29.3.12

O demônio sou eu

Não gosto de citar pessoas que conheço nos meus textos, quando de alguma maneira elas vão ser criticadas. Apesar disso, as respostas das pessoas não costumam ser tão ruins assim.

Uma tia minha, depois que eu a critiquei pesadamente em um texto sobre suas escolhas religiosas, em que fiz uma breve menção sobre como ela engordou trinta quilos tentando se manter Testemunha de Jeová durante tanto tempo, ficou ofendidíssima comigo.

"Eu engordei vinte quilos, não trinta!", reclamou.

De qualquer maneira, eu preciso me impôr e botar a minha opinião para fora de vez em quando, pra esse blog não virar uma coleção chapa-branca de histórias sobre meu irmão me fazendo comer meleca.

Mentira, eu comia meleca por conta própria.

--

Estudar psicologia me faz entrar em contato com muitas pessoas interessantes (inclusive comigo), e em geral tem sido uma experiência de abrir a cabeça e aprender a ver que todo mundo tem um diamante bruto dentro de si.

O problema é que tem gente que precisa de muita dinamite pra conseguir revelar esse diamante.

--

Sala de aula, discussão sobre sexualidade. Aparentemente, uma grande revelação para alguns dos alunos prestes a se formar em psicologia: Homossexualidade não se trata. Ser gay não é doença nem é reversível.

Não sei se é pelo fato de eu ser gay que me senti tão incomodado quando algumas vozes na sala - minoria, mas anda assim vozes - contestaram a fala da professora. Mais de uma vez. "Gay se cura sim!", diziam.

Disso se seguiram alguns meses de discussão, em mais de uma matéria e com mais de um professor, com os mesmos alunos - sorridentes, loiros, evangélicos - comentando como a sua fé deveria ser respeitada.

Segundo eles, quando um paciente diz "Estou sofrendo, por favor me ajude! Ser gay é ruim, quero deixar de sê-lo", ele precisa ter a demanda atendida.

O que eles esquecem é que um, todas as tentativas de "cura" já tentadas foram desastrosas e dois, nem sempre o que um paciente pede é o que ele precisa.

--

Não pretendo transformar esse texto em mais um manifesto sobre como a homossexualidade deve ser aceita. Isso é óbvio e qualquer pessoa com mais de dois neurônios sabe.

O que me incomodou foi como os sorrisos dessas pessoas, que se mostram sempre tão carinhosas, tão cristãs, tão generosas, me pareceu desesperado. Essas pessoas que cordialmente discordam do que eu acredito me parecem tão... boazinhas, inofensivas, mas os seus sorrisos sempre me parecem ligeiramente psicóticos.

Eu entendo: essas pessoas se sentem vítimas de preconceito. Tudo aquilo em que acreditam está posto em cheque pela ciência, pelo mundo pensante. São mártires da fé.

Depois, pensando melhor, percebi como eu sorria do mesmo jeito quando eu era testemunha de Jeová e precisava explicar na sala de aula porque é que eu não podia ir em festas de aniversário.

Eu ria de nervoso, porque não acreditava realmente naquilo. Porque eu sabia que, no fundo, eu não via nada de mal em cantar parabéns pra alguém, mesmo achando meio idiota comemorar o mero fato de estar envelhecendo. Além do mais, eu queria comer bolo.

Resultado? Sorriso amarelo.

--

O cúmulo do cúmulo foi quando, em uma aula, a professora falava que a psicologia pode sim estar presente nas igrejas, mas enquanto ciência. Até aí, tudo bem.

"Menos na igreja Universal", disse ela, "expulsar demônios não é aconselhamento psicológico."

Resolvi brincar: "Ainda se escutassem o demônio, né? Dessem um espaço pras angústias do demônio, falassem pro demônio que tudo vai ficar bem...".

Bastou para a porta-bandeira do movimento evangélico na sala de aula ficar puta. Ela ergueu a voz, e com o mesmo sorriso desesperado que me incomoda tanto, bravou:

"Tenta, Flávio! Tenta aconselhar o demônio pra ver o que acontece! TENTA! Conversa com o demônio!"

E essa pessoa quer tratar alguém um dia.

