15.2.10

Rolocompressor

Maria da Graça dos Anjos era uma exterminadora. Obstinação era seu nome do meio, e Graça era o que ela estava disposta a vender em troca de dinheiro. Era tão, mas tão determinada a ter o mundo nas mãos que conquistava simpatia.

Sabem como é o Brasil, o frentista do posto de gasolina sempre vai achar esnobe a pessoa que chegar no carro mais caro – quem ousa querer mais ganha a reprovação de todos: “esse pensa que é melhor que os outros”. Mas Maria da Graça dos Anjos era diferente – ela acreditava tão bem que era melhor que os outros, e que era destinada a ter algo melhor do que os outros tinham que seu pensamento contaminava os que estavam a sua volta.

Quando criança, a atenção que Maria da Graça recebia não era a das outras meninas. A expressão “Que fofa!” jamais foi pronunciada perto dela. Uma vez no supermercado, agarrada na perna da mãe, passou pelo seu médico pediatra. O médico cumprimentou a mãe com um sorriso, dobrou os joelhos, passou a mão na cabeça de Maria da Graça e disse “Essa menina vai ser presidente do Brasil”. E era mais ou menos assim que o pequeno ego de Maria da Graça se criou.

Daí a obstinação. Era uma responsabilidade. Ela ia se tornar a pessoa brilhante que todos esperavam que ela viesse a ser. Não sentia solidão, não sentia medo, não sentia frio. Sentia necessidade de grandeza. Cresceu gostando de ouvir “Você é tão inteligente, já tão nova!”. O problema de envelhecer é esse, uma hora você não impressiona por saber escrever direito, não impressiona por ter cultura, não impressiona mais. Você já não é tão novo pra ser a pessoa mais nova a já ter feito alguma coisa. Pena de si mesma, era isso que Maria da Graça sentia de vez em quando.

Não iria se deixar abalar. Estudou como se o mundo acabasse amanhã. Ficou conhecida, para as turmas seguintes do cursinho, como “Rolocompressor”. Primeiro lugar em quase todos os vestibulares que prestou. Não reprovou em nenhum – e nem tentou tantos, só os mais concorridos, pra não perder tempo.

Chegara a hora de sair daquela cidade pequena onde nasceu e ir em conquista do mundo.

Era uma missão.

Maria da Graça dos Anjos já estava chegando longe. Se formou com honras, foi a oradora da turma mesmo sem ter muitos amigos – os mais próximos eram os que queriam, de alguma forma, se beneficiar da companhia de uma pessoa tão promissora. Promissora, aliás, era a palavra que mais assombrava os sonhos de Maria da Graça. Quando ela ia deixar de ser promissora para chegar, enfim, ao lugar de seu destino? Onde ficava o topo, e como ela chegaria lá?

Acabada a faculdade, acabadas as amizades da faculdade. Não resistiram ao mundo real de desemprego e concorrência – e mesmo assim, não adiantava concorrer com a Graça dos Anjos, o primeiro lugar era garantido para ela. As pessoas iam ficando para trás, e o alvo ia ficando mais próximo.

Entrou para a política, se destacou em seus projetos, se corrompeu o suficiente para subir rápido mas era esperta o suficiente para não ser descoberta. Ia ser a primeira pessoa de sua cidade a ser eleita para o Senado. O rolocompressor estava conquistando o país.

Eram pessoas cuidando de seus discursos, policiando sua imagem, planejando suas ações. Maria das Graças era o novo grande rosto da política brasileira. Era uma das poucas pessoas que ainda recebiam fé dos eleitores. Era uma grande promessa. Era o resultado da obstinação doentia que surgia. Enfim, o pagamento. Estava no seu momento de transição, de Pequeno Príncipe para Rei Leão.

Pouco antes da sua eleição, uma enchente tomou conta da sua cidade de nascimento. Nunca se vira uma catástrofe tão grande em terras brasilis. Maria da Graça tomou um avião para uma cidade próxima, para avaliar os danos, mas os danos eram inavaliáveis.

