20.6.18

O caminho do perdão é pavimentado com ódio


Pra uma sociedade que tanto odeia, é uma hipocrisia imensa o quanto censuramos o o ódio. 

Qualquer um já ouviu de alguém:
"Dê a outra face." 
"Seja a pessoa superior."
"Guardar mágoa faz mal."

Realmente, mágoa não faz nenhum bem pra ninguém. O que ninguém fala sobre abandonar uma mágoa é o passo a passo de como fazer isso.

Mágoa, infelizmente, não se digere só engolindo.

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A gente não guarda nada que não possa ter uma utilidade no futuro. Se você guarda uma mágoa, é muito improvável que ela tenha surgido do nada. 

Alguma coisa ruim aconteceu contigo - mesmo que fosse só uma expectativa frustrada - e a mágoa ficou armazenada como referência para não sofrer de novo. 

É instinto de sobrevivência.

Para essa referência não ficar ali pra sempre, algo em você vai precisar se sentir seguro e confiante de que aquilo que te magoou não vai te prejudicar de novo. O que cura a mágoa é se sentir forte novamente.

E o que nos faz sentir fortes?
Raiva. Ódio. 

"Ódio é uma palavra muito forte", diria a Sandy.
É mesmo. E é por isso que ele nos impede de sermos pessoas muito fracas.

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O perdão é um ótimo lugar para se chegar - mas muitas vezes o caminho até ele é feito de ódio. 

Primeiro você sente ódio da outra pessoa.
Depois você sente raiva de si mesmo por ter deixado aquilo acontecer.
Então, sente aversão da situação inteira.
Depois jura pra si mesmo que nunca mais vai deixar algo assim acontecer contigo. Se sente resoluto. Indignado. Forte.

E depois - só depois! - não sente mais nada. A mágoa já ensinou o que tinha que ensinar.

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Quem fica preso na vaidade de ser a pessoa iluminada que não sente nada negativo fica com a mágoa pendente por décadas. 

Sinta raiva de quem lhe prejudicou. Sinta ódio. Sinta o que você quer tanto sentir e não deixa. 

Brigue, se for o caso. Até Jesus Cristo rodou a baiana algumas vezes. 

Quando você permite que um sentimento aconteça inteiro, sem julgamentos, ele tende a passar.

Não se preocupe.
Você não é um monstro por sentir ódio. Você é só uma pessoa a caminho do perdão. 

Não se preocupe, o perdão vai chegar.
E, se não chegar, talvez seja porque perdoar não seja a melhor coisa boa pra esse momento.

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E se lhe julgarem por sentir raiva ou ódio, e te disserem que você precisa perdoar a todo custo, e que você é uma pessoa inferior por ter sentimentos assim... Peça a essas pessoas que tentem lhe perdoar.

Duvido que consigam. 

14.6.18

Alternativos



Tá, pobre que é pobre eu nunca fui.

De longe, mais sobrou do que faltou na mesa e eu nunca passei uma grande vontade. De onde eu vim até tinha um ou outro colega que pôde viajar pro exterior enquanto estudava, mas esse não era o padrão. Em boa parte dos colégios que eu estudei, algum colega aparecer com um tênis novo era a notícia do dia.

A primeira notícia do dia, pelo menos, porque a segunda era ver o colega chorando no canto depois de todo mundo correr pra pisar no tênis dele pra batizar.

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Também nunca sobrou grana.

Meus pais conseguiam me dar um celular, mas era um trazido do Paraguai com uma marca desconhecida. Eu conseguia um moletom legal, mas era na promoção de queima de estoque e vinha com o cadarço do capuz faltando.

Ainda assim, na realidade colégio-estadual-minha-colega-não-faz-educação-física-porque-só-tem-um-sapato, dava pra tirar uma onda.

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Dei meia dúzia de sortes e a vida foi melhorando. A grana entrou e hoje eu consigo comprar aqueles luxinhos que bastante gente tem. Dá pra comprar um celular bacana, dá pra comprar um notebook com uma maçã atrás, dá pra botar uma foto de uma fatia de bolo de quinze reais no Instagram de vez em quando.

Mas não é uma coisa fácil.

Se teve uma coisa que o cinto apertado me ensinou, foi a viver no custo benefício.

