31.3.07

Tapete

Marido e mulher, na sala de estar.

- Não tô gostando do jeito que anda esse tapete.
- Acho que só tá sujo.
- Sujo mesmo.
- É só lavar.
- Lavar tapete dá muito trabalho, e não adianta.
- Não adianta?
- Não adianta. Pensa: tem um monte de ácaros aí, não tem?
- Provavelmente. Isso se eles não forem alérgicos a mofo.
- Acho que ácaros gostam de mofo.
- Ninguém gosta de mofo.
- Você nunca foi à França, foi? Eles adoram mofo.
- Franceses não são ácaros, amor.
- Você acabou de destruir minha imagem mental do povo francês.
- Esse tapete é persa? Pérsia fica perto da França? Pérsia ainda existe, aliás?
- Comprei na Pernambucanas, não deve ser de lugar nenhum não.
- Não existe essa de lugar nenhum.
- Digo, deve ser produção nacional.
- O Brasil não é lugar nenhum.
- Agora você destruiu minha imagem mental da minha pátria mãe.
- Por quê lavar tapete é ineficaz?
- Tem um monte de ácaros aí, não tem?
- Não vamos começar tudo de novo.
- Enfim, esses ácaros vivem aí faz tempo. Aos milhões.
- Não tem milhões de ácaros nesse tapete. Eles não são tão pequenos.
- Eles dominam a França, por quê não esse tapete?
- Conclua.
- Aí a gente joga um monte de água neles. E sabão, muito sabão. Precisa muito sabão pra lavar um tapete, sabia?
- Muito sabão.
- E com tudo isso, ou eles morrem afogados ou intoxicados com sabão ou esfregados com a vassoura.
- Vassouras são armas letais e eu não sabia.
- A gente passa a vassoura neles e eles, supostamente, morrem.
- Eu pensava que sua família só usasse vassoura pra voar.
- Mas eles são tantos, e tão pequenos, que mesmo mortos, eles continuam lá aos milhões.
- É como pisar num cemitério na própria sala de estar.
- Na verdade, é como usar uma panela pra cozinhar, depois jogar sabão em cima e cozinhar na mesma panela de novo, sem limpar a sujeira.
- Pelo menos o tapete fica sem manchas.
- Mas ainda é um cemitério. Um jazigo, que a gente usa pra decorar a sala.
- Combina com a jaguatirica empalhada na estante.
- Aquilo é uma jaguatirica empalhada?
- Claro.
- Você quer dizer que tem um bicho morto, que já esteve vivo e jaguatiricando pela floresta, e eu pensava que era só um bicho de pelúcia dura?
- Você é ingênua.
- E você ainda destrói minha imagem mental das jaguatiricas.
- Mando lavar o tapete?
- Se essa jaguatirica estivesse viva, ela comeria ácaros ou a gente?
- Talvez muitos ácaros de uma vez só, ou um pedaço pequeno da gente.
- Ela passa segurança, né?
- Vou mandar lavar o tapete.
- Odeio esse tapete. Vou sempre levar na memória que esse tapete é um cemitério, e não só um tapete.
- São só ácaros! E a gente nem usa tanto essa sala, mesmo.
- Um dia, e você destrói a França, o Brasil, as jaguatiricas e esse tapete.
- Mando lavar ou não?
- Bota no quarto da empregada.

19.3.07

Variáveis

A maior qualidade de uma pessoa é sempre o seu maior defeito. Dizem que a beleza está nos olhos de quem vê, mas esse efeito vai muito além do que define o que é belo e o que é feio.

Jacir é um senhor elegante, companheiro e fiel. Sua esposa, Luiza, não poderia encontrar parceiro melhor. Luiza vê em seu marido uma pessoa que está sempre com ela, ela precisando de ajuda ou não.

Almoço na casa do casal:
- Couve, Luiza?
- Já me servi, amor. Obrigada.
- Se quiser, eu te alcanço o prato.
- Está bem, amor.
- Vou pegar um copo d'água, quer também?
- Sim, mas não gelada.
- Aqui está.
Os dois sorriem, felizes. São um casal adorável. Não, Luiza não poderia encontrar parceiro melhor.

Mas nem todos compartilham o ponto de vista de Luiza. Vitório, o chefe de Jacir, o vê como uma pessoa que está sempre com ele, ele precisando de ajuda ou não.
No escritório:
- Senhor Vitório, o homem que forneceria as tampas de bueiro para o novo loteamento está na linha, quer falar contigo.
- Existe uma pessoa só para fornecer as tampas de bueiro?
- Eu acho que já li isso em algum lugar...
- De qualquer forma, fale que eu não estou.
- Ele não está – e o homem do outro lado da linha responde alguma coisa e desliga – Senhor Vitório, ele quer marcar uma reunião contigo essa semana. Diz que é importante.
- Confira na minha agenda e marque.
- O senhor prefere algum dia em especial?
- Qualquer horário livre está formidável.
- Terça-feira pode ser?
- Tanto faz, Jacir.
- Eu posso marcar para quarta-feira, também.
- Tanto faz, Jacir.
- Quarta-feira, então.
- Formidável, Jacir.
- Então tá marcado. Quarta-feira.
- Está bem, Jacir!
Vitório pensa em demitir Jacir. É um funcionário incômodo.

Para Luiza, um gentleman. Para o chefe, um chato. A chatice está nos olhos de quem vê.


o.o.o.O.o.o.o

Reinar. Mandar e ser obedecido, o poder por qual muita gente daria um olho. Curiosamente, James era um rei cego. Ter súditos e servos, para ele, não era muito importante. O poder mais admirado por James era o de ter o povo sempre prestando atenção em suas atitudes, sempre obrigado a lhe ouvir.

Por ser cego, James sempre apreciou muito a música. Começou ouvindo os músicos da corte, em seus tempos de príncipe. Com pena do pobre príncipe rico, um dos músicos lhe deu uma harpa. James aprendeu a tocar a harpa sozinho. Sabia muitas canções populares de cor, mas o que realmente o fazia sentir a vida valer à pena era compor.

Compôs muito com o passar do tempo, e já rei convocou todo o povo para vê-lo tocar. A multidão, obrigada a ir, era grande e se amontoava sob a sacada real. O rei começou a tocar. O povo se assustou com a música do rei. A música do rei era pior que a de um disco solo do Mick Jagger.

A multidão começou a diminuir. Voltavam para suas casas e tentavam esquecer o que tinham ouvido. Alguns continuavam assistindo, apenas pelo prazer bizarro da cena. Os servos de James, depois do fim do concerto, o aplaudiram e elogiaram muito.

Para James, um grande músico. Para o povo, um rei maluco. O talento estava apenas nos olhos de James. Mas James, o rei, era cego.

Aumentando o volume

Depois de um debate em sala de aula na faculdade, uma professora me chamou - uma professora incrível, que eu respeito muito até hoje. &quo...