22.6.19

Umbigo

Eu adoro superstição.
Não passa um dia sem que eu bata vinte vezes na madeira pra isolar alguma coisa, e no dia que eu inventei de passar debaixo de uma escada eu juro por Deus que quebrei a perna no dia seguinte.

Se você me perguntar "Flávio, você realmente acredita nessas coisas?", eu vou responder:
"Não. Claro que não. Mas vai que alguma coisa ruim acontece?", e vou bater três vezes na madeira.

Não me conte nenhuma superstição que você segue, porque eu vou querer seguir também. Tô num ponto que eu já confundo uma com a outra. Não sei mais em que hora fala "Deus abençoe" e que hora precisa falar "Praga de urubu gira e cai no mesmo cu".

Mas eu tento. Se esforço contar, de uruca eu não morro.

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Agora, uma superstição que eu não admito de jeito nenhum é a de cobrir o umbigo.
Não sei se ela é tão conhecida assim, mas é desse jeito: pra não absorver energia ruim, você precisa pegar uma fita (esparadrapo ou coisa assim) e botar em cima do umbigo antes de sair de casa.

A ideia é que o umbigo é a conexão do mundo interno com o externo, e tapando essa região as coisas ruins não entram.

Mas não dá.
O cético em mim é anêmico, mas já aparece gritando.

Pensa só: Você tá num lugar de energia ruim. Urucubaca brava. Vibrações piores que as da suspensão de um Fiat Uno 87. A bad vibe está pronta pro ataque. Ela vem na sua direção, mira com toda a força e se frustra:
"PUTA QUE PARIU, CANCELA A INVASÃO! O INFELIZ TÁ COM MICROPORE NO IMBIGO!"

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Por que a camiseta não conta como defesa? Não pode ser uma brusinha? A energia negativa atravessa todos os tecidos, menos os que tem fita crepe em cima?

Por que a energia negativa não dá a volta por trás e entra pelo cu? Ou sobe, e entra pelo nariz?
Precisa cobrir o nariz e o cu com esparadrapo também?

E se a energia ruim foi algo que eu busquei? Se eu matar uma pessoa e não quiser que ela venha puxar meu pé de noite, é só botar um aviso no pé dizendo que perdeu, playboy, o meu umbigo tá coberto?

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Tá, é só birra minha. Eu devo ter alguma necessidade de me afirmar debochando da única superstição popular que eu não tenho. Algo como um "não sou tão bobo assim".
Coisa mais narcisista. Talvez eu não queira cobrir meu umbigo porque pense que o mundo gira em torno dele.

Tomara que agir assim não atraia energias ruins.
Bate na madeira.

14.6.19

Andar de Cavalinho (sobre incompatibilidades sexuais)

Foi a proposta mais estranha que eu ouvi em muito tempo:
"Mil reais. Eu sou pirado em você, eu pago mil reais."

A vaidade nem chegou a ser afetada positivamente pelo comentário, de tão bizarra que estava aquela conversa via MSN:

"Mil reais pra lamber seus pés, topa?"

Puta que pariu. Balancei.
Eu tava na faculdade ainda, quebradíssimo apesar dos mil trabalhos acadêmicos que eu fazia por fora pra levar uma grana. Quer dizer, eu nunca me prostituí, nunca tive a intenção, a vontade ou a capacidade pra tanto. Mas porra, mil reais? Pra só lamber meu pé?
Me pareceu menos pior do que a prostituição acadêmica.

"Ok. Eu topo."

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Não vi a expressão da pessoa por que a conversa era pela internet, mas o cara ficou contente.
Eu não fiquei muito, porque o cara tinha a aparência do Pedro de Lara sem cabelo, mas OK. O negócio ia ser com os meus pés, eu não precisaria nem olhar.
Quem sabe eu até colocasse a leitura em dia durante o serviço. Ganhar mil reais pra ler, já pensou?

Ele respondeu:
"Opa! Só uma coisa... Poderia ser duas vezes?"

Mil reais, por duas vezes? Menos empolgante, mas eu tinha muita leitura pra botar em dia. Ele continuou:

"E assim... Não precisa lavar o pé no dia, ok? Eu curto um cheirinho..."