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Como não dava pra comprar o celular da propaganda na novela, eu aprendi a buscar na internet por outros modelos.

Qual o nome daquela marca que tá se firmando no mercado agora e vende a mesma quantidade de memória RAM e um processador alternativo-mas-que-funciona por um terço do preço? Porque era essa que eu descobria, e essa que eu desejava.

Meu sonho de consumo não era mais a calça que o modelo usava no outdoor, mas sim descobrir aquela lojinha numa rua escondida que vende umas calças bonitinhas a três por cem.

Eu arrumo o cabelo, mas o gostoso mesmo é alguém elogiar e eu falar "Guri do céu, você sabia que vaselina sólida é exatamente igual a essas pomadas de efeito molhado? E é oito reais um potão!".

Virou quase vício. Não tenho mais prazer na compra se ela não for uma barbada daquelas. Já até comprei coisas que eu nem precisava, mas que pareciam ter custo-benefício imbatível.

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Acontece até de alguém se assustar com a coisa que eu compro.

Outro dia eu até contei aqui da máquina de lavar que eu tinha comprado, que era toda diferentona e num modelo mais simples.

"Por que você não pegou uma Electrolux?", a pessoa pergunta, "Tá faltando dinheiro?"
O pessoal se preocupa, quase se prepara pra me chamar pra almoçar na casa deles se a situação estiver apertada.

Não é o caso.

É que eu vi a máquina por um preço melhor, toda esquisita, de-um-jeito-mais-simples-mas-funciona, e me vi ali.

Na gambiarra. Na coisa simples. No alternativo, que a riqueza não conhece mas que me atende bem. Talvez por eu mesmo ser assim, aprendi a gostar do esquisito e acessível.

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E esse sou eu, vivendo de alternativos.

Com um celular que não passa na propaganda, mas que me deixa cheio de orgulho quando alguém fala que a câmera é ótima. Com um sofá que parece caro, mas que me deixa feliz mesmo quando alguém pergunta quando eu paguei e eu falo "AMIGO, PEGUEI COM CINQUENTA POR CENTO NAS CASAS BAHIA!

Com uma máquina de lavar esquisita, mas que eu posso mostrar como funciona e me sentir especial não porque tenho o caro, mas porque tenho o diferente.

Tem um gosto diferente. Espero ter conseguido explicar.

Mas é tipo crescer comendo mortadela e não conseguir gostar de carpaccio. O paladar se forma diferente. Pra mim é mais gostoso, fazer o quê?

A gente sai da pobreza, mas a pobreza não sai da gente.
Que bom.

11.5.18

Faz um moleque em mim


De tempos em tempos alguma música religiosa explode e faz sucesso além das fronteiras das rádios evangélicas. Eu tenho um gosto musical bem amplo, mas peço compreensão por não ser o maior versado em música gospel.

E mesmo quando eu escuto música assim, meu ouvido me trai.

Eu explico:
Estava assistindo um programa desses de TV local, com produção simples e dificuldades orçamentárias, e a convidada do dia era a filha adolescente de um dos membros da equipe do programa. Celebridades "A", sabe como é?

Enfim, a moça cantava - com uma dicção pior do que a da Ariana Grande - uma música que fazia muito sucesso nas rádios, mas que eu não tinha ouvido ainda.

A melodia era bonitinha, em ritmo de pagode romântico:

"Entra na minha casa, entra na minha vida,
Mexe com minha estrutura, cura todas as feridas..."

Achei fofo. Só me surpreendi quando chegou a frase final do refrão, com a adolescente cantando com sua dicção de quem usa aparelho, enquanto o pai orgulhoso dançava atrás:

"FAZ UM MOLEQUE EM MIIIIIIMMMM"

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Eu juro que eu tento ser moderno nos assuntos de amor.

Na real, eu até sou. Pra mim, todo mundo transa do jeito que quiser, na hora que quiser e com a fantasia do Teletubbie que preferir. Não é problema meu.

Mas já aconteceu de eu perceber que sou assim muito mais na teoria do que na prática.

Eu, por mim mesmo, sou quadradão.

