11.3.08

O Abismo

Éramos o abismo, nos tornamos o abismo com o tempo. Nem sempre fomos, éramos unidos. Olho no olho, frente a frente até que as primeiras frentes frias vieram e nos encolhemos cada um ao próprio canto. Mas ainda próximos. Cantávamos melodias diferentes, mas cantávamos juntos, e ainda nos encarávamos.

Presenciávamos o afastamento, via-mo-lo aparecer lentamente como o crescimento de um filho, mas era natural. Nenhuma aproximação é eterna, sabíamos. E quem tem motivo pra conversar a vida toda? O assunto acaba, e dá lugar a coisas melhores como a frieza íntima de quem já se conhece mais do que deveria.

Menos próximos, mas lado a lado. Talvez fosse a educação, cúmplices não são tão educados quanto éramos. Nos desculpávamos demais, nos feríamos de menos. É o perdão que passa a doer quando não conversamos.

Mas a distância crescia devagar como supúnhamos que deveria ser, éramos distantes como deuses um ao outro, como distantes supúnhamos que Deus fosse. Éramos a névoa um do outro, a expectativa conquistada e colocada ao lado, a lembrança do que desejávamos ser.

Não que tivéssemos o que foi desejo, talvez isso machucasse a vontade de ainda abraçar, ainda ver de perto e ainda sentir carinho. A distância crescia e diminuímos ante a distância.

O buraco que nos separava era mesmo culpa nossa, e sabíamos, e deixamos crescer e virou o abismo e éramos o abismo, nos tornamos o abismo. Déssemos um passo adiante, cairíamos nele e não nos braços um do outro.

Não era arriscado, riscos são probabilidades e não havia sequer probabilidade de reunião. Felizmente a distância sabe que não sentimos o que não vemos, e de repente não víamos mais. Éramos lembrança apenas, e não havia mais nem névoa distante de visão real. Éramos pólos opostos. Negativo e negativo.

O mundo é circular, e de tanto nos afastarmos eventualmente voltamos a topar, costas com costas, e não nos reconhecemos. O abismo se fechou em círculo e subitamente éramos nada, nem lembrança.

A frieza imperou e mastigou a conversa. “Guarda-te do homem que não fala e do cão que não ladra”, o popular é tão inutilmente sábio para essas coisas. Mas conversávamos eventualmente, não conversávamos? Talvez não com sinceridade. Talvez por medo, talvez por sabermos que não teríamos assunto para conversar alguma coisa útil. Talvez se gritássemos “Ladra!”, seria possível escutar.

Mas não responder. O abismo emudece qualquer resposta.

8 comentários:

  1. Sempre e mais e mais pasma com seu talento.
    Não sou dada a exageros - é pois a mais absoluta verdade: queria ter escrito esse conto/encanto, FLÁVIO!

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  2. Texto bem construído e interessante. Sabe prender o leitor. Parabéns.

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  3. Rodrigo8:38 PM

    Perfeito - Parabens

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  4. O abismo assusta. O abismo não é vazio... é sentimento que dói!

    Gostei do texto!!!!

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  5. Aplausos! De pé!

    Muito bom! Parabéns!

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  6. Às vezes me vejo abismo de mim mesmo...

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  7. Flávio, você é cabuloso!

    Parabéns mil vezes!

    Saravá!

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  8. Uau, ficou lindo.

    Parabéns, Flávio.

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