22.9.17

Popstars

É fácil entender o sucesso de programa Popstar, na Globo.

Atores, apresentadores, artistas bem sucedidos em outras áreas se amontoam e se estapeiam pra soltar a voz em público. A cada canção bem recebida, choram como se não tivessem tido outro sonho na vida a não ser cantar.

E, realmente, talvez não tivessem.
Eu também, famoso fosse, ia querer estar lá, fazendo karaokê de Tim Maia e soltando minha voz grave e rouca pelo ar.

Todos nós tivemos nossas grandes paixões profissionais.
Se desse certo pra todo mundo, seríamos todos rockstars, astros de Hollywood ou o Neymar.

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É importante saber separar o saber do ofício.

Um arquiteto com um grande interesse em pessoas pode saber muito mais profundamente sobre a psicologia humana do que um psicólogo formado, ainda que não saiba praticar psicoterapia.

Um pedreiro com um grande interesse em música pode sentir muito mais profundamente um solo de guitarra do que um músico formado, ainda que não saiba explicar as escalas pelas quais o guitarrista passa.

Um cineasta com um grande interesse por matemática pode não saber resolver equações avançadíssimas, mas vai sentir uma emoção tremenda ao entender como um grande cálculo se executa do começo ao fim que talvez um matemático não saiba perceber.

Um dentista pode amar poesia. Um poeta, quem vai dizer que não?, pode achar lindo um tratamento de canal.

Um psicólogo com um grande interesse em música pode cantar muito mal, mas te indicar uns discos pouco conhecidos bacanas e... Tá, nesse caso não se aplica.

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Essa compreensão profunda e amor pela arte por quem não é artista acontece porque a distância - a falta, a sensação de não poder realmente alcançar o que ama - traz uma angústia que aprofunda as experiências que residem brevemente nos sentidos antes de voltar ao mundo dos sonhos.

Em tempos de escolher uma carreira aos dezessete anos, com a pressão de ganhar dinheiro e fazer o que ama pelo resto da vida, saber que o que se toma de ofício não é necessariamente uma garantia de amor eterno pode parecer pesado.

Mas saber que tornar da paixão um ofício pode trazer angústia e frustração - não financeiramente, como todos os pais pregam, mas na alma, por trazer o seu amor para perto demais, sob uma ótica muito real e cruel, capaz de desmontar as ilusões - pode ser libertador.

É como casar com a pessoa dos seus sonhos: o casamento começa e os sonhos acabam.
Amar à distância pode fazer o amor ficar muito mais interessante. Se o objetivo for manter o sonho, melhor guardar as alianças para si.

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Talvez meu conselho para quem está procurando uma profissão seja esse: faça o que ama, mas não dependa disso totalmente.

Case-se com um ofício que lhe seja fácil e pouco desgastante e persiga sua paixão como quem persegue um amor com astúcia: cuidadosamente, sem se mostrar disponível demais, sem depositar todas as suas expectativas e dando ocasional bote, quando a situação ideal aparecer.

Quem sabe você tenha sorte e sua tórrida paixão mantenha-se luxuriosa e intensa por anos a fio.
Quem sabe sua grande paixão seja melhor como uma amizade para toda a vida.

Amores mudam pela vida, ainda que haja amores duradouros.
Seu ofício pode não ser o que você sempre sonhou, mas pode ser aquele amor que te esquenta os pés no fim da noite e te faz se sentir satisfeito.

Aí, de vez em quando, você masturba sua imaginação botando um bom disco pra tocar e canta junto a plenos pulmões, se sentindo uma estrela do rock. Não há nada de errado em fantasiar com uma grande paixão enquanto se vive um amor maduro.

18.9.17

Cura gay

Como as pessoas pensam que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade é:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"MAS QUE ABSURDO! Gay é lindo, gay é vida, experimenta esse sapato!"

E seguem-se várias sessões rumo a uma inscrição no RuPaul's Drag Race.

