisei dar uma carona pra ele até o trabalho. Que bom que teve esse encaixe."

"Pra você ver", disse a secretária, "que nada é por acaso".

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Fiquei encucado. Se alguma coisa ali era, era por acaso.

Por acaso, o marido dela comeu algo estragado. Por acaso, teve um desarranjo. Por acaso, ganhou uma carona da esposa e, não menos por acaso, alguém tinha desistido de sua consulta.

Por acaso, tudo deu certo.

A frase começou a me perseguir a partir desse dia, e é incrível a quantidade de vezes que alguém larga esse chavão por aí:

"Demorei uma hora a mais pra sair da consulta, mas quando passei na padaria tinha saído pão quentinho bem na hora! Nada é por acaso!"

"Fui sair de casa e encontrei adivinha quem! Minha vizinha! Nada é por acaso!"

"O acidente matou meus quatro filhos e meu gato, mas no mesmo dia eu vi uma flor bem bonita. Sinal de Deus! Nada é por acaso, né?"

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Até eu comecei a usar a frase mais vezes. Conseguia encaixá-la em absolutamente qualquer situação:

"Moço, espera um pouquinho que eu tô sem troco", dizia a caixa do mercado.
"Tudo bem", eu respondia com ares de guia espiritual. "Nada é por acaso".
Ela concordava e sorria.

Um amigo levava um cano da namorada, eu consolava com "Nada é por acaso", uma prima pintava o cabelo e a cor saía errada, o consolo era o mesmo, o Uber comentava da chuva e eu filosofava: Nadépuracaso! Nadépuracaso!

E sempre, toda miserável vez, a outra pessoa concordava.

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Ser humano é viver em um estado constante de quase-desespero. Se as coisas vão bem, dá pra levar tranquilo, mas se algo dá errado... A angústia se aproxima mais rápido que um parente pobre de um vencedor de loteria.

ALERTA GERAL! Meu marido passou mal! Não vai conseguir dirigir hoje! Vou perder a consulta no médico! Não vou conseguir outro horário!
TÁ TUDO DANDO ERRADO!
QUAL O SENTIDO DESSA MERDA DE VIDA?

Talvez a escalada não seja tão veloz assim pra todo mundo, mas a falta de sentido está sempre ali, à espreita, pronta pro ataque.

Por isso é tão gostoso quando aparece um clichê pra nos consolar e dizer "Ei, calma! Viu como uma coisinha encaixou no meio desse mundo de incoerências? Existe sentido nessa loucura! O universo não é um caos completo! Você vai ficar bem".

Ufa.
Nada é por acaso.

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Pra lidar com a imprevisibilidade da vida, só com esse olhar generoso mesmo.

"Eu apanhei um monte na escola, mas olha como eu fiquei empático! Agora eu sou assistente social e tudo se encaixou!"

"Fui atropelado e quebrei sessenta e sete ossos, mas hoje eu sou um motorista muito mais cauteloso! Certamente salvo vidas a cada dia com minha excelente direção defensiva!"

Isso não quer dizer que as coisas tenham acontecido POR um motivo.

Quer dizer que encontramos um motivo pra elas. Que, no meio de um monte de sofrimento e tragédias que nos pegam de surpresa, a gente foi capaz de se organizar e encontrar algum sentido, apesar do sofrimento.

Não, nada é por acaso se a gente fizer questão de atochar sentido na bagunça que topar nosso caminho.

Ao mesmo tempo, tudo é por acaso - a não ser que a gente faça não ser.

22.10.18

Valide-me

Estava entrando na padaria e cruzei com uma moça que segurava um bebê de colo.
Não me aguentei - nunca me aguento - e fui fazer graça com a criança. Que menininha fofa!

Voltei pra fila, comprei meu sanduíche e estava a caminho de casa quando a mãe da criança me chamou:

"Eu vi que você gostou da minha filha, você não gostaria de validar ela?"

Fez todo o sentido pra mim na hora, já explico.
Ela continuou:

"É que ela é especial, é muito carente de atenção, precisa de muito amor e carinho, muita validação."

Fiquei muito honrado. Que felicidade, ser justo a pessoa que valida um bebê fofo daqueles!