Sou monógamo chato, morro de ciúmes quando penso em compartilhar quem eu amo com outra pessoa e sou uma completa negação quando o assunto é sexo casual. Acabo perguntando da família da pessoa antes mesmo de abrir o zíper, só pra rolar uma intimidade antes.


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Passei semanas com aquela música romântica-safada na cabeça.
Fiquei até meio complexado. Tá que a música era bonitinha, mas uma frase sobre trepar até fazer um moleque depois de tantas frases sobre curar feridas e a importância do amor me pareceu pesada.

Contei a história do programa de TV pra uma amiga.
"Tô preocupado, acho que eu tô virando conservador! Mas porra, 'faz um moleque em mim' é tenso!"

"É milagre, idiota!", ela respondeu. "A música fala de Deus!"

Ah, tá.

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Tenho vários amigos com medo de estarem ficando conservadores demais.

"Eu só queria chegar e transar, sabe? Chegar metendo. Mas eu fico esquisito, não consigo curtir."

ou

"Eu não sou evoluído suficiente para o poliamor."

Com culpa! Culpa de não ser supersolto e aberto em questões românticas e sexuais. Mas não se trata de uma questão de evolução, não. É só escolha.

O sexo é uma questão íntima. Nunca vai deixar de ser.

O grau de tranquilidade com um semidesconhecido esfregando as virtudes na sua cara varia de pessoa pra pessoa.
O grau de tranquilidade com um conhecido esfregando as virtudes na cara do seu namorado também vai variar.

Liberação de verdade é permitir-se fazer o que lhe fizer se sentir melhor, seja na devassidão, seja na abstinência.

Você tem todo o direito de ser pudico e não perder pontos na evolução liberal da consciência universal.

O que importa é ser tranquilo com o outro fazendo o que quiser também.

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Mas nada tira da minha cabeça que a adolescente do programa de TV talvez estivesse cantando moleque em vez de milagre mesmo, só pra sacanear.

Os jovens de hoje são um perigo.

3.5.18

Psicanálise, essa vilã


(ou: Minha birra com a psicanálise)

Essa história tem dois começos.
O primeiro começo é o começo da minha faculdade. Primeiro dia de aula, primeiro período, primeira turma. Entra na sala uma mulher amorenada com os cabelos tingidos de ruivo, penteados de modo a dar volume na medida certa para demonstrar imponência.

Suas roupas, uma combinação calculada entre algo executivo e uma explosão de cores. Nos pés, botas. No rosto, um sorriso que requereria quatro rostos para caber inteiro.

Simpática e dura, ela anuncia seu nome para a turma e coloca o nome da matéria no quadro. Psicologia do Desenvolvimento I. Já saiu explicando que a base daquilo tudo era a psicanálise, e que não tinha como dar aula daquela matéria sem passar pela história daquilo.

Aquela professora tinha nascido para usar a boca, no sorriso ou na palavra. Ela usava a boca até para gesticular.
"Vocês percebem a dimensão disso?", perguntava ela à turma depois de explicar algum ponto, apaixonada pelo que tinha acabado de dizer, a boca aberta escancarada, como se mostrando a alma boquiaberta pela sua paixão.

Mais tarde, na intimidade, alguns colegas me confessaram quantas vezes distrairam a mente nela num momento solitário de prazer noturno. "Imagina aquela mulher fazendo um boquete!", diziam eles, com os resquícios de hormônio da adolescência ainda à tona.

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A mulher era um furacão. Livro publicado, mestrado interessante, coxas de fora, o próprio pôster de um falo.

"Você acha que uma pessoa que faz análise é uma pessoa melhor?", perguntei num dia de mais ousadia.

Ela respondeu sem titubear:
"Eu acho que uma pessoa que faz análise é uma pessoa mais tranquila, mais bem sucedida, mais rica e mais feliz."

Vendido.
Eu seria paciente dela, e a psicanálise seria meu futuro.
Eu queria aquilo pra mim.

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Se eu começo falando da minha relação com a psicanálise falando dessa professora, foi porque, para mim, ela foi na época a personificação da psicanálise. Dessa relação saíram muitas leituras da área, muitos outros professores, cursos, palestras e eventos de psicanálise.