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Como as pessoas querem que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade seja:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"Ótimo. Olhe bem para essa piroca e prenda a respiração. Você precisa associar a visão de um pênis a falta de oxigenação no cérebro."
"Eu vou deixar de ser gay?"
"Não, mas vai desmaiar toda vez que ver uma rôla."

E seguem-se várias sessões pra aprender a cuspir no chão, coçar o saco e decorar a escalação do time do Curíntia.

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Como ir a um psicólogo pra tratar sobre sexualidade realmente é:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"Me conta sobre isso... Como você se sente sobre ser gay?"

E seguem-se várias sessões verdadeiramente escutando a pessoa, prestando atenção nos ditos e desditos do seu desejo, facilitando a própria escuta sobre suas vontades e medos e aumentando a autonomia dela sobre as próprias decisões.

Então, e só então, segue-se para a inscrição no RuPaul's Drag Race.

17.9.17

A favor de ser trouxa


Eu sempre tive uma fascinação por aquelas pessoas que fazem todo mundo cair a seus pés. As Frida Kahlos, Marylin Monroes e Marlon Brandos do mundo, aquelas pessoas que fazem todo mundo se apaixonar por elas enquanto elas, impassíveis, estão nem aí.

Quando um amigo qualquer reclamava que tinha alguém no seu pé o tempo todo, como se isso fosse a coisa mais chata do mundo, meus olhos brilhavam de admiração. Quanto poder, né? Ter alguém te querendo muito enquanto você faz cara de blasé e prefere ficar em casa cortando a unha. Eu, trouxa por formação e vocação, morria de inveja.

"Ah, mas é meio chato, não rola, sabe?", dizia a pessoa independente e feliz.
"Dá uma chance pra ele! É um chato bonzinho!", eu respondia, advogando por nós trouxas.

Afinal, eu sempre ocupei o papel de estar no pé dos outros, e achava isso muito, muito chato.
Não conseguia entender a capacidade de alguém negar um amor que estava ali, tão de graça.

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Precisei de um bom tempo de trouxice (suficiente pra uma faculdade bem longa, pós-graduação e mestrado), pra chegar num ponto de exaustão.

Algo perdeu o encanto. Até aquelas pessoas que, em outro momento, eu mataria pra ter uma chance, chegavam perto e me davam vontade de sair correndo pra casa, pra ficar quieto e sozinho, lendo um livro que eu já li antes e coçando a orelha.

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Mas adivinha o que acontece quando você chega nesse ponto? TODO MUNDO QUER NAMORAR CONTIGO.

Que tipo de sensor é esse, de pegar a pessoa mais machucada e aversa a relacionamentos que pode encontrar e falar "É esse!", e investir tudo o que pode?

Como sempre fui eu do outro lado desse cabo-de-guerra, fiquei feliz. Quer dizer, sair do papel de pessoa que quer muito ter alguém ao seu lado só pode ser uma evolução, certo?

Acontece que ser a pessoa indisponível pode até te dar mais poder, mas não te dá mais prazer.
Não é só auto-suficiência. Você quer sentir o contato próximo e o amor de alguém, mas alguma coisa te impede, como uma azia violenta que te dá ânsia só de olhar pro seu prato favorito.

E quando você se força a baixar um pouco a guarda... Vem uma gastrite violenta.

Tá ruim, sai de perto, preciso de ar.

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Pode ser muito divertido experimentar esse poder.
Aprendi muita coisa vendo a minha trouxitude refletida no outro.

Eu, que sempre me dobrei em cinco pra tentar agradar quem estava comigo, me surpreendi com como você pode ser cuzão e ainda assim ser atendido.

"Te trouxe flores", diz a pessoa, feliz, fazendo o papel que devia ser o meu.
"Ah, valeu. Eu tenho um pouco de rinite.", eu respondo, escroto.
"Nossa, desculpa, eu troco, eu trago outras coisas, quer chocolate?"