--

"Respeite minha fé", diz ela, enquanto morre de medo de Satanás. "Respeite minha fé", dizia eu, criança, enquanto salivava por um pedaço de bolo de aniversário.

Eu já passei por essa de precisar afirmar minha fé a todo custo. Depois de um tempo, obrigado pela vida, fiz bem aquilo que me foi sugerido: escutar um pouco o demônio, pra ver qual era a dele.

Sabe o que eu descobri? O demônio sou eu - mas hoje eu sorrio de verdade.

27.3.12

Morcegos

Nunca fui uma pessoa muito cheia de medos, a não ser quando meu irmão me obrigava a ouvir Roberto Carlos de trás pra frente e eu saía correndo com medo de Satanás me abraçar travestido de Lady Laura.

Pra quem mora sozinho, ser pobre não é tão ruim assim. Você nem sempre tem grana pra almoçar, OK, mas pelo menos você dorme em paz sabendo que os barulhos que você escuta de madrugada não são de gente querendo assaltar sua fortuna. No máximo é barulho de cupim, e de cupim ninguém tem medo.

--

E outra, eu moro em prédio (prédio-poleiro, minha mãe disse quando viu a quantidade de microapartamentos em cada andar). Em andar alto não tem rato. Mosquito é raro, se bem que eu tenho acordado com umas picadas vermelhas no corpo que eu não sei de onde vêm. (Será que é cupim roendo minha cara de pau?)

Assim, com pouco risco de ser assaltado (por ser pobre) e pouco risco de bicho (por estar no alto), eu não me incomodava muito morando sozinho a não ser quando a ocasional pomba se empolgava no vôo e atingia minha janela.

--

Quinze minutos atrás começou a chover. Apesar da música boa no fone-de-ouvido, fui fechar a janela do quartinho (apesar do meu poleiro ser miúdo, ele tem dois quartos: um pequeno e o outro menor) pra não molhar a cama das visitas, um confortável colchão sem lençol com uma marca de mofo.

O que era apenas uma visita breve ao quartinho pouco utilizado virou uma odisséia. Chegando perto da janela, um monstro negro estava na cortina, todo encolhido.

Juro que de primeira achei que fosse uma aranha. Sei lá como, uma aranha gigante subiu pela parede e, pra chuva forte não a derrubar, teria se aconchegado na minha cortina.

Antes fosse uma aranha. Com uma aranha gigante, a solução seria fácil: morrer ali mesmo.

--

Antes que eu conseguisse fechar a janela, o monstro negro bate asas e vem na minha direção.

Era um morcego. Enquanto eu emitia mais decibéis que um foguete prestes a alçar vôo atmosfera afora e corria, ele pousou no meu pescoço. Não faço ideia de como cheguei ao banheiro, arranquei o pano de chão e ataquei bravamente (tão bravamente quanto uma menina de seis anos de idade que vê uma barata) o monstrinho alado.

--

Não reparei se ele estava vivo ou morto. Fui para o outro quarto e me preparei para a batalha. Fechei a porta o mais rápido que eu pude - pra garantir que ele não ia entrar na minha recém-declarada fortaleza de guerra - e me vesti com a melhor armadura que eu consegui.

A armadura consistia de uma blusa de inverno, que garantia que ele não ia tocar nos meus braços, costas e mãos. Na cabeça, vesti um calção, pra garantir que ele não atingisse meus óculos na tentativa de me cegar pra me matar mais fácil.

Quando percebi que, com o calção na cabeça, eu já estaria praticamente cego, resolvi enfrentar o monstro de cabeça limpa. Me armei com uma calça jeans - na minha cabeça fez sentido que ele morreria se atacado repetidas vezes com uma calça jeans.

Respirei fundo e fui guerrear.

--

Desnecessário. O morceguinho se encolheu no chão do banheiro e morreu. (Quando digo que ele se encolheu, ele realmente diminuiu de tamanho. Estava com uns 10 centímetros agora, enquanto antes eu tenho praticamente certeza de que ele era maior que um albatroz adulto.)

Ainda não tive coragem de recolher o corpo. Joguei um pano de chão no defunto, para respeitá-lo.