E essa foi a primeira parte do sonho que eu tive essa noite.

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A viagem do sonho vem de uma pergunta que eu faço frequentemente aos meus pacientes.
"Quem te validou?"

Ninguém entende de primeira, então eu explico.

Quando uma criança nasce, ela não é muita coisa. É só um enroladinho de carne com cocô e sentimentos.

Esse enroladinho precisa muito de uma outra pessoa, do lado de fora dela, que dê sentido àquela coisa toda.
Que veja o enroladinho e declare: "Tem uma pessoa aí dentro! Vou dar amor pra ela!"

Nem sempre são os pais que conseguem fazer esse papel. Já vi muita gente chorar bonito quando lembra da avó, ou da vizinha, ou do irmão, que deu o amor que, por falta de oportunidade ou de estoque, os pais não puderam dar.

A questão é: sem ser validado por alguém, você não estaria aqui.

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A segunda parte do sonho foi mais esquisita.

Eu entrava no blog do bebê que eu ia validar - incrível como as crianças usam a tecnologia cada vez mais cedo nos dias de hoje - e via as avaliações que ela deixava de cada pessoa que já tinha tentado validar ela antes.

"FULANO DE TAL - 3 estrelas", com uma foto e uma descrição do sujeito.
Em uma pessoa, tinha carinho mas faltava elogio.
Na outra pessoa, tinha elogio mas faltava abraço.
Na outra, tinha tempo de qualidade mas faltavam palavras de amor.

Ninguém era bom o suficiente praquela criança.

Bebezinho crítico da porra.

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O pior é que o bebê tinha razão.

Não há pessoa - por mais bem intencionada que seja - capaz de dar todo o carinho que outro ser humano necessita enquanto cresce e se descobre pela vida.

Sempre vai ficar uma parte da gente se sentindo invalidada.
Não vista. Não reconhecida. Não aceita.

Aí das duas uma:
A gente esconde essa parte, aceitando a derrota e jogando a toalha (ninguém nunca me achou bonito, eu sou uma desgraça estética mesmo, então por que me esforçar?), ou faz de tudo pra convencer o mundo que a gente tem valor, sim.

Se sentia inferior intelectualmente quando era criança?
Dá-se a engolir os livros. Tira nota boa, faz faculdade, um mestrado, dois... e ainda acha pouco.

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A validação externa sempre vai ser insuficiente.
Uma das tarefas mais difíceis de quem se propõe a ser adulto é tornar-se a voz que dita o próprio valor.

Amadurece quem para de esperar que outra pessoa a veja e reconheça seu valor e aprende a validar a si mesmo - mesmo que não pareça haver motivos para tal.

Quem espera ter motivo pra gostar de si mesmo nunca vai encontrar.
Porque no fundo cada um de nós é como o bebê do sonho: só um enroladinho de carne, cocô e sentimentos, precisando de muito carinho e atenção, sedento de amor.

E, justamente por ser tão frágil, merecedor de tudo isso.

Amar a si mesmo quando ninguém nos ensinou a fazer isso é um esforço gigantesco - mas sempre válido.

16.10.18

Pessoas encolhidas



Eu preciso lembrar de me lembrar, porque eu esqueço fácil, que algumas pessoas não duvidam de si mesmas o tempo todo.

Mais do que isso, elas tem a certeza de estar certas.

Parece outro mundo pra mim - pra muita gente que eu conheço também - porqu eu faço muito esforço para olhar pelo lado do outro.

Me aparece, à noite, o pensamento de "será que eu fui rude ao falar tal coisa?".
Eu sofro ao dizer não pra algo, ainda mais se for só por não querer fazer.
O sofrimento do outro me faz sofrer também.

Se alguém me diz que eu falei algo errado, eu primeiro questiono o que eu falei, pra depois pensar que a outra pessoa que pode estar enganada.

Na maior parte do tempo, eu sou uma pessoa encolhida.

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Aí eu me assusto quando vejo gente assim, dona da verdade.

Que não questiona o argumento que usa numa discussão. Que não se importa em ser agressiva.

Acho que isso começa muito cedo.