Não falei nada, ele prosseguiu:
"Eu também gostaria que você pisasse em comida e colocasse na minha boca pra eu comer... Curto muito isso"

Eu já comi em muitos lugares que a ANVISA desmaiaria se visse, mas na sola dos pés de alguém era novidade pra mim. Nessa hora eu já tinha desistido da proposta, mas fui dando corda:
"É? Algo mais?"

Ele largou a última:
"Quero que você monte de cavalinho em mim enquanto eu ando de quatro pela casa, lambendo seu pé fedido."

Não.
Não. Não. Não.
Pé? OK. Pedro de Lara? OK. Purê de batata com micose? OK.

Mas cavalinho?
Cavalinho é o limite da minha flexibilidade sexual. Bloqueei o cara.
Esse foi o começo e o fim da minha carreira frustrada na prostituição.

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Tá, era um véio aleatório na internet, mas digamos que a proposta viesse de uma pessoa que eu amasse muito.

Alguém que tenha seguido o roteiro completo: conhecer, o papo ser bom, ter química, conhecer a família, o pacote todo. Se essa pessoa, subitamente, me pedisse por algum fetiche completamente exótico e estranho pra mim, será que eu toparia?

Só por amor, sem nem ganhar o milzinho?

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Incompatibilidade sexual é uma questão que aparece com frequência no consultório.

Principalmente essas aqui:
- a pessoa sofre porque quer algo que o parceiro não topa, ou
- o parceiro pede coisas que a outra pessoa não está disposta a dar,
- os dois tem ritmos sexuais diferentes e alguém se incomoda com a frequência.
- alguém quer algo aberto enquanto a outra pessoa quer relacionamento fechado.

E as respostas nunca são fáceis. Dizer "se não está legal, vai embora" é a resposta mais rasa que alguém pode dar para uma pessoa com problemas de relacionamento. Nunca está tudo legal ou tudo horrível, sempre há uma miríade de situações formando um conjunto de legais-e-não-legais exclusivos daquele casal.

Dizer "Ué, tenta fazer o que a outra pessoa quer" é um pouco mais sensato, mas também não resume a questão inteira. Sexo é complicado demais para não se sentir machucado quando se faz só pra agradar alguém.

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Ilustro com uma conversa que tive com uma amiga pra preparar esse texto. Perguntei a ela se alguém já tinha pedido algo a ela na cama que ela tenha recusado.
"Ah, nada demais... Só bater muito forte, quando pedem isso eu não faço não."
"Ok, mas se você encontrasse o amor da sua vida e ele só sentisse prazer sexual quando apanhasse muito, de machucar, de sangrar, você não faria isso por ele?"
"Eu acho que não... Eu me sentiria... Violada."

Não ter prazer sexual numa relação é ser violado. Se os gostos do casal são incompatíveis, é impossível que um dos dois não saia um pouco machucado na relação sexual.

Aí começa um jogo de negociações e pequenas cessões em que, com sorte, o casal encontra um meio termo e consegue ter uma vida sexual saudável.

Os arranjos são infinitos: ou os dois se contentam com um pouquinho de falta, ou acontece uma abertura na monogamia para que cada um consiga viver o que precisa, ou mantém-se na fantasia... Ou se tenta um final amigável.

Nenhuma das opções é super fácil.

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De qualquer forma, o esforço pode valer a pena.

Tentar expandir a zona de conforto sexual pode ser um jeito muito bonito de dar um presente a quem se ama, assim como segurar a onda de um desejo muito específico pra viver um relacionamento real e que completa outros aspectos da sua vida pode ser muito romântico.
Quem conseguir, que faça.

Sorte mesmo tem quem encontra alguém compatível.
Talvez, quem sabe, exista alguém com um fetiche em andar de cavalinho e pisar no Pedro de Lara procurando por você.

11.6.19

O que eu devo fazer?



A paciente estava aflita na minha frente, me pedindo por uma resposta:
"Eu não sei se você entende o que eu tô passando, você entende mesmo? Você já amou desse jeito?

A princípio fiquei em silêncio. A voz dela tremia:
"Eu sei que você não pode dar opinião, mas o que você acha?"

