26.3.10

Sirene

Meu avô era um homem distante, mas que me parecia muito calmo. Talvez a calma tenha sido adquirida com a idade, ou talvez tenha sido só o choque da morte dos meus pais que não tinha passado ainda. Mas éramos nós: ele, distante e trabalhando na funilaria, minha avó, doente e a melhor cozinheira que eu já conheci na minha vida, e eu, um menino que vivia com a imagem do acidente na minha cabeça.

Não guardo nenhum caderno do meu tempo de criança. As memórias ainda me chocam muito. Encontrei um por acaso, quando me mudei para um apartamento alugado que deveria significar minha liberdade – enquanto, sem saber, eu me escravizava ao aluguel. Folheando, página após página, reconhecia nos desenhos que fazia enquanto não prestava atenção nas aulas a angústia que me abateu depois do acidente. Entre um rabisco e outro, entre as lições de como Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil e os meus primeiros problemas de matemática, lá estavam meus desenhos: carros batidos, pelo menos três em cada página.

Hoje eu entendo que eram cicatrizes se formando. Cada desenho era um pedaço da casquinha que se formava enquanto eu tentava me recuperar do baque. E não era só nos cadernos, as páginas eram insuficientes para todas as cicatrizes que eu precisava formar. Lembro de ter desenhado muito nas carteiras da sala de aula, e de já ter sido muito repreendido pelas professoras por isso. Entretanto, quando as professoras chegavam mais perto e viam o metal retorcido desenhado em grafite na madeira lisa da carteira, seus rostos refletiam um misto de susto e dó. Acabavam por não brigar.

A imagem do acidente em si, nunca recordei completamente. Lembro do depois. Lembro de estar assustadíssimo no asfalto gelado daquela noite escura, olhando o carro se consumir em chamas. Eu tinha conseguido escapar – e não faço ideia de como – mas lá estavam meus pais. Queimando. Provavelmente já mortos por causa do capotamento, mas as chamas faziam questão de matar bem matado o que quer que por um acaso tivesse sobrevivido.

Sonhei muito com isso enquanto crescia. Cansei de receber abraços da minha avó – e broncas do meu avô, que precisava acordar cedo no dia seguinte – ao acordar gritando durante a noite. Os sonhos eram terríveis. Eu era a causa, eu era o assassino. Engraçado como, nos sonhos, eu nunca estava fora do carro. Eu estava dentro, e gritava, e por isso meu pai se distraía e perdia a direção. O carro não capotava, apenas irrompia em chamas subitamente. Tudo por causa do meu grito, tudo por causa da minha voz. Aos poucos, o longo cabelo loiro de minha mãe se consumia pelas labaredas, seu pescoço queimava de dentro para fora, ela me estendia a mão... e sua cabeça caía, como se tivesse sido abatida por uma guilhotina de fogo. Então meu pai me olhava com olhos de quem tem raiva, mas também de quem perdoa o algoz pelo fato do algoz ser tão ingênuo, e também morria.

Meu avô jamais conversou comigo diretamente sobre o fato. Provavelmente era tão difícil para ele quanto era para mim. Eu não teria coragem de falar sobre o acidente com meus avós, mas o irônico era como eu fazia questão de contar para cada coleguinha da escola sobre o ocorrido trágico. Aliás, era para o mais trágico que eu apelava. Era a versão do sonho que eu passava adiante, e não a não menos apavorante versão verdadeira. Eu contava como se fosse engraçado - eles me olhavam como se eu fosse forte.

De vez em quando os desenhos não bastavam, e uma desafiadora raiva surgia dentro de mim – mesmo que eu já não sofresse pelo acidente em si. O tempo já tinha jogado uma pesada pá de areia sobre aquela memória, e ela já não me doía tanto (ou tão obviamente) quanto antes. Eu já não sentia mais falta dos meus pais, nem chamava por eles durante a noite.

Cresci desenvolvendo um estranho fascínio pelo asfalto. Me machuquei muito até o fim da minha adolescência – qualquer queda já me era o suficiente para quebrar um braço ou uma perna, e eu caía muito por brincar muito na rua. Gesso envolvendo minha pele era tão comum quanto usar roupas para me esquentar em um dia frio. Não consigo calcular quantas vezes meu rosto beijou o asfalto com violência capaz de quebrar dentes.

Depois disso, com meus avós cada vez mais frágeis e dependendo de ajuda, frequentar hospitais virou uma rotina. Entre minhas fraturas e os ataques cardíacos de meu avô, descobri minha vocação. Me descobri um missionário designado a viajar entre cores: conhecer o vermelho do sangue turvo por sujeira e misturando-se com o cinza pesado do asfalto, com pedaços brancos de osso lascado que atravessava a pele roxa de um acidentado; acelerar entre luzes vermelhas e azuis que giram e gritam desesperadas pedindo passagem, a entrar na branquidão de falsa calma de um hospital entregando os restos pálidos de um sobrevivente.

Quantas vezes já me deparei com cenas tão parecidas com a minha? Quantas vezes já carreguei crianças que choravam, assustadas, no asfalto frio, condenadas a desenhar suas cicatrizes metálicas em seus cadernos por toda a sua vida? Quantas vezes eu descobri da forma mais difícil que, por mais que eu socorra os piores ferimentos, eu nunca vou poder me salvar?

De certa forma, eu já fui salvo. Eu sou um sobrevivente e é melhor não reclamar do tempo que tenho de prorrogação. Só me resta acionar a sirene e seguir minha viagem. O asfalto é mais cruel que o tempo.

3.3.10

Do trabalho para casa

Os pés doíam e ela reclamava da vida. Da casa para o trabalho, do trabalho para casa: era assim que descrevia seu cotidiano quando alguém lhe perguntava como andam as coisas.

Casa? Acordava antes das cinco horas. A sua mãe também acordava cedo, passavam quinze minutos juntas tomando café antes que a pressa as separasse; a garota para o trabalho e a mãe de volta para a cama.

Trabalho? Atendia o telefone e anotava recados. Dia após dia. Sem maiores envolvimentos, sem maiores ambições. O emprego servia para pagar algumas poucas contas e para que ela pudesse sair de casa durante o dia.

Casa? Chegava tarde demais, à noite. Todos estavam dormindo. Via o pai só aos finais de semana. De vez em quando sentia saudades, de vez em quando nem sabia quem era o homem barrigudo assistindo televisão no sofá da sala.

Era indo de um lugar para o outro que ela realmente existia. Com a roupa de trabalho, formal e com um lenço amarrado no pescoço, era uma entre muitos no coletivo. Se sentia como gado, sendo tocado de um lugar para o outro.

O ônibus era o único lugar em que sobrava tempo para fazer planos. Planejava comprar um carro, mas aí se lembrava que não sabia dirigir e teria medo demais para tentar - sem contar o tempo que era tão pouco. Pensava em morar mais perto do trabalho. Pensava em mandar uma carta pra algum programa de TV falando como era horrível estar espremida entre tantas pessoas, com janelas fechadas e com um estranho roçando na sua bunda.

No ônibus, ela era uma socióloga. No ônibus, ela era uma pensadora. No ônibus, ela era uma astronauta, ela era genial, era uma revolucionária.

Mas aí chegava a hora de desembarcar.

Cura gay

Como as pessoas pensam que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade é: "Eu sou gay e quero deixar de ser." "MAS QUE...