Ei, eu conheço esse sentimento de pedir desculpa por ter feito algo legal! Que coisa besta!

"Não, não, tá bom.", eu respondo, sorrindo.
"Nossa, mas eu vou te recompensar por essa... Não sabia que você não podia com flor."
"..."
"Desculpa, tá?"

Jesus Cristo, eu já fui assim.

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Ser indiferente ao carinho alheio não é sinal de força. É casca grossa, calo, fachada.
Tudo coisa de quem está machucado demais e não está disposto a se arriscar outra vez. Fica indiferente ao amor quem tenta se curar dele. Fica com azia quem se recusa a digerir a dor dos amores que deram errado.

Porque o amor dói e te faz de besta, mas é justamente isso que faz ser muito gostoso quando ele é retribuído.

É ser trouxa de vez em quando que faz encontrar um amor dar aquela sensação de ter ganho na loteria.

Exigir sair por cima toda vez que está com alguém é uma defesa que tira toda a graça de viver. Se privar de um sentimento é se privar de todos.

Há uma grande lição em aceitar que perder o poder às vezes pode ser bom. Você exercita um pouco o masoquismo, volta a ter emoções novamente e lembra o motivo de ser tão gostoso amar.

Marlon Brando que me perdoe. Ser fatal é lindo no papel, mas ser trouxa não é tão ruim.

(Até você ser bem trouxa outra vez. Aí é uma bosta. Mas aguenta, quem quis amar foi você.)

15.9.17

O que as coisas sugerem

Faz um mês e meio que eu estou morando em algo que eu posso considerar "o meu apartamento".
Quer dizer, é alugado e é dividido, mas fazia muito tempo que eu não morava em um lugar em que eu não precisasse marcar as paredes com urina pra marcar propriedade.

Até agora, foram uns tempos alugando quarto e dois anos morando no sótão do consultório, um lugar agradável e ameno onde a temperatura média é setecentos e vinte graus. Foi bom enquanto durou.

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Já morei sozinho antes disso, mas faz tempo. Agora eu divido o apartamento com uma colega dos tempos da faculdade, a Amanda.

Recomendo a todo mundo morar sozinho pelo menos uma vez da vida, pela liberdade e pelo autoconhecimento.  Depois disso, recomendo a todo mundo morar com a Amanda pelo menos uma vez na vida, porque ela faz um ovo mexido muito bom.

O legal de se sentir responsável por um lugar é que até limpar a casa vira uma rotina gostosa, já que você tá cuidando do que é seu.

Minha tarefa preferida é lavar louça, que é divertida pela recompensa imediata de ver o serviço pronto, seguida por lavar roupa, que é basicamente jogar a roupa na máquina e ficar no computador por duas horas e meia esperando a máquina fazer o serviço e falando "Já respondo, tô lavando roupa..." pras pessoas no Whatsapp.

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A rotina da vida adulta cria umas relações interessantes com as coisas.

Meu micro-ondas, por exemplo, apita sozinho na função Pudim. Tô ali, na cozinha, cuidando da minha vida, e o micro-ondas (que horrível escrever desse jeito) sai da sua condição de objeto inanimado pra me gritar PUDIM e me lembrar da importância dos prazeres na vida.

Nunca fiz pudim nele, mas eu aceito o recado e vou comprar um na padaria.

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A quantidade de atitudes humanas que meus objetos tem tido só seriam justificáveis se eu estivesse com uma severa esquizofrenia, que é um diagnóstico que eu prefiro deixar quietinho por enquanto.

Não vou nem levar em conta as sugestões do corretor do celular (manda uma foto do seu pai, diz ele), que eu já considero manifestações do meu inconsciente e que me fazem pensar duas vezes no que eu mando pras pessoas.

Prefiro acreditar que meus objetos me dão conselhos, mesmo.

