5.5.08

Mãe, filha, filha da filha

Natal quase sempre é sinônimo de reunião. Famílias se reúnem, parentes brigados se abraçam como se nada tivesse acontecido, empresas fazem festas nas quais quem compete o ano inteiro tem a chance de se presentear.

Lúcia estava indo visitar a mãe, como em todos os natais - exceto o último, em que não foi porque não queria que a mãe, Ivete, descobrisse a barriga de cinco meses de gravidez. A mãe descobriu duas semanas antes do nascimento: Lúcia precisava de dinheiro e o último recurso disponível - o único - era o dinheiro do pai. O pai não tinha dinheiro, e o recurso que não era nem considerável até então - o dinheiro da mãe - foi considerado.

Desavenças de lado, queriam cear as duas, mãe e filha, como de costume. Seriam mãe, filha e filha da filha, mas a filha da filha não cearia, só mamaria às oito, arrotaria algumas vezes e dormiria cedo - e com sorte não acordaria com os gritos vindos da sala de jantar.

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Ivete abriu a porta com o sorriso que as mães usam quando escondem alguma coisa (lógico, mães sempre escondem alguma coisa, só não usam o sorriso tanto assim).
- Lúcia! Saudades! - mas nem abraçou a filha, só pegou a filha da filha no colo enquanto caminhava em direção à sala de estar.
- Oi, mãe. - A parede da casa fora pintada umas quinze vezes desde que saiu de casa, mas Lúcia ainda conseguia ver as ranhuras que fazia por nervosismo. Toda vez que brigava com a mãe, corria para perto da janela da frente da casa e olhava a rua, com vontade de ir e raiva de não poder. Cravava a unha na parede e arrastava. O barulho irritante condizia com seu estado de espírito e as marcas na parede faziam conjunto com as marcas de expressão que causava na mãe.
Lúcia respirou as memórias embora e seguiu a mãe até o sofá.

- Maria tá grande!
- Oito meses e desse tamanho... Se continuar crescendo desse jeito vou ter de construir uma casa maior, só pra ela. Pé direito de um quilômetro.
- Pensando em construir casa, já, Lúcia? Nem me pagou o empréstimo e já quer sair esbanjando?
- Tava brincando, mãe. Eu sei que eu tenho de te pagar, mas sabe como é criança, cada dia uma despesa.
- Devia ter pensado nisso antes de fazer uma. Sabe como é difícil criar uma filha sozinha?
- Lá vem o discurso.
- Você não tem idéia do que eu passei por sua causa, menina.
- E me chamando de menina, porque eu não tenho...
- Não tem responsabilidade. Eu repito porque ainda é verdade. Pulou na cama com o primeiro que apareceu e depois eu tenho de bancar a criança?
- Eu pedi ajuda! E nem foi pra você, foi pro papai.
- Que é um quebrado irresponsável como você. E arrogante, ainda. Queria que eu desse o dinheiro pra que ele te desse.
- Nós já discutimos isso.
- Eu tenho de consertar as calhas, Lúcia.
- Eu tô trabalhando, mãe! Ainda esse ano eu consigo te pagar.
- Talvez se você morasse aqui...
- Claro, pra você me torturar todo dia com essa conversa.
- Eu podia te ajudar com a Maria, você sabe disso. Gasta uma nota em babá à toa.
- Meu emprego é lá.
- Arranja outro cá.
- Não é tão simples.

A filha da filha interrompeu a conversa fazendo pum.

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Horas depois, mãe e filha mãe da filha da filha cercavam o berço.
- Ela é linda.
- Pegou seu nariz, mãe.
- Esse nariz é do seu pai. Não tenho esse calombinho.
Ivete tinha, sim, o calombinho, mas Lúcia não quis teimar.
- Pegou seu nome, também.
- Tentar subornar a própria mãe! Nem achei Maria Ivete bonito. Parece nome de pobre.
- Foi homenagem.
- Homenagem é pra morto, Lúcia. Francamente.

Sinos.
- Meia-noite, quer descer?

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Lúcia entrega um pacote para a mãe, que o abre. Um relógio de parede em forma de pingüim.
- Pra cozinha, mãe. É simples, mas é o que deu pra comprar.
- É lindo. Toma, esse é teu - e entrega um envelope. Lúcia abre.
- As promissórias!
- Eu te fiz assinar, mas esquece. O que é meu é seu. Pode rasgar.
- Você só tá fazendo isso pra me jogar na minha cara.
- Não quero jogar na sua cara! Eu sei que é difícil pra você. Esquece, tá? Não precisa me pagar nada não.
- Agora você quer ser boazinha? Depois de me torturar um ano inteiro com isso você quer dizer "eu te perdôo"?
- Por que você não me contou antes?
- De novo isso, mãe?
- Você estava grávida, grávida! Eu não consigo entender qual a razão nesse planeta que faz uma filha negar uma informação dessas pra própria mãe! Eu teria te ajudado!
- Eu não precisava da sua ajuda!
- Não ainda! Quanto tempo demorou até você vir aqui bater na minha porta?
- Nem devia ter batido!
- Deveria, só que antes. Eu sei como é criar uma criança sozinha, Lúcia! Eu não quero que você passe pelo que eu passei, você sabe como teu pai é um ninguém.
- Você ia fazer o mesmo discurso.
- Ia, mas ia te ajudar desde o começo. Você devia ter confiado em mim.
- Tem coisas que eu preciso fazer sozinha, mãe.
- Mas se você viesse morar comigo ia ser tão mais fácil!
- Eu não preciso da sua ajuda.

Ivete fica quieta por alguns segundos, mas volta a falar, quase gritando.
- Você me contava tudo quando era menor, tudo! Uma vez você pisou num caramujo e me trouxe ele pela mão! Você queria saber se tinha como colar ele de volta na casinha, Lúcia! Você achava que eu podia consertar tudo!
- Mas você não pode. Essa mania sua de querer consertar até o que não tá quebrado.
- Você que tem mania! De quebrar até o que não tem conserto.

Lúcia levanta e caminha até a janela. Lembra de quando deixou a casa da mãe. Sente a mesma angústia que a levou a sair. Tenta arranhar a parede, mas as unhas estão curtas para não machucar o nenê. Pensa em voltar a morar com a mãe, o aluguel de onde mora está caro e o emprego não está indo tão bem assim.

Ivete se sente solitária e, mesmo brigando, está feliz com a presença da filha e da filha da filha em casa. Não sabe se agüenta até o próximo natal sozinha como está. O dinheiro que Lúcia lhe devia nem lhe fez tanta falta assim, Lúcia fez. Pela primeira vez, sente falta de ter um marido.

Maria Ivete faz pum.
Os sinos tocam mais uma vez.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...