17.9.07

A Unção Extrema

E vamos todos nos fingir de mortos por alguns minutos
mas só por alguns minutos
porque a morte de verdade pode chegar no meio do faz-de-conta.


Pôncio era solteiro, apesar da idade (velho, mas nem tanto, perto dos seus sessenta anos). Nunca casou, mas chegou a ter relacionamentos mais longos, com mulheres sempre covardes o suficiente pra nunca se aproximar tanto assim. Todos os seus casos amorosos eram de uma noite só, mesmo se durassem três anos de uma-noite-sós. No resumo de tudo, era só o sexo e apenas isso.

Teve o que muita gente chamaria de uma vida ideal. Era relativamente solitário: não tinha amigos, tinha companheiros de bebedeira ou de discussões - o que, pra muita gente, é elemento chave para uma vida ideal. Sucesso profissional, sucesso sexual, sucesso financeiro, por Deus, até sucesso alimentar, chegou perto dos sessenta comendo gordura e fumando todos os dias. A parte chata era não ter quem o visitasse agora, nos seus últimos momentos.

Duas enfermeiras que se revezavam, constantemente assediadas, mas com humor e classe, e um bom salário que evitava que pedissem demissão. Mesmo assim, não teriam muito emprego por muito tempo. As forças se perdiam aos poucos, e os poucos já eram muitos à essa altura, e sem avisar, chamaram um padre para a fazer a extrema-unção. Ele chega perto das onze da noite.
- Boa noite. Você deve ser o Pôncio.

Pôncio olha para a enfermeira com cara feia. Ela se mete:
- Chamei o frei Antônio pra te visitar. Nessa hora, talvez você queira ter um papinho com alguém religioso...
- Mas eu não sou religioso! - disse Pôncio.
- De qualquer forma, vou deixar vocês à sós. - a enfermeira da noite mal tinha fechado a boca do que falou e já estava fora do quarto.

O padre senta num canto da cama.
- Posso, meu filho?
- Não. E eu tenho idade pra ser seu pai.
- Formalidades. Até que você está bem, pra quem está tão debilitado.
- Consigo falar e só. Sabe o que eu comi nos últimos três meses? Sopa. E eu odeio sopa.
- A provação nos faz pessoas melhores, Pôncio.
- Não acredito nisso.
- Deus não dá ponto sem nó.
- Devia me matar de vez ao invés de ficar costurando.

Pôncio não era ateu, mas nunca foi em igreja sem ser por turismo. Mesmo pequeno, a família não era religiosa e isso o livrou da culpa que quase todo cristão sente depois do alívio de abandonar a igreja.
- Bom, não sabemos dos planos de Deus.- disse o padre - E mesmo assim, a morte vai chegar alguma hora. E, vamos ser honestos, a sua hora parece próxima.
- Quanta sinceridade.
- Bem, mentir é pecado, você sabe. E a única certeza que temos na vida é a morte.
- E os impostos. E ereções involuntárias, no seu caso.

O frei olha para baixo, assustado, mas logo relaxa a expressão.
- É o forro da batina que enrosca na cueca, às vezes, e causa esse volume. Desculpe.
- Será que foi isso no filme da Pequena Sereia?
- Ahn?
- Nada.
- Mas como eu dizia, a única certeza da vida é a morte. E quando a morte está perto, precisamos nos arrepender dos nossos pecados.
- Não concordo.
- Com o quê?
- Que a única certeza da vida seja a morte.
- Como? Todos nós vamos morrer um dia.
- Isso mesmo. Um dia.
- Explique melhor.

Pôncio se arruma na cama.
- Suponhamos que uma pessoa jovem esteja completamente isolada...
- Sim...
- E essa pessoa está completamente saudável, digamos que acabou de fazer um check-up, está bem alimentada, e não há risco nenhum de ser atingida por uma bala ou coisa parecida. O oxigênio é abundante.
- Prossiga.
- Essa pessoa pode ter certeza de que não vai morrer nos próximos minutos, certo?
- Podemos dizer que sim. Mas vai morrer, um dia.
- Sim, mas não agora. Saber que vai morrer eventualmente não é certeza nenhuma.

O padre não tem tempo de responder.
- Você não tem certeza nenhuma sobre o dia, ou sobre as circunstâncias, certo?
- Realmente.
- Então que tipo de certeza é essa?
- Bem...
- É uma certeza incerta. Uma incerteza. Que você proclamou como verdade. Mais ainda, que você proclamou como a única certeza possível.
- Não chega a esse ponto...
- Chega sim, padre. O senhor mentiu.
- Não cheguei a mentir, não.
- Dizer uma incerteza como certeza é mentir. E mentir é pecado, não é?
- Bem...
- É ou não é?
- Devo dizer que sim.
- Então você também deve se arrepender antes que morra. Posso ficar sozinho, agora? Muito obrigado pela visita.

Sem muito o que dizer, o padre saiu, confuso. Pôncio só não morreu aquela noite porque agora tinha uma história pra contar pra enfermeira do dia.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...