Acabei de escrever um dos textos mais significativos da minha vida.
Eu nunca usei alguns recursos estilísticos tão bem quanto naquele texto. Era um conto de primeira, de verdade.
Já me flagrei pensando, mais de uma vez, o que aconteceria se o Soneto de Fidelidade sumisse de todos os registros escritos e de todas as memórias, menos da minha. Será que eu, só com a memória vaga, com a ideia principal do soneto na cabeça, seria capaz de reescrevê-lo? Será que, lembrando apenas dos versos mais marcantes, eu conseguiria construir outros que fossem moldura boa o suficiente para que o poema fosse, mais uma vez, considerado um clássico?
Acabei de experimentar essa situação. Era uma boa história que eu tinha na cabeça, e uma história que eu escrevi tão bem que até dei uns pulinhos pela casa de tão alegre que fiquei. Deu problema no computador. Perdi o texto. Tudo estava escrito no WordPad, que não tem o recurso de recuperar textos caso o computador desligue. Pois bem, o computador desligou e o texto foi embora.
Vou tentar reescrever mais algumas vezes. Em todas as dez vezes que tentei escrever agora, o texto empacou na primeira linha. Na primeira linha, o texto antigo tinha mais impacto do o que eu tentar escrever agora inteiro.
Eu sei que parece estranho, mas foi uma morte. Foi um acidente de carro. Foi uma perda irreparável. Problemas de primeiro mundo, mas foda-se, foi uma perda enorme. Não tenho tantas coisas queridas na vida, mas eu escrevo, e mesmo com vergonha digo que escrevo bem. Isso por si só já me dá vontade de querer a vida loucamente.
Depois de perceber que o texto foi embora de vez, eu chorei e eu joguei um copo na parede - e eu sou a pessoa mais controlada que eu conheço. Morro com úlceras, mas não chuto a porta quando perco a cabeça.
E eu perdi a cabeça. Perdi a cabeça porque perdi o texto.
Vou tentar escrevê-lo de novo. Não querendo me comparar com o Vinicius de Moraes, mas eu vou tentar fazer um Soneto de Fidelidade com as memórias que tenho dele. O texto antigo, perdoem o clichê, foi infinito enquanto durou.
(mas dessa vez serei mais atento, e com mais zelo)
Comentários Abertos
sorvete de ego sabor tinta de caneta
1.6.12
28.5.12
Cães
Hoje enxerguei um cachorro
mijando numa cadela
mirando na cara dela
como se lhe desse flor
A cadela não reagiu
de santa não tinha nada
Cadela é mulher safada
gozou quando ele latiu
No meio de toda a urina
o poder era todo dela
Marcada como cadela
rainha daquela esquina
O cão marcou território
a cadela quase sorriu:
O amor é o render compulsório
a sofrer por estar no cio
18.5.12
Baitolagem
Lembrei de uma que aconteceu outro dia.
Na quadra de casa, resolvi caminhar de mãos dadas com meu namorado. Do nada, aparece um cara com um jipe e grita "Porra, tudo bem ser viado, mas andar de mãozinha dada já é demais!".
Minha bipolaridade me partiu ao meio naquele momento: Metade minha pensou "Cacete, que lindo, esse não se preocupa com o que eu faço com meu reto! Só com minha mão. Um intolerante de vanguarda! Já pensou se um dia ele descobre o que é fisting?"
A outra parte pensou "Puta que pariu, a gente nunca vai viver num mundo onde dê pra sair na rua de mãos dadas sem levar uma dessas? Onde que uma mão dada consegue ofender a ponto de fazer alguém parar o carro no meio da rua pra gritar isso pra um indivíduo?"
A parte revoltada ganhou. Fiquei putíssimo. Pensando em me candidatar a vereador pra combater a homofobia. O grito do cara mexeu comigo profundamente, nos segundos seguintes ao incidente.
