29.6.10

Redenção e Sabão

Uma das coisas que mais me interessou a vida toda foi como as pessoas em algum momento na vida procuram se redimir do que fizeram. Meu avô, agora com setenta e vários anos, é uma dessas pessoas.

Ele sempre foi um dos meus personagens favoritos - eu tenho o hábito de tentar colorir minha vida focando em certas coisas interessantes das pessoas, talvez para não encontrar motivo para reclamar delas. Meu avô sempre fez parte do meu repertório de coisas interessantes para contar para as pessoas tentando fazer com que elas me achassem interessante também.

Eu contava que ele nasceu no navio, vindo da Áustria para o Brasil. Não sei quando eu ouvi essa história, nem de quem. Só sei que provavelmente não se trata da verdade. Muito do que eu ouvi quando criança também foi embelezado.

Meu avô não foi um pai muito bom para minha mãe e meus tios. Bebia, deixava sem comida, espancava. Um dos momentos mais marcantes da minha infância foi encontrar um poema que minha mãe escreveu aos dezessete anos (ela já escrevia para um jornal local) chamado "Morra, Pai". Um poema, apesar do título, belíssimo em que ela pedia para que o pai morresse para finalmente poder amá-lo.

Minha mãe abandonou a escrita já há muitos anos, e agora seu desejo poético deve estar bem próximo de se realizar. Quando criança, eu achava muito difícil encaixar a figura de velho gordo e simpático que eu via em meu avô nas histórias de pai terrível que eu ouvia da minha mãe.

De alguma forma, mesmo tendo boa parte da memória desfigurada pelo álcool, eu acho que meu avô se arrependeu do que fez. Ele é gente, impossível não se arrepender nem um pouquinho. Chegou a perder um filho, que de tanto se sentir sufocado resolveu morrer de pneumonia aos dezenove anos.

Meu avô já está doente há um bom tempo. Não sei exatamente qual foi a doença, mas sei que algum tempo atrás seu coração inchou ao ponto de ele precisar usar uma cinta ao redor do tórax para conter o crescimento.

Quando melhorou, resolveu voltar a trabalhar e passou a dedicar os seus dias a fazer sabão. Sabão tão forte que machucava as mãos de quem o usava. Sabão tão forte, quem sabe, que pudesse limpar as manchas do seu passado.

Agora é ele que está com pneumonia, a doença que matou seu filho, e está na UTI já há alguns dias. Se ele se for, fica de herança para mim a certeza de que a vida tem sempre um jeito poético de resolver as coisas.

O equilíbrio sempre é atingido, nem que seja só por metáfora. Nem que seja fazendo sabão, nem que seja ficando com diabetes por não achar a vida mais doce, nem que seja fazendo o coração ficar um balão gigante - a redenção vem.

Acho que cheguei perto de uma definição ideal do que é ter fé.

Você arranja, depois de anos de tentativas, uma pessoa legal que não deixa de falar contigo depois do segundo encontro. Uma pessoa que te dá até a esperança de passar mais de um mês juntos - felicidade eterna.

Pouco tempo depois, vocês vão pra cama. O sexo é legal, a química é respeitável. Você dorme de conchinha pela primeira vez em séculos, tão feliz que quase não se importa com a dormência de um dos braços.

E então você cai no sono feliz dos amantes - somente para sonhar que está fazendo cocô, o cocô mais importante da sua vida. Um sonho relaxante.

E então você acorda com um pum e reza para que tenha sido só no sonho. Ou, pelo menos, para que ele esteja dormindo e não tenha sentido o ventinho quente no pau.

FÉ.

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Pior que isso é imaginar que seria legal ter um lugar pra poder contar essas coisas e lembrar que você tem - e não usa há dois meses. Engraçado como na época da minha vida que eu estou mais decidido a ser um livro aberto foi a primeira vez que esse blog ficou mais de um mês sem nenhuma atualização. Posso jogar a culpa na faculdade? A faculdade comeu meus posts.

Isso e a minha pretensão de só querer postar contos aqui. Pra quê, se ninguém lê mesmo e a minha analista está em férias? Economia é tudo.

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