10.7.07

Jacuzzi

Quarto lugar no vestibular pra entrar na faculdade mais concorrida do país. Não o suficiente pra se gabar – pelo menos não para ela. A perfeição era tão presente na sua vida que tudo o que não era perfeito ou perto disso era descartado.

Medicina, e depois se especializaria em plástica. Não que ela fosse superficial, superficialidade é defeito e ela beirava à perfeição (ainda mais pela modéstia, ela sempre agia igual com todos). Você poderia julgá-la pela aparência, mas ela jamais te julgaria por isso. Inteligente, sempre a melhor aluna da sala. Não dependia apenas do estudo para se distrair. Tinha amigas. Amigos. Namorados, mas sempre namoros mais longos, que acabavam por algum acontecimento grande desses que a vida está cheia e não se pode escolher. Mesmo assim, beirava à perfeição.

O dia já começou difícil. Acordou atrasada e correu para o hospital. A especialização parecia cada dia mais distante. Dor nas costas, o dia inteiro, e mesmo assim, o sorriso impecável no rosto, a simpatia em cada conversa, o brilho ainda nos olhos azuis, o cabelo loiro que parecia perfeitamente planejado.

Fora o cansaço, seria mais um dia normal. Faltava pouco pro horário de sair. Assim que chegasse em casa, tomaria um banho de banheira e dormiria, talvez tomando um comprimidinho pra relaxar. Lembrou do seu cachorro e isso deu fôlego pra continuar o dia.

Pouco antes do horário de sair, chega uma ambulância. Mais um desafio, mais uma oportunidade para ela salvar o dia - e ficar ainda mais cansada. É uma criança, uma menina, que se contorce de dor, toda vermelha do sangue. Ela acalma a menina com um olhar.

Foi atropelamento, e a mão da menina foi quase arrancada pelo carro. O motorista fugiu. A menina ainda chora. Ela chama mais médicos. Sala de cirurgia, e mesmo anestesiada a menina tinha expressão de dor no rosto. A mão estava comprometida demais.

O médico que a supervisionava aquela tarde resolve dar uma chance para a aluna e pede para ela mesmo pegar a serra - incrível como não há exatamente um equipamento especializado pra esse tipo de amputação, usa-se serra mesmo - e amputar o que sobrava da mão da criança. Aliás, pouco sobrava da mão. Foi-se um pedaço do antebraço, também.

Quando a menina acordou da anestesia, ficou desesperada com a falta da mão, com aquela pontinha enfaixada do braço. A quase-médica observando a agonia da garota. Agonia, agonia. E o sistema público não cobriria um tratamento psicológico. Ela esperaria uns dias, e voltaria pra casa. Mesmo assim, a menina foi atendida com toda a atenção e cuidado, porque a estudante que a tratara beirava a perfeição..

Quase perfeita, mas ainda assim muito assustada com o que viu. Nunca tinha participado de nada assim antes. Viu a menina perder uma parte do corpo, uma parte da vida, uma parte da auto-estima. Passou no gabinete de remédios, voltou para a sala de cirurgia, guardou suas coisas e foi embora. O turno acabou.

Chegou em casa. Tinha pego uns comprimidos fortes no hospital, estavam na bolsa. Não queria continuar a se sentir perturbada. Encheu a banheira. Abriu uma garrafa de champagne que estava guardada há tempos para alguma ocasião especial, tirou uma tulipa do armário e a encheu.

Foi para a banheira. Tomou os comprimidos todos de uma vez. Estava zonza. Tirou a serra que roubou da sala de cirurgia. Lembrava do rosto da menina, do resto da mão que foi jogada fora como lixo hospitalar, da agonia. Não sentia nada mais no corpo. Zonza. Pegou a serra e cortou a mão esquerda. Com força. Não sentia muito, mas ainda doía. Mesmo se não sentisse nada, estava em choque e tudo parecia absurdo. Conseguiu cortar toda a mão.

Cada vez mais zonza, largou a serra da mão direita, pegou a tulipa cheia de champagne e bebeu um gole. Pensa “Não é bom misturar remédios com álcool”, e percebe que isso não faria diferença nenhuma agora. Ri do pensamento bobo. A água da banheira começava a ficar vermelha. Ela, cada vez mais zonza e porfim derrubou o champagne no chão. A hidromassagem continuava a espalhar o vermelho na água. Não sentiu mais nada até apagar de vez.

E beirava à perfeição.



(com um agradecimento à Dra. Hanna Machado, que me passou umas informaçõezinhas médicas pro texto)

Sem cinismo

Uma criança brinca. Corre como se não tivesse limites, desbrava a sala como se fosse um campo de guerra e cai no chão como quem cai numa emb...