15.1.12

Cânceres


Um objetivo na vida é essencial.
Há quem vague - eu vago - pela própria existência esperando que ocorra algo que justifique a escrotidão do cotidiano. Que vive esperando que ocorra um momento - abracadabra! - em que apareça, magicamente, a mudança.

A questão é que a mudança é um parto. Ou a gente faz uma força imensa, arranca da gente mesmo aquilo que quer conquistar - pagando pelas decisões com que precise arcar - ou aquela bola de mudança-que-quer-ser vai acabar arregaçando nossa buceta simbólica rumo à existência.
E aí você muda porque está com câncer. A gente morre de câncer porque fechou as pernas pra vida. Não há Nossa Senhora do Bom Parto que dê conta de arrancar uma mudança de uma vida cancerígena.

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História mais real impossível: amiga minha morava com a madrinha, uma mulher de seus quase cinquenta anos, criada pra cuidar do marido e que, esperando por uma fada-madrinha que lhe trouxesse um marido, não conseguiu nenhum.
Sabe-se lá o tamanho da bênção que essa mulher teve por não ter se casado. Foi uma rebeldia à sua própria revelia. Acabou tendo que cuidar da mãe, já que foi criada pra ser criada e não arranjou homem nenhum pra chamar de mestre.

A mãe da madrinha da minha amiga é daquele tipo de pessoa que assiste o Datena. Daquele tipo de pessoa que adora tragédia, que vê o mundo como um perigo, os jovens como perdidos. Sua vida, uma luta.
Ai de você se reclamasse de estar doente perto dessa mulher. Você até ganharia sua parcela de carinho em forma de dó, mas te prepare pra ouvir as mazelas da velha (que vai precisar provar pra você com todas as letras que é uma desgraçada).

Voltando à madrinha da minha amiga (filha da desgraçada), sei que hoje ela está com um câncer horrível na vagina. Minha amiga, outro dia, viu a madrinha batendo a mão na pelve e gritando a plenos pulmões  'EU NUNCA USEI ESSA MERDA E AGORA ESSA BOSTA ACONTECE COMIGO!".

Talvez se tivesse usado, né?

O mais maluco da história é que, além da quimioterapia, o tratamento é esfregar um creme vagina adentro, com a ponta dos dedos. O creme ferve e arranca toda a pele superficial da região e devasta a bucetude da mulher. Uma masturbação forçada e a seco, que por mais dolorida que seja pode ser parte da cura.

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Uma mulher que conheço tinha uma frase ótima: "O que é do burro vem no cocho". O problema é passar a vida amarrado, esperando que a comida venha, né?
Esperando marido. Esperando carreira. Aguardando significado.

Se o que é do burro vem do cocho, compensa ter objetivo nessa vida? Existe objetivo que não envolva outra pessoa ou alguma condição que a gente não consegue controlar?
A primeira amiga que citei, a que morava com a madrinha, não tem a menor vontade de casar. Quer viajar o mundo sozinha. É dessas pessoas capazes - eu só sou capaz disso da boca pra fora. A língua fica solitária demais sem alguém pra falar - ou pra roçar uma língua na outra. Pra lamber as feridas, talvez.

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"A língua é o chicote da bunda", dizia a mãe de uma outra amiga minha, querendo dizer que quem julga acaba pagando pelo que falou.

Agora não sei onde que o câncer vai ser em mim, se na bunda ou na língua. Nos dois, quem sabe? Melhor segurar a minha língua antes que eu tome no cu.

3 comentários:

  1. eddie6:22 PM

    haha. sou como sua amiga e sigo a linha 'vivo sozinho sim, e daí'. o fato é que viver na zona de conforto, como o burro, é bom. Mas poder andar por aí e nós mesmos trilharmos nosso caminho, tem um gosto melhor. Claro, tudo tem um preço e a vida a todo momento nos faz essa pergunta: vale a pena?
    ótimo texto, flavio.

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  2. Encontrei o teu blog por acaso.
    Escrita crua, directa, adorei!
    Vou seguir, se não te importas!

    Quanto ao tema, acho que esperamos sempre que a nossa vida seja aquilo que sonhamos desde miúdos, e depois,fica uma bosta. O povo português tem muito esse hábito de se achar "desgraçado".
    Mas pior que isso, é aquele que vê a desgraça do vizinho e pensa "antes ele que eu"! Misantropia no seu melhor...

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  3. Anônimo1:04 PM

    Otimo um excelente blog vão no meu tambem (www.magicthemedic.blogspot.com é em português

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