Meu celular me assusta todos os dias mudando o horário exibido pra uma hora mais tarde. Depois do mini ataque cardíaco por achar que estou perdendo um compromisso, eu vou conferir e vejo o erro: O celular mudou o fuso horário pra Fernando de Noronha.

Todo. Santo. Dia. O fuso muda pra Fernando de Noronha.

Meu celular é um objeto de alta tecnologia e, como tal, sabe das coisas. Por isso, assim que eu tiver o orçamento, vou obedecê-lo.
Comendo pudim.

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Agora, de todas as manifestações que meus objetos inanimados tem, nenhuma bate a de quando eu deixei o celular desbloqueado no bolso e o movimento das minhas pernas, sozinho:
1 - Abriu o aplicativo do Whatsapp;
2 - Foi nas configurações de perfil;
3 - Clicou em "Trocar foto de perfil";
4 - Selecionou, de todas as fotos da galeria, um meme do cara de chapéu mostrando a piroca;

Foram dias com essa foto lá, exposta pra todos meus amigos e pacientes, até meu irmão me mandar uma mensagem perguntando que porra era aquela.

Se o microondas quer que eu aproveite a vida comendo pudim e o fuso horário quer que eu aproveite a vida indo pra Fernando de Noronha, o que o meme da piroca na foto do perfil está querendo me sugerir?

Fica em aberto.

10.9.17

Viver é urgente

Enquanto você for um ser humano, tudo o que é humano é seu. Toda a experiência humana lhe pertence.

Cada ato heróico e cada vergonha da história estão na sua conta. Se um humano fez, você teria sido capaz de também ter feito. Somos feitos da mesma coisa, não?

Se a autoestima estiver baixa, basta lembrar que é feito do mesmo material que os gênios. Você é feito de Ghandi e de Buda. Você é feito de Martin Luther King Jr. e de Gilberto Gil.

Da mesma forma, você é feito de Paulo Maluf e de Bandido da Luz Vermelha, e lembrar disso ajuda a segurar a onda de se achar muito santo.

Você é feito da mesma coisa que o cara que te xingou no trânsito ou que roubou seu celular, e talvez teria agido muito parecido nas mesmas condições que ele.

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Por isso não faz sentido isolar os criminosos da sociedade. Ok, nos protejamos, façamos justiça,  mas manter um canal de comunicação aberta pode ajudar a todos.

Um assassino pode ensinar muito sobre humanidade, mesmo para a pessoa mais altruísta.
Pode ensiná-lo, por exemplo, quais situações e pensamentos podem levar alguém a matar, e o altruísta pode conhecer e dominar melhor sua porção assassina da qual nem fazia ideia que existia.

Da mesma forma, a convivência com vários tipos de pessoas pode lembrar quem está na cadeia de que eles não são feitos de farinha de criminoso, e sim com a mesma receita de gente que todos os outros seres humanos, e por isso mesmo podem ter experiências muito maiores do que as que conhecem, tendo a oportunidade pra tanto.

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Se tudo que é de um humano é de todos, das conquistas aos erros, podemos procurar aprender com as diferenças em vez de nos afastarmos por elas.

Você pisou na Lua e morreu de fome. Você alimentou os órfãos e assassinou Jesus.
Você é o Alfa e o Ômega, a Ivete Sangalo e a Claudia Leitte.
Você é cada uma das oito bilhões de pessoas que estão vivas nesse momento.

Olhando assim, cada experiência se enriquece muito. Há muito ao que estar atento. Conhecer o outro é conhecer uma parte sua.

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Se todas as vidas que existem são suas, e nunca se viveu tanto e de tantas formas únicas, viver se torna urgente.

Viver é urgente porque é fugaz, porque somos todos feitos do mesmo pó vivo e todo mundo está na mesma. Viver é urgente porque você é único e porque o outro também é você.
Viver é urgente porque você é tão gente quanto um assassino, e o Papa é tão gente quanto os dois.
Viver é urgente porque há muito o que conhecer sobre si mesmo, ainda que através do outro.

