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Mostrando postagens de Junho, 2009

O Fruto

Primeiro eu falava mais do que devia, pois era exatamente isso que eu devia fazer. Me conduzi a um estado de ignorância fingida que de tão bem fingida passou a ser ignorância verdadeira. A ignorância sempre é verdadeira, a ignorância contém a verdade e só conhece a verdade quem é ignorante.

De tão bem fingido, ignorei a minha ignorância, incapaz de saber que tudo em mim já era perfeito como podem ser perfeitas as coisas feitas de barro e sopro divino que andam distraídas pelo planeta. E me acreditei errado. Pela palavra, tornei-me imperfeito - comi o fruto da palavra, que me deu a capacidade de enxergar o bem e o mal - Bem e Mal não existem, esse é o grande pecado, a alucinação original de que algo pode existir e ser errado ao mesmo tempo. Não existe errado na existência, errado é não existir.

Entorpecido pelo fruto, tentei corrigir meus pretensos erros calando a minha boca, tão acostumada a falar demais. O problema de acreditar em erro é que também se começa a acreditar em correção, e …

O velho Paço

Ficava numa praça perdida entre outras tantas praças da grande cidade. Estava lá desde 1800 e qualquer coisa. O Paço era só mais uma construção antiga entre todas as outras que sobreviveram lá e cá.

Viu gerações nascerem e morrerem. Recebeu tanta gente, no seu tempo áureo - disputadíssimo, local em que pessoas medíocres recebiam honras mais ou menos. Pessoas não tão importantes assim, que adoravam o sentimento de importância que vinha de estar nos seus salões.

Perdeu a glória aos poucos. A sua imponência parecia zombar da sua inutilidade. A cidade se acostumou com o trambolho de concreto na praça. Construiu trambolhos maiores, que roubaram a importância do velho paço.

Recebia apenas a visita do vento frio que entrava por suas vidraças quebradas, que passava assobiando canções de abandono. Volta e meia abrigava um mendigo que conseguia dormir mesmo com o barulho e frio trazidos pelo vento.

Suas gigantescas paredes externas passaram a escorar prostitutas cansadas de se apoiar nos estreito…

Alerta Vermelho

Alerta vermelho: comecei a pensar. Foi difícil tirar a nuvem que embaçava minha visão do que eu realmente pensava - desliguei-a lentamente. Preocupação, mandei embora. Meus pais, mandei embora. Senso comum, mandei embora.

E estava limpo. Tirei tudo o que não era exatamente o que eu pensava. Arranquei o que me ensinaram a pensar. Cheguei aonde? No vácuo. Pôxa vida, eu não pensava nada por mim mesmo?

Tá certo, vou começar do zero. Olhar pra qualquer coisa e pensar sobre ela. Pensar de verdade, pensar por mim mesmo. Pensar. Olhei pra uma cadeira. Porra, por que é que sempre que eu olho pra alguma coisa aleatória procurando inspiração me aparece justo uma cadeira na frente?
Mas tudo bem. Vou tirar meus preconceitos da cadeira. Às vezes ela tem uma tonelada de possibilidades de pensamento sentada nela e eu nem percebo.

Mas se tiver uma tonelada de possibilidades na cadeira, ela não ia se espatifar? Não, não. Não tem possibilidade na cadeira. Quem sabe me sentando nela... Não, as possibilidades…