Meu coração pediu para responder.

"Francamente? Já estive em um lugar muito, muito parecido com o seu. Mais parecido do que você pensa. Escutar sua história chega a me assustar, porque alguns detalhes ecoam muito do que eu vivi. E, como alguém que já passou por uma história parecida com a sua, só posso dizer uma coisa: Ninguém, absolutamente ninguém, que esteja do lado de fora do seu coração tem a menor ideia do que você deve fazer."

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Ela estava em um momento particularmente difícil de um relacionamento que, por si só, já não era fácil. Não sabia se deveria ceder ao medo de ficar sem a pessoa que tanto amava e tentar novamente ou se deveria enfrentar a angústia imensa que sentia e aceitar o fim.

Compartilhei um pouquinho mais da minha história.
"Eu fiquei vários anos nessa situação de idas e vindas, de abandono e de retornos dramáticos, de me sentir não assumido pela pessoa que estava ao meu lado, de me sentir ignorado apesar de tanto amar."

Parei para olhar a reação dela. É sempre um risco colocar a própria história em uma sessão de psicoterapia. Prossegui:
"Em um momento eu não aguentei mais e fui embora, simplesmente fui embora. Não consegui seguir tentando. Eu estava cansado, eu já tinha tentando demais e eu... eu simplesmente deixei ir."

Fiquei um pouco incomodado de estar falando tanto. Ela me ouviu atenta, desesperada, com a solidão típica de quem está em um relacionamento abusivo e não conta mais nada pra ninguém por medo do julgamento.
"Só me diz uma coisa, então... Se você foi embora, você conseguiu amar de novo?"

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Como lidei com a pergunta não vem ao caso, mas eu lembrei de todas as vezes que perguntei a mesma coisa para amigos que tinham passado por situações parecidas.

A resposta era quase sempre a mesma:
"Eu fiquei um tempo sozinha e depois conheci uma pessoa com quem o relacionamento é tão, tão melhor, que não tem comparação."

Foi essa esperança que me manteve firme no (longo) tempo que fiquei sozinho depois do fim do meu próprio relacionamento-cruz.

Tentei responder a pergunta da paciente para mim mesmo. Eu consegui amar de novo?

Eu amei novamente, sim. Com muita dor, sofrimento e com a disposição arrancada do meu coração praticamente à fórceps. Sem a mesma empolgação do passado, apesar de aproveitar muito.

A pessoa nova foi, sim, muito melhor do que a que ficou pra trás. É impressionante como um relacionamento fica muito mais fácil quando a outra pessoa, assim... QUER que o relacionamento aconteça.

Mas não, não foram só flores.

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Abandonar um relacionamento abusivo não é encontrar um oásis logo depois do fim. É sofrido e em muitos momentos a superação vem junto com violentas doses de arrependimento. É um processo duro, difícil e nem um pouco romântico.

Algumas das compatibilidades de inferno pessoal só se encontram nesse tipo de relacionamento, e só quem já esteve numa situação assim sabe como isso acende certos fogos e nos faz sentir particularmente acompanhados.

Sim, hoje eu consigo amar de um jeito mais leve, mas aquele sofrimento lá de trás deixa um restinho de... Saudades? Como se a pessoa que foi embora fosse um coçador de coluna que tivesse exatamente o comprimento ideal para coçar aquela parte difícil das costas.

E, por mais que hoje o coração esteja muito mais tranquilo e pleno, a coceira ainda fica ali, incomodando.
Ir embora não curou todas as minhas feridas, ainda que - tentando ver objetivamente - a vida esteja radicalmente, incomparavelmente, felizmente melhor do que antes.

Amei de novo? Sim. Mas nunca amei igual.
Ainda bem.

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Mas afinal, o que eu acho que aquela paciente em dúvida deveria fazer com o relacionamento dela?

Eu acho nada. Só ela pode saber.
Eu estarei aqui para suportar sua escolha.

29.5.19

O impostor e Paulo Freire

Eu só não sofro de síndrome do impostor porque não tenho vergonha nenhuma de ser uma fraude.