Viver é urgente porque existe muita gente por aí. Muita gente diferente, e todos iguais, porque todos são... você.
Sem separação e sem medo.

4.9.17

A importância do fundo do poço

ou: Abandonar também é amar

Se alguém perto de você está cometendo os mesmos erros várias e várias vezes, é natural querer ajudar. Também é natural insistir na ajuda, ainda mais quando se trata de alguém que você ama muito.

Mas, se você está tentando muito evitar que alguém sofra, ou caia no mesmo padrão de erros que repetiu muitas vezes, deixo uma sugestão: Abandone.

Não por falta de amor, mas por amar.

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Na solidão e sofrimento inevitáveis que o fundo do poço traz reside uma capacidade de ganhar lucidez que estar protegido e guardado de chegar lá não permite. Tirar carinhosamente a mão de uma pessoa que insiste em tentar tocar o fogo nunca vai ensiná-la a não fazê-lo mais. A dor e o arrependimento de uma queimadura são professores muito melhores.

Abandonar alguém aos seus próprios recursos é justamente o que faz essa pessoa questionar se realmente tem os recursos que acredita ter: sem alguém para recuperar ou protegê-la, e sem capacidade de realmente mudar por conta própria, cai a última barreira da vaidade e pode surgir um sincero - ainda que sofrido - pedido de ajuda.

Aí, com autorização, é possível estar ao lado da pessoa enquanto ela reavalia suas atitudes. Ao lado, não à frente e não empurrando: é importante que a pessoa esteja plenamente consciente do seu próprio desespero e fundo do poço enquanto tenta melhorar.

Não faz bem consolá-la disso. É no desespero e no cansaço que a motivação permanece.
O desespero e a sensação de morte causada pelo fundo do poço é o que vai lembrá-la de que ela precisa de outras pessoas e que ela precisa tomar responsabilidade pelo que faz.

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É um processo muito doloroso para quem está ao lado. Abandonar alguém que está sofrendo questiona todas as teorias de que precisamos ser pessoas boas, samaritanos sempre dispostos a ajudar, e derruba a ideia de que amar é estar ao lado da pessoa que sofre.
Mas é essencial.

Amar é ter um preço. Amar é se afastar quando os requisitos básicos do amor não são cumpridos. Amar é permitir que a pessoa lide consigo mesma, abandonando qualquer tentativa de protegê-la de suas próprias atitudes.

Quem ama aguenta muita coisa, simplesmente pela ignorância que o amor dá. O amor é muito fantasiado como um processo de acolhimento interminável, e isso está registrado fundo no nosso próprio medo instintivo de sermos abandonados.

Por isso mesmo, abandonar alguém que está em um padrão doentio precisa ser um processo racional. Precisa ser um ato calculado, preciso e limpo de afastamento, que resista às tentações dramáticas de uma reconciliação que interrompa o - tão necessário - fundo do poço da outra pessoa.

E, como alguém que está apaixonado multiplica o desejo que tem pela outra pessoa depois de uma rejeição, uma pessoa abandonada aos próprios recursos percebe que ela mesma foi sua algoz e abandonadora, e pode encontrar, exatamente nisso, uma esperança de amor por si mesma.

Se, depois disso, vai tentar conquistar a si mesma ou não, isso depende só dela.

3.9.17

Experiência e sentido

“Você nunca viu seu rosto.”

Vi essa frase em algum lugar bobo da internet e fiquei encucado. Fora meu nariz largo, que aparece na frente dos olhos a todo momento, e minha bochecha, que tem pele sobrando como se eu fosse um cachorro sharpei e dá pra puxar pra frente do olho, eu nunca vi minha própria fuça.

Sorte, porque se eu não consigo passar na frente de um espelho sem ajeitar o cabelo, se eu tivesse contato constante com a minha aparência eu estaria perdido.

Engraçado como a gente passa a vida toda numa obsessão com uma aparência que a gente nunca vê, apenas percebe através da projeção no espelho e na reação do outro.

