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Mostrando postagens de Setembro, 2008

Um cálice

Há muitos anos derramava um cálice
que implorava a Deus pelo que seja,
e derramava o que talvez amasse,
e derramava o que de mim rasteja.

Fazia limo, e à noite tossia
toda a umidade que a secura ardia.
Fazia festa o mofo que tecia
todo o calor de sua existência fria.

Quando abraçava, à noite, sua caneta
abria arquivos de uma lua preta,
Quando pintava com dor e palavras
cenário cego, insípida paleta.

Sonhava as cores de uma obra-prima
em seus outonos de textura fina
atualizava-se no nascimento
do dia; a noite que o sol assassina.

O seu sorriso desprendia pedra
com a crueza que me transpenetra.
Há muitos anos derramava um cálice
que ainda hoje minha vida afeta.

("Fuja do jardim enquanto temos tempo"
alguém gritou, quebrando o encantamento)

Concreto

O mundo é concreto e tudo que é feito de mundo vem da mesma fôrma. Tudo é rigido, tudo é intransponível. Tudo pode machucar. O humano, coitado, nasce macio. Sem pretensão. Cai de um tobogã celestial pra dentro de um mundo que o ricocheteia de um lado para o outro, que abusa de sua maciez, que é concreto demais para sua maciez.
E cai várias vezes. Quando em queda-livre, torce pra uma hora chegar no chão. Melhor que o chão chegue o mais cedo possível. Dói cair, mas dói mais ainda cair depois que a gravidade nos acelera em direção ao espatifo.

Melhor do que se revestir de uma casca que tenta imitar o ambiente, endurecer as próprias extremidades e tratar tudo o que está no cerne como delicado demais para ser exposto. Porque uma hora o chão chega. Uma hora a queda acaba, precisa acabar, e caímos feito melancia. A casca só serve pra esparramar o que é sensível, para dilacerar em pedacinhos irreconhecíveis e espalhar pelo chão o que um dia foi macio e sobrevivia.

Iludimo-nos com a idéia de que…

Prelúdio para a cegueira

- Tô com uma coceira filha da puta, cê não faz idéia.
- Coça, ué.
- Não consigo!
- Como assim? Não alcança?
- É.
- Cê tá com ardência pra urinar?
- É no meu olho, porra!
- Ah, tá. Dentro do olho?
- É.
- Tipo, no globo ocular?
- Não, na pálpebra.
- Então coça!
- É do lado de dentro!
- Cê não tá com piolho?
- No olho?
- Nos cílios.
- Piolho nem cabe nos cílios.
- Pode ser um piolhinho criança.
- Lêndea?
- Ou um piolho anão.
- Vá a merda.
- Uma vez eu li num livro de auto-ajuda...
- Lá vem bobagem...
- Que coceira significa o espírito falando que quer sair do corpo, porque o corpo não aceita o espírito.
- Eu não tô segurando espírito nenhum.
- Não nesse sentido...
- Cárcere privado é crime.
- Você não tem fé.
- Impossível ter fé com uma coceira dessas.
- Já sei, pega um garfo.
- O quê?
- Um garfo. Ergue a pálpebra pra fora com a mão, coça com o garfo.
- Tá, traz o garfo.
- Aqui. Mas toma cuidado.
- Vou tomar. Só não dá pra agüentar essa coceira.
- Fica calmo e segura firme o garfo.
- Aaaaah. Muito melhor agora.
- Tá ajudan…