Tudo ali me parecia fazer sentido. A dureza, a frieza, a pessoa a desvelar seus problemas por conta própria, o papel do terapeuta sendo apenas o de apontar onde o inconsciente escorria. Era um processo difícil, mas especial. Eu me sentia especial

Fiz anos de análise com aquela professora, e meus colegas morriam de inveja.

De início chorei um desconto considerável para conseguir pagar as sessões, mas os valores foram subindo com o tempo. "A análise precisa pesar no bolso da pessoa", diziam os entendidos, e eu concordava.

Custava toda a minha bolsa de estágio? Custava. Mas alguma coisa ali valeria a pena. Era um investimento que eu fazia no meu futuro, e daí que as minhas roupas estavam velhas e rasgadas?

Eu sofria, mas a psicanálise faria meu sofrimento valer a pena.

Passei por muitas fases: de falar longamente sobre a infância, de discutir meus relacionamentos, meus traumas, de gozar longamente com meus aprendizados trazidos pelos atos-falhos que meu inconsciente me presenteava, de levantar do divã e falar "Olha pra minha cara!" para a analista, de sentir que eu não precisava de um gesto sequer dela para me sentir ouvido e acolhido.

Foi intenso.

Eu não sei se era tão profundo assim aos vinte anos de idade para aproveitar tão bem aquela estufa de pensamentos soltos, mas eu gostava bastante.

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Cheguei ao fim da faculdade, meu estágio acabou, precisava começar uma carreira... Estava numa crise tremenda quando a minha terapeuta anunciou:
"Flávio, agora você é um profissional. Sua sessão passará a custar cento e oitenta reais."

Cacete. Se hoje esse valor é alto, na época era ainda mais - o salário mínimo devia ser uns seiscentos e pouco - e em dobro para um desempregado como eu. De tão inocente, escutei aquilo como uma aposta no meu futuro. Só podia querer dizer que ela acreditava que eu conseguiria pagar aquilo.

"Não tenho como agora", respondi, "mas se você me der dois meses, eu vou fazer o possível pagar esse preço."

Eu fiz o possível mesmo. Procurei emprego, trabalhei, fiz bico, contei bilhete de loteria, entreguei panfleto, trabalhei em shopping, mas não fui capaz.

Finalmente minha análise me cobrou um preço que eu não pude pagar.

Só eu sei como me senti frustrado quando larguei a análise, ainda que com a promessa de voltar assim que pudesse.

Eu estava com grandes dificuldades pessoais na época, e precisava muito de terapia. Tudo bem, eu tentaria me virar sem, mas eu me sentia um fracasso. Aquilo deveria ter me deixado mais forte, e eu me sentia mais desamparado que nunca, além de abandonado pela minha terapeuta.

Todos falavam que o processo era longo, difícil e libertador. Eu só conheci a parte do longo e difícil. E caro. E frustrante.

Na pretensa folha em branco da figura do analista, havia uma pessoa com demandas e visões que transpareciam durante a terapia. No silêncio que deveria me proporcionar um encontro comigo mesmo, um espaço para que meu narcisismo florescesse sem bloqueios. Nos momentos ocasionais de castração, às vezes a ferida pegava forte demais onde não havia preparo para tanto.

Doeu fundo perceber que não havia nada de mágico ali.
Uma pena, o marketing era lindo.

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O segundo começo dessa história foi dez anos depois, em uma sessão de terapia com outro terapeuta.

Eu me abria, um pouco relutante, em algumas questões profundas em que eu não tocava desde os meus tempos no divã. Trazia comigo, como também trazia naquela época, mil preconceitos e culpas.

Eram questões antigas, pesadas, daquelas que a gente até tem vergonha de levar pra terapia, mesmo sabendo que é nas questões sombrias que um processo terapêutico brilha mais.

Eu dava ao que eu dizia o tom de texto com introdução, desenvolvimento e conclusão, afinal eu já tinha trabalhado aquilo mil vezes na terapia anterior. Erro de amador. Até o passado de uma pessoa é um processo em andamento.

"E se, por um instante, você tentasse fingir que isso esses sentimentos todos são normais?"

Só quem faz terapia sabe o poder devastador de uma pergunta óbvia feita pelo terapeuta.

Naquele segundo, meu corpo relaxou. O insight trazido pela pergunta foi maravilhoso, como se uma onda de perdão lavasse meu corpo.

