16.10.18

Pessoas encolhidas



Eu preciso lembrar de me lembrar, porque eu esqueço fácil, que algumas pessoas não duvidam de si mesmas o tempo todo.

Mais do que isso, elas tem a certeza de estar certas.

Parece outro mundo pra mim - pra muita gente que eu conheço também - porqu eu faço muito esforço para olhar pelo lado do outro.

Me aparece, à noite, o pensamento de "será que eu fui rude ao falar tal coisa?".
Eu sofro ao dizer não pra algo, ainda mais se for só por não querer fazer.
O sofrimento do outro me faz sofrer também.

Se alguém me diz que eu falei algo errado, eu primeiro questiono o que eu falei, pra depois pensar que a outra pessoa que pode estar enganada.

Na maior parte do tempo, eu sou uma pessoa encolhida.

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Aí eu me assusto quando vejo gente assim, dona da verdade.

Que não questiona o argumento que usa numa discussão. Que não se importa em ser agressiva.

Acho que isso começa muito cedo.

A gente, que se preocupa, já nasce pedindo desculpas.
Talvez por falta de um incentivo que diga "Estou interessado em você", a gente se convence de que não é importante.

Cresce com um senso de que não tem lugar.
Morre de gratidão por cada gentileza que ganha no mundo.
Respeita tanto o espaço do outro que deixa o próprio cada vez menor.

Gente que, quando percebe que está incomodando, sai do recinto pedindo desculpas.

Uma vida sofrida, mas pelo menos a gente se conforta em não agredir ninguém.

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Enquanto isso, algumas pessoas são hipervalorizadas desde cedo. Talvez por falta de frustração, ostentam cada pancadinha que levaram como um "Olha como eu sofri!", para dizer que tem sim, todo o direito de agir como agem.

Elas nunca estão erradas. Elas sentam com a perna mega aberta, foda-se quem está do lado. Elas ouvem música no volume que quiserem. Elas deixam o ronco da moto alto de propósito, pra incomodar mesmo.

Faltou argumento? Aumenta o volume da voz.
Não adiantou? Xinga.
Ainda nada? Bate na pessoa.

E quando você defende seu espaço, o que essas pessoas dizem?
"Você só pensa no seu umbigo! Egoísta!"

Porque sabem que, nos fazendo sentir culpados, o reflexo é de nos encolher.

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E o que eu mais tenho visto é gente se sentindo sem lugar.

Porque a gente gosta de se convencer que é amado. A gente gosta de fingir que é aceito, e se choca quando quem diz não se incomodar com a gente apoia alguém que consente com a nossa execração.

O que dói não é nem sentir o ódio. É sentir que, mais uma vez, a gente está sem lugar.
Sentir que, mais uma vez, a gente não é bem vindo. Que quem dizia que nos amava não se importa de verdade.

Sentir, lá no fundo, aquela vontade de pedir desculpa por existir e ir embora.

Do mundo, talvez, porque parece que não há lugar nenhum que nos queira.

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Mas aqui, de pessoa encolhida pra pessoa encolhida, a gente tem mais força do que pensa.

A gente já está acostumado a não ter apoio nenhum.
Cada um de nós já construiu coisas lindas, mesmo sem ninguém ter botado fé.
Cada um de nós merece sentir orgulho por cada mísera bostinha que tenha conquistado na vida.

Porque só a gente sabe o trabalho que dá pra fazer uma vida acontecer com tão pouco apoio e tanto esforço pra não incomodar ninguém.

Agora, permitir-se ser diferente é uma afronta. Vai parecer agressivo, vão tentar nos botar no lugar de pedir desculpas por existir.
Mas não é hora de pedir licença.
Nós não estamos errados em exigir respeito.

Nós temos direito ao nosso lugar também.

Soneca



Minha amiga me contou uma ótima.
Voltando do trabalho, noite passada, ela entrou distraída no ônibus e caiu no sono. Nem reparou que o ônibus estava indo pra um lugar diferente do que ela queria.
Bem diferente. Tipo, outra cidade de tão diferente.

