5.8.08

A Bênção

No jardim, Maitê (a filha mais velha) empurrava a irmã no balancinho que rangia a cada vaivém da moça que não pedia para ir mais rápido, nem mais forte, nem mais nada. Gostava dos embalos de Maitê, que empurrava a irmã sem dar atenção ao que fazia, de tanta coisa que lhe passava pela mente. Várias coisas amenas, um caderno que estava acabando e precisava ser substituído, um recado que esqueceu de passar, um empurrão de leve no balanço; alguns avisos mais ríspidos da mente, um pouco de ódio por ter arrancado folha só pore educação, pra emprestar pra alguém que tinha pedido sem merecer receber folha nenhuma, uma pequena raiva de não ter o oi respondido por alguém, um empurrão mais forte - que a irmã no balanço ignorava, de tanta coisa que também lhe passava pela cabeça de criança, pequenas melancolias infantis enquanto a perna erguia e abaixava no movimento do balanço.

Era o que entendiam por família, a ignorância completa mas com um braço por perto que empurrasse quando necessário. Os pais, avançadíssimos, democracia na casa, todos ignoravam-se por igual. Reuniões de família que poderiam ser convocadas por qualquer membro, que discorreria por qualquer assunto sem ser ouvido.

A notícia ainda mal absorvida, a mãe grita da cozinha para que as filhas entrem. O pai já sentado com os ombros caídos para fazer conjunto com o queixo. Com as filhas entradas, a mãe começa a reunião.
- Estava falando com o seu pai e a gente resolveu pedir a opinião de vocês.
As filhas entraram na pose de quem tem opinião importante.
- Sobre o quê? - a mais nova.
- Vocês duas já tem tamanho pra saber de onde as crianças vêm, certo?
- Não é conversa de sexo, né? - Maitê.
- Calma.
- Eu já sei que preciso usar camisinha.
- Não é isso.
- Só burro pra engravidar sem querer.
- Maitê!
- E eu sou virgem mesmo.
- Filha, deixa eu falar.
- Vocês deviam parar de cuidar da minha vida, viu?
- Filha!

Maitê com cara de adolescente ouvindo, a mãe tornou a falar.
- Eu e seu pai cometemos um pequeno deslize... E queremos saber se vocês querem ou não uma coisa. Pode ser bom, dependendo do ponto de vista, mas se vocês quiserem ir pra faculdade...
- Vai direto ao ponto, elas não precisam de introdução - o pai, com voz e impaciência de pai.
- Eu estou grávida.
- Quê, mãe? - a mais nova com medo de perder o posto.
- Mas vocês precisam decidir conosco se a gente tem essa criança ou não.

A mais nova franziu a testa, Maitê coçou o olho e a mãe tirou caneta e bloquinho de papel da bolsa enquanto o pai afrouxava a gravata (costumava chegar do trabalho e ir direto pro quarto arrancar as roupas de gerente de vendas e vestir calção rasgado perto da bunda e regata manchada, o momento de ser homem porco e não o vendedor perfeito, mas essa era uma ocasião especial e certa formalidade era necessária).
Maitê pediu o porquê do bloquinho, a mãe respondeu que era uma para botar tudo no papel que ficaria mais fácil de decidir desse jeito.
- Pronto, agora brainstormem.
- Brainstorm virou verbo?
- Feedbackem, então.

A mais nova começou:
- Estou entre o irmãozinho e um cachorro. Se não tiver irmão, posso comprar um labrador?
- Eu não vou ficar limpando cocô de cachorro, filha.
- Mas de bebê você vai? Não é justo.
- Bom ponto, filha. Vou anotar no bloquinho.

Vez da Maitê.
- Eu adoro criança, sou completamente a favor... Mas eu tenho que ir pra faculdade, né? Não dá pra ficar jogando dinheiro fora.
- Faculdade tá o olho da cara mesmo. - o pai.
- E eu também tenho que fazer, daqui a um tempo. - a mais nova.
- Outro contra pro caderninho.

O pai.
- Plano de saúde aumentou de novo essa semana, ia ser um aperto e tanto incluir mais um.
A mãe anotou no bloquinho enquanto ditava o que ela mesmo escrevia, pausadamente.
- Ex-ces-so de cus-tos. Tá, o que mais?

O que mais? A família se entreolhava enquanto pensava.
- Só contras? Nenhum pró? - a mãe deu mais uma chance pra criaturinha ainda não nascida.
- Bom, seria um ânimo pra casa... - o pai.
- Cachorro faz muita bagunça - a irmã.
- Eu posso trabalhar durante a faculdade, não seria justo matar uma criancinha indefesa. - Maitê.

A mãe sente um aperto na barriga e diz "Ai".
O pai pergunta o que foi. A mais nova dá um pulo na cadeira. Maitê levanta a hipótese:
- Foi o bebê?
O pai quase se emociona:
- Ele chutou?
A irmã mais nova:
- Meu irmãozinho chutou? Posso sentir?
O pai chuta o balde e quase chora:
- É uma bênção!
A mãe se surpreende e resolve não dizer que foi só um desconforto causado por gases. Concordou:
- É uma bênção.

Sendo uma bênção, resolveram ter um filho. Se perguntavam como teriam a frieza de abrir mão de uma vidinha tão importante. Um presente de Deus.

Duas semanas depois, Maitê convoca reunião de família.
- Gente, tô grávida.

Foi direto pro consultório tirar. A família não suportaria tanta bênção no orçamento.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...