O meu estado de choque só passou quando meu namorado berrou "TOMAR NO CU, SEU FIADAPUTA!" pro cara.
Aí a paz voltou a reinar. Acabou minha carreira política.
--
Que nem a vez que uma menina me disse que um gay poderia ser curado com psicoterapia e oração. Não acho psicoterapia sugerível nesses casos, porque é o tipo de coisa que demora demais.
Sou mais a favor de encaminhar a pessoa com urgência para um hospital, de ambulância e tudo, pra fazer um implante de Bíblia e ficar com Deus no coração.
Aí você anda de mãos dadas com Jesus. Figurativamente, pra não virar boiolagem.
--
Fiquei em dúvida na hora de escrever a frase anterior: não sabia se escrevia "boiolagem" ou "baitolagem". "Baitola" soa mais ofensivo, mas "baitolagem" parece ser mais científico pra descrever o comportamento. "Boiolagem" está para "baitolagem" assim como "homoafetividade" está pra "homossexualidade".
Fica boiolagem na frase, baitolagem no título. Já a viadagem fica na alma, irmãos.
Na quadra de casa, resolvi caminhar de mãos dadas com meu namorado. Do nada, aparece um cara com um jipe e grita "Porra, tudo bem ser viado, mas andar de mãozinha dada já é demais!".
Minha bipolaridade me partiu ao meio naquele momento: Metade minha pensou "Cacete, que lindo, esse não se preocupa com o que eu faço com meu reto! Só com minha mão. Um intolerante de vanguarda! Já pensou se um dia ele descobre o que é fisting?"
A outra parte pensou "Puta que pariu, a gente nunca vai viver num mundo onde dê pra sair na rua de mãos dadas sem levar uma dessas? Onde que uma mão dada consegue ofender a ponto de fazer alguém parar o carro no meio da rua pra gritar isso pra um indivíduo?"
A parte revoltada ganhou. Fiquei putíssimo. Pensando em me candidatar a vereador pra combater a homofobia. O grito do cara mexeu comigo profundamente, nos segundos seguintes ao incidente.
O meu estado de choque só passou quando meu namorado berrou "TOMAR NO CU, SEU FIADAPUTA!" pro cara.
Aí a paz voltou a reinar. Acabou minha carreira política.
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Que nem a vez que uma menina me disse que um gay poderia ser curado com psicoterapia e oração. Não acho psicoterapia sugerível nesses casos, porque é o tipo de coisa que demora demais.
Sou mais a favor de encaminhar a pessoa com urgência para um hospital, de ambulância e tudo, pra fazer um implante de Bíblia e ficar com Deus no coração.
Aí você anda de mãos dadas com Jesus. Figurativamente, pra não virar boiolagem.
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Fiquei em dúvida na hora de escrever a frase anterior: não sabia se escrevia "boiolagem" ou "baitolagem". "Baitola" soa mais ofensivo, mas "baitolagem" parece ser mais científico pra descrever o comportamento. "Boiolagem" está para "baitolagem" assim como "homoafetividade" está pra "homossexualidade".
Fica boiolagem na frase, baitolagem no título. Já a viadagem fica na alma, irmãos.
7.5.12
Por lá!
“Vai por lá!”
Não basta ser desengonçado com meus passos, eu preciso do
inconveniente arrepio que me dá na barriga.
“Vai por lá, não siga em frente.”
É dessas coisas que a gente sente. Como se fosse vontade de
fazer cocô, mas não é.
“E se eu não for?”
Aí o frio na barriga ganha sentido. Maldita hora em que, pra
não me sentir idiota ou louco, pra não pensar que sou um idiota manipulável pelo
próprio pressentimento, eu decido não obedecer a sensação.
Aí é assalto, é o pé que torce no meio-fio, é perder o
ônibus.
“Vai que dá tempo!”
Aí eu não perco o horário.
“Vai nesse ritmo!”
E aí eu não me atraso.
“Fica quieta!”
