Ela olhou pra mim como se eu fosse um leproso. Mais, olhou pra mim como se eu fosse um leproso que estuprara sua mãe.
Tudo bem, a primeira impressão nem sempre é a que fica. Marcar encontros pela internet pode dar nisso, até acho que a chance de terminar em decepção é de quase 100%. Isso só não me abala porque acho que a chance de qualquer relacionamento terminar em decepção é de quase 100%.
Ela me seguiu com os olhos conforme eu entrava no restaurante. A impressão que eu tinha é que ela pensava "Pode não ser ele. Pode ser uma coincidência. Pode ser outro homem com topete, gravata azul e uma rosa na lapela, tem tantos homens que se vestem assim no mundo."
Quem sabe o pensamento continuasse, "e que merda, Leocilde, se ele falou que ia de topete, gravata azul e rosa na lapela, já era um puta de um indício de que ele seria um cafonão desses."
Agora, eu não me decepcionei nadinha. Não que ela fosse uma beldade (e, chamando Leocilde, alguém vai ter uma chance na vida de se tornar uma beldade?), mas eu já esperava que ela fosse gordinha, cabelo loiro descolorido mais do que devia e tentando compensar o cabelo ralo com uma quantidade de laquê capaz de sufocar um animal pequeno.
Não tinha mais jeito de adiar. Me aproximei:
"Com licença... Leocilda?"
"LeocildEEE." Ela fez questão de demonstrar que não estava satisfeita. "Você deve ser o Jean."
"Eu mesmo."
Puxei a cadeira pra sentar.
"Desculpa o atraso, é que o trânsito..."
"Você não está atrasado, eu é que cheguei antes."
Ela falava sem tirar o olho da cestinha de pães à sua frente. Uma simpatia.
"Você não parece muito com a sua foto... Você não disse que usava óculos."
"É pra te ver melhor", disse eu, e ri amarelo.
Ela não gostou da referência à Chapeuzinho. Talvez sua vó tenha sido devorada por um lobo. Ou fugiu com um lenhador. Ou fugiu com um lobo, nunca se sabe.
Nisso, um outro homem entra no restaurante e começa a perambular por entre as mesas, como se procurasse alguém. Não encontrou e sentou-se no bar, com cara de quem espera. Olhava para o relógio a cada trinta segundos, só pra confirmar que trinta segundos tinham se passado.
A Leocílde parecia cada vez mais impaciente comigo. Pediu licença. "Vou ao toilette." O vocabulário era tão pretensamente fino que me irritava.
Enquanto caminhava rumo ao banheiro (provavelmente para pular pela janela), o homem que esperava por alguém a cutucou.
"Com licença, Leocilda?"
Ela ficou com cara de espanto.
"Sim, sou eu."
Ele estendeu a mão.
"Prazer, Jean!"
Qual a probabilidade?
Ela nem fez questão de voltar para a mesa e reparar o equívoco comigo. Sussurrou qualquer coisa no ouvido do homem e saíram juntos.
Fiquei decepcionado, não nego. Por mais que estivesse esperando uma decepção, não esperava esse tipo de engano acontecendo. Comecei a olhar ao meu redor, tentando tirar algo de bom da experiência. Vi uma mulher, loira, sozinha em uma mesa. Mais sem graça que a última, mas, pela cara, parecia menos presunçosa.
Caminhei até ela.
"Com licença... Leocilde?"
"LeocildAAA".
"Prazer, Jean... Peraí, você não tinha dito que usava óculos."
Claro, era só um equívoco. Agradeci, era uma decepção a menos por aquela noite.
Pelo menos até que eu visse os pêlos no pé dela.
1 comentários:
haha Muito bom!
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