Acontece nas melhores famílias, mas a reação dela foi sensacional. Minha amiga acordou, viu que ainda estava longe da parada final daquela cidade, virou pro lado e continuou dormindo.

Já estava na cidade errada mesmo, né?
Entre se desesperar e ainda assim precisar esperar chegar no ponto final para voltar pra casa e esperar dormindo, preferiu dormir.

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Deve ser culpa das novelas, em que todo mundo precisa sofrer em voz alta pra quem assiste entender a cena, mas a gente adora anunciar quando alguma coisa dá errado.

Eu tinha uma colega de trabalho que resmungava o dia inteiro:
"Ah, que bosta!"
"Ai, esse sistema não funciona"
"Que saco essa internet!"

No começo eu me preocupava com ela. Ficava chocado com como o trabalho dela era estressante, enquanto o meu não era. Tinha até dó.

Aí um dia eu olhei pra tela do computador dela enquanto ela resmungava e ela estava - juro por Deus - jogando paciência.

Era só a reclamação saindo no automático, pra parecer que estava trabalhando.

Entendi muita coisa naquele momento.
A gente é treinado para achar que quem reclama merece respeito. Aprende a reconhecer o trabalho mais pelo esforço do que pelo resultado.

Dá pra parecer que você está fazendo alguma coisa só por reclamar do problema, em vez de lidar com ele.

Sigo respeitando minha ex-colega. A gente trabalhava de igual pra igual, mas só eu parecia folgado.

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Me surpreende que alguém consiga chegar à idade adulta achando que todo problema que encontra pelo caminho é o fim do mundo.

A capacidade de não se preocupar com pequenos problemas é uma maturidade que só surge depois de muita frustração, quando você percebe que o mundo já acabou muitas vezes e você continua tão vivo quanto antes.

Aí a gente se permite ser mais leve.

Tirou nota ruim? Vai pro boteco chorar as mágoas com um colega, estuda mais na próxima.
Foi assaltado? Bem, pelo menos não estava com a carteira cheia de dinheiro dessa vez.
Perdeu o ônibus? Bom, agora que já aconteceu, tira um livro do bolso e aproveita o tempo livre.

O mundo não vai parar para esperar sua frustração.
Depois do leite derramado, é melhor perceber que remoer é inútil, aceitar o prejuízo de uma vez e seguir com a vida.

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Claro que é muito mais fácil fazer isso com os problemas pequenos do que com os grandes.

Um ônibus errado é menos difícil de aceitar do que o resultado desastroso de uma eleição por exemplo.

Mas em vez de dramático, acho que a gente ganha muito mais sendo malandro.

Quando não há mais chances de evitar uma tragédia, a gente descansa do desgaste emocional, tenta focar em outra coisa e refaz os planos para chegar onde quer de outro jeito.
As ideias prosseguem e o esforço continua, mas a tortura emocional diminui um pouco. Exercitar o requebrado também pode ser importante.

O ônibus vai continuar indo para o lugar errado, mas pelo menos você tira uma soneca.

30.9.18

Gabriel

Gabriel.
Eu lembro perfeitamente do seu nome, apesar do rosto não ser mais tão claro na minha cabeça. Na minha imaginação, por alguma semiótica inconsciente, ele é igualzinho ao Do Contra da Turma da Mônica.

Eu não tinha muitos amigos na época, mas não me importava muito com isso. O lúdico me servia perfeitamente para passar o intervalo da escola, sem ligar para as meninas que não me queriam por perto nem para os meninos que tiravam sarro de mim.

Então eu brincava sozinho. Nesse dia, eu pulava amarelinha.

A escola era um prédio pequeno com uma faixa de calçada ao redor em que os alunos brincavam. Enquanto eu brincava, os meninos da minha sala apostavam corrida ao redor do prédio.

Joguei a pedrinha.

Pulinho com um pé. Pulinho com os dois pés. Pulinho com um pé, de novo.
Mais um pulo... e minha memória apagou.

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Acordei não sei quanto tempo depois, certamente não tempo suficiente pra alguém se dar conta que uma criança estava desmaiada no chão.

O Gabriel, que eu nunca esqueci o nome, que estava apostando corrida com os meninos por ali, achou divertido me dar um empurrão e continuar correndo.

