29.2.12

Salsicha e Linguiça

- Duvido que você pule nessa lajota! - disse meu irmão, confiante como só os irmãos mais velhos conseguem ser.

Tava aí um desafio à minha altura. Eu poderia não ser o melhor jogador de futebol, como meu irmão era, mas pular numa lajota não me parecia muito desafiador. Minha experiência acumulada ao longo dos meus seis anos de idade me permitiu aceitar.

BLEFT.

A lajota era solta das demais na calçada e, pior, carregava uma caralhada de água de chuva.

Me molhei inteiro. Decidido: nunca mais aceitaria um desafio do meu irmão.

--

- Duvido que você vire esse vidro de pimenta!

A confiança do meu irmão era um ultraje. Como ele conseguia pensar que eu ia cair de novo numa idiotice dessas. EU NÃO. Eu já sabia melhor.

- Só se você tomar antes! - retruquei.

Meu irmão, ator nato (especializado em fingir dor de barriga em dia de ir pra igreja), botou o vidro de pimenta na boca e tomou uns quatro goles, como se fosse Nescau.

Tá certo, então. Já que estávamos em igualdade de condições, topei. A diferença é que eu tomei a pimenta com a tampa do vidrinho aberta.

--

Caçula sofre mas aprende a se vingar.

Com a boca ainda ardida de pimenta, xinguei meu irmão e fui para o quarto, quartel general de uma ideia mirabolante que botaria fim nessa pouca-vergonha.

- Mano, por favor... Chega de fazer maldade comigo, pô. Eu na maior confiança contigo e você ainda apronta, meu. Olha minha boca, tá toda queimada.

Apelei para a culpa. Querendo ou não, aprontando ou não, ele sentia a maior responsabilidade de cuidar de mim (É o que os irmãos mais velhos fazem, traumatizam você desde cedo para te proteger dos traumas que outras pessoas pudessem te causar. É tipo vacina, o vírus mais leve só pra ajudar a se prevenir)

- Toma, Plinio. Eu fiz chá pra você. Trégua, tá? Trégua!

Meu vocabulário era amplo para um menino tão novinho: eu sabia que pedir trégua significava que minha mãe ia bater na gente se a gente brigasse na frente dela outra vez.

Entreguei a xícara preparada especialmente para ele. Para mim, um chá de erva-doce com mel. Para o meu irmão, um chá de erva doce com mais mel ainda, para disfarçar o gosto de sene. Pra quem não sabe, sene é uma erva extremamente laxante, muito comum nas casas do Sul do Brasil para tratar prisão de ventre.

Minha boca ardeu com a pimenta, mas meu irmão pagou muito mais com o dia seguinte todinho passado no banheiro.

Nem precisou fingir pra não ir pra igreja.

--

Foi tipo a vez que eu comi espinafre e fui bater nele, pra ver se tinha ficado mais forte mesmo. Pelo drama que meu irmão fez, meu soco equivale a quinze megatons.

Fui punido com um puxão de orelha da minha mãe e um convite do meu irmão para resolvermos tudo e comer cachorro-quente.

Imaginei que ele queria fazer as pazes - eu e meu irmão somos tipo personagens de desenho animado, é o mesmo enredo toda vez e nós sempre caímos - e topei. Talvez assim minha mãe parasse de gritar pela casa "Deus me deu dois filhos, mas não são nem Caim e Abel! É o Caim e o Caim! Uma hora um mata o outro!".

Durante todo o trajeto até a banquinha de cachorro-quente, meu irmão me falou sobre como estava sem dinheiro e como o pão era a parte mais cara do lanche. Que se eu não estivesse com tanta fome assim, eu poderia pedir pra comer só a salsicha e ele economizaria um bocado.

"Faz sentido", pensei com meu meio miolo que não estava ocupado pensando no próximo episódio de Caça-Talentos, e topei a boa ação.

