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Mostrando postagens de Março, 2010

Sirene

Meu avô era um homem distante, mas que me parecia muito calmo. Talvez a calma tenha sido adquirida com a idade, ou talvez tenha sido só o choque da morte dos meus pais que não tinha passado ainda. Mas éramos nós: ele, distante e trabalhando na funilaria, minha avó, doente e a melhor cozinheira que eu já conheci na minha vida, e eu, um menino que vivia com a imagem do acidente na minha cabeça.

Não guardo nenhum caderno do meu tempo de criança. As memórias ainda me chocam muito. Encontrei um por acaso, quando me mudei para um apartamento alugado que deveria significar minha liberdade – enquanto, sem saber, eu me escravizava ao aluguel. Folheando, página após página, reconhecia nos desenhos que fazia enquanto não prestava atenção nas aulas a angústia que me abateu depois do acidente. Entre um rabisco e outro, entre as lições de como Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil e os meus primeiros problemas de matemática, lá estavam meus desenhos: carros batidos, pelo menos três em cada página.…

Do trabalho para casa

Os pés doíam e ela reclamava da vida. Da casa para o trabalho, do trabalho para casa: era assim que descrevia seu cotidiano quando alguém lhe perguntava como andam as coisas.

Casa? Acordava antes das cinco horas. A sua mãe também acordava cedo, passavam quinze minutos juntas tomando café antes que a pressa as separasse; a garota para o trabalho e a mãe de volta para a cama.

Trabalho? Atendia o telefone e anotava recados. Dia após dia. Sem maiores envolvimentos, sem maiores ambições. O emprego servia para pagar algumas poucas contas e para que ela pudesse sair de casa durante o dia.

Casa? Chegava tarde demais, à noite. Todos estavam dormindo. Via o pai só aos finais de semana. De vez em quando sentia saudades, de vez em quando nem sabia quem era o homem barrigudo assistindo televisão no sofá da sala.

Era indo de um lugar para o outro que ela realmente existia. Com a roupa de trabalho, formal e com um lenço amarrado no pescoço, era uma entre muitos no coletivo. Se sentia como gado, sendo t…