Caí de cabeça na quina de um banco de concreto.
Criança cai o tempo todo, eu sei, mas essa foi uma cabeçada bem menos boba do que parece.

Consegui pedir ajuda e alguém me levou pro hospital. Antes de ir, uma professora perguntou quem tinha me empurrado. Respondi.

"Foi sem querer", ele justificou quando perguntaram.
Ele não sofreu repreensão nenhuma.

"Seu filho é forte", disse a enfermeira para a minha mãe. "Esperou você chegar pra começar a chorar."

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Até hoje tenho uma cicatriz na testa e um coágulo atrás do olho direito que não me deixam esquecer essa história.

Só meus pais sabem quanto dinheiro gastaram me levando de médico em médico para ver qual era a desse bendito coágulo.

Às vezes eu ficava muito tonto, às vezes eu tinha dores de cabeça terríveis. O negócio podia resolver se mexer a qualquer momento e fazer um estrago difícil de prever.

Mas isso não me incomodava tanto quanto a culpa que eu sentia de meus pais precisarem abrir mão dos seus trabalhos para viajar até um especialista. Eu era culpado por aquilo. Eu não devia ter caído. Eu devia ter sido amigo dos meninos.

Eu não devia ter deixado ninguém me empurrar. Com uns dez anos de idade, eu tinha um contâiner de vergonha e planos bem claros de suicídio.

Até hoje me aperta o peito quando vejo uma família exausta acampando com um filho na porta de um hospital.
Pobres pais. Pobre criança.


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Eu realmente acho que o Gabriel não fez o que fez por mal.
Ele só não se importava comigo. Ele só me empurrou porque deu na telha. Ele só achou que seria engraçado me ver caindo.

Ele sabia que nada de ruim iria acontecer com ele.

Se eu sinto calafrios a cada vez que vejo um carro com o adesivo do candidato que diz que menino afeminado precisa apanhar pra aprender a ser homem, não é porque eu sinto que a pessoa dentro do carro seja um monstro.

É porque eu sei que a qualquer momento pode aparecer um Gabriel para me empurrar por trás, só de brincadeirinha. Sem maldade. Só de zoeira. Porque não quis se importar com as consequências.

Porque não quis se importar com o que pode acontecer comigo depois.

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Eu não brinco mais sozinho.

Somos vários - cada um com suas cicatrizes - cansados de tentar não atrapalhar ninguém. Pedindo, por favor, que parem de nos empurrar.

Só isso.

Nosso pedido irrita muito os tantos Gabriéis insistem em fazer birra.
Eles só querem fazer o que tem vontade. Eles querem empurrar sem ser punidos. Eles querem mandar sem se importar com quem está do outro lado.

Nós, que já pulamos tanta amarelinha sozinhos, que já levamos tanto empurrão, estamos fazendo o possível para impedir.

Espero que a gente consiga.

27.9.18

Original



Estava passando pelo centro e parei numa lojinha popular:
"Moça, você tem camiseta básica?"

Ela foi bem simpática:
"Olha, eu tenho essas que estão na promoção, 14,90 cada."


Me mostrou uma arara com várias camisetas cheias de desenhos e palavras na frente. Incrível como roupa barata sempre tem desenho.

"Mais básica que isso, você tem?", eu pergunto.
"Essa é bem basiquinha, olha!", e ela me alcança uma camiseta laranja com o escrito "FLORIDA 1969 - Extreme Sports forever" na frente.

"É que eu gosto mais discretinha, entende?"

Ela me mostra outra, dessa vez preta. Tá escrito "POWER TO THE PEOPLE - 1978- Fighting Hard For Believing Surfboarding - NEW YORK", no meio do desenho de uma onda.

"Tem essa outra aqui também", e me mostra uma azul marinho escrito "JUICY BITCH - Try me if you can - Tokyo Japan New York France Philippines Fashion Forever Dreams Company - The Fever is Inside Us".

Passei mais tempo lendo as camisetas do que qualquer livro que eu tenha comprado esse ano.
"Toda lisa você não tem?"

