16.9.08

Concreto

O mundo é concreto e tudo que é feito de mundo vem da mesma fôrma. Tudo é rigido, tudo é intransponível. Tudo pode machucar. O humano, coitado, nasce macio. Sem pretensão. Cai de um tobogã celestial pra dentro de um mundo que o ricocheteia de um lado para o outro, que abusa de sua maciez, que é concreto demais para sua maciez.
E cai várias vezes. Quando em queda-livre, torce pra uma hora chegar no chão. Melhor que o chão chegue o mais cedo possível. Dói cair, mas dói mais ainda cair depois que a gravidade nos acelera em direção ao espatifo.

Melhor do que se revestir de uma casca que tenta imitar o ambiente, endurecer as próprias extremidades e tratar tudo o que está no cerne como delicado demais para ser exposto. Porque uma hora o chão chega. Uma hora a queda acaba, precisa acabar, e caímos feito melancia. A casca só serve pra esparramar o que é sensível, para dilacerar em pedacinhos irreconhecíveis e espalhar pelo chão o que um dia foi macio e sobrevivia.

Iludimo-nos com a idéia de que o chão não chega. Chega. Chega pra todo mundo e quando acabamos de cair em um chão qualquer, começa outra queda livre em direção a outro lugar ainda mais irreconhecível. Sorte se caímos em grupo, todos de uma vez, e nos confortamos na maciez alheia - azar se nos machucamos na rigidez e pretensão das cascas que acreditamos nos proteger.

O mundo é concreto mas é nossa casa - mesmo que temporária. Casas temporárias revelam o nosso mais profundo desconforto com onde estamos nos domínios que não precisam de casa, com nosso pensamento, com a cabeça que escolhemos pra habitar. Caímos no concreto e nos sentimos em casa. Estamos em queda-livre e nos sentimos em casa. Aí criamos uma casca em torno de nós mesmos e subitamente não estamos mais em casa. Estamos numa concha, transformados em caramujos que não tem forma e nem mobilidade decente. Enchemos de gosma o trajeto e demoramos a aceitar o que está por vir. E quebramos completamente na próxima queda.

O mundo é concreto e eu fujo da sua realidade rígida. O mundo é concreto e eu prefiro o imaginar macio. Que o próximo abraço do chão não vai doer - ou nem ocorrer. Viro uma sátira de mim mesmo. Um objeto em movimento que fecha os olhos e crê honestamente que não se move, com toda a beleza de sua ingenuidade. Com toda a vicissitude de sua inocência pisada tantas vezes. Inocência pisada não morre; resiste, se disfarça de força ou de sabedoria. Tenta criar mil proteções mas a única coisa que pode consolar de verdade é a certeza da queda. A certeza de que a dificuldade aumenta e carrega um prazer gigantesco no processo. Basta se render ao processo. E existe não se render? Rendo-me. E caio novamente.

4 comentários:

  1. Bonito, Flávio.
    O material de que a crosta protetora é feita, daria um outro texto.
    ;*

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  2. Um dos seus melhores!

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  3. Victor11:24 PM

    Flávio, fazia tempo que não passava por aqui. Não sei se te lembras de mim, o Vico, do Garotas que Dizem Ni. Mas quero dizer que... nossa, estás de parabéns. Num nível tão alto, e com uma complexidade tão intensa (tanto neste quanto na poesia acima)... parabéns. Fico feliz. Continua assim! victor.porto@yahoo.com/victorporto@msn.com

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  4. Lindo, Flávio. Mas ao ler só lembrava da frase do barbudinho: "tudo que é sólido se desmancha no ar", nada a ver.

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