31.7.12

MC Pixinga

Alguma coisa mudou na nossa música popular. Não acho que seja ruim - porque música boa continua sendo feita e quanto mais gente se expressando, melhor. A questão que mais me intriga é como, em tão pouco tempo, nossa música foi de "Bonita e graciosa, estátua majestosa" para "Esfrega o pau na cara dela".

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Talvez seja uma questão de repressão, o motivo do Pixinguinha gastar palavras endeusando sua musa quando tudo o que ele queria era esfregar seu genital na face da Rosa.

Hoje estamos mais liberados, não precisamos mais dar volteios quando o que está na nossa cabeça é sexo. Isso permite que a música seja mais específica, com menos eu-te-amos e mais lamba-minha-bola-esquerda.

O problema não é de falta de pudor: é só que um coração parece muito mais bonito numa declaração do que uma bola esquerda.

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Eu queria ter feito meu TCC na faculdade de psicologia fazendo uma análise das músicas da Valesca Popozuda por uma ótica feminista. Tá certo que ela só se coloca como um produto para a degustação masculina, mas é impossível dizer que alguém que canta "Minha buceta é o poder" não contribua em nada para a emancipação masculina.

Sim, a vida dela gira em torno de satisfazer o seu negão - mas ela goza. É muito mais do que a Aracy de Almeida fazia.

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E uma voz feminina mais desbocada aparecendo no funk é essencial. Podem criticar o quanto quiser, mas enquanto houver uma Valesca Popozuda ou uma Tati Quebra-Barraco para gritar que Dako é bom, os funkeiros que versam sobre "esfregar o pau na cara dela" vão ter concorrência.

É o que impede que a mulher seja completamente subjugada no gueto - mesmo que só musicalmente.

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O problema vai ser quando o Homem Branco Cara-Pálida se apropriar do funk. Aí não vai mais ter Valesca Popozuda que ofereça resistência silicônica para tanta misoginia. Minha previsão é de que, em 2019, o maior hit do ano vai ser "Esfrega a cara dela no cocô", do MC Cagão.

A letra vai ser mais ou menos assim "Esfrega a cara dela no cocô / Esfrega a cara dela no cocô / Cachorra tá dizendo que gostou / Esfrega a cara dela no cocô!".

Aí começa uma participação especial do Rafinha Bastos que, depois de fracassar na televisão, vai investir na carreira de rapper e atender por MC Odeia-Fêmea. Ele vai cantar "Não importa se ela é a sua mãe / Não importa se ela é a sua tia / Su-bi-ju-ga essa vadia!".

As Cocozetes, no fundo, dançam de biquini e reencenam o vídeo de 2 girls 1 cup.

MC Cagão vai ser descrito pelo Faustão como "um grande cara, tanto no pessoal quanto no profissional". O Jogo da Vassoura (em que vence o rapaz que consegui esfregar a maior quantidade de rostos femininos no cocô espalhado pelo chão, usando uma vassoura) vai ser o quadro de maior audiência do Programa Silvio Santos.

Aí a gente vai ficar triste pelo mundo não ter acabado em 2012.

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Vocês sabem que o 2 girls 1 cup foi gravado no Brasil, né?

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Haja popozão.

26.7.12

Produtividade

A internet é a maior fonte de inspiração e o maior incentivador para o trabalho que existe no universo - quando sai do ar.

Esse mês esqueci de pagar a conta da internet pré-paga (300kbps, tomem essa!) e nunca fui tão produtivo na minha vida. Minha louça está impecável, fiz a barba (em dia de semana, toma essa outra!) e tô botando a leitura em dia.

Só faltava aproveitar a deixa para escrever alguma coisa para o blog. Vim para o quarto, preparei o pen drive para levar o texto para o meu estágio e colocar no Blogger de lá... e consegui conectar numa rede desprotegida de algum vizinho.

Adeus, produtividade.

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Para um homem que mora sozinho, eu até que sou um dono-de-casa razoável. Não dependo cem por cento de lasanha de microondas e até vegetais eu como de vez em quando.

Uso a mesma xícara do dia anterior para tomar café, todos os dias. E sem lavar a xícara, no máximo dando uma passadinha de água. Meu critério é a presença de uma mancha na xícara: se tiver mancha, eu molho o dedo e esfrego a unha onde estiver sujo. A mancha saindo, eu dou mais uma passadinha pela torneira e a xícara está pronta para abraçar meu café quentinho. Mesmo nesse ambiente de pós-guerra, não morri ainda, vai querer julgar?

