9.7.09

O inferno

Eram duas mil pessoas dentro de um ônibus (pelo menos era apertado como se fossem. Se alguém soltasse um pum ali, ele voltaria cu adentro procurando um lugar mais agradável pra poder respirar). Se a voz do povo é a voz de Deus, naquele momento Deus resmungava:
- Puta que pariu! Deus me livre do valor dessa passagem, alguém aí começa a andar! tem gente passando mal por aqui, faz favor! O preço da passagem tão alto e a gente se espremendo?

O homem mal conseguia puxar o ar. Sorte ter o pescoço comprido e estar num patamar superior ao resto das pessoas. Era como se conseguisse enxergar o ar ficando turvo de tanta gente querendo respirá-lo. Ironicamente, as janelas estavam todas fechadas, vedando a possibilidade de um ventinho resgatador chegar para debochar do aperto daquela gente. Era tanta gente num lugar só, que se ele desse um pulinho, não voltaria a tocar os pés no chão.

Criança chorando. (Devia ser uma criança invisível, o choro era abafado e ela não parecia estar em lugar nenhum. Quem sabe seguiu o exemplo do pum e engatinhou vagina adentro na mãe, lutando por um lugar mais confortável; como se ouvia o choro não sei, quem sabe era uma vagina de boa acústica.)

Chuva do lado de fora. A mesma chuva que o fez pegar o ônibus naquele dia, pra não se molhar. A fila pra entrar no ônibus era enorme, e ele se molhou mesmo assim. Pelo menos chegaria mais cedo em casa. Mão no bolso de trás, pra segurar a carteira. Não dá pra dar bobeira nos dias de hoje.

Parecia um auto-pervertido, um masturbador da mão na bunda. Enquanto o companheiro do lado aproveitava do pouco espaço pra se esfregar na bunda senhoril que o sucedia (sem perceber que um outro companheiro atrás se esfregava na sua), ele apertava forte a mão na bunda. Quase dez reais e um xerox autenticado da carteira de identidade na carteira, ele não podia se dar ao luxo de ser roubado.

O bom da superlotação de um ônibus é que se quebra um pouco do gelo que os ônibus geralmente têm. Ônibus pode ser mais frio do que um elevador, porque elevadores não envolvem competição. Ônibus são as olimpíadas da frieza. Ninguém olha no olho de ninguém - maldito aquele que inventou as cadeiras de frente uma para a outra, forçando que o passageiro fique olhando para o lado pra não precisar fingir um meio-sorriso quando os olhos por acaso encontrarem o do passageiro que senta à sua frente. Ônibus apertado é a iluminação espiritual, uma aglomeração de almas capaz de superar qualquer procissão. E todo mundo pede pelo amor de deus por um espacinho a mais. É a definição mais perfeita de fé.

(Por exemplo, a fé de se conseguir espremer até a porta quando se chega no ponto de descida. Comece três quilômetros antes, puxe a cordinha assim que o ônibus passar do ponto anterior e torça, reze, dê a luz ao seu próprio menino Jesus, e ainda assim corra o risco de não conseguir descer no seu ponto.)

Ele sorriu. Ele não ligou pra mão que lhe beliscava o rim (ou era a costela de outra pessoa, mas que cutucava, cutucava). Ele não ligou pro congestionamento que o fez demorar mais para chegar em casa do que se tivesse ido à pé. Ele não ligou pela loucura financeira que cometia pagando o passe do ônibus quando poderia muito bem ter caminhado aquelas setenta e cinco quadras e ainda queimado umas calorias. Ele não ligou pra nada. Só segurou bem a mão na própria bunda, e enfrentou o ônibus.

Quando desceu, sentiu a própria calça cair.
- Puta que pariu, alguém arrancou meu botão!

Ônibus são o inferno.

2 comentários:

  1. Amigo, se você considera apenas um simples transporte coletivo como algo tão infernal, deve se preparar para os acontecimentos que virão em breve. Leia o meu blog e se informe melhor. Um grande abraço.

    ResponderExcluir
  2. A minha cidade é pequena por isso quase não pego ônibus, mas qaundo pego acho super divertido. : D
    E as pessoas por aqui se falam, se cumprimentam. : D
    he, he,he,he
    As passagens estão caras mesmo.

    ResponderExcluir

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...