16.9.12

Eu quero ofender você

Para uma coisa que serve para elevar os espíritos e alegrar ao próximo, o humor realmente se beneficia de um pouco de amargura. É só o ator que interpreta uma tragédia exagerar um pouquinho na hora de fingir choro e o público cai em gargalhada. A risada é só uma expressão de alívio que ocorre quando a chave vira da posição "estamos ferrados" para "estamos salvos".

Por isso mesmo que, ainda que eu não seja ateu, eu me divirto muito quando alguém compartilha alguma postagem da ATEA, uma página de ateus no Facebook. Num país tão religioso como o Brasil, são poucos os que se tornam ateus por serem educados desde criança com esse pensamento. A maioria - e mesmo eu, que me acho espiritualista mas me sinto cada vez mais cético com qualquer tipo de pensamento religioso/espiritual organizado, me enquadro nessa - vem de uma experiência terrível com religião. 

Alguém da minha família provavelmente diria "Pois é, a pessoa se afastou da religião porque quis fazer sacanagem, aí fica mais confortável dizer que não acredita em Deus", como se isso fosse um motivo inválido. Quer saber? Nada mais válido que a vontade de fazer alguma coisa proibida para questionar a proibição.

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Compartilhei outro dia uma imagem de uma santa católica, branca de olhos azuis cheios de lágrimas, olhando para cima com um ar desesperado. "Como eu odeio cortar cebola", dizia a legenda.

Achei hilário. Pouco tempo depois, uma colega minha de aula comentou "Pôxa, Flavito, por que debochar da religião dos outros?"

Primeira consideração: Ela é uma garota extremamente doce, em nenhum momento uma pessoa má. Fiquei realmente triste de pensar que poderia tê-la magoado. 

Segunda consideração: Não era deboche! Depois de se afastar da religião, é normal perder um pouco a perspectiva de que uma brincadeira com uma imagem possa causar uma reação tão forte de alguém que lhe credita poderes sobrenaturais.

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Foi nessa hora que caiu minha ficha de que, apenas por me expressar, mesmo que numa piada leve, alguém vai sair magoado - e que por mais que eu me esforce e me desdobre em sorrisos e agrados, algumas pessoas não vão gostar de mim.

Não que eu tivesse a pretensão de que cada ser humano no mundo gostasse de mim, mas eu acreditava existir uma linha mais clara: quem não gosta de mim é porque é ruim, ou é homofóbico, ou gostaria de ter algo que eu tenho; e quem gosta de mim é porque é uma boa pessoa. 

Idiotice. Gente boa e doce, como a menina que se magoou com a santa cortando cebolas, eventualmente também não vai gostar de mim. 

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Agora, acreditar em Deus e achar que esse ser todo-poderoso não tem bom humor é o pior de tudo. 

Se ele realmente existe e criou a humanidade para logo depois ser traído por um anjo de luz que ele mesmo criou, no mínimo um pouco de amargura Ele sentiria. 

E não é da amargura que vem o humor?

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Tudo uma questão de perspectiva. A mulher que reclama da piada da santa é a mesma que não tem seus direitos reprodutivos assegurados pelo Estado por causa da mesma igreja cujos preceitos segue.

Nada mais esquisito para mim do que ver uma igreja cristã cheia de negros, descendentes de pessoas que foram arrancadas de suas terras e escravizadas com a bênção e o patrocínio do Senhor que estão louvando.

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Por isso você, boa pessoa que discorda de mim, fique livre para não gostar de mim. Mas tente pelo menos pensar no meu ocasional deboche daquilo que você acredita como uma possibilidade de reflexão, assim como eu refleti muito sobre a possível mágoa que eu possa estar lhe causando.

Assim ficamos, dos dois lados, sem lágrimas - a não ser que estejamos cortando cebola.

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