28.8.12

Obras de arte

Quando eu estava na sexta série, estudava em um colégio que era ao mesmo tempo público e católico, por causa de uma parceria da prefeitura. Ao mesmo tempo um colégio muito rígido e muito aberto à experiências.

Eram meses com música clássica tocando na sala de aula (não deu certo, as caixas de som eram ruins e o som era alto demais), outros com ioga na aula de educação física (fantástico, me ajudou a passar em vários vestibulares em que eu não tinha interesse).

Uma das poucas coisas realmente católicas do colégio era a necessidade de fazer uma prece antes de começar a aula. Um professor de matemática (um dos poucos que tiveram a habilidade de me fazer aprender qualquer coisa em matemática em toda minha vida) era um pouco mais resistente e mudou o hábito nas aulas dele: todos os dias, um aluno precisava citar uma frase inspiradora antes do começo da aula.

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Éramos uns 40 alunos na sala e, por isso, cada um se revezava na função fazendo cada aluno falar três ou quatro vezes por ano. Como ainda não existia o Facebook para vulgarizar frases da Clarice Lispector, a gente se virava como podia para arranjar as frases.

Não, ler livros para achar frases interessantes não era uma opção para a maioria de nós. O negócio era copiar e recopiar frases uns dos outros. Na última página do meu caderno, guardei uma coleção de frases para usar nessas aulas.

No final do ano, o professor reclamou comigo que eu sempre escolhia a mesma frase: "A arte da vida é fazer da vida uma obra de arte", do Ghandi.

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Acho que minha fixação por arte começava por ali.

E é estranho que eu tenha escolhido dar tanta vazão à minha vontade de escrever. De um tempo pra cá, assumi que uma das coisas que eu sou é "escritor". Ainda não falo isso quando me apresento para alguém - alguma parte minha ainda tem vergonha e acha que ser artista é boçal.

Acontece que, fora um concurso ou outro, a única coisa que eu escrevo regularmente é esse blog.

Falar da própria vida a cada quinze dias é arte?

Eu fiz da minha missão na vida a expressão máxima: vir de uma criação religiosa que me oprimia tanto e me fazia sentir um lixo por ser o que eu era acabou virando do avesso. Aprendi que assumir completamente tudo o que eu sinto e sou, por mais vergonhoso que seja, acabou virando minha força.

Parece que hoje eu me oriento na vida sempre por ir na direção que me envergonha mas me encanta. Lutar contra minhas vergonhas acabou virando meu norte e minha arte. Escrever, que é o único dom que eu nasci tendo, a única facilidade que sempre esteve ao meu lado na vida, virou uma maneira de expressar isso.

Quando eu escrevo, eu me torno mais eu. A obra de arte que eu faço da minha vida é essa.




22.8.12

Espetinho e parmesão

São duas e trinta e cinco da manhã, e eu passei a última hora toda deitado na cama e segurando um espelho na mão, tentando adivinhar a cara que eu vou ter no meu velório.

Fiquei percebendo no espelho como a gente passa a eternidade numa posição estranha, a cabeça jogada pra trás, os olhos meio sem saber pra onde vão, o corpo alinhadinho como provavelmente nunca foi em vida.

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Essa história toda de morte é porque fiquei sabendo ontem que um amigo meu da adolescência foi assassinado dois meses atrás. Dois meses atrás, e eu fiquei sabendo agora. Tá certo que não era um amigo tão próximo e que fazia anos que a gente não conversava, mas ainda assim...

Não cheguei a ficar tão triste, não tanto quanto fiquei perplexo com a história toda. Fiquei sabendo da morte do meu amigo depois que me mandaram uma notícia de jornal. Talvez eu esteja me confundindo, mas foi alguma coisa envolvendo uma facada na cabeça e dois espetos de churrasco enfiados no corpo.

Hoje você almoça, amanhã o churrasco é você.

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E tem tudo a maior pinta de crime de ódio, cidade pequena de interior, homofobia correndo solta. O crime tá até agora sem suspeito nenhum. Provavelmente sem investigação nenhuma, também.

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Aí minha amiga me conta da cena que assistiu ontem, da janela do ônibus: uma moça tenta atravessar a rua correndo, atravessando entre os carros que esperavam no semáforo.

No corredor entre um carro e outro, passa uma moto e - coincidência terrível - engata o guidão bem na alça da mochila da moça, que foi arrastada por vários metros.

A moça não morreu, só ficou igual queijo parmesão, toda ralada.

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Espero que no meu velório eu possa ficar com os olhos abertos. Existe uma superstição de que o morto só fecha os olhos quando finalmente vê a pessoa da qual precisava se despedir antes de ir.

Eu gosto dos meus olhos. Mesmo quando o corpo está meio abatido, parece que tem um pouco de vida neles. Espero que a pessoa aceite uma despedida olho-no-olho mesmo.

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Existe lembrancinha de nascimento de criança, de casamento, de formatura, de tudo. Espero que, quando chegar minha vez, façam uma miniatura minha de biscuit: eu dentro do caixão, com os olhos abertos e sorrindo, quem sabe fazendo joinha com a mão.

Pelo menos as pessoas teriam uma lembrança legal de mim. Mesmo que fosse só um souvenir.

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