Eu digo pra voz, que na verdade é um frio, que na verdade é
um aperto, que na verdade é uma coisa estranha na barriga.
“Vai por lá!”
Ela insiste e quem se cala sou eu.
Vou por lá.
Aí eu encontro um bom amigo. Que eu acho dinheiro na rua.
Que eu chego bem a tempo de impedir alguma coisa que não deveria acontecer.
“Você é louco!”
(Essa voz vem da minha cabeça, e não é tão ameaçadora quanto
a que vem da minha barriga. A ordem de “ir por lá” é sensação, voz que me acusa
de loucura é pensamento.)
Mas pensamento não tem vez nessas horas.
São tantos “Vai por lá” que me levam para lugares
inesperados (e bons), que eu não me dou mais ao direito de obedecer.
“Você é louco”
(a cabeça repete)
Sim, sou louco. Mas vou por lá.
27.4.12
Festival
De tudo que eu já publiquei nesse blog, nada me deu tanta vontade de apagar quanto a confissão de que eu me masturbava pensando no Marcelo Novaes. Talvez seja porque eu expus uma intimidade desnecessária, talvez seja porque ele está um bagaço nessa novela nova.
--
Quando eu tinha uns quinze anos, comecei a desenvolver uma fascinação por tudo relacionado à novelas. Também pudera, duas novelas das oito seguidas, uma com a Laura Cachorra como vilã e a outra com a Nazaré. Não há homossexual adolescente que resista.
Pois bem, mais ou menos na mesma época a Rede Record abriu um concurso para novos roteiristas de novela. Eu enviei um roteiro, com o título de "Festival".
Enfiei música na novela porque novela que tem algum personagem metido com música quase sempre dá certo. Se não faz sucesso, pelo menos arranja meia dúzia de fãs pro personagem e a emissora lucra com a venda de CDs. Minhas MP3 da Marjorie Estiano não me deixam mentir.
A novela era sobre uma adolescente que perdia os pais e foi morar com a avó. Ela tinha um irmão mais novo, o Emanuel, que era gótico - pra vocês verem como meus personagens eram profundos. A adolescente crescia e virava uma mulher-forte-e-batalhadora-que-rala-muito-para-sustentar-a-família. Toma essa, Griselda.
Apesar de toda a tragédia, o sonho da minha mocinha era cantar, e quando ela descobriu que um festival de novos talentos ia acontecer na cidade, foi correndo para levar sua fita (!!!) para se inscrever. No caminho, ela tropeçava em um chef de cozinha, se machucava, ele se compadecia e a dava uma carona para fazer a inscrição.
Daí pra frente, amor eterno e sofrimento.
--
Hoje em dia é moda toda novela "discutir" um assunto. No máximo o assunto é achincalhado até a morte por excesso de vergonha, mas fica bonito falar que a novela em que o personagem gay não beija na boca "discutiu a homofobia".
Se eu tivesse pensado nisso naquela época, diria que minha novela discutia "o mundo da fama a qualquer preço: do que você está disposto a abrir mão para conseguir a fama?". Tipo qualquer CD de música pop lançado nos últimos dez anos.
--
O problema é que minha novela era muito, mas muito mal escrita. Até procurei meus arquivos para ver se encontrava alguma coisa pra botar aqui, mas não achei. Só lembro de uma cena em que dois personagens discutiam na cama. Era pra ser uma cena de humor, e era mais ou menos assim: Nádia, a mulher inteligente mas dependente do marido rico e burro, queria ler Dostoiévski. Roberto, o marido bobão e amável, dizia que usou para equilibrar a mesa da sala de jantar, que estava meio bamba.
Nádia ficava emputecida. Roberto, tentando consertar as coisas, diz que se ela quisesse ler alguma coisa, ele emprestava um livro do Paulo Coelho. Aí a Nádia batia nele.
Até hoje eu não li porra nenhuma do Dostoiévski, e, quer saber? O Alquimista super me fez chorar quando eu li.
