25.11.09

Os vizinhos

Urgência e calma parecem se entrelaçar. É quando corro, quando estou atrasado - e estou quase sempre atrasado para tudo - é daí que emerge a calma que me mantém respirando e fazendo.

(a pressa inibe de fazer, a pressa não é inimiga da perfeição, e sim amiga demais do planejamento. Poupar tempo, poupar tempo, executar tarefas, mas como? se eu tenho tão pouco tempo, e o que consegue ser feito é feito pelo avesso)

É quando o despertador toca que eu passo a desenhar o dia que nasceu antes de que eu tomasse consciência dele. O dia é uma folha em branco, eu sou uma mão que - dependendo do dia - segura o lápis com mais ou menos força. E a Terra é a mesa que me apóia.

O problema é que a Terra gira, e não dá pra desenhar direito quando a mesa em que se apóia gira. E o meu punho não é tão firme, e eu não sou um desenhista talentoso, mesmo com dezenove anos de prática. E o que fazer do dia?

Desenhar olhos no dia? Como um psicótico que enxerga na indiferença alheia uma platéia atenta e julgadora que exige de mim a perfeição estalada de ruído musical. Não quero.

Desenhar com calma? Pra terminar mais rápido. E depois virar a página por ir dormir.

E é quando eu durmo que surge a urgência. É muito pensamento, é um planejamento desconexo e sem fim. É preocupação. É uma música que não quer parar de tocar. É uma memória incômoda. É fome,é inspiração, é impulso.

Mas eu posso lutar contra a urgência. É só fingir que se acostuma com ela. É só esperar, urgentemente, que a urgência acabe. Com sorte, eu caio no sono.

(Quando eu era menor, pensava que minha cama era capaz de voar. Que eu dormia e ela saía pela janela, flutuando sobre o mundo como um tapete mágico. Às vezes eu era mais esperto que ela, e logo antes de cair no sono, no meio daquela urgência toda, sentia um movimento. Abria os olhos muito rápido, muito atento, muito criança. A cama disfarçava e voltava a pousar em terra firme. Mas não me enganava, eu sabia que ela estava tentando voar.)

Talvez daí que apareça a urgência de estar na cama. Ela é uma estação de trem, um aeroporto, uma fronteira. Um ponto de partida. E os minutos antes de dormir são o copo trêmulo de whisky na mão enquanto se espera o embarque para uma nova página em branco que surge com o toque de um despertador.

O que é o sono? Calma ou urgência? A preguiça quando se acorda é urgente, é um soldado na trincheira lutando contra a necessidade de levantar e abandonar o conforto morno de um acolchoado. Mas e o sono? Quem sabe seja verdadeira a minha ilusão infantil e o sono seja uma viagem forçada. Turismo espiritual, à minha revelia.

Mas eu acordo antes que o despertador me chame. Um barulho insistente de passos surge por detrás da parede que me permeia. Só escuto um chiado insistente de desespero. Algumas vozes, distantes por uma parede, que falam coisas que eu não reconheço e que são urgentes. Eu escuto.

Não sei o que se passa, mas não é assim que eu queria desenhar esse dia. A mesa gira como se estivesse possuída, e agora é meu horário de descanso, eu não nasci pra ilustrar a noite, eu nasci pra desenhar o dia - enxergando tudo claramente, com expediente controlado.

A porta do apartamento ao lado se tranca por fora. Escuto passos no corredor, o casamento que mora ao meu lado está saindo. Silêncio.

O silêncio chuta minha calma, joga todas suas fichas para que eu me torne alerta; Fico escutando o silêncio até que ele me conte o que aconteceu com o casamento que mora ao meu lado. Sou interrompido por um carro que sai, furioso, portão afora.

O lápis está na minha mão e a madrugada está alta. Será que morreu alguém? Qual será o nome dos meus vizinhos? Será que eles se incomodam do barulho que eu faço? Será que morreu alguém?

Decido que morreu a mãe dela. Ele está ansioso. Ela está sem muita reação, e buscou uma roupa e uma bolsa qualquer no cabideiro que eu imagino que o casamento guarde no canto do quarto, e abandonou a cama desarrumada como imagino que ela nunca a abandone. Ele só pensa em decidir, em ligar o carro e ir para algum lugar.

Ele age por instinto, não por sentimento. Ela agora deve estar em silêncio, gelada e branca, no banco do passageiro, enquanto ele leva uma multa que vai ser difícil de pagar por causa das despesas do enterro. Ela nunca se sentiu tão perdida. Ele nunca amou tanto a esposa como naquele momento.

O silêncio volta. Eles já devem estar longe, agora. Espero que ela se sinta melhor, amanhã. Que daqui a pouco ela consiga quebrar o choque e chorar. E que ele consiga apertar o corpo dela contra o seu, como quem diz "Se pudesse, te engoliria e você não sofreria mais, e o meu calor seria o teu calor e não sofrerias mais".

Será que a morte é urgente? A sogra (dele) já está num sono profundo. A cama metálica da geladeira do hospital, sabendo que ela não está olhando, deve estar preparada para voar sobre o mundo. Se ainda a mãe (dela) pudesse abrir os olhos, faria a cama pousar, mas não é mais capaz. A morte é a coisa mais urgente que existe.

E nessa urgência, adormeço.

1 comentários:

AB disse...

Céus... Cadê seu livro, guri?