A gente, que se preocupa, já nasce pedindo desculpas.
Talvez por falta de um incentivo que diga "Estou interessado em você", a gente se convence de que não é importante.

Cresce com um senso de que não tem lugar.
Morre de gratidão por cada gentileza que ganha no mundo.
Respeita tanto o espaço do outro que deixa o próprio cada vez menor.

Gente que, quando percebe que está incomodando, sai do recinto pedindo desculpas.

Uma vida sofrida, mas pelo menos a gente se conforta em não agredir ninguém.

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Enquanto isso, algumas pessoas são hipervalorizadas desde cedo. Talvez por falta de frustração, ostentam cada pancadinha que levaram como um "Olha como eu sofri!", para dizer que tem sim, todo o direito de agir como agem.

Elas nunca estão erradas. Elas sentam com a perna mega aberta, foda-se quem está do lado. Elas ouvem música no volume que quiserem. Elas deixam o ronco da moto alto de propósito, pra incomodar mesmo.

Faltou argumento? Aumenta o volume da voz.
Não adiantou? Xinga.
Ainda nada? Bate na pessoa.

E quando você defende seu espaço, o que essas pessoas dizem?
"Você só pensa no seu umbigo! Egoísta!"

Porque sabem que, nos fazendo sentir culpados, o reflexo é de nos encolher.

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E o que eu mais tenho visto é gente se sentindo sem lugar.

Porque a gente gosta de se convencer que é amado. A gente gosta de fingir que é aceito, e se choca quando quem diz não se incomodar com a gente apoia alguém que consente com a nossa execração.

O que dói não é nem sentir o ódio. É sentir que, mais uma vez, a gente está sem lugar.
Sentir que, mais uma vez, a gente não é bem vindo. Que quem dizia que nos amava não se importa de verdade.

Sentir, lá no fundo, aquela vontade de pedir desculpa por existir e ir embora.

Do mundo, talvez, porque parece que não há lugar nenhum que nos queira.

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Mas aqui, de pessoa encolhida pra pessoa encolhida, a gente tem mais força do que pensa.

A gente já está acostumado a não ter apoio nenhum.
Cada um de nós já construiu coisas lindas, mesmo sem ninguém ter botado fé.
Cada um de nós merece sentir orgulho por cada mísera bostinha que tenha conquistado na vida.

Porque só a gente sabe o trabalho que dá pra fazer uma vida acontecer com tão pouco apoio e tanto esforço pra não incomodar ninguém.

Agora, permitir-se ser diferente é uma afronta. Vai parecer agressivo, vão tentar nos botar no lugar de pedir desculpas por existir.
Mas não é hora de pedir licença.
Nós não estamos errados em exigir respeito.

Nós temos direito ao nosso lugar também.

Soneca



Minha amiga me contou uma ótima.
Voltando do trabalho, noite passada, ela entrou distraída no ônibus e caiu no sono. Nem reparou que o ônibus estava indo pra um lugar diferente do que ela queria.
Bem diferente. Tipo, outra cidade de tão diferente.

Acontece nas melhores famílias, mas a reação dela foi sensacional. Minha amiga acordou, viu que ainda estava longe da parada final daquela cidade, virou pro lado e continuou dormindo.

Já estava na cidade errada mesmo, né?
Entre se desesperar e ainda assim precisar esperar chegar no ponto final para voltar pra casa e esperar dormindo, preferiu dormir.

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Deve ser culpa das novelas, em que todo mundo precisa sofrer em voz alta pra quem assiste entender a cena, mas a gente adora anunciar quando alguma coisa dá errado.

Eu tinha uma colega de trabalho que resmungava o dia inteiro:
"Ah, que bosta!"
"Ai, esse sistema não funciona"
"Que saco essa internet!"

No começo eu me preocupava com ela. Ficava chocado com como o trabalho dela era estressante, enquanto o meu não era. Tinha até dó.

Aí um dia eu olhei pra tela do computador dela enquanto ela resmungava e ela estava - juro por Deus - jogando paciência.

Era só a reclamação saindo no automático, pra parecer que estava trabalhando.