É nessas que eu percebo que eu era o adolescente mais pretensioso do mundo. Isso só mudou quando o Aguinaldo Silva resolveu criar um blog e tirou meu título.
--
Quando eu tinha uns quinze anos, comecei a desenvolver uma fascinação por tudo relacionado à novelas. Também pudera, duas novelas das oito seguidas, uma com a Laura Cachorra como vilã e a outra com a Nazaré. Não há homossexual adolescente que resista.
Pois bem, mais ou menos na mesma época a Rede Record abriu um concurso para novos roteiristas de novela. Eu enviei um roteiro, com o título de "Festival".
Enfiei música na novela porque novela que tem algum personagem metido com música quase sempre dá certo. Se não faz sucesso, pelo menos arranja meia dúzia de fãs pro personagem e a emissora lucra com a venda de CDs. Minhas MP3 da Marjorie Estiano não me deixam mentir.
A novela era sobre uma adolescente que perdia os pais e foi morar com a avó. Ela tinha um irmão mais novo, o Emanuel, que era gótico - pra vocês verem como meus personagens eram profundos. A adolescente crescia e virava uma mulher-forte-e-batalhadora-que-rala-muito-para-sustentar-a-família. Toma essa, Griselda.
Apesar de toda a tragédia, o sonho da minha mocinha era cantar, e quando ela descobriu que um festival de novos talentos ia acontecer na cidade, foi correndo para levar sua fita (!!!) para se inscrever. No caminho, ela tropeçava em um chef de cozinha, se machucava, ele se compadecia e a dava uma carona para fazer a inscrição.
Daí pra frente, amor eterno e sofrimento.
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Hoje em dia é moda toda novela "discutir" um assunto. No máximo o assunto é achincalhado até a morte por excesso de vergonha, mas fica bonito falar que a novela em que o personagem gay não beija na boca "discutiu a homofobia".
Se eu tivesse pensado nisso naquela época, diria que minha novela discutia "o mundo da fama a qualquer preço: do que você está disposto a abrir mão para conseguir a fama?". Tipo qualquer CD de música pop lançado nos últimos dez anos.
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O problema é que minha novela era muito, mas muito mal escrita. Até procurei meus arquivos para ver se encontrava alguma coisa pra botar aqui, mas não achei. Só lembro de uma cena em que dois personagens discutiam na cama. Era pra ser uma cena de humor, e era mais ou menos assim: Nádia, a mulher inteligente mas dependente do marido rico e burro, queria ler Dostoiévski. Roberto, o marido bobão e amável, dizia que usou para equilibrar a mesa da sala de jantar, que estava meio bamba.
Nádia ficava emputecida. Roberto, tentando consertar as coisas, diz que se ela quisesse ler alguma coisa, ele emprestava um livro do Paulo Coelho. Aí a Nádia batia nele.
Até hoje eu não li porra nenhuma do Dostoiévski, e, quer saber? O Alquimista super me fez chorar quando eu li.
É nessas que eu percebo que eu era o adolescente mais pretensioso do mundo. Isso só mudou quando o Aguinaldo Silva resolveu criar um blog e tirou meu título.
24.4.12
Os Sofredores (ou: como Chocolate com Pimenta mudou minha vida)
Eu deveria estar orgulhoso por ser um trabalhador. Um membro da sociedade produtiva. Um bêbado, somente às noites. Em horário comercial, senhor da minha força de trabalho.
Mas como conciliar isso com o fato de Chocolate com Pimenta ser reprisada toda tarde?
--
Eu tinha doze anos quando a novela passou pela primeira vez, no horário das seis. Eu e minha melhor amiga - a parede da cozinha - assistíamos juntos enquanto jogávamos vôlei. A parede jogava muito melhor do que eu, e de vez em quando me jogava a bola com força no rosto, mas ainda assim era a única pessoa disposta a perder tempo jogando bola comigo.
