29.12.07

Olho mágico

Três batidas seguidas na porta. Ela corre uns passinhos e anda normalmente o resto do caminho. Abre a porta sem olhar o olho mágico antes, primeiro por já saber quem é, segundo porque ele sempre dançava para o olho mágico. Sempre. Ela, lógico, achava constrangedor.
- Boa tarde, Eridí!

A Eridiane ia reclamar que odiava que a chamassem de Eridí, mas não teve forças. Comparada à roupa do namorado, a dança pro olho mágico não chegava ao “C” de uma escala alfabética de constrangimento. A roupa seria, no mínimo, um sólido e constrangedor “T”. Era situação recorrente no casal um se sentir constrangido por algum comportamento do outro.
- Que é isso, Ricardo?!
- Pra festa, ué.
- A festa é daqui a cinco horas!
- Mas eu ia ter de vir pra cá, e daqui pra festa, e não ia ficar trazendo roupa pra trocar e depois destrocar, muito trabalho à toa.

Ele passa por ela e caminha em direção ao sofá. Ela vira para o lado dele e cruza os braços.
- Aí você resolveu vir vestido de palhaço em plena luz do dia?
Ele chega bem perto do sofá, mas não senta. Os braços cruzados eram um sinal claro de que ele não devia sentar.

(Um casal costuma transar da mesma forma que discute: a briga é barulhenta, imprópria e enérgica? Assim também é a transa. Os dois discutem sentados de perna cruzada, cada um em um sofá diferente, de forma quase imperceptível? Tal briga, tal foda.)

- Tem diferença de palhaço noturno pra diurno, Eridí?
- Eridiane!
- Tem diferença?
- O que você vai ficar fazendo o resto do dia aqui em casa vestido de palhaço?
- Mas foi você que pediu pra eu vir cedo pra te dar opinião no que vestir.
- E você acha que eu vou aceitar palpite de palhaço?

Ricardo faz bico e senta no sofá, só pra fazer birra. Birrar pode fazer sentado, porque é mais ou menos equivalente à uma preliminar, que também pode-se fazer relativamente sentado (ah, vá, dá sim). Se voltassem a discutir, ele levantaria. Os homens e suas inúmeras formas de demonstrar a quantidade de testosterona no sangue...

Ela fica quieta, ele também. A cada trinta segundos, ela faz um barulhento “humpf”, pra lembrar que está em silêncio. Ele se rende.
- E você, vai como?
- Eu ia botar um conjuntinho rosa velho, um broche e ia de Molly Ringwald.
- Em qual filme?
- Tem diferença?
- É, não tem mesmo.

Eridiane faz mais um “humpf” e resmunga:
- Sabe, agora que você tá todo fantasiado eu vou ter de trocar de fantasia pra alguma coisa mais chamativa, pra você não passar por idiota. Ou arranjar uma desculpa pra eu não ir fantasiada e você ser o assunto da festa, só pra aprender.
- E a Molly Ringwald?
- Você aniquilou qualquer possibilidade de Molly Ringwald.

“Que pena”, pensa Ricardo, “sempre tive tesão na Molly Ringwald”. O pensamento é interrompido pelo telefone, que Eridiane atende depois de um toque e meio.
- Alô? Ah, não?
- Quem é? - Ricardo sussura alto.

Eridiane faz um gesto com a mão que é para ele esperar.
- Morreu? Nossa, sinto muito!
Ricaro volta a sussurar, ainda mais alto que da outra vez.
- Quem é, diz!
O gesto com a mão é outro, mais agressivo.
- Então tá. Sinto muito, viu? Qualquer coisa liga. - e desligou.
- Quem era?
- Custava esperar? - ela senta ao lado dele - Era o Renatinho. A mãe da Mildes morreu agora no começo da tarde, a festa foi pro saco.
- Ah, merda. E eu cancelei tanta coisa pra ter a noite livre...
- Quer sair?
- Pra outro lugar, Eridí? Vestido de palhaço?
- Eridiane. E pensando bem, melhor não.

