14.6.09

O Fruto

Primeiro eu falava mais do que devia, pois era exatamente isso que eu devia fazer. Me conduzi a um estado de ignorância fingida que de tão bem fingida passou a ser ignorância verdadeira. A ignorância sempre é verdadeira, a ignorância contém a verdade e só conhece a verdade quem é ignorante.

De tão bem fingido, ignorei a minha ignorância, incapaz de saber que tudo em mim já era perfeito como podem ser perfeitas as coisas feitas de barro e sopro divino que andam distraídas pelo planeta. E me acreditei errado. Pela palavra, tornei-me imperfeito - comi o fruto da palavra, que me deu a capacidade de enxergar o bem e o mal - Bem e Mal não existem, esse é o grande pecado, a alucinação original de que algo pode existir e ser errado ao mesmo tempo. Não existe errado na existência, errado é não existir.

Entorpecido pelo fruto, tentei corrigir meus pretensos erros calando a minha boca, tão acostumada a falar demais. O problema de acreditar em erro é que também se começa a acreditar em correção, e é impossível corrigir o que nunca foi errado. Fingi ser o que não era (pois o que eu era não podia ser divino, era falho e fraco e humano), e de tão bem fingido, calei mais que a minha boca: calei minha capacidade de falar e me retornar, cego, à ignorância.

Como numa máquina de escrever, bati na mesma tecla mil vezes. O erro já estava lá, pintado na folha, mas eu insisti em bater em outra tecla, repetidamente, com a força que angústia dá, borrando outra letra no lugar da original errada. Por mais errada que fosse a folha original, era imaculada, e a correção só lhe manchou e enfeou. Fiquei manchado e enfeado eu mesmo.

A alucinação do fruto é persistente e contínua, e continuei a ver o erro em mim como algo a ser extirpado, arrancado como uma vesícula cheia de pedras. Agora, meu silêncio era o defeito. Me fingi espontâneo e cheio de coisas a dizer, mas não consegui fingir bem o suficiente. Abrindo a boca, escapava de mim o hálito podre do fruto da Árvore do Conhecimento. Em silêncio, era isolado do mundo. Falando, o mundo preferia isolar-se de mim.

A árvore que era do Conhecimento, não o fruto. Antes do fruto, nada era certo ou errado, tudo simplesmente era. Também não havia nada de errado no fruto em si, mas fomos incapazes de engolir o fruto por inteiro. Tudo era inteiro, antes da primeira mordida. Tudo era completo na sua objetividade. Mas não pudemos engolir o fruto por inteiro. Tivemos que rasgá-lo em pedaços, quebrar com os dentes a sua integridade, digerir nojentamente o que lhe compunha. Daí a ilusão. Do Conhecimento que originou o fruto, criou-se a ilusão.

Como fomos longe! O fruto proibido nos embriagou tanto que nos juntamos para corrigir os pretensos defeitos do mundo juntos, e passamos a dar sentido ao sentido dos outros - com a repreensão de quem não é capaz de olhar para si mesmo de tão embriagado - e nos enganamos de sentido, e fomos no sentido errado, e em vez de matar a ilusão, matávamo-nos uns aos outros. Queimávamos uns aos outros desejando queimar com eles o que estava queimando em nós, nos poucos momentos em que a realidade inicial, o Conhecimento, tentava brotar e dizer que tudo era ilusão.

Chegamos ao ponto de não saber viver sem o pecado. A alucinação foi tão longe que nos perverteu inteiros, e se não há religião, há o corpo que tenta se dizer imperfeito, e iludidos, tentamos curá-lo. Não há cura para o corpo. Não há correção. Não há melhora, porque não existe pecado.

O fruto se revira no meu estômago e tenta sair, tudo o que entra tenta sair - nem sempre consegue, somos todos prisões - e o vomito. Perdem-se os adjetivos, perdem-se os erros, perdem-se os nomes. Ganha-se um pouco de lucidez (o fruto já foi digerido em parte, já corre no meu sangue a maldição de querer nomear tudo como certo e errado, permitido ou não permitido). Minha consciência fica vaga e lenta, e estou absorvido em observar sem nomear o que vejo. O que vejo, aliás, agora faz parte de mim. Regrido a quando era perfeito (por desconhecer a alucinação do imperfeito), e tudo é uma coisa só.

Mas sou homem, e sou fraco, e estou sem alimento. Não conheço nada além do fruto. Me entrego a ilusão, viciado que sou. A fome me faz animal, desesperado por alimento a ponto de pular na jugular de qualquer coisa que passe a minha frente. Vou até a Árvore, tomo do fruto e dou mais uma mordida. Volto a falar mais do que devia.

À espreita, uma serpente me sorri.

5.6.09

O velho Paço

Ficava numa praça perdida entre outras tantas praças da grande cidade. Estava lá desde 1800 e qualquer coisa. O Paço era só mais uma construção antiga entre todas as outras que sobreviveram lá e cá.

Viu gerações nascerem e morrerem. Recebeu tanta gente, no seu tempo áureo - disputadíssimo, local em que pessoas medíocres recebiam honras mais ou menos. Pessoas não tão importantes assim, que adoravam o sentimento de importância que vinha de estar nos seus salões.