Parece draminha, e era mesmo. Eu era o próprio personagem nerd de filme americano: óculos fundo de garrafa, baixinho, gordinho e pobre. Todos os ingredientes ideais para um complexo de inferioridade.
Era uma fase de mudança na minha vida. Foi quando eu comecei esse blog, por exemplo. Logo, logo, eu faço dez anos de blog. Dez anos com quase-ninguém me lendo e eu me sentindo o maior escritor do mundo. Dez anos com um lugar pra depositar a energia criativa que queria existir de algum jeito.
--
Mas enfim, eu me sentia um lixo. Renato Russo era meu ídolo adolescente, a única pessoa no mundo capaz de sofrer mais que eu - por isso eu o ouvia, pra sofrer tanto quanto ele. Aí que entrou essa novela.
A Ana Francisca, mocinha da história, era feiosa, pobre e órfã. Já dá pra sacar que eu não era o mais original dos sofredores na hora de me identificar com uma heroína, mas era bem aquilo que meu pré-adolescente se sentia: abandonado, feio e sem valor.
A novela corria como um conto de fadas: a família pobre e bonachona da mocinha a apoiava, mesmo quando ela engravidou de alguém que se aproveitou da ingenuidade da feiosa caipira. A Aninha arranjava um amigo mais velho que estava disposto a casar com ela para proteger sua honra, mudava para a Argentina e mais tarde voltava para a cidade em que era ridicularizada por todos para se vingar.
--
Tinha muito chocolate na história. Eu comia chocolate pra burro.
Além disso, eu me masturbava pensando no Marcelo Novaes, que interpretava o Timóteo, um caipira turrão, doce e de braços fortes.
--
Acho que cresci com essa fantasia. Um dia eu ia arrancar os óculos do rosto, ir para bem longe de onde eu nasci, e retornar rico e podendo olhar todo mundo que já me humilhou como se fossem pedacinhos de merda.
O legal é que hoje, dez anos depois, eu já parei e voltei a usar óculos, moro bem longe de onde eu nasci (mas morro de saudades de vez em quando), continuo pobre-que-sonha-ficar-rico e olho para as pessoas que me faziam me sentir mal naquela época como se fossem pedacinhos de merda - os pedacinhos de merda mais adoráveis que eu já tive a oportunidade de conhecer.
Gente boba, pobre de espírito e que achava, na própria insegurança, que valia alguma coisa mais do que os outros por ter uns trocados a mais. Hoje eu consigo perceber como o bobo da história era eu, que achava que eles realmente eram melhores do que eu por isso.
--
Hoje, acho que valeu muito mais ter perdido a necessidade de que me achem melhor do que os outros do que se eu tivesse ficado rico. Provavelmente, se um dia eu tiver grana - e isso eu ainda quero ter, pelo menos um pouco, pelo menos pra viajar o mundo e poder comprar chocolate sempre que eu quiser - não vai ser por um golpe do destino ou por alguém se compadecendo de mim e despejando grana na minha vida como um passe de mágica.
--
Mais do que tudo, hoje eu me acho bonito. Talvez não tenha sido a mudança de patinho feio pra cisne que a Aninha da novela teve, mas gosto de mim.
Continuo torto de tudo, mas achando graça no que eu sou. Aprendi a ser bobo. Aprendi a ser doce. Aprendi que não é um elogio dos outros que vai me deixar feliz, porque minha felicidade vem de mim - é só questão de escolha.
E como eu era feliz vendo aquela novela. Como era bom jogar bola com a parede. Como era bom comer chocolate sem me preocupar.
Como era bom o Marcelo Novaes...
18.4.12
Inferno Astral
Sou
um quase ateu - apesar de todo mundo me achar ateu por inteiro.
Meu negócio não é o de não acreditar na existência de um espírito organizador, porque eu sou fraco demais pra não acreditar em nada. Meu problema é o prazer gigante que eu sinto em blasfemar.
