A camisa do Vasco da Gama chacoalhava na janela, presa por dois grampos num varal improvisado (preso entre uma porta fechada de guarda-roupa e o vãozinho da grade do berço). O bebê assistia o vaivém da camisa sem entender direito se aquilo era um urubu indeciso entre entrar e sair pela janela ou se era a noite oscilando com o dia - mas sabia que aquilo ia marcar sua vida para sempre.
A mãe não era vascaína, era o pai. Não me pergunte o forrobodó que acontecia na cabeça da criança quando, aos seis meses, foi jogado para cima pelo pai num grito de gol, em pleno estádio de futebol. Sorte (do bebê, ou do pai?) que caiu novamente nos braços paternos, aliviando a culpa do pai, que olhou para a esposa furiosa com cara de "Olha, coordenação motora! A gente vê por aqui.".
Os meses sem sexo (entre marido e esposa, não entre pai e filho) decorrentes da cena não foram penalidade suficiente: foi o primeiro gol comemorado entre os dois (pai e filho, não entre marido e esposa). Pelo pai, com um grito e um pulo. Pelo filho, com um berro e uma chupeta perdida.
A partir de então, era Vasco da Gama para toda a família.
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As coisas acontecem mais ou menos assim: A gente nasce mudo (de palavras, não de barulho. Em barulho a gente já nasce fluente) e vai copiando tudo o que os pais falam, balbuciando e errando até falar exatamente as coisas que nossos pais nos falaram. As palavras foram copiadas, a impressão da fotocópia começa a acontecer).
Depois, não nos satisfaz mais falar só as palavras que nossos pais falam: os filhos começam a andar com passos iguais ("Olha lá, ele é tortinho pra esquerda igual o pai! Vai ser comuna!") e a reagir da mesma maneira: "Essa Coca é minha, filha da puta", que eu realmente ouvi da voz de um menino de uns três anos que conversava com a mãe, me fez pensar que o menino era filho de um pai viciado em Coca (espero que seja Cola).
Aí, quando a gente cresce e fica puto da cara com o espelho por ele mostrar o rosto do nosso pai e não o nosso, e vê que se fodeu exatamente da mesma maneira que nosso pai se fodeu na vida (perpetuando um ciclo de fodelança familiar-não-incestuosa), o jeito é procurar um jeito de se distrair.
É então que você vai pro jogo de futebol torcer pelo Vasco.
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Tá certo que nem sempre a cópia sai muito bem. Talvez o processo de reprodução só se conclua quando o filho passa a beber a mesma cerveja que o pai e a reclamar dessa porra de antena que nunca pega da mesma maneira.
(Aliás, essa ideia de falar que vai reproduzir quando a espécie procria me incomoda um pouco. Porra, não é mais fácil criar uma criança? Tem que reproduzir, igualzinho?)
Quem sabe o processo não seja como o de uma fotocópia, e sim como um carimbo. Você é seu pai, esfregado numa almofada de tinta e pressionado contra uma folha em branco. Igualzinho, mas tudo ao contrário.
Seu pai concorda com isso desde o dia em que teve de te bater porque você gritou "Mengo!". Te ajeita, carimbão.
1 comentários:
Você é fantástico, Flávio. Sentia muita falta dos seus textos. E esse tema em particular tem sido uma constante na minha vida porque é como se eu conseguisse apontar cada defeito que eu vejo em mim, não gosto e atribuir a responsabilidade a quem me criou como cópia e não como indivíduo original. Dá pra dar um desconto porque era o único jeito que eles sabiam fazer. Mas desanima.
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