Perdeu a glória aos poucos. A sua imponência parecia zombar da sua inutilidade. A cidade se acostumou com o trambolho de concreto na praça. Construiu trambolhos maiores, que roubaram a importância do velho paço.

Recebia apenas a visita do vento frio que entrava por suas vidraças quebradas, que passava assobiando canções de abandono. Volta e meia abrigava um mendigo que conseguia dormir mesmo com o barulho e frio trazidos pelo vento.

Suas gigantescas paredes externas passaram a escorar prostitutas cansadas de se apoiar nos estreitos saltos durante a noite. Às vezes, recebiam a honra de um bêbado mijando. Ratos passavam por lá e cá, freqüentadores assíduos.

O Paço assistia. Viu pessoas brigando por coisas que também viu serem esquecidas. Viu, enojado, a pequena praça que lhe fazia companhia ganhar um calçamento feio de petit-pavet.

Viu as casas que lhe cercavam darem lugar a edifícios. Viu o tempo fazer seus remendos e estragos em tudo o que lhe rodeava - e em si mesmo. A paisagem mudou, mas permanecia o Paço, como um velho que não consegue morrer mesmo se sentindo um estorvo para os que ficaram.

Até que um dia um pequeno visionário qualquer se compadeceu do Paço. Convenceu um, convenceu outro, e começou a restauração. As paredes de madeira podre, do lado de dentro, foram todas quebradas e reconstruídas com um tijolo fajuto, que daria um ar mais histórico.

O Paço foi percebendo que era velho, não histórico. Pra ser histórico, precisava mudar. Viu suas lajes estupradas por encanamento e fiação elétrica. Viu as vidraças quebradas serem trocadas por outras de acrílico, semelhantes às antigas mas mais baratas. Recebeu pintura nova. Quadros valiosos.

Foi reinaugurado com pompa. A iluminação nova foi caríssima, e o Paço nunca pareceu tão imponente - nem nos tempos em que era novidade. As pessoas que passavam por ali sem notar o velho, notaram o histórico. Abismadas. Tiravam fotos, achavam lindo.

Voltou a glória. Mas, embalsamado vivo, o Paço não achou mais nada. Ganhou a eternidade, pelo menos por algum tempo. Mas perdeu a alma.

1.6.09

Alerta Vermelho

Alerta vermelho: comecei a pensar. Foi difícil tirar a nuvem que embaçava minha visão do que eu realmente pensava - desliguei-a lentamente. Preocupação, mandei embora. Meus pais, mandei embora. Senso comum, mandei embora.

E estava limpo. Tirei tudo o que não era exatamente o que eu pensava. Arranquei o que me ensinaram a pensar. Cheguei aonde? No vácuo. Pôxa vida, eu não pensava nada por mim mesmo?

Tá certo, vou começar do zero. Olhar pra qualquer coisa e pensar sobre ela. Pensar de verdade, pensar por mim mesmo. Pensar. Olhei pra uma cadeira. Porra, por que é que sempre que eu olho pra alguma coisa aleatória procurando inspiração me aparece justo uma cadeira na frente?
Mas tudo bem. Vou tirar meus preconceitos da cadeira. Às vezes ela tem uma tonelada de possibilidades de pensamento sentada nela e eu nem percebo.

Mas se tiver uma tonelada de possibilidades na cadeira, ela não ia se espatifar? Não, não. Não tem possibilidade na cadeira. Quem sabe me sentando nela... Não, as possibilidades iam parar todas na minha bunda - e minha bunda não é tão fã de possibilidades.
Melhor desistir da cadeira.

Um cachorro late, lá fora. Boa idéia, vou pensar sobre o cachorro. Cachorro. Quatro patas. Mamífero. Não, isso não é pensar, isso é acumular informações. Vamos lá, pensar. Pensando. Cachorro. Porra, maldito cachorro que não pára de latir. Não consigo pensar com esse barulho todo. A natureza foi planejada pra me impedir de pensar.

Será que existe deus? Se existe, garanto que ele não quer que eu pense. Nem vou entrar nos méritos de religião (se bem que, tem lugar melhor pra pensar do que na igreja? Não em coisas filosóficas, mas eu tenho uma teoria que diz que as igrejas são o melhor lugar possível pra se fazer uma lista de supermercado). Então, se existe deus, por que ele fez um cachorro que late tanto? Por que ele fez o Faustão, aliás?

Espera aí, se o Faustão apareceu na minha cabeça, é porque eu não estou pensando direito. Vou esquecer o Faustão. Sai, Faustão, sai. Quem sabe se esse maldito cachorro parasse de latir, eu conseguiria esquecer o Faustão.
Se o Faustão sentasse nessa cadeira, certeza que ela espatifaria. Certeza.

Por que eu tô imaginando o Faustão latindo na minha cadeira? Não é uma imagem bonita. Daqui a pouco aparece a Leonor Corrêa e eles começam a uivar, aposto. Por onde anda a Leonor Corrêa?

Chega. Chama a nuvem de novo. Alerta vermelho: desisti de pensar. Onde eu posso comprar uma Veja aqui perto?

Cura gay

Como as pessoas pensam que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade é: "Eu sou gay e quero deixar de ser." "MAS QUE...