Sou bem limitado: tem mil livros essenciais que eu nunca li, meu currículo tem buracos maiores do que o umbigo do Olavo de Carvalho e eu me estacionei numa especialização à distância enquanto meus colegas planejam o doutorado.

Ainda assim, tenho uma confiança inabalável na minha capacidade de me virar e de tentar juntar as poucas informações que eu tenho com algum jeitinho.

Uma das técnicas que eu tenho é a de papagaiar gente mais inteligente do que eu. Muitas das minhas posições, pessoais ou políticas, vem de ficar de butuca em gente que - ao contrário de mim - fez a lição de casa pra formar uma opinião, que aí eu xeroquei numa impressora na função rascunho e levei pra casa.

Acontece que, quando o negócio fica muito polêmico, minhas calças curtas me denunciam e a síndrome do impostor bate.

Já era a minha milésima discussão na internet defendendo Paulo Freire, usando o argumento "Colega, você por acaso já leu Paulo Freire alguma vez na vida?" como tentativa de xeque-mate, quando a bigorna da hipocrisia caiu na minha cabeça.

Puta merda, eu também não li o velho.

Hora de fazer a lição de casa.

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A seleção do livro que eu leria foi minuciosa e científica, de acordo com a metodologia "PDF que apareceu mais rápido quando joguei no Google".

O livro que baixei foi "Pedagogia da Indignação".
O prefácio explica que o Paulo Freire não teve tempo de terminar esse livro, a obra foi publicada a partir do que ele conseguiu deixar pronto antes de morrer.

Ótimo. Assim ele não teria tempo de aparar as arestas e a doutrinação ficaria ainda mais óbvia. Te peguei, pedagogo barbudo!


Primeira frase do livro:
"A mim me dá pena e preocupação quando convivo com famílias que experimentam a “tirania da liberdade” em que as crianças podem tudo: gritam, riscam as paredes, ameaçam as visitas em face da autoridade complacente dos pais que se pensam ainda campeões da liberdade."

Peraí, a indignação é essa?
Ele tá reclamando de gente que dá liberdade DEMAIS pros filhos? Não era pra ele ser um hippie maconheiro falando pra todo mundo fazer danças circulares sem roupa alguma além do boné do MST?

Li mais um pouco e achei um trecho um pouco mais petralha: um pedaço - bem lacaniano, por sinal -  em que Freire discute a importância de reconhecer os próprios limites , aceitando-os e trabalhando a partir deles. Depois ele reclama de algumas injustiças sociais, reclamando de donos de terra que "matam camponeses como se fossem bichos danados".

Ainda assim, não consigo admitir que achar ruim matar gente como se fosse bicho seja coisa exclusiva da esquerda. Não me parece evidência suficiente de que ele seja um monstro comunista comedor de criancinha do qual devemos nos proteger.

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Mas talvez ele ataque por outro lado. Talvez, em vez de ser um membro do PSOL com camiseta florida, defendendo a liberdade dos nossos frágeis bebês, ele seja do tipo PCO, autoritarismo total, ameaçando jogar gasolina em quem discorda dele.

Leio um pouco mais:
"Mas, a mim me dá pena também e preocupação, igualmente, quando convivo com famílias que vivem a outra tirania, a da autoridade, em que as crianças caladas, cabisbaixas, “bem-comportadas”, submissas nada podem.

Porra, Freire. Então não pode deixar a criança mandar na casa, mas também não pode deixar ela completamente calada e sem ação no mundo?
Isso é só bom senso, meu. Cadê o comunismo?

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Seguindo a leitura do livro encontrei uns termos mais polêmicos.
"Neoliberalismo", "democratização", "consciência de classe", "ética do mercado", alguns contextos que realmente fariam uma pessoa de extrema-direita fechar a cara, mas nada muito extremo não.

Inclusive também achei uma quantidade de trechos que páginas de esquerda no Facebook poderiam tirar de contexto caso quisessem chamar o Freire de "em cima do muro" ou de direitista. Ele faz algumas defesas bem fortes quanto à liberdade que precisa ser dada para que a autoridade, de qualquer lado que seja, possa ser questionada, e até achei o tão ridicularizado "nem de esquerda, nem de direita" em um ponto.