Foram, sei lá, setenta sessões de psicanálise demolidas em um segundo por um profissional que se permitiu me sugerir um exercício rápido baseado em um palpite que ele tinha sobre meu sentimento.

Mas a onda trazida pelo insight teve seu rebote e eu fiquei muito, muito triste, não pelas questões que eu tratava, mas pelo período em que eu gastei muito tempo e dinheiro em busca de uma resposta que sim, estava em mim mesmo, mas que precisava de uma pessoa um pouco mais invasiva no processo para ser acessada.

Me senti traído, me senti magoado, me senti solitário retroativamente pelos tempos no divã.
Foi como se eu tivesse desperdiçado o meu investimento e a minha esperança.

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Recebo muitos pacientes atordoados e feridos depois de buscarem uma terapia e darem de cara com a frieza e o silêncio de um consultório psicanalítico. Me parece cruel quando, sem didática alguma, se oferece a falta como resposta da falta.

Que tipo de profissional mesquinho e ruim - e nem todos os psicanalistas são assim, posso dizer - atende uma pessoa em choque pela perda de um ente querido e apenas fica em silêncio, deixando que a tensão domine a sessão e permitindo que a pessoa saia ainda mais desorganizada que chegou, achando que não adiantou nada procurar ajuda?

Um profissional de psicologia que se diz terapeuta no mínimo precisa ter a dignidade de deixar claro, no primeiro momento do tratamento, qual é a sua linha teórica e como ela deve funcionar. Nós somos os responsáveis por ensinar como nosso trabalho funciona. A didática é uma pedra fundamental do acolhimento terapêutico.

Para os que estão bem informados a respeito do que é uma análise tradicional, ela pode ser um prato cheio. Para alguém já terapeutizado em outra linha, ou mais informado a respeito do seu mundo interior, a estufa de ecos da psicanálise pode ser muito bem vinda - mas ela precisa ser uma escolha consciente.

Não é a abordagem mais indicada para alguém em grande sofrimento ou com dificuldades relacionais intensas, e eu não vejo muito esforço dos profissionais da linha em divulgar isso se não pela via do "Realmente, análise não é pra quem quer, é pra quem pode", que pode moer ainda mais a autoestima de alguém fragilizado.

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Me irrita muito o tom adotado por muita gente da área de que a psicanálise é algo muito brilhante e libertador, o grande caminho para uma vida plena, e que se você não é capaz de alcançá-la, é por ser uma pessoa pobre, seja de conteúdo ou de desejo.

Eu conheço bem esse discurso de "Se você não concorda, é porque não entende, e se não entende, é porque precisa se esforçar mais, ou você não tem valor". Eu vivi algo muito parecido na seita religiosa em que eu fui criado e da qual eu carreguei dores por anos. É um pensamento muito tóxico, e é incoerente quem conhece a fundo os círculos de psicanálise e diz que não percebe o tom messiânico que corre por ali.

Novamente, o que me incomoda não é a terapêutica em si tanto quanto a ideia de culto que permeia a área. Quem já circulou pelos ferventes círculos de psicanálise entende o tamanho da vaidade que existe ali.

Tenho plena noção do quanto as minhas queixas e mágoas sobre a psicanálise são visões anedóticas e muito pessoais, mas me irrita ouvir de quem tem carteirinha de torcedor para a linha terapêutica que os meus sofrimentos com aquilo tudo são devido a minha resistência, ou falta de insistência, ou falha em lidar com a minha própria angústia.

Fosse assim, outras linhas terapêuticas não teriam me proporcionado tamanha expansão, crescimento pessoal ou prazer.

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Todo o propósito desse texto é dizer que não há linha terapêutica sem grandes falhas. Ainda assim, me parece curioso que dificilmente eu sentiria o mesmo medo de ser apedrejado ao escrever sobre as falhas da Gestalt, ou da Cognitivo-Comportamental, ou das psicoterapias corporais. Essas áreas não se vendem como uma grande resposta poética para o sofrimento humano.

A psicanálise suscita grandes paixões e ódios porque se trata justamente disso: uma paixão, com suas distorções, lacunas e ilusões.
Comigo, foi meu primeiro amor. O fim dessa paixão deixou muito sofrimento e mágoas, mas também me preparou muito bem para os amores que vieram a seguir.

