28.5.12

Cães

Hoje enxerguei um cachorro
mijando numa cadela
mirando na cara dela
como se lhe desse flor

A cadela não reagiu
de santa não tinha nada
Cadela é mulher safada
gozou quando ele latiu

No meio de toda a urina
o poder era todo dela
Marcada como cadela 
rainha daquela esquina

O cão marcou território
a cadela quase sorriu:
O amor é o render compulsório
a sofrer por estar no cio

18.5.12

Baitolagem

Lembrei de uma que aconteceu outro dia.

Na quadra de casa, resolvi caminhar de mãos dadas com meu namorado. Do nada, aparece um cara com um jipe e grita "Porra, tudo bem ser viado, mas andar de mãozinha dada já é demais!".

Minha bipolaridade me partiu ao meio naquele momento: Metade minha pensou "Cacete, que lindo, esse não se preocupa com o que eu faço com meu reto! Só com minha mão. Um intolerante de vanguarda! Já pensou se um dia ele descobre o que é fisting?"

A outra parte pensou "Puta que pariu, a gente nunca vai viver num mundo onde dê pra sair na rua de mãos dadas sem levar uma dessas? Onde que uma mão dada consegue ofender a ponto de fazer alguém parar o carro no meio da rua pra gritar isso pra um indivíduo?"

A parte revoltada ganhou. Fiquei putíssimo. Pensando em me candidatar a vereador pra combater a homofobia. O grito do cara mexeu comigo profundamente, nos segundos seguintes ao incidente.

O meu estado de choque só passou quando meu namorado berrou "TOMAR NO CU, SEU FIADAPUTA!" pro cara.

Aí a paz voltou a reinar. Acabou minha carreira política.

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Que nem a vez que uma menina me disse que um gay poderia ser curado com psicoterapia e oração. Não acho psicoterapia sugerível nesses casos, porque é o tipo de coisa que demora demais.

Sou mais a favor de encaminhar a pessoa com urgência para um hospital, de ambulância e tudo, pra fazer um implante de Bíblia e ficar com Deus no coração.

Aí você anda de mãos dadas com Jesus. Figurativamente, pra não virar boiolagem.

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Fiquei em dúvida na hora de escrever a frase anterior: não sabia se escrevia "boiolagem" ou "baitolagem". "Baitola" soa mais ofensivo, mas "baitolagem" parece ser mais científico pra descrever o comportamento. "Boiolagem" está para "baitolagem" assim como "homoafetividade" está pra "homossexualidade".

Fica boiolagem na frase, baitolagem no título. Já a viadagem fica na alma, irmãos.

7.5.12

Por lá!


“Vai por lá!”
Não basta ser desengonçado com meus passos, eu preciso do inconveniente arrepio que me dá na barriga.
“Vai por lá, não siga em frente.”
É dessas coisas que a gente sente. Como se fosse vontade de fazer cocô, mas não é.

“E se eu não for?”
Aí o frio na barriga ganha sentido. Maldita hora em que, pra não me sentir idiota ou louco, pra não pensar que sou um idiota manipulável pelo próprio pressentimento, eu decido não obedecer a sensação.
Aí é assalto, é o pé que torce no meio-fio, é perder o ônibus.

“Vai que dá tempo!”
Aí eu não perco o horário.
“Vai nesse ritmo!”
E aí eu não me atraso.

“Fica quieta!”
Eu digo pra voz, que na verdade é um frio, que na verdade é um aperto, que na verdade é uma coisa estranha na barriga.
“Vai por lá!”
Ela insiste e quem se cala sou eu.
Vou por lá.

Aí eu encontro um bom amigo. Que eu acho dinheiro na rua. Que eu chego bem a tempo de impedir alguma coisa que não deveria acontecer.

“Você é louco!”
(Essa voz vem da minha cabeça, e não é tão ameaçadora quanto a que vem da minha barriga. A ordem de “ir por lá” é sensação, voz que me acusa de loucura é pensamento.)

Mas pensamento não tem vez nessas horas.
São tantos “Vai por lá” que me levam para lugares inesperados (e bons), que eu não me dou mais ao direito de obedecer.

“Você é louco”
(a cabeça repete)

Sim, sou louco. Mas vou por lá.

Eufemismos

Eufemismos são lindos. A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fa...