Trinta segundos e um humpf depois, Ricardo quebra o silêncio.
- Ei, já que a gente tá com a noite vazia, que tal...?
- Ricardo!
- Só uma sugestão, não quer aceitar não aceita.
- Eu não disse que não ia aceitar... Pode ser, então.
- Você me chama de Bozo?
- Você me chama de Molly?

Se as discussões eram constrangedoras, o sexo era mais ainda.

10.12.07

Legendas e Gerações

Morava com os avós e um primo, a empregada vinha em alguns dias da semana. Os avós não teriam a companhia dos netos se não fosse a faculdade estadual que se instalara na cidade. Talvez preferissem que a faculdade nunca tivesse sido aberta, ou que falisse de uma hora para outra. Aceitaram os netos de favor, porque os filhos nunca puderam fazer estudar e cobravam isso dos pais. Era como uma compensação pelo passado.

O fato é que o encontro de gerações era um péssimo encontro. Era um encontro daqueles que você descobre que a outra pessoa guarda todas as unhas que já cortou na vida num saco de lixo preto dentro do guarda-roupa, e ainda come algumas de vez em quando e que o gosto é de frango. Os avós discordavam dos netos quanto ao horário de dormir, de acordar e de ficar nessa maldita externet.

Quando assistiam TV juntos, ele e a avó, ele ficava irritado só pela presença dela. Claro que ela perguntar o final de cada legenda que fosse mais comprida também ajudava a irritar. Ele passou a ignorar a avó ao máximo que podia, porque assim os momentos em que não a ignorava - pensava ele - não seriam tão irritantes. Mas a avó se ofendeu, e falou que o neto só ficaria contente quando ela morresse. “Drama”, ele pensou.

Alguns dias depois, saindo da sala de televisão, ele encontra o cadáver da avó, balançando e pendurado por uma corda amarrada no pescoço e numa viga da cozinha. “Ai, meu Deus”, ele pensou. Mas não “Ai, meu Deus” de “Ai, meu Deus, o que foi que eu fiz?”, e sim um “Ai, meu Deus” na entonação de “Ai, meu Deus, o gato fez cocô no vaso de plantas mais uma vez”.

Chamou o avô e o primo, que correram desesperados para a cozinha. Ele sentou numa cadeira num canto e ficou assistindo a avó ser retirada da corda, deitada no chão e depois levada embora.

O primo começou a ficar mais tempo em casa, abalado com a morte da avó. Não necessariamente a morte da avó, mas a morte em si. Nunca tinha visto a morte tão de perto, tão apavorante, tão degolada e tão pendurada numa viga da cozinha. Nas poucas vezes que saía de casa, bebia como se fosse morrer no dia seguinte. Um dia, o palpite estava certo: voltou para casa, levou uma bronca do avô por fazer muito barulho, se revoltou e não foi para a cama, foi para a viga.

Saindo da sala de TV, o primo do primo viu o primo pendurado. Chamou o avô e assistiu a cena se repetindo.

O avô sentiu remorso, mas não pela morte do neto, mas por ser a segunda vez que alguém se suicidava naquela casa sem que ele tivesse percebido o mínimo sinal de transtorno. As coisas aconteciam paralelas a ele, não com ele envolvido na história. Isso era errado, era errado, não podia ser certo, não podia. Só podia seguir o mesmo rumo.

Ele saiu da sala de TV e enxergou o avô pendurado e nem chegou perto. Foi direto ao telefone chamar alguém para tirar o corpo do avô dali. Nem compareceu ao enterro.

De início, aproveitou que tinha a casa só para si. Assistia TV em paz, dormia em paz, estudava em paz, vivia em paz. Mas ninguém pedia qual era a legenda, ninguém chegava bêbado e barulhento, ninguém o ofendia mais. A casa era pacífica e monótona demais.

Ele destrancou a porta da frente e foi para a cozinha. Jogou a corda na viga, que já estava marcada pelas outras cordas, e a amarrou lá. Enrolou a corda no pescoço e foi encontrar o resto da família.

Na manhã seguinte, a empregada abriu a porta, caminhou até a cozinha, viu o moço pendurado, e virou o rosto. Então viu a pia cheia de louça e deu meia volta. Saiu para comprar corda.

Eufemismos

Eufemismos são lindos. A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fa...