22.9.08

Um cálice

Há muitos anos derramava um cálice
que implorava a Deus pelo que seja,
e derramava o que talvez amasse,
e derramava o que de mim rasteja.

Fazia limo, e à noite tossia
toda a umidade que a secura ardia.
Fazia festa o mofo que tecia
todo o calor de sua existência fria.

Quando abraçava, à noite, sua caneta
abria arquivos de uma lua preta,
Quando pintava com dor e palavras
cenário cego, insípida paleta.

Sonhava as cores de uma obra-prima
em seus outonos de textura fina
atualizava-se no nascimento
do dia; a noite que o sol assassina.

O seu sorriso desprendia pedra
com a crueza que me transpenetra.
Há muitos anos derramava um cálice
que ainda hoje minha vida afeta.

("Fuja do jardim enquanto temos tempo"
alguém gritou, quebrando o encantamento)

16.9.08

Concreto

O mundo é concreto e tudo que é feito de mundo vem da mesma fôrma. Tudo é rigido, tudo é intransponível. Tudo pode machucar. O humano, coitado, nasce macio. Sem pretensão. Cai de um tobogã celestial pra dentro de um mundo que o ricocheteia de um lado para o outro, que abusa de sua maciez, que é concreto demais para sua maciez.
E cai várias vezes. Quando em queda-livre, torce pra uma hora chegar no chão. Melhor que o chão chegue o mais cedo possível. Dói cair, mas dói mais ainda cair depois que a gravidade nos acelera em direção ao espatifo.

Melhor do que se revestir de uma casca que tenta imitar o ambiente, endurecer as próprias extremidades e tratar tudo o que está no cerne como delicado demais para ser exposto. Porque uma hora o chão chega. Uma hora a queda acaba, precisa acabar, e caímos feito melancia. A casca só serve pra esparramar o que é sensível, para dilacerar em pedacinhos irreconhecíveis e espalhar pelo chão o que um dia foi macio e sobrevivia.

Iludimo-nos com a idéia de que o chão não chega. Chega. Chega pra todo mundo e quando acabamos de cair em um chão qualquer, começa outra queda livre em direção a outro lugar ainda mais irreconhecível. Sorte se caímos em grupo, todos de uma vez, e nos confortamos na maciez alheia - azar se nos machucamos na rigidez e pretensão das cascas que acreditamos nos proteger.

O mundo é concreto mas é nossa casa - mesmo que temporária. Casas temporárias revelam o nosso mais profundo desconforto com onde estamos nos domínios que não precisam de casa, com nosso pensamento, com a cabeça que escolhemos pra habitar. Caímos no concreto e nos sentimos em casa. Estamos em queda-livre e nos sentimos em casa. Aí criamos uma casca em torno de nós mesmos e subitamente não estamos mais em casa. Estamos numa concha, transformados em caramujos que não tem forma e nem mobilidade decente. Enchemos de gosma o trajeto e demoramos a aceitar o que está por vir. E quebramos completamente na próxima queda.

O mundo é concreto e eu fujo da sua realidade rígida. O mundo é concreto e eu prefiro o imaginar macio. Que o próximo abraço do chão não vai doer - ou nem ocorrer. Viro uma sátira de mim mesmo. Um objeto em movimento que fecha os olhos e crê honestamente que não se move, com toda a beleza de sua ingenuidade. Com toda a vicissitude de sua inocência pisada tantas vezes. Inocência pisada não morre; resiste, se disfarça de força ou de sabedoria. Tenta criar mil proteções mas a única coisa que pode consolar de verdade é a certeza da queda. A certeza de que a dificuldade aumenta e carrega um prazer gigantesco no processo. Basta se render ao processo. E existe não se render? Rendo-me. E caio novamente.

5.9.08

Prelúdio para a cegueira

- Tô com uma coceira filha da puta, cê não faz idéia.
- Coça, ué.
- Não consigo!
- Como assim? Não alcança?
- É.
- Cê tá com ardência pra urinar?
- É no meu olho, porra!
- Ah, tá. Dentro do olho?
- É.
- Tipo, no globo ocular?
- Não, na pálpebra.
- Então coça!
- É do lado de dentro!
- Cê não tá com piolho?
- No olho?
- Nos cílios.
- Piolho nem cabe nos cílios.
- Pode ser um piolhinho criança.
- Lêndea?
- Ou um piolho anão.
- Vá a merda.
- Uma vez eu li num livro de auto-ajuda...
- Lá vem bobagem...
- Que coceira significa o espírito falando que quer sair do corpo, porque o corpo não aceita o espírito.
- Eu não tô segurando espírito nenhum.
- Não nesse sentido...
- Cárcere privado é crime.
- Você não tem fé.
- Impossível ter fé com uma coceira dessas.
- Já sei, pega um garfo.
- O quê?
- Um garfo. Ergue a pálpebra pra fora com a mão, coça com o garfo.
- Tá, traz o garfo.
- Aqui. Mas toma cuidado.
- Vou tomar. Só não dá pra agüentar essa coceira.
- Fica calmo e segura firme o garfo.
- Aaaaah. Muito melhor agora.
- Tá ajudando?
- Muito. Nossa, nem dá pra falar o quanto.
- Agora chega.
- Só mais um pouquinho, peraí...
- Aaaaaaai, um rato!
- AAAAAGH, CHAMA UM MÉDICO!

Eufemismos

Eufemismos são lindos. A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fa...