22.6.08

Ponto

Não é minha intenção me analisar tão gratuitamente e tão cruelmente, mas às vezes eu me sinto como se tudo que eu pensasse passasse por uma peneira de pensamentos que me dita não o que é próprio e o que não é próprio, mas se o que eu tô pensando é mesmo o que eu tô pensando ou se eu tô fugindo do que realmente quero pensar ou se é só mais uma forma de sair da minha vida pra poder fugir pra minha cabeça. Na cabeça é mais seguro, pensar é mais seguro, viver não é seguro. Viver é pisar em terra firme, é machucar os joelhos, é pisar em caquinhos de vidro que só pinicam na hora mas deixam aqueles cortezinhos pequenos que inflamam e doem no conjunto, o baile todo, os caquinhos de vidro, as inflamaçõezinhas, os dois pés, os joelhos que doem de tentar pisar com força demais onde não se conhece o terreno, tudo.

A vida - e eu odeio frases que começam com 'A vida', é generalista e pretenso demais - a vida é um terreno que não se conhece. E você anda ou olhando pro chão pra garantir que não cai, ou pro que te cerca pra apreciar a visão, mas os dois ao mesmo tempo não tem como. Ou é a paisagem ou é o chão.

E nenhum deles deve ser realmente produtivo de olhar. Olha pro chão o tempo todo, e a paisagem te joga um cachorro na frente que te morde e te deixa caído. Olha pra paisagem, olha o céu bonito, e o caminho é tão sorrateiro que você tropeça e fica preso num bueiro até alguém ter a piedade de te deixar sair dali (se você quiser sair dali, digo. bueiros são úmidos, confortáveis, um refúgio e tanto, não são? E tão escondidinhos. Ninguém te incomoda dentro de um bueiro, tá todo mundo preocupado em não cair em um ou em não ser visto no próprio.)

Aí eu tento resolver tudo por andar um passo com os olhos na paisagem, um passo com o olho no chão, mas os passos se confundem e eu acabo olhando pra minha cabeça bagunçada e pensando se vão me ver caminhando torto ou se vão rir de mim por estar tentando entender a vida num nível tão profundo quanto o de andar na rua, quanto a se andar é mais seguro olhando pra estrada ou pra paisagem, e fazendo metaforazinha vagabunda, olha só a profundidade. Adianta metaforazinha vagabunda? Porque nunca vai ser seguro, nunca vai dar pra olhar pra lugar nenhum, nunca, nós andamos às cegas. "Nós", olha a minha pretensão generalista de novo, EU ando às cegas, EU ando pensando no que vão pensar de mim e acabo nem andando direito.

(Outra coisa que eu odeio, estou odiando muitas coisas hoje, eu odeio prolongar metáforas. Jesus Cristo era um barbudinho bom de marketing que se deixou morrer porque queria viver pra sempre nos calendários de papel metalizado ao lado dos fogões das donas de casa do mundo inteiro. Jesus não prolongava metáforas. Jesus enfiava um significado qualquer, desenvolvia uns três personagens e ficava faceiro. O povo trepava em árvore pra ver Jesus falando, e vai ter gente acelerando os olhos e lendo o texto na vertical pra passar mais rápido porque eu não sou tão facilmente conciso e direto, sou cheio de curvas e sem significado nenhum. Ninguém vai trepar em árvores pra me ver porque minhas metáforas nem são metáforas direito, só uns reflexos da psicologia barata que a gente aprende lendo revistinha e vendo programete pretensioso de TV. Tudo bem, não trepem em árvores nem botem foto minha em calendário de lado de fogão. Não ligo. Eu odeio quem estende demais suas metáforas e odeio mais ainda que eu seja assim.)

Não é tudo de mentirinha, essas porras todas da física quântica? Odeio terem inventado mais uma física. FÍSICA, gente, FÍSICA, mundo físico, planeta Terra, aqui, no sólido, no A+B, e inventam uma física que é abstrata. "Olhem, fulanos, tudo é abstrato, aquelas fórmulas que vocês não lembraram no vestibular não servem pra muita coisa, porque no final tudo é metafísica, tudo é quântico e vocês são todos gatinhos mortos/vivos dentro/fora de uma caixa/não caixa".

E isso só alimenta a tendência de ficar analisando e revendo e repensando tudo na cabeça, e não no corpo, já que tudo é imaginação mesmo e na caixola tudo serve, e no final a gente nem caminha, só cuida pra não cair em buraco sendo que tá num buracão faz tempo e não percebe. Buracão/não buracão, digo.

E eu fico nessas de me analisar demais.

Mas como eu vou me ver se eu não me analisar, me diga? Se me analisando eu já não me vejo? Se pagando alguém toda semana pra contar tudo o que me acontece de desinteressante e me analisar (mais uma pessoa me analisando, é tudo que o Universo precisa!), se assim mesmo eu minto, e desminto e filtro tudo duas vezes antes de deixar sair da minha boca? Porque se eu não filtro não sobra nada, só uma intenção de pensamento mal sucedida que não se deixa morrer e fica ali, sendo, pensando, até que eu o analise nos meus filtrinhos de meia tigela.

