26.11.08

Homens de Bem

Homem de bem. 45 anos. Um homem que trabalha todos os dias, que tem uma fileira de camisas brancas no guarda-roupa, quase todas amareladas no colarinho. Camisas que chegam amassadas e suadas todos os dias, às seis e quarenta e cinco, se o ônibus passa no horário certo. Os limites da cidade castram qualquer fuga: Homem de bem, 45 anos, pai de família.

Trinta e dois anos antes,

Luiz Fernando, 13 anos, mas pode chamar de Papagaio. Empina pipa como ninguém na rua. Brinca de bombeiro e é apaixonado pela Ana Cláudia, filha do dono da padaria, gordinha, linda gordinha.

Antônio, 13 anos, pode chamar de Tonho. Na escola, ficaquieto, no canto da sala. Lhe falta um dente, mas ele não sabe qual - pelo menos sabe que sua boca não era bonita de ficar aberta. Desenha carros batidos, acidentes de carro, pedaços de carros amassados em qualquer pedaço de papel que tenha por perto. É apaixonado pela Luísa, que nem pensa em menstruar ainda, a última da turma, e nem suspeita de ser vítima de paixão alheia.

Nando, 13 anos, não chama de Fernando que ele não gosta. Odeia o pai. Joga futebol muito bem, mas já pensa em fazer contabilidade, pra ganhar dinheiro logo e sair de casa. Lê pouco, mas compra revistas toda semana, sabe que sempre tem alguma foto de mulher pelada em algum lugar, combustível para a imaginação e para horas a fio no banheiro.

Pedro, 13 anos. Ninguém o chama pra nada. Usa mangas compridas o tempo todo, tem vergonha dos braços. E das pernas, e do rosto. Não usa roupas pra cobrir o rosto porque não existe disso por aqui. Queria ter nascido árabe, pra se enfiar num turbante. É pobre e sente culpa por não trabalhar ainda pra ajudar a família. É apaixonado por alguma menina feia, qualquer menina feia, qualquer uma que seja feia o suficiente pra um dia casar com ele, pra um dia transar com ele sem cobrar os quinze reais que a mais feia do puteiro lhe cobra.

Todos eles, todos tão diferentes, tão peculiares, tão adolescentes, tão treze anos de idade.

Todos se tornaram Homem de Bem, 45 anos, dono de várias camisas brancas.

Todos se esqueceram de se tornar quem deviam ser. Todos viraram adultos por engano, engolidos pela mesma ambição.

Estranham os sonhos que tinham antes. Distraem assistindo televisão com a esposa, que já ameaçou separar. Indiferente separar ou não, qualquer coisa serve. Não existe crise de meia idade apenas pela meia idade, existe crise de identidade.

Impossível olhar no espelho e enxegar Homem de Bem. Papagaio, Nando, Tonho, Pedro, é assim que eles se vêem. Distorcidos pela evolução que pensam ter sofrido. Pela adultice que lhes engrossou a voz e os fez de espantalhos, plantados em algum jardim, exemplos de moral, exemplos de "o melhor que eu pude ser".

Manequins de Homens de Bem, 45 anos. A voz grossa disfarça a angústia. Homens de Bem, nada mais do que isso.

Dezenove anos depois,

Luiz Fernando, 64 anos. Pode chamar de Seu Luiz. Se chamam de senhor, "Senhor tá no céu". Só não pode chamar de você, que aí já é desrespeito "com alguém da minha idade".Divorciou-se de uma magrela pra casar com uma mulher gordinha muitos anos mais nova: Maria Cláudia, neta do dono da padaria.

Antônio, 64 anos, não pode mais ser chamado. Morreu aos 49, num acidente de carro. Deixou mulher e filha, a mulher frustrada pela falta de seguro de vida, a filha frustrada por ter de aturar a mãe sozinha.

Nando, 64 anos, mas só é chamado assim pela esposa. Faz academia desde os sessenta e está na melhor forma de sua vida. Pede pra chamarem de Fernandão, mas ninguém leva a sério. Peida em público de vez em quando, não consegue malhar o esfíncter.

Pedro, 64 anos, sobrevivente de quatro casamentos fracassados (quatro divórcios bem sucedidos?). Agora é vereador, passou a se meter em política por falta de coisa melhor pra fazer, eleito por falta de candidatos melhores. Seu sobrenome virou dígitos e propaganda. Ternos lhe caem mal, mas escondem o que ainda pensa que deve ser escondido.

Todos odeiam e perdoam a si mesmos em maior ou menor grau. O problema é uniformizar as intersecções. Todos concordam que a pior fase de suas vidas foi quando eram homens de bem, cidadãos responsáveis. Nem sempre é bom ser homem de bem, mas quem escapa?

Sem cinismo

Uma criança brinca. Corre como se não tivesse limites, desbrava a sala como se fosse um campo de guerra e cai no chão como quem cai numa emb...