25.12.12

Cachorro-quente

Para alguns, Natal é uma coisa importantíssima. Devem ser muitos, imagino, já que o natal é uma onda geral de maluquice que acontece todos os anos e dura três meses.

Já para mim, o natal nunca fez tanta falta. Não fui em uma ceia de natal em toda a minha vida: nasci em uma família de Testemunhas de Jeová e, depois de crescido, não quis invadir a ceia de família alguma só para ver qual era a do peru.

Também nunca me fez falta acreditar em Papai Noel. Acho até meio bobo você criar a ilusão de que o tiozão barbudo existe só pra fazer uma criança chorar desdizendo isso depois.

Mais produtivo a criança crescer sabendo que o seu brinquedo novo veio do esforço do papai e da mamãe em trabalhar para ganhar dinheiro e em acotovelar estranhos em uma loja lotada na véspera.

Ainda assim, por algum motivo, eu tenho muito mais facilidade em aceitar quem adora o natal do que quem é fixado em outras tradições religiosas.

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Quando eu tinha 13 anos, fui comer cachorro-quente numa barraquinha perto de casa no dia de Natal. A barraquinha, quase deserta, só estava aberta porque o atendente não tinha família e não queria ficar sozinho no dia. Eu e meu irmão, na falta de qualquer comida especial em casa, fomos lhe fazer companhia.

Na mesa de plástico que ficava na calçada, uma família estava sentada. O pai, a mãe e dois filhos, cada um com meio cachorro-quente para comer.

Aquele momento, para mim, era só um cachorro-quente em um dia qualquer.

Para aquela família, era a refeição mais importante do ano. Era a prova do amor dos pais, que provavelmente abriram mão de alguma coisa para poder dar metade de um cachorro-quente para os filhos na noite de natal.

Voltei para casa chorando e abracei meus pais.

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Escutei vários funcionários do shopping em que estou trabalhando dizendo que o natal desse ano foi fraco, e que as pessoas não estão mais fazendo tantas compras quanto antes. Que muita gente decidiu viajar e preferiu não gastar em presente.

Fico feliz.

Um feriado baseado em propaganda na televisão e condições especiais de parcelamento no cartão de crédito não pode ir muito longe mesmo. Acho mais bonita a mitologia de que essa é uma época de renascimento. Nascer de novo, todos os anos e, seis dias depois, ver outro ano nascer.

Mesmo que esteja tudo na mais profunda bosta, brota na bosta um cogumelo de esperança. O cogumelo pode até ser venenoso, mas brota. Com sorte, dá um baratinho.

E na alucinação da data, fica a esperança de viver momentos melhores e poder dividir o que temos de especial com as pessoas importantes para nós.

Mesmo que o que tenhamos de especial seja só um cachorro-quente.

3 comentários:

  1. Meus pais nunca vieram com essa história de papai noel, e eu acho que foi muito bom.

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  2. Anônimo12:57 PM

    Puta,puta

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  3. Anônimo12:57 PM

    Puta,puta

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