Tenho colegas excelentes que escolhem a psicanálise como trilha para o seu trabalho e tem resultados lindos.

Sei que projetamos muito de nós mesmos nos nossos amores, e talvez esses sentimentos todos que eu tenho a respeito da área sejam por causa dessa sensação de amor mal resolvido. Pode ser. Não posso dizer que meu tempo de analisando não me fez bem. Aprendi muito lá, e ainda uso muita coisa dali no meu trabalho.

Pode ser que os problemas tenham mesmo sido culpa minha. Pode ser que eu não tenha sido bom o suficiente para a psicanálise. Mas pode ser também que ela não tenha sido um amor tão bom assim, e que o relacionamento tenha sido um pouquinho abusivo.

E não é querer falar mal de ex, mas eu estou bem mais feliz hoje.

25.4.18

Lerdeza


Eu sou rápido.
Falo rápido, penso rápido, como rápido, minha cabeça funciona como aquela montagem do filme do Rocky em que corre, pula corda, sobe escadas correndo e fica muito bem preparado pra uma luta em quarenta segundos.

Sempre fui assim, ligeiro feito uma lebre.

A loucura é ver quanta gente confundia isso, nos tempos de escola, com ser inteligente. São duas coisas bem diferentes.

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Uns tempos trás um paciente meu se queixava:
"Eu não sei se vou prestar muito tempo nesse trabalho. Eu ando muito devagar, meu cérebro tá lerdo."

Eu quis provocar.
"E se você for lerdo?"

Ele não gostou da ideia e eu sugeri um exercício:
"Experimenta falar lá dentro da sua cabeça: 'Eu sou lerdo mesmo, eu sou bem devagar e não tô nem aí. Meu jeito é lerdo, eu sou lerdo e se quiser falar comigo vai ter que ser bem devagarinho! Eu sou lerdo e gosto!', e vê como você se sente."

O legal de exercícios assim é que o corpo tende a ser muito mais aberto. Perguntei como ele se sentia.
"Melhor. Confortável. Como se eu tivesse tempo pra fazer o que eu preciso."

Não tinha nada de errado nesse homem estar com o pensamento um pouco mais devagar do que o dos outros.

Uma pessoa mais desatenta escutaria a demanda dita por ele, de "preciso ser rápido" em vez de ouvir o pedido do corpo de "preciso de tempo", e que violência isso seria.

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O que muita gente precisa aprender é que se desenvolver rápido é muito diferente de desenvolver profundamente.

Sim, algumas pessoas tem muito mais rapidez na absorção e reprodução de conteúdos do que outras, mas isso só atinge uma camada muito superficial do pensamento.

Para absorver de verdade uma ideia, conhecê-la profundamente e sabê-la pelas entranhas, só com muita estrada. Você pode até tomar um vinho jovem e achar gostoso, mas algumas ideias precisam de um tempo no barril pra fermentar bem.

E mesmo que seja exatamente o mesmo aprendizado, uma pessoa que aprende uma língua lentamente, por exemplo, não vai ser menos beneficiada pelo seu aprendizado do outra que aprendeu o idioma em um mês.

Aprender rápido não é melhor do que aprender devagar. Não é uma questão de devagar e sempre, e sim de devagar e profundo.

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Sem contar que ninguém é lento pra tudo.

Eu posso escrever um texto em cinco minutos (a qualidade do que eu escrevo deixa isso bem aparente), posso absorver um sentimento muito rápido e posso fazer associações entre ideias diferentes em meio segundo.

Mas não me peça pra ter a mesma resposta rápida pra fazer conta.
Ou pra praticar esporte.
Ou pra cuidar de planta.
Ou pra me apresentar pra desconhecidos.
E pra mil outras coisas.

Mas, pra essas coisas, eu posso muito bem ser tartaruga e aproveitar o caminho, indo bem devagar, devagar, devagarinho...

21.4.18

Não existe amor

Muita gente tem bastante consciência dos padrões de relacionamento que tem.

Não é uma coisa difícil perceber. Todo mundo tem um "tipo", ou algum tipo de personalidade que parece reaparecer em pessoas diferentes a cada vez que ela se aventura no amor. Lá pelo terceiro ou quarto relacionamento frustrado, você percebe que as coisas se repetem e você tem alguma coisa a ver com isso.