É capaz de, com bastante tempo ignorando aquela matilha de pensamento, sumir tudo, mas eu gosto dos meus pensamentos, gosto mesmo. A não ser quando eles me fazem ficar acordado sem motivo nenhum e cheio de compromissos no dia seguinte, mas ainda assim, eu sou um trouxa por eles, eu deixo. Sou apegado em pensamento, e com pensamento é o pior tipo de separação, é tipo abandonar filho no frio e a criança batendo na janela e implranto "me deixa entrar de volta, pelo amor de deus, eu não quero morrer no frio, você não vive direito se não me analisar, me deixa entrar, me deixa! eu prometo que vou ser bonzinho", fica tudo ali, querendo ser pensado, e você não quer deixar, é um bangue-bangue, é ou eles ou você - eu, não tem nenhum você nessa história, caralho de mania de projetar em "vocês" imaginários aquilo que eu não quero pensar que eu tenho (e tão claramente tenho. desculpe tanta delonga, imagine eu com esses pensamentos todos me querendo fazer fechar a cortina e eu querendo abrir, e deixar tudo aberto e exposto, mas a cortina tem tendência a fechar e o esforço é tanto, e uma hora eu não faço uma coisa nem outra, fico ali como um peso de cortina porque tô exausto demais pra continuar o processo, e o processo se força a acontecer e é como se nunca acabasse essa tortura).
Retornando ao ponto, não quero estender metáfora, nem metáfora tem aqui, sei lá o que eu tô estendendo, mas alguma coisa eu estendo que me faz perder o ponto, e nem tem ponto, qual o ponto de se escrever uma carta? um texto? não tem ponto, é tudo egocentrismo de querer ser lido e visto pelo endereçado.

A vida é feito carta, mesmo - e foda-se o generalismo e a filosofia de banca de revista - não tem ponto, é um querer ser visto o tempo todo quando nem você - não você, eu, não tem você aqui, que droga - quando nem eu me enxergo! Não tem ponto. E aí cada um fica num bueiro prolongando suas metáforas e pensando se está sendo útil ou não. Não tem ponto, não tem ser útil, não tem ser interessante. Tem inflamaçõezinhas no pé que doem de vez em quando, mas nada tão terrível, tem pensamentos que irritam e voltam e persistem e machucam, mas nada que não se enfrente, tem vontade de ser aprovado por todo mundo (e todo mundo, todo mundo, todo mundo mesmo, quem gosta de vermelho e quem gosta de azul, e aí eu acabo como uma mancha roxa que nem se agrada e sendo só um hematoma), mas nada tão péssimo assim.

O problema, acho, é não ter ponto. Nem de partida, nem final, nada, nenhum ponto, só um círculo chato de rotinas cansativas. Ponto.

3.6.08

Pintura

Adriane tinha seus raros momentos de lucidez quando resolvia gastar um grande pedaço de seu salário (grande demais pra ser gasto nisso) em duas telas grandes de pintura, tintas e pincel. Metódica, assim que vestia o feioso macacão jeans que podia sujar o quanto quisesse, ia de sua placidez habitual a uma fúria imensa.

Já imensamente furiosa, abria as mãos e batia com força em cada um dos tubinhos de tinta. A tinta deveria apanhar. Não adiantaria nada que ela se entregasse ao doloroso processo de arrastar suas emoções para fora do corpo e para dentro de uma tela, de transformar suas aflições em imagem, se as cores que representariam tudo isso não tivessem passado por dor semelhante.

(Como um ator que nunca sofreu e não carrega no rosto a angústia necessária para o personagem - para qualquer personagem, não há personagem sem angústia. Jamais defenderia que uma pessoa se torna melhor por ter sofrido, aliás, é melhor pessoa quem não se dá o trabalho de sofrer, mas um ator que não sofreu não pode ser crível. O personagem tem angústia, cadê a angústia no teu rosto, ator?)

E assim eram esmagadas as tintas, que resignavam-se e se tornavam migalhas palpáveis do que Adriane sentia. Era a sua glória fazer a tinta sofrer.

Na primeira tela, Adriane deixava-se fluir. Atirava tudo que estivesse dentro de si para dentro da tela. Passava o pincel, passava a espátula, passava a unha fundo na tela, deixava marca. Escrevia pequenas frases, o que lhe viesse à mente, com a maior agressividade possível. "ESTOU COM FRIO". "ODEIO MEU PAI". "CHUPARIA O PRIMEIRO QUE ME CANTASSE".

Aí pintava por cima de tudo, mas mesmo com todo o seu esforço as frases persistiam lá, soberanas à segunda demão, rindo da tentativa débil de serem encobertas.

O ódio de Adriane culminava em algumas lágrimas dolorosas, daquelas que não querem ser lágrimas e sim pontapés, e ela desabraçava a tela com força, e quebrava a estrutura, e gritava Boceta! e jogava num canto pra depois jogar no lixo (num daqueles sacos plásticos pretos, pra ninguém ver que ali estava um cadáver de pintura).

Como um dia de sol é subitamente interrompido por uma tempestade, a fúria de Adriane era (cabrum!) interrompida pela volta da placidez de lei.

Os tubos de tinta tão maltratados e ainda pela metade voltavam ao trabalho quando Adriane (a plácida, completamente diferente da lúcida, a furiosa) carinhosamente os espremia para pintar a outra tela.

Primeiro um azul indefinido no fundo deixando um buraco branco no meio da tela, aí uns pequenos esboços de verde, aí uma flor, aí outra, e ficava pintado um buquê de flores meio esquisitas, com cara de quem fez esforço demais pra ficar bonito, e a assinatura no canto inferior direito. "Adri" em letra cursiva e uns risquinhos por cima.

Um passo para trás e Adriane admirava o buquê pintado e pensava "Ah, minha arte!". O segundo quadro ela não jogava fora, esperava secar, cuidadosa, e pendurava na parede da sala junto com os outros quadros de flores.

Vinha uma visita de vez em quando e elogiava.

A fúria, jogada no lixo.

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