27.11.09

Astronauta

Acontece que sempre que eu olho pela janela tem um avião passando.
São muitos aviões passando todo dia, e cada um vai para um lugar diferente. E eu não consigo nem sair do apartamento!
O décimo-sétimo andar do prédio-poleiro me parece suficiente para viver em paz, quando eu não lembro que divido meu espaço com gente que ouve cada grito que eu solto quando me sinto sozinho demais e o silêncio me aperta a faringe.

É pra não parecer sozinho. Olha só, eu rio! Os vizinhos sabem que eu rio. Tem dias que eu chego em casa e rio bem alto, por horas a fio. É pra eles saberem que eu sou feliz. Só que ninguém é feliz assim, de ser só feliz, então tem dias que eu também choro. Mas eu choro sempre bem baixinho, porque bem baixinho é o meu jeito de chorar. Eu choro bem baixinho porque eu sei que se eu chorasse bem alto, eu ia incomodar os outros.

Aí, pra que saibam que eu não sou feliz o tempo todo e que eu não sou doente de só ficar em casa rindo, eu dou uns soluços bem altos. Aí eles percebem.

E pra não pensarem que é solidão, de vez em quando eu pego o celular e vou pra janela pra conversar com alguém. Meu celular não tem créditos. Não tem nem bateria, acho. Não lembro quando foi a última vez que conversei com alguém. Mas eu estou ali, todos os dias, meia hora na janela falando ao telefone.

"Estou com saudades!", eu me despeço bem alto. "Mal posso esperar pra te ver de novo". E desligo de mentirinha.
Aí eles sabem que eu gosto de alguém. E que eu sinto saudades.
Mal sabem eles que eu não gosto, nem sinto saudades - simplesmente porque eu não conheço o outro lado da linha. Não há outro lado na linha.

E quando eu desligo o celular de mentirinha, eu olho pra cima e vejo um avião passando.

Sempre que eu olho pela janela tem um avião passando. E ele passa por cima de mim, me atropelando sem saber.
Sem saber que um dia eu vou sair desse apartamento.
Que um dia eu vou gostar de alguém de verdade, e sentir saudades de verdade, e pegar um avião e ir pra bem longe, pra bem perto de onde a saudade apontar.

E aí o apartamento vai me parecer tão pequeno.
E depois de um tempo, o mundo vai me aparecer tão pequeno.
E depois de mais tempo, aviões não vão mais me bastar.

Aí eu viro astronauta, e fujo desse planeta pra nunca mais voltar.

26.11.09

Humberto

Como era homem que o mundo pediu pra nascer naquele exato minuto, naquela cidade árida do Centro-Oeste? Porque o resultado do pedido saiu muito estranho.

Não foi erro na fôrma, nasceu um entre muitos iguais. Mas nasceu estragadinho. Como quando você vai ao supermercado e está escolhendo pepinos, e vê aquele pepino lindo, verde e pepinesco. Vai apalpar o pepino (não me pergunte o porquê de eu ter escolhido um pepino, sometimes a cucumber is just a cucumber), e percebe o pepino tem uma bolota pepínica grudada ao lado. Nem o psicanalista mais bem-resolvido compraria aquele símbolo fálico. Nada de errado com o pepino, mas é estranho.

Estou dando a impressão de que Humberto era um machão, comparando-o com pepinos desse jeito. Também não era efeminado, sua voz grossa de assustar, sua presença estranha. Mas tinha uma delicadeza mais do que feminina nos modos.

Humberto não queria desagradar. É só acordar com a pá virada um dia para entender como as pessoas desagradam. As pessoas não dizem bom-dia, as pessoas não pedem favor, as pessoas saem desleixadas, as pessoas... são pessoas demais e gente de menos.

E usou toda a força com a qual nasceu para forjar uma armadura. Endureceu (não por dentro, porque permanecia frágil, conscientemente frágil, mas Humberto pensava que podia esconder isso dos outros). Endureceu de medo.

