26.3.08

Motivação

Magda admirava a avó como só a avó poderia ser admirada. Negra, alta, imponente e doce, muito doce, casou com um jovem empresário quando moça e, hoje viúva, passa os dias conversando com a neta - e retribuindo a admiração: adorava ver que sua paixão resultou, tantos anos depois, na criança que escutava suas histórias tão atenta.
- Vovó, como a senhora conheceu o vovô?
"Boa história", pensou a avó. Sentou-se ao lado da neta para contar.
- Bem, quando eu vim para a cidade, era muito ingênua, Magda. Eu pensava que seria como era no interior, na cidade onde eu cresci. Você pedia um emprego, ganhava, e se trabalhasse bastante, ficaria rica. Mas não foi assim. Cheguei querendo estudar, querendo tanta coisa, e tudo era tão difícil, Magda, tão difícil... Não fosse a ajuda de uma pessoa, eu ia até acabar dormindo nas ruas.
"Lá vem alguma história heróica", pensou Magda, "a vovó é admirável", e pediu:
- E essa pessoa era o vovô?
- Não, mas me levou a conhecer o seu avô. - fez uma pose, como se visse as cenas novamente, assim como foram, mas cobertas em um tom branco esvoaçado que confere solenidade aos flashbacks - Era uma sexta-feira, eu tinha pedido emprego aquela manhã toda e, como no resto da semana, não tive sucesso. Parei para comer num boteco e um homem se aproximou.
- E esse homem era o vovô?
- Calma, Magda. - Voltou à pose de flashback - Se chamava Antenor, era velho, me pediu se eu estava triste, e eu confirmei e falei o porquê, e ele me disse que era palestrante motivacional e que palestraria em um colégio próximo dali aquela noite. Falou que para mim a palestra seria de graça e que seria muito útil para o meu futuro.
- E a senhora foi?
- Hesitante, mas fui. Aquela palestra mudou a minha vida.
- Lá a senhora conheceu o vovô?
- Ainda não. Acontece que esse Antenor era procuradíssimo. Um gênio da motivação, diziam. Falou por alguns minutos, depois levou toda a platéia para fora, onde uma árvore estava cercada por arbustos e mais arbustos, e disse "Aquela árvore representa o sucesso, tentem chegar ao sucesso" e todos pulamos para dentro dos arbustos, e tentávamos tocar a árvore e nenhum de nós conseguiu. Antenor nos mandou voltar e disse "O que mudaria em suas vidas tocar essa árvore? Essa é a minha concepção de sucesso. Cada um de vocês precisa saber que o sucesso está em todos os lugares. Ninguém precisaria ter tocado a árvore, e sim aproveitado a oportunidade que tinha na mão e apenas observado a beleza da árvore, ou tentado pegar alguma fruta, ou tirado uma foto. O sucesso está em todos os lugares, ninguém precisa sofrer tentando alcançá-lo. Basta aproveitar-se de tudo o que está à mão." Todos aplaudimos.
- E depois a senhora conseguiu emprego?
- De certa forma, sim. Antenor me chamou em particular depois da palestra e começou a dar em cima de mim. "Basta aproveitar-se de tudo o que está à mão", lembrei-me, e me ofereci para passar a noite com ele em troca de algum dinheiro.
- Vovó! - Magda, repreendendo.
- Era pouco dinheiro, se você visse o quanto ele estava acabado.
- Vovó! - a neta pensando em tapar as orelhas e sair correndo.
- E quando passávamos a noite, ele gritou doído e morreu dentro de mim.
- Oh, vovó! - era informação demais.
- Lembrei-me mais uma vez: "Basta aproveitar-se de tudo o que está à mão", e peguei sua carteira, algumas peças de roupa, enfim, tudo de valor. Chamei uma ambulância e fui embora. No dia seguinte, saí para tentar vender o que tinha pego do Antenor. Foi aí que conheci seu pai.
- Avô.
- Isso, avô. Vendi algumas das coisas para ele, ele se apaixonou por mim, e nos casamos rapidamente.

A avó levantou-se, abriu uma gaveta e dela tirou uma pequena caixa forrada com veludo. Sentou-se novamente e a abriu diante da neta, que levou um susto.
- Vó, isso é um olho!
- Um olho de vidro, Magda, não é de verdade. Era de Antenor, foi do seu avô e agora será seu.
- Vovó, eu não quero isso! - Magda nem olhava para o olho, de tanto nojo. "Como a avó poderia querer dar um olho de presente, credo!"
- É um olho muito bonito. Vamos, Magda, eu até te dou um desconto!

A neta arregalou os olhos e saiu da cozinha lentamente. Melhor conferir se a avó estava tomando os remédios direitinho.

11.3.08

O Abismo

Éramos o abismo, nos tornamos o abismo com o tempo. Nem sempre fomos, éramos unidos. Olho no olho, frente a frente até que as primeiras frentes frias vieram e nos encolhemos cada um ao próprio canto. Mas ainda próximos. Cantávamos melodias diferentes, mas cantávamos juntos, e ainda nos encarávamos.

Presenciávamos o afastamento, via-mo-lo aparecer lentamente como o crescimento de um filho, mas era natural. Nenhuma aproximação é eterna, sabíamos. E quem tem motivo pra conversar a vida toda? O assunto acaba, e dá lugar a coisas melhores como a frieza íntima de quem já se conhece mais do que deveria.

Menos próximos, mas lado a lado. Talvez fosse a educação, cúmplices não são tão educados quanto éramos. Nos desculpávamos demais, nos feríamos de menos. É o perdão que passa a doer quando não conversamos.

Mas a distância crescia devagar como supúnhamos que deveria ser, éramos distantes como deuses um ao outro, como distantes supúnhamos que Deus fosse. Éramos a névoa um do outro, a expectativa conquistada e colocada ao lado, a lembrança do que desejávamos ser.

Não que tivéssemos o que foi desejo, talvez isso machucasse a vontade de ainda abraçar, ainda ver de perto e ainda sentir carinho. A distância crescia e diminuímos ante a distância.

O buraco que nos separava era mesmo culpa nossa, e sabíamos, e deixamos crescer e virou o abismo e éramos o abismo, nos tornamos o abismo. Déssemos um passo adiante, cairíamos nele e não nos braços um do outro.

Não era arriscado, riscos são probabilidades e não havia sequer probabilidade de reunião. Felizmente a distância sabe que não sentimos o que não vemos, e de repente não víamos mais. Éramos lembrança apenas, e não havia mais nem névoa distante de visão real. Éramos pólos opostos. Negativo e negativo.

O mundo é circular, e de tanto nos afastarmos eventualmente voltamos a topar, costas com costas, e não nos reconhecemos. O abismo se fechou em círculo e subitamente éramos nada, nem lembrança.

A frieza imperou e mastigou a conversa. “Guarda-te do homem que não fala e do cão que não ladra”, o popular é tão inutilmente sábio para essas coisas. Mas conversávamos eventualmente, não conversávamos? Talvez não com sinceridade. Talvez por medo, talvez por sabermos que não teríamos assunto para conversar alguma coisa útil. Talvez se gritássemos “Ladra!”, seria possível escutar.

Mas não responder. O abismo emudece qualquer resposta.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...