Infelizmente, muita gente para por aí. Acabada a frustração do último relacionamento, a busca pelo padrão de pessoa ideal volta com força.

É então que o bolo desanda.

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Amadurecer é uma desilusão depois da outra, e isso é bom.

Todos crescemos com um monte de ilusões na cabeça.
Queremos ser cantores, jogadores de futebol, apresentadores de TV, e é sempre uma frustração quando a gente se dá conta que esse sonho não vai dar certo.

É triste, mas logo a gente se enfia numa faculdade ou num emprego diferente, se envolve com aquilo e acaba gostando.

É o mesmo gozo do trabalho dos sonhos? Não.
Mas nas conquistas pequenas, nas dificuldades cotidianas e nos lugares conquistados pouco a pouco mora um prazer que é muito mais real e gerador de orgulho do que se você tivesse virado o Neymar ou a Beyoncé.

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Mesmo quando achamos ser muito pé no chão e sem expectativas, existe uma sensação interior que é nosso ideal de amor.
Faça você mesmo o teste: feche os olhos e imagine como seria a pessoa perfeita. Como ela te faz se sentir? Como é o sexo? Como ela se dá com seus amigos?

Existe uma checklist imensa de sensações que você, pensando nisso ou não, procura em alguém. Quando aparece alguém próximo de completar essa lista , o mecanismo de ilusões é ligado na potência máxima.

Aí começam as fantasias, as cobranças e - inevitavelmente - as frustrações.
Ou a pessoa cabe naquilo, ou você cai de cara na sensação de abandono e falta de sentido.

--

Infelizmente, a gente reluta muito mais pra aceitar que a pessoa ideal não existe do que pra entender que não vai conseguir ser milionário nessa vida.

É uma das poucas ilusões em que a gente se apega pela vida toda. No amor, tem muita gente adulta ainda querendo ser a Beyoncé.

Como é grande a libertação de se desapegar da ideia de que vai surgir alguém capaz de satisfazer as sensações que a gente deseja em alguém.

NÃO EXISTE.
A PESSOA QUE VOCÊ QUER NÃO EXISTE.
O AMOR COMO VOCÊ IMAGINA NÃO EXISTE.
Não vai ter. Solta. Larga o osso.

E agora perceba como isso pode ser bom.

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"Mas a pessoa que está comigo é perfeita pra mim!"
Até ela fazer algo que você não gosta, né? Depois vai ser um monstro.
Na melhor das hipóteses, com muita maturidade, vocês vão conseguir desmontar as ilusões que um tem sobre o outro e viver um relacionamento muito mais humilde e simples do que você imaginava. Senão, frustração na certa!

"Mas eu não quero muita coisa, eu só quero alguém que me ame e me respeite!"
Não conte com isso. É pouco, mas ainda pode não existir.
Além do mais, você não precisa disso pra viver. É você que não se ama nem se respeita quando se desgasta em ilusão depois de ilusão.

--

"Então eu vou ter que aceitar qualquer relacionamento?"
Não! Justamente essa parte é a melhor de todas: ou você começa a ver as pessoas pelo que elas realmente são, em vez da sua expectativa, e com isso tem relacionamentos muito mais reais, livres e com menos espaço pra frustração, ou você vai ficar mais tranquilo em dizer não para as pessoas que aparecem, por saber que não é por meio delas que virá a satisfação das suas angústias.

"Isso quer dizer que eu vou ficar sozinho pra sempre?"
Talvez. Muita gente se sente muito sozinha mesmo estando num relacionamento. Muita gente
É triste, mas é a realidade. Aceitar que papai noel não existe te fez bem, não fez? Aceita que você não ia ser o Neymar te fez bem, não fez?

Talvez aceitar que a solidão seja o padrão da experiência humana possa te dar o mesmo benefício.
É duro, mas é maduro.

13.4.18

Pode incomodar

É tão frequente acontecer que eu até acho graça no sofrimento da pessoa bem educada demais.

Ela é uma fofa. Chega, cumprimenta, participa de longe, mas não se aproxima muito.
Não fica tempo demais na casa de ninguém.