Humberto nunca tinha dançado, não em público. Às vezes, quando ainda era criança, dançava em frente à televisão quando via algum artista. Depois odiava o artista. Odiava! Maldito artista! Por quê o artista podia dançar e ele não?

Ele não dançava.

Mas quarenta anos passam como passa uma agulha sobre um disco de vinil – às vezes travando, às vezes furando, mas passando. Humberto engessado, os anos passando.

Mas Humberto quis dançar. Foda-se o Centro-Oeste, pensou ele – mas pensou com outras palavras, foder não fazia parte de seu vocabulário ou de seu repertório de atitudes. Juntou o dinheiro que ganhava na Vigilância Sanitária – seu empolgante emprego de segunda a sexta-feira, quando ele não era o heróico Homem de Gesso, que não sentia nem movia nem dançava – e comprou uma passagem para São Paulo.

Desconhecidos. A Revolução, como Humberto chamou o acontecido daquele dia em diante, foi uma festa. A primeira festa de Humberto. Desconhecidos assustados pelo jeito engessado de ser. Desconhecidos fascinados pela falta de desenvoltura social. Desconhecidos que não davam a mínima. Paulistas.

A música, alta e estranha. As mulheres, girafas, altas e estranhas. Os homens, correndo seminus e pulando em piscinas, estranhos. Humberto se sentiu em casa.

Humberto dançou! E quem disse que ele não sabia dançar?
Bom, quem disse isso provavelmente estava certo. Ele não sabia, mas o que importava era dançar, não importava como.

E o grande feito do Homem de Gesso foi ter se deixado quebrar.
A carcaça pode até voltar com o tempo, pra evitar a criptonita do dia-a-dia. Mas Humberto era um super-herói, e ele dançava.

Mesmo sendo um pepino deformado.

23.11.09

Aos meus treze anos

Sabe aqueles sonhos que você tem? O chato do tempo é que ele consegue dissolver a graça desses sonhos. Maturidade é isso, e ela nunca acaba. A cada ano você repete o ritual de achar o sonho anterior estapafúrdio.

E o que é que decide por nós? A sorte. E não se preocupe, a sorte está do seu lado. Não na hora, não de um jeito que você bata o olho e diga "Veja só, quanta sorte!". Mas é aquela velha história do bordado, depois de um tempo a sorte explica como foi que aconteceu e como foi que aquilo foi melhor pra você.

Mas sabe a incerteza? Ah, querido. Ela nunca passa.
Então. Sobre aqueles sonhos: não foram ainda. Talvez nunca venham a ser. Talvez venhamos a nos acostumar com isso (vamos ver daqui a alguns anos, na minha carta aos meus vinte e nove).

E quando o tempo passa e a gente está disposto a largar algumas mãos e segurar outras, simplesmente para largá-las depois, a gente aprende. E aprender é ótimo. O ruim é que é um conhecimento de dentro, de passado, completamente inútil para o presente. A gente pode acumular todo o conhecimento do mundo, mas quer saber? A gente nunca aprende. Nunca mesmo.

Então não posso te dar conselhos. Só evite cortar o cabelo sozinho, você vai ver como fica a parte de trás daqui a algum tempo e passar vergonha retroativa. E não fume na frente dos outros, você ainda não sabe fumar. Quando aprender, vai passar vergonha retroativa. E punheta não dá espinha.

Do eu,

17.11.09

Bárbara

Bárbara sentava na minha frente, e tinha o sobrenome esquisito (vindo de um pai desconhecido). Era tão gordinha e esquisita quanto uma garota de sete anos pode ser. Eram os anos noventa, e ainda assim o cabelo dela era estranho. Crespo, grande, de um loiro que eu nunca tinha visto antes. Um loiro com vergonha de ser loiro. Um loiro que faria Marilyn Monroe sair correndo de medo.

A santíssima trindade: Bárbara, Isabela e Fernanda. Loira esquisita, Morena magra demais e Loira que dá vontade de casar. A hierarquia era a seguinte: Fernanda seria a minha esposa-troféu. Todos os garotos da sala eram completamente enfeitiçados por ela e sua inocente propensão a nos castrar. Com a maturidade que eu tinha aos seis anos, era lógico que ela ia cair no meu papo.