Seus colegas de escola, sua família, seus vizinhos – não sobrou ninguém. Quem não morreu em desabamentos morreu de alguma doença trazida pela água. Morreu a infância de Maria da Graça. Morreram as expectativas.

Ninguém mais torcia por Maria da Graça, pelo menos ninguém que importasse. Onde estava o pediatra que lhe carimbara o passaporte para o mundo dos importantes? Onde estava sua mãe, que morria de saudades mas fingia que não para que a filha não sofresse na capital? Onde estavam as pessoas a quem Maria da Graça prometeu ser uma gigante?

O dilúvio, por devastador que tenha sido, devolveu a graça para Maria da Graça. Para quem provar que era melhor do que todos? Sentiu-se ao mesmo tempo velha e recém-nascida. Uma página em branco, mas sem tempo a perder com rascunhos.

Mandou o partido para a puta que pariu. Jogou os bottons de sua campanha para o Senado no vaso sanitário e puxou a descarga. O vaso entupiu e o banheiro se alagou quase como a cidade natal de Maria da Graça, mas o que valia era a intenção.

Jogou os livros na água que já estava chegando à cozinha. Era seu dilúvio pessoal. O diploma também já estava boiando perto do banheiro. Largou o apartamento aberto, jogou as chaves na rua e se mandou para o interior. Buscava um lugar onde ninguém a conhecesse.

Estava tão determinada a desconstruir sua vida como tinha estado para construí-la. Na nova cidade, prestou um concurso público. Errou algumas questões de propósito, para que não desconfiassem. Mesmo assim, tirou primeiro lugar. Percebeu que estava de volta ao ambiente em que crescera, em que era melhor que todo mundo.

Mas isso não ia atrapalhar. Foi chamada para o cargo. Era a nova operadora de maquinas pesadas da prefeitura. De tão pequena que era a cidade, teve gente reclamando do cargo ser ocupado por uma mulher. Dificuldade pequena, foi fácil para Maria da Graça passar por cima disso.

Primeiro dia de trabalho. Foi designada a trabalhar no asfaltamento de uma rua. Uma sensação de realização tomou conta de Maria da Graça, a felicidade corria por seu corpo todo. Do alto do seu rolocompressor, esmagando pedra brita, Maria da Graça dos Anjos atingiu seu destino.

9 comentários:

  1. Bem que a Dilma podia ler isso...

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  2. Bem que a Dilma podia ler isso... [2]

    Tadinha, precisou de um dilúvio pra ela resolver começar a viver =/

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  3. Eu queria escrever um comentário construtivo, mas não consigo. Seu texto está perfeito. :^)

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  4. É uma bela lição. Espero que para ela também.

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  5. Monique2:02 AM

    Ia ser publicado. Tenho certeza. ¬¬

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  6. Anônimo7:55 PM

    SÓ QUERO DIZER QUE A CULPA É DE LUISA PIMENTEL DE MELLO FRANCO, A MAIOR FILHA DA PUTA EMOCIONAL QUE BRASÍLIA JÁ TEVE, ELA FERROU A MINHA VIDA E O PIOR, NADA ACONTECEU A ELA, QUE TUDO QUE VC ME FEZ PASSAR LHE ASSOMBRE E VOLTE EM TRIPLO...

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  7. Anônimo6:36 PM

    Essa tal de Luisa Franco, se for a que penso não vale nada mesmo, eu tive a presença da tal na minha vida, achei ela manera no inicio, mas é fria, não ama ninguém, só quer dinheiro e não gosta de sexo, oh garota ruim de sexo puta véi.

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  8. Eu gostaria de rever um desenho animado que passou aproximadamente a 29 anos ou 30 anos atrás,não me lembro o nome do desenho mais me lenbro que tinha um personagem de um menino que se chamava Marco,que saia a procura de sua mãe,eu sei que esse desenho fazia um sucesso na épuca todo mundo assistia,mais eu criança e ainda mim recordo de pouca coisa,gostaria muito de revelo.
    ASS:Denilza maceió AL

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