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Mostrando postagens de Novembro, 2009

Astronauta

Acontece que sempre que eu olho pela janela tem um avião passando.
São muitos aviões passando todo dia, e cada um vai para um lugar diferente. E eu não consigo nem sair do apartamento!
O décimo-sétimo andar do prédio-poleiro me parece suficiente para viver em paz, quando eu não lembro que divido meu espaço com gente que ouve cada grito que eu solto quando me sinto sozinho demais e o silêncio me aperta a faringe.

É pra não parecer sozinho. Olha só, eu rio! Os vizinhos sabem que eu rio. Tem dias que eu chego em casa e rio bem alto, por horas a fio. É pra eles saberem que eu sou feliz. Só que ninguém é feliz assim, de ser só feliz, então tem dias que eu também choro. Mas eu choro sempre bem baixinho, porque bem baixinho é o meu jeito de chorar. Eu choro bem baixinho porque eu sei que se eu chorasse bem alto, eu ia incomodar os outros.

Aí, pra que saibam que eu não sou feliz o tempo todo e que eu não sou doente de só ficar em casa rindo, eu dou uns soluços bem altos. Aí eles percebem.

E pra nã…

Humberto

Como era homem que o mundo pediu pra nascer naquele exato minuto, naquela cidade árida do Centro-Oeste? Porque o resultado do pedido saiu muito estranho.

Não foi erro na fôrma, nasceu um entre muitos iguais. Mas nasceu estragadinho. Como quando você vai ao supermercado e está escolhendo pepinos, e vê aquele pepino lindo, verde e pepinesco. Vai apalpar o pepino (não me pergunte o porquê de eu ter escolhido um pepino, sometimes a cucumber is just a cucumber), e percebe o pepino tem uma bolota pepínica grudada ao lado. Nem o psicanalista mais bem-resolvido compraria aquele símbolo fálico. Nada de errado com o pepino, mas é estranho.

Estou dando a impressão de que Humberto era um machão, comparando-o com pepinos desse jeito. Também não era efeminado, sua voz grossa de assustar, sua presença estranha. Mas tinha uma delicadeza mais do que feminina nos modos.

Humberto não queria desagradar. É só acordar com a pá virada um dia para entender como as pessoas desagradam. As pessoas não dizem bom-di…

Aos meus treze anos

Sabe aqueles sonhos que você tem? O chato do tempo é que ele consegue dissolver a graça desses sonhos. Maturidade é isso, e ela nunca acaba. A cada ano você repete o ritual de achar o sonho anterior estapafúrdio.

E o que é que decide por nós? A sorte. E não se preocupe, a sorte está do seu lado. Não na hora, não de um jeito que você bata o olho e diga "Veja só, quanta sorte!". Mas é aquela velha história do bordado, depois de um tempo a sorte explica como foi que aconteceu e como foi que aquilo foi melhor pra você.

Mas sabe a incerteza? Ah, querido. Ela nunca passa.
Então. Sobre aqueles sonhos: não foram ainda. Talvez nunca venham a ser. Talvez venhamos a nos acostumar com isso (vamos ver daqui a alguns anos, na minha carta aos meus vinte e nove).

E quando o tempo passa e a gente está disposto a largar algumas mãos e segurar outras, simplesmente para largá-las depois, a gente aprende. E aprender é ótimo. O ruim é que é um conhecimento de dentro, de passado, completamente inúti…

Bárbara

Bárbara sentava na minha frente, e tinha o sobrenome esquisito (vindo de um pai desconhecido). Era tão gordinha e esquisita quanto uma garota de sete anos pode ser. Eram os anos noventa, e ainda assim o cabelo dela era estranho. Crespo, grande, de um loiro que eu nunca tinha visto antes. Um loiro com vergonha de ser loiro. Um loiro que faria Marilyn Monroe sair correndo de medo.

A santíssima trindade: Bárbara, Isabela e Fernanda. Loira esquisita, Morena magra demais e Loira que dá vontade de casar. A hierarquia era a seguinte: Fernanda seria a minha esposa-troféu. Todos os garotos da sala eram completamente enfeitiçados por ela e sua inocente propensão a nos castrar. Com a maturidade que eu tinha aos seis anos, era lógico que ela ia cair no meu papo.

Mas se ela não caísse, e fosse acabar nos braços de um outro homem, um outro homem de seis anos muito mais rico, com muito mais Hot Wheels que eu, tudo bem. Isabela me adorava. Seu cabelo era liso e esnobe, preto como um pneu de Hot Wheels …

A óbvia porta

Assustado, ele me perguntou:
- Como você sabe que eu sou gay?

Pensei em uma forma de explicar.
- Como você sabe que uma porta é uma porta?
- Basta olhar para ela.
- Então.
- Não pode ser tão óbvio. Eu não sou tão óbvio.

As feições masculinas estavam lá, a voz grossa, os pêlos. A chucrice. Mas eu conseguia enxergar, eu conseguia enxergar.
- Olha essa porta - e apontei a porta de saída.
- O que tem?
- Ela é da cor da parede.
- Sim?
- Ela está na mesma linha reta que a parede.
- Não estou te entendendo.
- Ela está pregada na parede, pelo amor de deus.
- Onde você quer chegar com isso?

Arrematei:
- Ela continua sendo uma porta. Uma óbvia porta. Por mais que tenha tudo pra se confundir com a parede;
- Eu não sou uma porta.
- Porque não se deixa abrir. Mas deixa eu te dizer uma coisa, meu amigo: uma porta fechada perde completamente a utilidade.

Aí a gente fodeu.