Mas se ela não caísse, e fosse acabar nos braços de um outro homem, um outro homem de seis anos muito mais rico, com muito mais Hot Wheels que eu, tudo bem. Isabela me adorava. Seu cabelo era liso e esnobe, preto como um pneu de Hot Wheels (perdoem minhas metáforas, eu só tinha seis anos de idade e uns cinco de poesia - aliás, é muito difícil arranjar uma rima para Hot Wheels).

Enfim, Isabela era uma segunda opção simplesmente por Fernanda ser um avião, com sua beleza impossível de atingir. Uma miss em miniatura. Mas calma, estou me deixando levar pela emoção. O planejamento aqui deveria ser lógico. Então, na impossibilidade de Fernanda e eu casarmos antes de chegar a primeira série, Isabela seria o caminho a seguir.

Ela era magra demais. Era a garota com os menores peitos do jardim de infância. Ela usava sutiã. Isso me irritava e atraía. Por debaixo do uniforme da escolinha, uns fiapinhos de tecido cor-de-rosa. Nunca entendi isso direito. O que mais me atraía em Isabela eram suas bonecas. Barbies. Barbies magérrimas como Isabela era.

Mas se Isabela e eu nos divorciássemos, eu sabia que Bárbara estaria me esperando. Gordinha, esquisita, loiro-urubu nos cabelos. Minha mãe era gorda, Bárbara era gorda e maternal (aliás, nossa relação começou no maternal mesmo). Bárbara era minha última opção, mas seríamos felizes juntos. Ela e seu amor por mim, eu e minha recém-adquirida humildade e renúncia pelos desejos por beleza exagerada.

Minha única confidente nesses planos era Jandira, a empregada lá de casa, o carinho em forma de pessoa, pessoa em forma de rugas e pele maltratada. Jandira me esperava todos os dias com um copo de Nescau e um sorriso com dentes a menos.

Até o dia em que eu cheguei em casa e Jandira não estava lá. Minha mãe me explicou, enquanto eu olhava perplexo e também com dentes a menos, que o dinheiro estava difícil e que Jandira teve que ir pra outro lugar. Acho que mordi minha mãe, mas não lembro muito bem, tamanho o choque que levei com a notícia.

Nada que abalasse meus planos de casamento com Fernanda, ou quem sabe Isabela, ou ainda Bárbara se tudo desse errado. Até o dia em que eu saí da escola e encontrei Jandira no portão. Ela tinha voltado! Corri para abraçá-la. Ela disse que estava com saudades e que sempre lembrava de mim no emprego novo.

O emprego novo? Bárbara correu portão afora, também para os braços de Jandira. Mulher venenosa, tinha roubado minha babá.

Acho que foi por aí que eu me apaixonei.

14.11.09

A óbvia porta

Assustado, ele me perguntou:
- Como você sabe que eu sou gay?

Pensei em uma forma de explicar.
- Como você sabe que uma porta é uma porta?
- Basta olhar para ela.
- Então.
- Não pode ser tão óbvio. Eu não sou tão óbvio.

As feições masculinas estavam lá, a voz grossa, os pêlos. A chucrice. Mas eu conseguia enxergar, eu conseguia enxergar.
- Olha essa porta - e apontei a porta de saída.
- O que tem?
- Ela é da cor da parede.
- Sim?
- Ela está na mesma linha reta que a parede.
- Não estou te entendendo.
- Ela está pregada na parede, pelo amor de deus.
- Onde você quer chegar com isso?

Arrematei:
- Ela continua sendo uma porta. Uma óbvia porta. Por mais que tenha tudo pra se confundir com a parede;
- Eu não sou uma porta.
- Porque não se deixa abrir. Mas deixa eu te dizer uma coisa, meu amigo: uma porta fechada perde completamente a utilidade.

Aí a gente fodeu.

Eufemismos

Eufemismos são lindos. A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fa...