Se você oferece um pedaço do doce que está comendo, ela diz que já comeu em casa, mesmo que esteja com o próprio Amazonas de saliva escorrendo da boca.

Ela recebe hóspedes e dorme no sofá da sala pra visita dormir na cama dela.

Esse é o jeito correto de viver, pensa ela. Ela é uma cidadã exemplar. Ela toma remédio pra gastrite.

Ela não incomoda ninguém.

--

Eu rio dessa gente mas rio com respeito, porque eu sou igualzinho.
Cansei de passar vontade ou negar ajuda por achar que seria trabalho demais para o outro.

E é mais ou menos essa a sensação que a Pessoa Educada Demais tem o tempo todo: ela é um atrapalho, ela é um atravanco, e isso não se faz.

Ela gasta tanta energia tentando ser agradável, o cidadão-modelo de um mundo ideal, que vai parar numa crise de pânico.
Falta ar, falta energia, dá vontade de gritar e sair correndo.

Mas ela não grita nem sai correndo, credo.
Isso incomodaria os outros.

--

Me interessa saber de onde vem essa ideia maluca de que não incomodar ninguém faz uma pessoa ser bem quista.

Quem fala isso obviamente nunca teve um cachorro na vida.

Por que cachorro enche o saco, né?
Se ele quer sair, vai ficar latindo e te arranhando até você pegar a coleira e levá-lo até a esquina.
Se ele quer fazer cocô e você não o deixa sair de casa, vai deixar um presentinho bem em cima do seu travesseiro.
Se ele quer carinho, vai enfiar a cabeça no seu colo, não interessa o que você esteja fazendo.

Um cachorro se recusa a fingir que não existe e que não tem necessidades.
A coisa mais triste do mundo seria um cachorro que não quer incomodar ninguém e fica no cantinho o tempo todo.

(e nem venham me falar que gato é assim, porque gato é tranquilo até o momento em que ele te acorda quatro da manhã com uma patada na cara porque está com fome).

--

Ainda assim, todo mundo gosta de cachorro (menos quem não gosta, mas aí quem não gosta deles sou eu).

Isso acontece porque uma relação genuína é muito gostosa.
O cachorro pede as coisas com tanto carinho, com tanta abertura, e tem tanta gratidão pelo que recebe, de um jeito tão gostoso e tão honesto... Que ele conquista odireito de incomodar.

Dizem que filho é assim também, mas eu nunca tive um filho me trazendo uma coleira na boca pra saber.

--

Não tô defendendo gente mal educada, longe disso.
Aliás, saio correndo de gente que fala alto demais, pede muito favor ou não percebe a hora de sair de perto.

Mas até essas pessoas tem algo a ensinar pra alguém que nunca se mostra por medo de incomodar.

Podar partes da gente pra não incomodar é jogar fora qualquer chance de uma interação genuína.
Você não cria conflitos, mas também não conhece o sabor de ser aceito. Ninguém nunca lhe conhece de verdade, só a fachada que você apresenta.

--

Por isso minha nova meta é sair incomodando o máximo que eu posso.

Tá comendo e nem me ofereceu? Vou pedir um pedaço.
Tá saindo de carro na direção que eu tô indo? Vou pedir carona.
O livro que eu tô lendo tá mais interessante do que a pessoa que quer falar comigo? Vou pedir licença e continuar lendo.

Nada de ficar calado, eu vou é fazer esforço pra incomodar mais.

--

"Mas Flávio, se todo mundo ficar desse jeito o mundo vai ficar insuportável!"

Só pra quem não sabe defender o próprio espaço.
Gente folgada incomoda todo mundo, mas incomoda muito mais quem não sabe dizer não. Questão de saber dar - e aceitar - limites.

Se todo mundo agir assim, pedindo o que quer e dizendo não para o que não quer, a convivência geral vai ficar muito mais fácil.

Afinal, até o cachorro mais dócil rosna quando não quer tomar banho.
Ainda temos muito o que aprender com eles.

O caminho do perdão é pavimentado com ódio

Pra uma sociedade que tanto odeia, é uma hipocrisia imensa o quanto censuramos o o ódio.  Qualquer um já ouviu de alguém: "Dê a...