Entendi muita coisa naquele momento.
A gente é treinado para achar que quem reclama merece respeito. Aprende a reconhecer o trabalho mais pelo esforço do que pelo resultado.

Dá pra parecer que você está fazendo alguma coisa só por reclamar do problema, em vez de lidar com ele.

Sigo respeitando minha ex-colega. A gente trabalhava de igual pra igual, mas só eu parecia folgado.

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Me surpreende que alguém consiga chegar à idade adulta achando que todo problema que encontra pelo caminho é o fim do mundo.

A capacidade de não se preocupar com pequenos problemas é uma maturidade que só surge depois de muita frustração, quando você percebe que o mundo já acabou muitas vezes e você continua tão vivo quanto antes.

Aí a gente se permite ser mais leve.

Tirou nota ruim? Vai pro boteco chorar as mágoas com um colega, estuda mais na próxima.
Foi assaltado? Bem, pelo menos não estava com a carteira cheia de dinheiro dessa vez.
Perdeu o ônibus? Bom, agora que já aconteceu, tira um livro do bolso e aproveita o tempo livre.

O mundo não vai parar para esperar sua frustração.
Depois do leite derramado, é melhor perceber que remoer é inútil, aceitar o prejuízo de uma vez e seguir com a vida.

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Claro que é muito mais fácil fazer isso com os problemas pequenos do que com os grandes.

Um ônibus errado é menos difícil de aceitar do que o resultado desastroso de uma eleição por exemplo.

Mas em vez de dramático, acho que a gente ganha muito mais sendo malandro.

Quando não há mais chances de evitar uma tragédia, a gente descansa do desgaste emocional, tenta focar em outra coisa e refaz os planos para chegar onde quer de outro jeito.
As ideias prosseguem e o esforço continua, mas a tortura emocional diminui um pouco. Exercitar o requebrado também pode ser importante.

O ônibus vai continuar indo para o lugar errado, mas pelo menos você tira uma soneca.

30.9.18

Gabriel

Gabriel.
Eu lembro perfeitamente do seu nome, apesar do rosto não ser mais tão claro na minha cabeça. Na minha imaginação, por alguma semiótica inconsciente, ele é igualzinho ao Do Contra da Turma da Mônica.

Eu não tinha muitos amigos na época, mas não me importava muito com isso. O lúdico me servia perfeitamente para passar o intervalo da escola, sem ligar para as meninas que não me queriam por perto nem para os meninos que tiravam sarro de mim.

Então eu brincava sozinho. Nesse dia, eu pulava amarelinha.

A escola era um prédio pequeno com uma faixa de calçada ao redor em que os alunos brincavam. Enquanto eu brincava, os meninos da minha sala apostavam corrida ao redor do prédio.

Joguei a pedrinha.

Pulinho com um pé. Pulinho com os dois pés. Pulinho com um pé, de novo.
Mais um pulo... e minha memória apagou.

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Acordei não sei quanto tempo depois, certamente não tempo suficiente pra alguém se dar conta que uma criança estava desmaiada no chão.

O Gabriel, que eu nunca esqueci o nome, que estava apostando corrida com os meninos por ali, achou divertido me dar um empurrão e continuar correndo.

Caí de cabeça na quina de um banco de concreto.
Criança cai o tempo todo, eu sei, mas essa foi uma cabeçada bem menos boba do que parece.

Consegui pedir ajuda e alguém me levou pro hospital. Antes de ir, uma professora perguntou quem tinha me empurrado. Respondi.

"Foi sem querer", ele justificou quando perguntaram.
Ele não sofreu repreensão nenhuma.

"Seu filho é forte", disse a enfermeira para a minha mãe. "Esperou você chegar pra começar a chorar."

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Até hoje tenho uma cicatriz na testa e um coágulo atrás do olho direito que não me deixam esquecer essa história.

Só meus pais sabem quanto dinheiro gastaram me levando de médico em médico para ver qual era a desse bendito coágulo.

Às vezes eu ficava muito tonto, às vezes eu tinha dores de cabeça terríveis. O negócio podia resolver se mexer a qualquer momento e fazer um estrago difícil de prever.