Em outro momento, falando sobre como parou de fumar, ele faz um discurso em defesa da força de vontade que qualquer coach poderia roubar e usar numa palestra defendendo a meritocracia, se quisesse.

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Ainda assim, o que mais eu vi no livro foi bom senso, e uma série de opiniões muito bem colocadas com que muita gente poderia concordar.

Um trechinho que eu amei:

"Na verdade, como posso “convidar” meus filhos e filhas a respeitar meu testemunho religioso se, dizendo-me cristão e seguindo os rituais da igreja, discrimino os negros, pago mal à cozinheira e a trato com distância? Como posso, por outro lado, conciliar a minha fala em favor da democracia com os procedimentos anteriormente referidos?

Que exemplo de seriedade dou às crianças se peço a quem atende ao telefone que chama que, se for para mim, diga que não estou?
Este esforço, porém, em favor da coerência, da retidão, não pode resvalar, sequer minimamente, para posições farisaicas. Devemos buscar, humildemente e com trabalho, a pureza, jamais nos deixando envolver em práticas ou assumindo atitudes puritanas. Moral, sim, moralismo, não."

Puro bom senso.

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Sim, tem uns momentos no livro em que Freire solta a indignação do título e reclama de quem está no poder, reclama de como o pobre é tratado, reclama da morte de quem luta pela reforma agrária, exige maior consciência a respeito disso.

Dá pra sentir o sofrimento dele nessas linhas. Ele estava lá, todos os dias com aquelas pessoas, tentando dar a elas uma chance de reconhecer que mereciam ser tratadas com o bom-senso e a dignidade que qualquer pessoa merece.

Você fica indignado junto, e mesmo assim, consegue ficar com alguma esperança de que as coisas vão melhorar no futuro se a gente continuar tentando. Você sai do livro acreditando que a educação vale a pena.

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No fim das contas, achei o livro bem bacana.
Não vi o extremista perigoso que tanta gente berra que ele é, não tem nenhuma loucura ali.

Tem uma pessoa que trabalhava com educação em situações muito difíceis - como qualquer pessoa que trabalha com educação - tentando lembrar a si mesma da importância do trabalho que faz, para tentar manter vivo o amor pelo seu ofício.

Talvez eu leia alguma outra coisa dele agora.

Talvez essa leitura me baste por um tempo... Fazer o próprio trabalho de casa dá trabalho demais.
Ainda bem que eu não me incomodo de ser um impostor.

27.5.19

A importância de um toque


Histórias de cafuné, parte 01:

Memória de infância.
Eu era pequenininho de tudo, uns cinco anos no máximo, e estava deitado com a minha mãe na cama dela.

Ela fazia carinho no meu nariz, e eu estava em êxtase.
De repente a culpa bateu. Eu só estava recebendo carinho.- que egoísmo! - e ela merecia ganhar também.

Por um segundo, me ocorreu como devia ser horrível ser adulto. Ninguém te pega no colo, ninguém te faz cafuné, ninguém te deixa deitar no ombro e curtir uma preguiça?

Tive um ímpeto de compaixão e decidi que aquela injustiça ia acabar.
Joguei a minha mão com força no nariz dela e comecei a chacoalhar. A coordenação motora fina ainda estava em construção, mas a retribuição foi digna. Eu era um bebê altruísta.


Ela achou graça e depois de um tempo parou de acariciar meu rosto.
Soltei o nariz da minha mãe, agarrei a mão dela e coloquei no meu rosto novamente.

Sem essa de ganhar cafuné de graça pra cima de mim!

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Histórias de cafuné, parte 02:

Teve uma vez em que uma tempestade de bosta atingiu minha vida em cheio e eu simplesmente não dei conta. Eu chorei tanto na terapia, mas tanto, que o meu psicólogo simplesmente sentou ao meu lado, colocou uma mantinha no colo, pediu pra eu deitar e passou as mãos pelo meu cabelo enquanto eu chorava.

Não lembro de um teórico da psicologia que sugira isso, e posso até citar alguns profissionais que falariam que isso é ultrapassar os limites de um atendimento que, a princípio, deveria ser técnico e científico.