"Tenho sim", diz a vendedora, e me mostra uma igualzinha às anteriores, mas sem nada escrito. "Essa tá 34,99".

Porra.
"Tá bem... E calça de academia, você tem?"

Ela me mostra uma calça com o símbolo da Nike virado pro lado errado e com NIEK escrito bem grandão do lado.

Se a calça fosse lisa, eu teria comprado na hora.

Não é possível que seja mais barato fazer uma coisa cheia de desenho e marcas falsas do que uma roupa simplezinha, sem nada.

Desisto.

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No ensino médio, todos os endinheiradinhos do colégio usavam tênis da Adidas e eu morria de inveja.
Eu tinha inveja de muita coisa, até dos que tinham dinheiro pra comprar pastel na cantina todos os dias, mas o pastel eu conseguia ter às vezes.
O Adidas não.

Tanto mentalizei o tênis que ganhei um tênis da Adidas - falsificado.
A intenção foi das melhores, mas o presente tinha um problema sério: qualquer um que batesse o olho ia contar quatro faixinhas na lateral e não as três tradicionais da marca.

Falsificação visível de longe, maior vergonha. Usei muito o tênis, mas só pra ficar em casa. Morria de culpa por ter vergonha de uma coisa tão boba.

Hoje eu improvisaria umas listrinhas a mais no lado do tênis, pra deixar bem claro que ele é tão fake quanto a minha autoestima.

Aprendizados, né?

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Mas a melhor história de coisa falsificada que eu tenho foi um relógio que eu vi pra vender quando ainda era criança.

Grandão, brilhava de longe no mostruário do 1,99. O visor ostentava, bem grandão, a nome da marca:
ABIBAS.

A falsificação superou o original.
Até hoje me arrependo de não ter comprado.

Se alguém encontrar pra vender, compra pra mim que eu mando o dinheiro.
Só confira as notas, por favor. Podem ser falsificadas.

22.9.18

A casa

Uma vez eu amei demais.

Com esse amor, decidi construir uma casa. Seria a casa dos meus sonhos, e pus minhas mãos à obra.

A princípio, só eu trabalhava.
Depois fui ganhando espaço, mas não foi tão fácil.

Quando eu construía um quarto, ele levantava um muro.
Quando eu construía uma sala de estar, ele fechava uma porta.

Mas eu insisti, e a casa foi tomando forma.

Deu trabalho, mas eu insisti muito para viver ali.
Alguns amigos falavam: "Cuidado, o material não é bom! Essa casa vai cair!", mas eles não sabiam de nada.

Aquele era o projeto da minha vida.

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Morei contente na casa por algum tempo.

Mas não muito. O teto começou a pingar, o chão foi rangendo... algumas tábuas iam se soltando, o reboco da parede se esfarelava.
Me apressei em fazer remendos.

Um puxadinho ali, uma camada de tinta para disfarçar uma infiltração acolá, eu fui levando enquanto dava.

Meus esforços não bastaram por muito tempo: a estrutura estava condenada.

Eu tinha que sair dali.

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Como foi difícil abandonar o lar que eu sonhei por tanto tempo!

"Jamais vou ter forças pra construir algo novamente!", pensei.
Deitei ao relento e fiquei por lá.

Sofrendo pelo esforço que fiz por aquela casa que só era bonita no sonho.
Sofrendo pelos esforços que eu não fiz.
Sofrendo por não ter prestado atenção de que eu construía uma coisa e meu parceiro outra.

Sofrendo por entender que a casa dos meus sonhos jamais seria meu lar.

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Até que alguém me ofereceu pouso.

Confesso que, de primeira, não gostei da ideia.

Eu já estava bem dormindo sob uma marquise. Não esperava mais morar em casa nenhuma, e mesmo que esperasse, não achei que ficaria contente com uma casa que não foi a que eu sonhei.

Mas, por mais que eu negasse, eu sentia frio, e solidão, e medo.
Aceitei ir para essa casa, tão mais simples do que a que eu tinha antes.
A diferença era que me queriam lá.

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Fiz meu puxadinho com um amor muito mais modesto, num projeto muito distante daquele que eu tinha sonhado.