Mas isso não me incomodava tanto quanto a culpa que eu sentia de meus pais precisarem abrir mão dos seus trabalhos para viajar até um especialista. Eu era culpado por aquilo. Eu não devia ter caído. Eu devia ter sido amigo dos meninos.

Eu não devia ter deixado ninguém me empurrar. Com uns dez anos de idade, eu tinha um contâiner de vergonha e planos bem claros de suicídio.

Até hoje me aperta o peito quando vejo uma família exausta acampando com um filho na porta de um hospital.
Pobres pais. Pobre criança.


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Eu realmente acho que o Gabriel não fez o que fez por mal.
Ele só não se importava comigo. Ele só me empurrou porque deu na telha. Ele só achou que seria engraçado me ver caindo.

Ele sabia que nada de ruim iria acontecer com ele.

Se eu sinto calafrios a cada vez que vejo um carro com o adesivo do candidato que diz que menino afeminado precisa apanhar pra aprender a ser homem, não é porque eu sinto que a pessoa dentro do carro seja um monstro.

É porque eu sei que a qualquer momento pode aparecer um Gabriel para me empurrar por trás, só de brincadeirinha. Sem maldade. Só de zoeira. Porque não quis se importar com as consequências.

Porque não quis se importar com o que pode acontecer comigo depois.

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Eu não brinco mais sozinho.

Somos vários - cada um com suas cicatrizes - cansados de tentar não atrapalhar ninguém. Pedindo, por favor, que parem de nos empurrar.

Só isso.

Nosso pedido irrita muito os tantos Gabriéis insistem em fazer birra.
Eles só querem fazer o que tem vontade. Eles querem empurrar sem ser punidos. Eles querem mandar sem se importar com quem está do outro lado.

Nós, que já pulamos tanta amarelinha sozinhos, que já levamos tanto empurrão, estamos fazendo o possível para impedir.

Espero que a gente consiga.

27.9.18

Original



Estava passando pelo centro e parei numa lojinha popular:
"Moça, você tem camiseta básica?"

Ela foi bem simpática:
"Olha, eu tenho essas que estão na promoção, 14,90 cada."


Me mostrou uma arara com várias camisetas cheias de desenhos e palavras na frente. Incrível como roupa barata sempre tem desenho.

"Mais básica que isso, você tem?", eu pergunto.
"Essa é bem basiquinha, olha!", e ela me alcança uma camiseta laranja com o escrito "FLORIDA 1969 - Extreme Sports forever" na frente.

"É que eu gosto mais discretinha, entende?"

Ela me mostra outra, dessa vez preta. Tá escrito "POWER TO THE PEOPLE - 1978- Fighting Hard For Believing Surfboarding - NEW YORK", no meio do desenho de uma onda.

"Tem essa outra aqui também", e me mostra uma azul marinho escrito "JUICY BITCH - Try me if you can - Tokyo Japan New York France Philippines Fashion Forever Dreams Company - The Fever is Inside Us".

Passei mais tempo lendo as camisetas do que qualquer livro que eu tenha comprado esse ano.
"Toda lisa você não tem?"

"Tenho sim", diz a vendedora, e me mostra uma igualzinha às anteriores, mas sem nada escrito. "Essa tá 34,99".

Porra.
"Tá bem... E calça de academia, você tem?"

Ela me mostra uma calça com o símbolo da Nike virado pro lado errado e com NIEK escrito bem grandão do lado.

Se a calça fosse lisa, eu teria comprado na hora.

Não é possível que seja mais barato fazer uma coisa cheia de desenho e marcas falsas do que uma roupa simplezinha, sem nada.

Desisto.

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No ensino médio, todos os endinheiradinhos do colégio usavam tênis da Adidas e eu morria de inveja.
Eu tinha inveja de muita coisa, até dos que tinham dinheiro pra comprar pastel na cantina todos os dias, mas o pastel eu conseguia ter às vezes.
O Adidas não.

Tanto mentalizei o tênis que ganhei um tênis da Adidas - falsificado.
A intenção foi das melhores, mas o presente tinha um problema sério: qualquer um que batesse o olho ia contar quatro faixinhas na lateral e não as três tradicionais da marca.