Meu negócio não é o de não acreditar na existência de um espírito organizador, porque eu sou fraco demais pra não acreditar em nada. Meu problema é o prazer gigante que eu sinto em blasfemar.
--
Outro
dia escrevi um poema sobre como seria a vida de Maria, a mãe de
Jesus, se ela na época existissem reality shows.
Já
pensaram a Maria no Mulheres ricas? "Ah, hello! Eu sou a mãe do
Salvador!", diria ela com voz de socialite no hélio enquanto
bebericasse um copo de água transformada em vinho pelo filho. "I
am the face of Belém!"
Se
existisse Big Brother, ela seria aquela nojentinha que se faz de
virgem e - todas elas são assim - não toma banho. Ainda assim, o
voto do povo seria para eliminar a Maria Madalena, porque ela teria
conseguido convencer o líder da semana a trocar o título de líder
por um boquete.
O
gordinho pseudointelectual do programa seria o Herodes. Se na casa só
morassem bebês, ele eliminaria todos. É provável que ele se desse
melhor no Super Nanny.
--
Comecei
a falar do meu quase ateísmo porque algumas coisas me fazem ter
certeza que existe uma força superior - e que ela gosta de me
provocar.
Fiz
vinte e dois anos essa semana. Eu nunca acreditei muito em inferno
astral, apesar de super achar que meu mapa astral sou eu, cuspido e
escarrado. Mistérios (de uma mente fácil de enganar, talvez).
Pois
bem. Nos dois dias antes do meu aniversário, eu fui capaz de:
-
quebrar meu fone de ouvido, que tinha um plug DE OURO que era pra não
quebrar se eu tropeçar no cabo enquanto eu danço pela casa de
madrugada (e foi assim que ele quebrou, mesmo);
-
o fone de ouvido, por sua vez, quebrou a saída de som do computador
de maneira que não sai som nem pela saída para fone de ouvido e
nem pela caixinha de som do próprio notebook;
-
isso depois de passar quinze dias tomando antibióticos para dor de
ouvido;
-
o que me faz crer que deus me quer surdo.
-
Também peguei uma conjuntivite de uma amiga que eu evitei o dia
inteiro porque ela estava com o olho vermelho;
-
de maneira que, na impossibilidade de usar as lentes de contato, tive
que usar meus óculos. Se eles quebraram no momento que eu tentei
ajeitar pra caber no rosto sem ficar caindo o tempo todo? Of course
que sim!
-
o que me faz crer que deus me quer cego, também.
-
Além disso, acordei sem voz hoje.
-
E já que gastei pra fazer um óculos novo, acordei sem grana para
pagar a conta da internet, me deixando sem muito o que fazer no tempo
que passo no meu apartamento.
-
Isolado e sem grana é pouco, já que dois celulares estragaram na
última semana.
Em
compensação, eu li uma caralhada hoje, trabalhei direito e voltei a
escrever. Quem sabe isso tudo seja por um motivo importante. Resgatar
meu estudo, meu trabalho, meu ofício de escritor!
Isso,
ou deus ainda não achou um jeito de amputar minha mão e fazer
parecer que não foi culpa dele.
--
O
pior é que minha mente influenciada demais por livros de autoajuda
me deixa culpado por escrever uma lista cheia de reclamações. “Vai
atrair mais azar ainda!”, diria minha consciência. “Não fala
essa palavra de quatro letras porque isso atrai o oposto-de-sorte”,
diria o Paulo Coelho.
Não
estranhem se o meu próximo texto for uma lista das coisas incríveis
que eu tenho recebido na vida, com ítens como “Um lindo
pôr-do-sol!”, “A beleza de uma flor” e “Compartilhamentos do
meu post no Facebook”. Isso se o próximo texto não for digitado
usando a minha boca, por um castigo divino que me arranque as mãos.
“Hello!”,
diria Jesus para um anjinho, “I am the face of Heaven! Manda
amputar esse animal que difamou a mamãe!”.
