13.1.11

A Marca da Noiva

Chupei-lhe o pescoço violentamente, como se estivesse deglutindo um gomo de laranja. Comprometido, sim, eu entendo. Mas minha presença se recusa a acompanhar-lhe apenas pelos momentos em que estamos juntos.

Eu sei que isso vai dar problema. Eu sei que ele vai chegar em casa para encontrar a mulher aos berros, perguntando que marca é essa no seu pescoço, seu traidor. Eu sei que provavelmente isso vai fazer com que ele se desinteresse um pouco por mim, que peça mais discrição na próxima vez... Que ele passe a dar mais atenção para ela, e presentes para ela, e beijos para ela. Gastar seu tempo com ela, nem que seja brigando e arranjando desculpas pela marca que eu deixei.

Tempo que, sem esse chupão, poderia ser meu.

Mas o que é o tempo numa questão dessas? Não é importante. A noiva é importante e amada? É, sem dúvida. Mas esse carimbo de carne vermelha tatuado em seu pescoço serve pra levantar questões. Fala que eu estive ali, que por alguns momentos aquele corpo foi o meu playground. O meu, não o dela.

Dela, ela que não sabe nem brincar direito. Que não escorrega do jeito que eu escorrego, que não trepa-trepa como eu trepo-trepo, que não se balança na gangorra como eu gangorreio.

A marca da noiva está nos anos de vida, nos jantares de família, até na conta bancária. A minha está na pele. A pele é minha. Você pode ter tudo, querida, mas o corpo dele é meu. É em mim que ele pensa. Tá ali a mancha de sangue coagulado em seu pescoço pra não me deixar mentir.

Só não se preocupe, dona Noiva. Minha marca é temporária: semana que vem a mancha desaparece. Ou, quem sabe, amanhã mesmo ele disfarce com um pouco da sua maquiagem ou uma gola mais alta.

Aí ele volta pra cá.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...