Mas era o que bem daquilo que eu precisava naquele momento: um colo e um toque gentil.

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Histórias de cafuné, parte 03:

Outro dia eu fiz uma sessão de Barras de Access. O negócio é basicamente alguém suavemente cutucando partes da sua cabeça e corpo com os dedos em áreas que teoricamente alinhariam suas energias e trariam bem-estar.

Não achei estudos científicos que suportassem a teoria por trás disso, mas achei tão gostoso que voltei para uma segunda sessão. Talvez o negócio me remeta ao cafuné que eu amo receber desde criança.

Pensei até em fazer um curso disso, estudar os tais pontos que devem ser tocados, mas... o ponto a ser tocado é a pessoa.

Um dia eu junto coragem e coloco uma maca na minha sala, não pra fazer uma técnica pseudocientífica que eu convenceria meus pacientes que pode reduzir sua ansiedade, mas... pra fazer carinho mesmo.

Cafuné.
Um descompromissado e carinhoso cafuné.

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Crise de ansiedade? Ok, vamos falar a respeito, vamos fazer a psicoterapia tradicional, e depois deita aqui que eu vou mexer no seu cabelo.

Vou fazer carinho no seu nariz.

Vou lhe dar um ursinho pra abraçar (na real já faço isso, o Molengo é lindo e meu companheiro de trabalho), lembrar de como é bom ser criança e poder se acalmar não porque a razão lhe convenceu que tudo está seguro - mas porque você sente o toque de alguém ali, dedicado a você.

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Talvez nem todo mundo se sinta confortável com isso, então vou deixar a compra dessa maca pra depois.
De qualquer forma, fica a recomendação: ganhe cafunés.

Peça cafunés, você vai se surpreender com quantas pessoas ficam contentes de lhe fazer um carinho.
Se tiver vergonha de pedir, eu tenho bons resultados com a técnica de me esgueirar de fininho e deitar a cabeça no colo da pessoa. O cafuné vem quase instintivamente.

Se possível, faça cafunés também. Se tiver intimidade pra tanto, faça uma massagenzinha no ombro tenso do colega, sem interesse nenhum além de vê-lo feliz, como quando a gente faz carinho numa criança.

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Existe até o Touch Research Institute, da Universidade de Miami, que é uma instituição dedicada apenas a estudar como o toque ajuda a diminuir sintomas de dor em pacientes das mais variadas moléstias. Estudo após estudo indica como um toque amável pode ajudar mesmo em casos de dores físicas intensas e crônicas.

E, vejam só, não custa nada.
Um abraço pra vocês... e um cafuné também.

15.5.19

Descanso não é lazer



"Treine enquanto eles dormem.
Estude enquanto eles se divertem.
Mastigue um fio elétrico enquanto eles pulam carnaval.
Então, viva o que eles sonham."


Não sei exatamente como é a frase que os coaches falam, mas é algo por aí. A ideia é que, sifudendorrores enquanto os outros dão uma pausa, você vai chegar mais longe na vida.

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Eu sempre pergunto aos meus pacientes superdedicados ao trabalho o que eles fazem para ter prazer.

"Ah", eles pensam um pouquinho, "eu nem tenho feito muita coisa... eu chego em casa e durmo."

Eles até tentam botar numa luz mais positiva:
"Mas é ótimo! Eu durmo o fim de semana inteiro, não quero fazer mais nada! Meu lazer é esse, eu durmo bastante. Eu adoro!"

Nessa hora a minha Vera Verão interior já levanta do banquinho e começa a gritar EEEEEEEEPA!

Não, dormir não é lazer.

--

Claro que você precisa descansar depois de uma jornada de trabalho puxada. Mas o lema da época da revolução industrial tinha motivos pra não ser "14 horas de trabalho e depois 10 de Netflix com sonequinha".

A ideia era dividir o dia em três: oito horas de trabalho, oito horas dormindo e oito horas de lazer.

Lembra, lazer?
Quando você faz algo que te interessa, e que até te demanda energia, mas que de tão gostoso que é você termina mais recarregado do que quando começou?

