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Mostrando postagens de Dezembro, 2011

Alargadores

Perdi a conta das vezes que minha boca escorreu sangue depois de escovar os dentes. Todos os sorrisos que me obrigo a dar para cada um dos clientes que cumprimento a cada dia nesse meu emprego dos infernos se descontam com passadas cada vez mais vorazes da escova média sobre a minha gengiva.
Meu hálito fica uma mistura de menta e sangue A+, mas pelo menos a raiva arranja um jeito de ir embora e, de quebra, lava a falsidade dos meus sorrisos.

“Tira esse negócio da cara, Flávio, pelo menos enquanto eu estiver na sua casa, por favor.”
Palavras ditas com tanto pânico pelo meu primo que eu não posso deixar de conferir se o que eu tenho na orelha é um alargador ou uma faca com um olho na ponta. Não entendo como uma criança de doze anos de idade se deixa levar tão fácil pelo pensamento medíocre da sua família.
(Me sinto mal chamando minha família de medíocre. São pessoas especiais e que eu amo muito, mas que escolheram a mediocridade de uma religião absurda para confinar suas vidas.)

Madrugadas

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Nos momentos mais solitários e interessantes da vida, me vi obrigado a me entender com as madrugadas. Apenas um insone tem real noção do que é a eternidade.
Os dias, por mais monótonos que sejam, sempre tem algo que os diferenciem. Pode ser uma nuvem a mais no céu, um calor despropositado em pleno junho ou um carro que bate num hidrante e espalha água pela vizinhança, mas alguma coisa sempre distingue um dia do outro.
As madrugadas, não.
A temperatura, por mais que varie, nunca vai ser tão influente como o clima que só as madrugadas sabem ter. As horas – que na madrugada são consideravelmetne mais longas – passam com um ritmo de pêndulo em slow motion. O tempo vai e volta. Quanto maior a indisposição para o sono, mais lenta a noite.
Mais o corpo se inquieta querendo correr. Se a cabeça se engana e pensa que pode dormir, os joelhos resolvem pedalar e o oásis de sono chegando vai embora.
Um céu nublado não deixa a madrugada mais escura. No máximo, colore o teto do mundo de cinza.
S…

Timidez

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Nascer tímido não é, necessariamente, morrer tímido. Tímido seria provavelmente a última palavra que algum amigo meu usaria para me descrever.

Mesmo assim, eu procuro ter alguma privacidade. Algumas coisas privadas, nada realmente secreto. 
O problema é quando você descobre que entrou num bate-papo de internet depois de brigar com o namorado, adicionou algumas pessoas no MSN (nunca mais tinha usado, mas minha mãe frequenta) e que agora todos seus amigos vêem "Flávio Voight adicionou NEGÃO_SARADO_QUER" nas suas atualizações. 
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O parágrafo anterior foi uma briga entre a primeira e a terceira pessoa, não foi? Na terapia, eu costumo falar "A gente faz" pra tudo que provavelmente só eu faço no mundo. 
Aliás, foi a terapia que me fez escrever esse texto e atualizar esse blog depois de tanto tempo. Não dá pra ficar dois anos fazendo análise e falando que se sente bem quando escreve e... não escrever nunca. 
Eu escrevia mais quando ouvia menos música. Escrevia pra alivia…