As tábuas que carreguei comigo foram todas presas com parafusos - eu não seria doido de me pregar ali como fiz da outra vez.

Ocupei cada espaço com muito cuidado. Resisti a me sentir em casa por lá.

Mas fui baixando a guarda, e às vezes me surpreendia com como gostei das coisas como foram ficando.

Na cama, dois travesseiros que queriam estar ao lado do outro.
Na cozinha, duas canecas que serviam contentes o mesmo café.
Na estante, um porta-retrato com um sorriso sincero.

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Ainda sinto falta da minha primeira casa. Ainda doem os sonhos que ficaram por lá.

Só que aqui, no meu endereço novo, o chão já não range.
Não há mais visitantes indesejados.
A estrutura foi feita com muito mais solidez.

Sim, algo de mim ficou na casa antiga. Mas no meu coração, sei que é muito melhor morar aqui.

Lar, agridoce lar.

Proibido ser hétero



Se tem uma coisa que as pessoas subestimam hoje é o poder da rebeldia. Quem já fez dieta sabe melhor do que ninguém: tudo o que é proibido dá muito, muito mais vontade.

Eu cresci numa igreja em que o maior defeito que algo poderia ter era ser espírita.
O que era espírita, exatamente? Ora bolas, qualquer coisa que não tivesse o nome de Jesus estampado.

Horóscopo, por exemplo, era super espírita. Proibidíssimo.
E o que eu fazia quando ninguém tava olhando? Pegava o jornal escondido e ia direto ver o que os signos reservavam pra mim.

Até hoje, todo metido a cético, eu ainda adoro horóscopo. Mapa astral, combinações de signos, acho o máximo. Eu entendo que não faz muito sentido, mas continuo gostando.

Sabe por quê? Porque era proibido.

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Aí que eu percebo o erro de estratégia da bancada evangélica querendo proibir o ensino de questões de gênero e sexualidade nas escolas.

Eles tinham é que fazer o inverso: obrigar todo mundo a ensinar que o certo mesmo é ser viado.

Dizer que não pode ser hétero, que é antinatural.
Inventa alguma porra pra justificar. Sei lá, diz que Deus criou Adão e Eva e que esse foi o problema. Que se tivesse criado Adão e Ivo, um enfiava a serpente na bunda do outro e essa porra de pecado original nunca teria acontecido.

Certeza que o sexo heterossexual ia prosperar como nunca antes.

Os alunos iam ficar tão revoltados com a proibição que ia ser mandioca no bombril dia e noite, noite e dia.

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Mas não, o povo insiste em querer proibir ensinar a diferença.

Eu mesmo aprendi que homossexualidade era uma coisa abominável, e o maior risco que eu corro na vida é morrer engasgado numa piroca... enquanto leio o João Bidu.

Não faz sentido. Esse povo deve achar buceta uma coisa horrível, porque o argumento é que se permitir gostar de outra coisa, NINGUÉM MAIS VAI CHEGAR PERTO DE UMA.

NINGUÉM MAIS VAI REPRODUZIR.

Que se permitir não gostar de buceta O MUNDO VAI ACABAR.

Calma, gente. Buceta é até legal, dizem.

Continuo não querendo experimentar, mas tenho certeza que buceta sempre vai ter seus fãs.
Minhas amigas, por exemplo, adoram.

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Outra coisa que os crentes estão esquecendo é que ninguém presta atenção na aula.

Na minha época nem se pensava em questões de gênero, educação sexual era ver foto de pinto apodrecendo, com mofo em cima e pus saindo da cabeça.

Era ver a professora explicando as partes do genital feminino e cochichar pro coleguinha do lado "Hihihi vagina hihihihi".

Agora, proíbe pra ver o que acontece.
Até o clitóris os meninos vão descobrir.

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Eu falo brincando mas o negócio é sério.
Todo lugar que tem educação sexual decente tem índices menores de gravidez na adolescência, menos DSTs e menos abortos.
Jovens com educação sexual nas escolas tendem a começar sua vida sexual até um ano depois, em média, do que jovens que não tiveram essa chance.