Mas tudo bem: o resto da gente, a gente conhece em primeira pessoa.  Ou não?

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As redes sociais estragaram a experiência.
Quer dizer, elas deram uma mãozinha pro narcisismo que já imperava, mas não conseguia ir muito além da casa da vizinha que se interessava pela sua vida. A competição era mais direta.

Agora não: é a nossa vida contra a do mundo. Todos enxergam todos e e tá todo mundo querendo ganhar. Não basta mais viver, é preciso mostrar evidências.

Pictures or it didn’t happen.

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Um grande sinal de que uma pessoa está se sentindo vazia é o registro constante do que se passa em sua vida*.
(*Querido diário, acabei de perceber a ironia. Um abraço!)

A ausência de verdadeiro contato consigo mesmo é o que cria a sensação de vazio, quer dizer, não sentir a vida pelo lado de dentro cria a necessidade de criar provas, para si mesmo, de que se está vivo.

E aí começam as fotos, os check-ins, as loucuras de fim de semana feitas sob encomenda para que alguém se sinta vivo, ainda que seu pulso emocional esteja fraquejando. Ter o feedback do outro, por exemplo em uma rede social, ajuda a acalmar a angústia desse vazio.

“ESTOU VIVO?”, grita alguém, postando uma foto de uma cerveja na sexta-feira, legendada com “Começando os trabalhos”.
“Vivíssimo!”, responde quem curte.

Que alívio.


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Foi isso que estragou o ato de viajar.

Viajar já foi o símbolo do crescimento pessoal, do momento em que uma pessoa renuncia a sua vida cotidiana para mergulhar no mundo da experiência plena.

As pessoas ainda acreditam nisso, mas o mercado já percebeu o potencial disso faz tempo. Agora, viagens são vendidas como experiências - mas experiências úteis, registráveis, comprováveis, compartilháveis.

Porque ninguém vai postar fotos de um passeio pelo transporte público de Osasco, ainda que essa experiência possa ser tão transformadora quanto um fim de semana no Tibet.

Da mesma forma que é absolutamente proibido praticar ioga sem a presença de uma câmera.

É o cúmulo do fetiche pelo registro: o momento de experimentar a si mesmo pelo mundo só é válido quando registrável. Se gerar inveja, melhor ainda.

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O registro da experiência é menor do que a experiência, mas é vendável.

É o que faz a Taylor Swift ganhar mais do que uma professora que canta para seus alunos de pré-escola. Ela é mais registrável. Sua emoção é mais fácil de identificar, empacotar e vender. É emoção mais destilada mesmo, pra consumo bruto, pra entrar na veia e dar sensação de vida.

É daí que surge essa angústia que tanta gente tem sentido: viver em busca de experiências registráveis é competitivo demais. Se o registro da experiência do outro é mais impactante do que o meu, a minha experiência não vale nada - por mais que eu tenha gostado dela.

E aí é necessário ter o corpo melhor. A viagem mais fotografável. O namoro mais instagramicamente adequado.

Não é por nada que quase toda criança hoje em dia sonha ser Youtuber, porque não basta mais registrar a própria vida. É preciso ter plateia. E a plateia anda cada vez mais escassa, preocupada em fazer seus próprios registros para mostrar pro mundo.

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Pra escapar disso, só se precisa lembrar que o feedback mais importante que temos da nossa vida é nossa própria experiência.

Lá dentro, longe dos likes e próximo do próprio gosto.

Porque o gostar lá de dentro é sempre simples. Se contenta com um bom amigo e um dia de sol deitado na grama. Só existindo, só sentindo, só sendo.

Não é necessário enxergar o próprio rosto para saber que ele está lá.

Basta sentir para encontrar sentido.

Popstars

É fácil entender o sucesso de programa Popstar, na Globo. Atores, apresentadores, artistas bem sucedidos em outras áreas se amontoam e se ...