Falsificação visível de longe, maior vergonha. Usei muito o tênis, mas só pra ficar em casa. Morria de culpa por ter vergonha de uma coisa tão boba.

Hoje eu improvisaria umas listrinhas a mais no lado do tênis, pra deixar bem claro que ele é tão fake quanto a minha autoestima.

Aprendizados, né?

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Mas a melhor história de coisa falsificada que eu tenho foi um relógio que eu vi pra vender quando ainda era criança.

Grandão, brilhava de longe no mostruário do 1,99. O visor ostentava, bem grandão, a nome da marca:
ABIBAS.

A falsificação superou o original.
Até hoje me arrependo de não ter comprado.

Se alguém encontrar pra vender, compra pra mim que eu mando o dinheiro.
Só confira as notas, por favor. Podem ser falsificadas.

22.9.18

A casa

Uma vez eu amei demais.

Com esse amor, decidi construir uma casa. Seria a casa dos meus sonhos, e pus minhas mãos à obra.

A princípio, só eu trabalhava.
Depois fui ganhando espaço, mas não foi tão fácil.

Quando eu construía um quarto, ele levantava um muro.
Quando eu construía uma sala de estar, ele fechava uma porta.

Mas eu insisti, e a casa foi tomando forma.

Deu trabalho, mas eu insisti muito para viver ali.
Alguns amigos falavam: "Cuidado, o material não é bom! Essa casa vai cair!", mas eles não sabiam de nada.

Aquele era o projeto da minha vida.

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Morei contente na casa por algum tempo.

Mas não muito. O teto começou a pingar, o chão foi rangendo... algumas tábuas iam se soltando, o reboco da parede se esfarelava.
Me apressei em fazer remendos.

Um puxadinho ali, uma camada de tinta para disfarçar uma infiltração acolá, eu fui levando enquanto dava.

Meus esforços não bastaram por muito tempo: a estrutura estava condenada.

Eu tinha que sair dali.

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Como foi difícil abandonar o lar que eu sonhei por tanto tempo!

"Jamais vou ter forças pra construir algo novamente!", pensei.
Deitei ao relento e fiquei por lá.

Sofrendo pelo esforço que fiz por aquela casa que só era bonita no sonho.
Sofrendo pelos esforços que eu não fiz.
Sofrendo por não ter prestado atenção de que eu construía uma coisa e meu parceiro outra.

Sofrendo por entender que a casa dos meus sonhos jamais seria meu lar.

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Até que alguém me ofereceu pouso.

Confesso que, de primeira, não gostei da ideia.

Eu já estava bem dormindo sob uma marquise. Não esperava mais morar em casa nenhuma, e mesmo que esperasse, não achei que ficaria contente com uma casa que não foi a que eu sonhei.

Mas, por mais que eu negasse, eu sentia frio, e solidão, e medo.
Aceitei ir para essa casa, tão mais simples do que a que eu tinha antes.
A diferença era que me queriam lá.

--

Fiz meu puxadinho com um amor muito mais modesto, num projeto muito distante daquele que eu tinha sonhado.

As tábuas que carreguei comigo foram todas presas com parafusos - eu não seria doido de me pregar ali como fiz da outra vez.

Ocupei cada espaço com muito cuidado. Resisti a me sentir em casa por lá.

Mas fui baixando a guarda, e às vezes me surpreendia com como gostei das coisas como foram ficando.

Na cama, dois travesseiros que queriam estar ao lado do outro.
Na cozinha, duas canecas que serviam contentes o mesmo café.
Na estante, um porta-retrato com um sorriso sincero.

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Ainda sinto falta da minha primeira casa. Ainda doem os sonhos que ficaram por lá.

Só que aqui, no meu endereço novo, o chão já não range.
Não há mais visitantes indesejados.
A estrutura foi feita com muito mais solidez.

Sim, algo de mim ficou na casa antiga. Mas no meu coração, sei que é muito melhor morar aqui.

Lar, agridoce lar.

Tudo é por acaso

Sabe quando você aprende uma palavra nova, e de repente você começa a reparar em um monte de gente falando ela o tempo todo? Ou quando algué...