Por quê? Porque, olha que surpresa, pessoas que entendem o que estão fazendo tendem a fazer menos besteira.

Pena que tanta gente não consegue raciocinar sobre isso. Se ainda pudéssemos fazer algo a respeito...

Já sei.

TÁ PROIBIDO PENSAR POR CONTA PRÓPRIA, GENTE.
PROIBIDO.

O LULA MANDOU DIZER NÃO QUER QUE AS PESSOAS RACIOCINEM COM FATOS.

Pronto.
Talvez agora alguma coisa aconteça.

14.9.18

Fotocópias



"Não quero ficar falando mal dos meus pais, sabe? Eu sei que eles me amam."






Troque "pais" por "namorado", "amiga" ou "irmã" e essa frase aparece mil vezes por dia num consultório de psicologia.






É um papo que vem com o disfarce de lucidez:






"Sim, minha mãe me falava que eu era um lixo todos os dias, mas eu entendo que isso foi tudo o que ela tinha a oferecer. Não posso pedir dela mais do que isso."






No papel isso é lindo. Fica parecendo que está tudo processado - tudo pensado, compreendido e perdoado - mas não está.


Está intelectualizado.






Por trás dessas palavras, a pessoa segura forte para não chorar. O sentimento continua exatamente onde estava quando aquilo aconteceu.






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Não quero promover o ódio contra quem - realmente - só nos deu o que pode dar.






Mas existe dentro de cada um de nós existe uma versão sob medida de todo mundo que já interagiu conosco, desenhada por todas as interações emocionais que tivemos com essas pessoas, e é essa versão que precisa ser trabalhada emocionalmente.






Não é raro um paciente visitar a família no fim do ano e voltar pra terapia falando "Nossa, pessoalmente nem pareciam as pessoas que eu passei tanto tempo aqui falando a respeito..."






Nessa hora fica óbvio o espaço emocional entre o que as pessoas são e o que sentimos por elas. Mem sempre quem gastamos saliva falando sobre o real de uma pessoa: em terapia, lidamos com a fotocópia emocional que a gente fez dela.






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A gente interage mais com as fotocópias emocionais que fazemos das pessoas que a gente ama do que com elas mesmas.






É isso que faz a paixão ser uma experiência tão impactante mesmo quando o objeto do nosso desejo está longe. Sua fotocópia (perfeitinha, tratada no Photoshop e tudo) está sempre ali dentro de nós, disposta a nos seduzir.






Da mesma forma que as mágoas: dentro de nós tem uma fotocópia da pessoa que nos magoou, empoeirada com o sadismo de anos de memória.






Quer dizer que a pessoa real é um monstro?


Não.






Quer dizer que a gente tá errado em falar dessa pessoa a partir da nossa mágoa?


Também não. Só se pode trabalhar a parte do outro que nos pertence.






Não interessa se a outra pessoa nos amou - lá nela, na fonte - se esse amor não chegou na gente, ou não foi percebido pel.a gente como amor.


Delivery extraviado não enche barriga.






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Não é preciso ter medo de falar mal das pessoas na terapia.


Não quer dizer que você não as ama ou que você só enxerga o lado negativo delas.






Só quer dizer que você está olhando para a sua realidade, a parte de você que se magoou e que precisa ser ouvida com sinceridade.






Falar "MAS A PESSOA NÃO TEVE INTENÇÃO DE MAGOAR!" para essa parte sua não vai tratar essa mágoa.






Intelectualizar não ajuda a resolver emoções: o que ajuda é sentí-las.






Sentindo tudo o que está guardado, você pode corrigir as imperfeições das fotocópias emocionais que você fez dos outros e lidar com versões muito mais reais dessas pessoas.






Só podemos lidar com as pessoas reais depois de lidar com os seus fantasmas. Assim, mágoas abrem espaço para o carinho e então enxergamos as pessoas ao nosso redor como elas são: humanas, bem-intencionadas e tão atoladas na merda quanto a gente

Pessoas encolhidas

Eu preciso lembrar de me lembrar, porque eu esqueço fácil, que algumas pessoas não duvidam de si mesmas o tempo todo. Mais do que isso, elas...