Só me falta aprender a lavar banheiro direito e ter a boa vontade de medir a quantidade de sabão em pó certa para cada lavagem de roupa. Vou completamente no aleatório.

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De todos os posts desse blog, o mais visto e comentado sempre é esse, sobre covinhas no rosto. É de quando eu tinha quinze anos. É um absurdo a quantidade de gente que entra nesse blog procurando maneiras de ter covinhas no rosto.

Sabem como eu consegui uma esses dias? Espremendo uma espinha enorme na bochecha. Deixou uma marca gigante e o relevo do meu rosto tá pior que o da bochecha do Michel Teló.

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Meu pai sustentou a família a vida toda, entre outros serviços, microfonando sanfonas - que em Pato Branco se chama de gaita. As gaitas vem de fábrica sem entrada para microfone, precisando de uma paciência de Jó para fazer um furo com serra, encaixar o microfone em um lugar de acústica boa dentro da sanfona e depois fechar tudo sem que fique com cara de gambiarra.

Como meu pai é uma das poucas pessoas que sabe fazer isso bem no Sul do Brasil, cresci cercado por grupos que ganhavam a vida tocando bailes no interior. Quem diria que, de uma banda dessas, sairia um polaco (mais branco que eu!) que faria sucesso no mundo inteiro.



Mas ainda assim, se eu fosse apostar naquela época em quem se tornaria o ídolo mundial, seria no gaiteiro da direita. 

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Ainda assim, eles eram elite demais para serem clientes do meu pai. Acreditem em mim, as bandas que contratavam a gente tinham membros muito, muito menos atraentes - o que não era problema, já que nos bailões de Pato Branco quase sempre faltava luz depois da primeira hora...

2.7.12

Das coisas que ficam turvas


Das páginas que amarelam, das folhas que brincam no chão, tudo envelhece e perde-se de corpo. O físico se esvazia, mas não perde a história de seu dever cumprido.

O que as páginas gravaram é perdido das páginas, mas não da tatuagem que fizeram na pele virgem da cabeça de quem leu.

O ar é poluído outra vez depois do trabalho incansável da folha sob o sol para purificá-lo, mas não fosse a folha, hoje morta, não teria sido possível respirar. Não estaríamos aqui, se não fosse pela folha-cadáver que hoje reveste crocantemente o chão.

Das coisas que ficam turvas sobraram seus olhos - ainda pálidos pelo pouco tempo que tem. Não se perdôe de sua juventude, moço. Logo os olhos enegrecem, e aos poucos os cenários não tem mais a mesma cor de outrora - talvez pelo hábito de sempre ver a mesma cor, sempre ali, vibrantes, enquanto nós, imóveis, permitimos que o olhar apague, aos poucos, o seu vigor.

As cores se perdem de dentro para fora, sempre, e então mesmo as páginas recém impressas vão ficando amarelas - não pelo tempo que elas guardam, mas pelo tempo que os olhos carregam.

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Ainda assim, quando seus olhos ficarem turvos e toda cor for um tom de pastel, serão capazes de lembrar da cor dos meus - assim como os meus guardarão sua cor, viva mesmo quando a própria vida estiver desbotando, com um período e outro de rubrez intercalando a transparência das lágrimas.

E das páginas que guardam nossos olhos, e das folhas que nos deram o ar, a história se completa na nossa finitude e nossa tãopouquice.

O que se amarela e se perde é inevitável, é a resistência o que machuca.

Por isso solto tudo que tento impedir. Que as folhas caiam, que as páginas amarelem. Que meus olhos ceguem, se for o caso de assim ser.

Fica um pouco de tristeza pela história acabada, mas não dor - nossa história não acabou violentamente. Apenas perdemos o viço, meu amor.

Mas guardo seus olhos comigo, em cores vivas.

O resto é inevitável.


-- “A vida segue em frente, quer ajamos como covardes ou heróis. A vida não impõe outra disciplina além de aceitá-la incondicionavelmente. Tudo aquilo para o qual fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos é capaz de nos derrotar no final. Aquilo que nos parecia asqueroso, doloroso, mau, pode se tornar uma fonte de beleza, alegria e força, se encarado com uma mente aberta. Cada momento é de ouro para aquele que possui a visão de reconhecê-lo como tal.” - Henry Miller, tradução minha. --

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...