Quanto ao quartinho, acho que vai ser fechado pelo tempo que eu ainda morar aqui. Tenho certeza que a família está hospedada lá, pronta para me matar quando eu ousar abrir a porta. Eles querem sangue - e nem é pra chupar.

--

Lembrei da minha primeira (e única) memória de morcegos que tenho na vida.

Quando eu tinha uns doze anos, minha mãe me chamou no quarto dela. Sobre sua penteadeira, um morceguinho dormia calmamente entre aos frascos de perfume.

Achei a coisa mais linda da vida. Acho que meu pai até pegou ele na mão, como se fosse um filhotinho de gato.

--

Quase desenvolvi ternura pelo morcego que eu matei, agora, da mesma maneira em que o filho do Eike Batista deve sentir ternura pelo cara que ele atropelou. Nossas histórias são parecidas: foi sem querer, uma coincidência, a vítima estava onde não deveria estar e, por uma infelicidade do destino, acabou morrendo.

Além disso, nossos pais são bilionários.

--

Acabei de escutar um 'IIINCH' vindo do banheiro. Acho que o morcego voltou à vida. Tudo que eu precisava era disso: estar sozinho em casa e ser atacado por um morcego zumbi. Se antes ele queria sangue, agora quer o meu cérebro.

(Pra clarificar, IIINCH é o barulho do sonar emitido pelo morcego quando ele está prestes a matar alguém. Ele mede a distância da vítima em polegadas.)

Onde eu compro uma UZI pra me defender?

24.3.12

Pelo bairro

A última semana foi tão pesada que me fez planejar um fim de semana cheio de eventos.

Convidei mil amigos pra comer pizza aqui em casa, combinei de sair com o pessoal da natação, fiz tudo o que eu pude pra que o meu final de semana não fosse baseado, mais uma vez, em ficar em casa comendo Shot de amendoim.

Obviamente, nenhum dos combinados deu certo. Pra piorar, o meu celular estragou e me impediu de ligar pra alguém pra tentar combinar algo de última hora. Pra repiorar, o namorado pediu um tempo.

Escrevo isso comendo Shot de amendoim.

--

Na falta do que fazer, dar uma volta pelo bairro me pareceu ótimo. O dia já tinha escurecido e a temperatura estava baixa. Dia nublado. Exatamente o visual que me encantou quando vim para Curitiba pela primeira vez e  me fez mudar pra cá.

Fui desfilando a cara feia pelas ruas, ocasionalmente ficando com medo de algum grupinho que se aproximava e pensando em atravessar a rua, ocasionalmente assustando alguma velhinha ao passar por ela e vê-la atravessar a rua com medo de mim.

--

Até que passei por uma mulher, negra e com tererês multicoloridos no cabelo.

Atravesso seu caminho ignorando completamente a existência dela (e ela a minha). Depois de cruzar com ela, escuto um "Oi!" tão alegre que confesso que fiquei com medo.

Respondo um "Oi" tímido. Ela para o seu caminho e diz, bem alto, "Sorria, garoto! Anda com a cara fechada não!".

Me senti um bobo, andando por aí sem mostrar os dentes pelo caminho.

"Isso aí!" disse pra ela, e abri um sorriso. Ela respondeu "Agora vou correr, que tenho que trabalhar. Tchau!" e realmente saiu correndo.

Obrigado, mulher maluca que gritou comigo me mandando sorrir. Você fez meu dia valer a pena.

--

Valer a pena até que eu passei pelo supermercado e escutei a caixa comentar com a empacotadora "Porcaria de música, hein?" e a empacotadora responder "Depois os clientes não voltam e eles não sabem o porquê!"

Tava tocando Cássia Eller, cantando Juventude Transviada. Olhei para a empacotadora e sorri.

Com ódio, mas sorri.

18.3.12

Jorginho

Ser pai repercutiu em muitas coisas na vida de Jorginho.

Depois do nascimento do filho, passou a ir trabalhar com olheiras enormes, por passar a noite inteira acordado. Ainda assim, estava sempre com um sorriso no rosto.

O sexo com o bebê era ótimo.

Popstars

É fácil entender o sucesso de programa Popstar, na Globo. Atores, apresentadores, artistas bem sucedidos em outras áreas se amontoam e se ...