3.4.12
Relações Públicas
Buscar ser visto pelos outros como bom não é necessariamente útil. Pode ajudar nas relações públicas, mas não sei como isso pode ajudar alguém a se sentir melhor - até porque não há relação pública que dê conta de uma angústia.
A própria Madre Teresa de Calcutá, tida como quase uma santa por tanta gente, não desviava dinheiro de doações que seriam pra construir hospitais para construir conventos? Não era uma doida que se recusava a deixar crianças serem adotadas por pais que usassem métodos contraceptivos?
E tá aí, toda linda e enrugada nos corações do universo.
--
A maior dificuldade talvez seja aguentar não ser amado o tempo todo. Tá certo, todo mundo diz "Não faço questão de que gostem de mim", mas vai ouvir um "Não gosto de você" pra ver se não dói.
Dói mais ainda quando você não ouve, e esse alguém se afasta esperando que você se toque de que não é mais bem vindo perto dele.
E aí não tem sorriso que aguente, não tem amizade que segure a onda, não há jeito de se perdoar por não ser amado. Não receber amor só pode ser filhodaputice alheia. Não pode vir da gente, certo?
--
Ir embora sem dizer adeus e sem tentar explicar o porquê de ir é a maior covardia de uma pessoa. Mesmo quando ela morre.
Custa acenar e mandar beijo antes de ser atropelado por um ônibus?
--
O processo de beatificação da Madre Teresa exigia pelo menos um milagre comprovado. Não faço ideia de como se comprova um milagre, mas OK, uma moça indiana disse que teve um câncer curado depois de um raio de luz sair de uma foto da Madre Teresa e tocá-la na barriga.
Mais tarde, seu médico comprovou que ela fez tratamento químico convencional por quase um ano antes do raio laser mágico sair da imagem da Madre.
--
Eu juro, seu filho da puta, que se você tiver uma foto minha em algum lugar, eu quero que saia um raio laser igual ao da Madre Teresa e te deixe cego. Cego!
E não ligo se isso me faz parecer ruim. Depois eu construo um convento e fico quites com Deus.
Aceito doações.
A própria Madre Teresa de Calcutá, tida como quase uma santa por tanta gente, não desviava dinheiro de doações que seriam pra construir hospitais para construir conventos? Não era uma doida que se recusava a deixar crianças serem adotadas por pais que usassem métodos contraceptivos?
E tá aí, toda linda e enrugada nos corações do universo.
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A maior dificuldade talvez seja aguentar não ser amado o tempo todo. Tá certo, todo mundo diz "Não faço questão de que gostem de mim", mas vai ouvir um "Não gosto de você" pra ver se não dói.
Dói mais ainda quando você não ouve, e esse alguém se afasta esperando que você se toque de que não é mais bem vindo perto dele.
E aí não tem sorriso que aguente, não tem amizade que segure a onda, não há jeito de se perdoar por não ser amado. Não receber amor só pode ser filhodaputice alheia. Não pode vir da gente, certo?
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Ir embora sem dizer adeus e sem tentar explicar o porquê de ir é a maior covardia de uma pessoa. Mesmo quando ela morre.
Custa acenar e mandar beijo antes de ser atropelado por um ônibus?
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O processo de beatificação da Madre Teresa exigia pelo menos um milagre comprovado. Não faço ideia de como se comprova um milagre, mas OK, uma moça indiana disse que teve um câncer curado depois de um raio de luz sair de uma foto da Madre Teresa e tocá-la na barriga.
Mais tarde, seu médico comprovou que ela fez tratamento químico convencional por quase um ano antes do raio laser mágico sair da imagem da Madre.
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Eu juro, seu filho da puta, que se você tiver uma foto minha em algum lugar, eu quero que saia um raio laser igual ao da Madre Teresa e te deixe cego. Cego!
E não ligo se isso me faz parecer ruim. Depois eu construo um convento e fico quites com Deus.
Aceito doações.
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