--

Parece que ninguém tem hobbies hoje em dia.

Olhar as redes sociais não conta. TV, seriado, Youtube, essas coisas, também diria que não. Entretenimento passivo é legal, mas é descanso, não lazer.

Academia até vale, mas só se você não fizer só pela obrigação.

Talvez a pergunta melhor seja: O que você faz ativamente que engaje sua mente e te motive a desafiar-se, sentir-se vivo, a ter uma vida movimentada longe do trabalho?

Pra muita gente esse espaço está vazio.

--

Você não trataria uma criança dessa forma.
Chegar da escola e ir direito pra cama, sem poder brincar antes, é castigo.

Uma criança feliz chega em casa, faz a lição, e brinca. Ela faz a lição tranquilamente porque sabe que vai poder brincar depois. E, por mais que a gente esqueça, crianças e adultos são da mesma espécie.

Você também faria sua lição mais motivado se fosse sair dali e ir brincar no trepa-trepa.
Ou outro brinquedo qualquer. Sei lá porque esse veio à mente.

Hihihi.

--

O doido de tudo isso é que, na visão da psicologia do trabalho, essa história de jornadas enormes em busca de se destacar no trabalho é balela: profissionais com vidas sociais ativas e momentos de lazer e descanso equilibrados tendem a ter produtividade maior do que a de pessoas que vivem para o trabalho.

Eu sei que minha sugestão não é fácil.
Até dormir é luxo quando se precisa trabalhar horrores pra sobreviver e ainda passar horas no transporte pra ir pro trabalho e voltar pra casa.

Mas tente aplicar um pouquinho de lazer na sua vida. Vá além do descanso, o pouquinho que der, no tempinho que conseguir cavar: tenta cantar uma música até achar que ficou legal, montar um quebra-cabeça, tomar uma no bar com o vizinho.
Já vai fazer diferença na sua vida.

Só não treine enquanto eles dormem, não.


Vá brincar que é mais gostoso.

2.5.19

Geração Depressão

Uma coisa que me irrita de graça é quando um texto de internet começa com "A incrível geração que...".
Normalmente esses textos aparecem pra dar porrada em millenials.
"A geração sem inteligência emocional"
"A geração que não sabe perder"

Sem contar a mais pedante, que virou clichê de gente que usa óculos escuros na foto do perfil:
"A geração mimimi"

Vamos começar por onde eu concordo com eles: os adolescentes de agora estão com menos esperança do que a geração anterior (pela primeira vez na história, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Michigan).

A demanda por psicoterapia com adolescentes aumentou significativamente, os índices de suicídio em plena puberdade subiram, e a quantidade de páginas com mensagens ironicamente tristes nas redes sociais cresceu mais que os cabelos brancos que eu tenho na barba.

Mas minha intenção não é imitar os textos que me irritam e criticar essa geração. O que eu quero saber é:
Que diabos aconteceu?
Quando foi que a juventude perdeu sua cor?

--

Talvez para compreender os dias de hoje, a gente precise parar e olhar as gerações que vieram antes, e eu só consigo começar por onde eu comecei: nos anos 90.

Se a geração atual é a "geração mimimi", o termo geral utilizado pra designar a minha geração quando nós éramos a juventude transviada da vez era mais ou menos o seguinte:
"Bando de gente que não quer nada com nada, vive nas costas dos pais, acorda ao meio dia e que nunca vai ser nada na vida."

Esse era o zeitgeist, essa era a sensação geral da nossa época.
"I feel stupid and contagious", cantou o Kurt Cobain, e realmente contagiou geral.
Nós éramos burros e tínhamos orgulho disso.

No cinema? As Patricinhas de Beverly Hills, Deb & Lóide, Id & Ota, Cara, cadê meu carro? - tudo o que você precisava para ter um hit era de um protagonista muito, muito burro.

Nos rádios? Mamonas Assassinas. Na TV? Seu Creysson e Cala a boca, Magda.

Éramos governados pela burrice, mas não qualquer burrice. Uma burrice irônica, que sabia que aquilo tudo era piada.

Fomos uma geração que achava inteligente saber que não era tão inteligente assim, e que de certa forma se orgulhava da própria frivolidade.