Na banquinha, fui bem assertivo com o atendente - que estudava na mesma sala de aula que meu irmão.

- Quero um cachorro-quente, mas sem pão.
- Como?
- Quero só a linguiça. - Eu confundo salsicha com linguiça até hoje. - Não precisa de pão, não.
- Só se for a minha. - O atendente maliciou.
- Ok, pode ser. - "Afinal", pensei, "que outra linguiça poderia ser?".
- Você quer a minha linguiça?
- Sim, já falei.
- A minha?
- Sim, ué.
- Linguiça?
- SIM, EU QUERO A SUA LINGUIÇA, POMBAS!

Meu irmão e o atendente ficaram sem jeito de explicar a malícia da coisa para alguém que falava "pombas" e não "porra" quando explodia. Ainda assim, fiquei sem salsicha, sem linguiça, sem pão, nada.

Ainda bem que tinha comido espinafre antes - e aproveitado pra bater no meu irmão.

8.2.12

Mea Culpa

Tenho me sentido culpado por escrever pouco. É ótimo confiar na inspiração, na intuição de que algum assunto pode dar texto - mas da última vez que dependi só da inspiração, passei seis meses sem vê-la.

É tipo se apaixonar: quanto mais você depende da outra pessoa, mais provável que ela vá passar as férias em Cancún com alguém que você odeia, enquanto você anseia por um beijo. Depois disso, a gente aprende a não depender tanto assim.

--

Culpa é uma coisa engraçada.

Não sei se pela minha criação religiosa ou o quê, eu sinto que devo dar o máximo e o melhor de mim em tudo que eu faço. Errar, só se for muito sem querer. Errar querendo é fazer maldade e fazer maldade é merecer que façam maldade comigo.

--

Ontem à noite, banheiro da faculdade. Os olhos vermelhos pela irritação da lente de contato - e irritação minha por ter que voltar pra rotina de universitário - tirei a lente de um dos olhos e guardei no estojo. 

Com a visão pela metade, lavei as mãos, sequei com papel toalha e arremessei a bolinha de papel amassado rumo ao lixo. 

Desastre: o papel não acertou a lixeira.

--

O papel não só caiu fora da lixeira, como atrás dela, espremido entre o lixo e a pia. 

Pelo menos eu tentei, certo? Agora era deixar o papel ali e ir embora para a aula. O fato do papel cair fora do lixo, ainda mais num lugar tão difícil de ajuntar, não me torna um vândalo, certo? Eu não sou um depredador de banheiros públicos, certo?

Errado!, disse a minha consciência, essa safada. Já estava quase saindo do banheiro quando a sensação de ser um crápula ficou tão insuportável que me fez dar meia volta.

Me pus de cócoras no chão, cuidando para não sujar as calças com o xixi que perfumava os azulejos. Puxei o lixeiro para a frente com cuidado. 

Me curvei, esticando as mãos para alcançar o papel toalha, e ainda assim não alcancei. Me aproximei mais, tomando o cuidado de desviar a cabeça de um mictório (que estava tão perto que engolir uma bolinha de naftalina era uma possibilidade), fiz a força de um atleta olímpico* e finalmente consegui alcançar! 

Meu pedaço de papel toalha molhado e amassado, meu troféu. Finalmente arremessado corretamente na cesta de lixo.

--

Isso me torna uma boa pessoa, né?

Quer dizer, eu poderia ter recolhido os outros setenta pedaços de papel toalha jogados atrás do lixeiro, mas isso não é minha responsabilidade, certo?

--

Sério, gente. Isso não faz de mim uma pessoa ruim, né?

Maldita culpa.

--

*Fato divertido: Captura de papel toalha amassado é uma modalidade que seria introduzida nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1916, cancelados pela I Grande Guerra, o que acabou obscurecendo esse magnífico esporte. Não fosse por isso, o Brasil não seria o país do futebol, mas sim o país da Captura de Papelzinho.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...