--

Maslow hierarquizou as necessidades humanas como fases de um videogame: Na primeira, você corre atrás de comida e sexo; na segunda, segurança pessoal, e conforme essas necessidades eram satisfeitas você chegava na fase do chefão: a satisfação pessoal.

A geração dos anos 90 ainda tinha uma ponte muito forte com uma época muito diferente do que a que viviam: nossos avós tiveram vidas muito, muito difíceis. Nossos pais, ainda que com muita dificuldade, já tinham conquistado um nível de estrutura razoável, muito distante do que seus pais puderam sonhar.

Boa parte de nós, mesmos entre os mais pobres, nascemos com um nível de conforto bem razoável: comida na mesa, TV de tubo na sala e de vez em quando até um McLanche Feliz.

Fomos os primeiros das nossas famílias a chegar perto de um McLanche Feliz, o bizarro conceito de uma refeição dar um brinquedo como recompensa simplesmente por você ter comido. Paraos nossos pais a refeição em si já era um prêmio e tanto.

Mas a sombra de nossos avós estava lá: aos domingos, nossas referências maiores de carinho nos contavam histórias de quando sofriam trabalhando na roça, e de como as coisas eram difíceis no passado.

Aí, nós ligávamos a TV e víamos o Tiririca encoxar a Luiza Ambiel no Domingo Legal.

Nós sabíamos que nossas aspirações e entretenimento eram muito, muito mais fúteis que a dos nossos pais e avós.

Como lidávamos com isso?
Ironizando nossas facilidades, rindo da nossa própria ignorância e cantando Sabão Crá-crá.

--

Difícil encontrar um marcador para quando essa ironia frívola acabou.
Talvez o 11 de Setembro, símbolo-mor da queda dos sonhos yuppies. Talvez a crise econômica de 2008, que chegou por aqui um pouco atrasada?

Só sei dizer que em algum ponto dos anos 2000 perdemos a chance de ser frívolos. A grana encurtou, nossos avós - lembrete de um tempo realmente mais difícil - faleceram, e as coisas ficaram muito mais sérias.

A dificuldade chegou pesada nas mãos dos jovens, e esses voltam pra parte de baixo da pirâmide de Maslow. Fodeu geral.

Aí chega a Lorde e fala: "We'll never be royals".
E never will be mesmo. A gente sabe.

--

Nisso começa uma crise de sentido. Passar pela adolescência pra quê?
Pra quê reciclar os sonhos da geração dos nossos avós, se ela resultou em um monte de gente que achou que podia ser frívola e acabou frustrada?

No rádio? Batidas trap e as vozes mais arrastadas possíveis, com o romantismo mais irônico que alguém consegue imaginar. No cinema? A morte da comédia romântica. Na TV? 13 Reasons Why, literalmente listando motivos pra morrer.

O bom é que em toda geração que isso aconteceu antes, algum sentido foi inventado. Seja a estabilidade buscada nos anos 50 pelos filhos da depressão de 29, seja o flower power buscado pelos filhos frustrados dessa estabilidade, seja a frivolidade que a geração dos anos 90 encontrou para celebrar sua própria estupidez.

Talvez a garotada de agora não seja tão "geração mimimi" quando uma "geração puta merda, o que tá acontecendo?".

E, assim como nós ironizamos nossas sensações de burrice e inutilidade nos anos 90, eles ironizam a própria depressão, glorificando um pouco o que sentem enquanto dosam uma gotinha de sarcasmo para disfarçar a vergonha que tem de sentirem-se assim.

Desse jeito segue o barco, até que eles consigam passar o bastão para a geração seguinte, que provavelmente vai crescer de saco cheio do pessimismo dos pais e vai querer se colorir outra vez.

Aí, bem possivelmente, começará outra festa celebrando a própria estupidez.

E nós vamos nos cansar de ler artigos falando sobre a "incrível geração frívola" que estará surgindo.

Enxágue e repita a operação.

Umbigo

Eu adoro superstição. Não passa um dia sem que eu bata vinte vezes na madeira pra isolar alguma coisa, e no dia que eu inventei de passar d...