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Mostrando postagens de Novembro, 2012

Menos progresso, por favor

Depois de uma série de mudanças de endereço, há mais ou menos quatro anos me estabeleci em um lugar só, aqui em Curitiba. Um bairro bacana, tranquilo, perto o suficiente do centro para ir caminhando e longe o suficiente para um amigo estacionar o carro na rua sem se preocupar muito.

Claro que o maior motivo de vir morar aqui foi o aluguel, que na época era uma pechincha. Apesar de ser um dos cartões-postais da cidade, o Jardim Botânico - a duas quadras da minha casa - demorou a ser descoberto pela especulação imobiliária.

Meu aluguel mais do que dobrou desde que me mudei para cá, mas a paixão pelo bairro pacato foi mais forte do que o buraco no bolso.

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Li no jornal, hoje, que vão construir um shopping center imenso quase na esquina de onde eu moro. Fiquei triste. Vai ser prático? Vai. Vai ter um hipermercado imenso em vez de um supermercado humilde em que eu pergunto pra operadora do caixa se o filho dela melhorou de saúde? Também.

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Não entendo porque as pessoas enxergam shopping …

A palavra errada

Escolher as palavras corretas para transmitir exatamente o que você está sentindo é provavelmente a parte mais difícil do ofício de escritor. Uma palavra errada, uma margem que se deixe a uma interpretação dúbia já é capaz de derrubar um texto erguido com muito carinho.

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Não que o texto da Black Friday, de sexta passada, tenha sido escrito com tanto carinho assim, mas fiz uma piada que acabou se tornando o foco de quase todos os comentários do texto. Brincando, traduzi o "black" da sexta-feira como "afro". Uma piada sem muita graça insinuando uma tradução ruim, que já na hora de escrever o texto me incomodou a ponto de querer tirar. Resolvi manter a piada.

Por conta de um link na página do Facebook do Tecnoblog, esse foi o texto mais lido e comentado que eu já escrevi. Recebi muitos elogios, muitos chamamentos de burro e alguns de racista.

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Na terapia, uma vez, comentei que uma atitude que tive com uma pessoa me dava remorso.

A terapeuta tratou a questão com ta…

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo.

Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições.
Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas.
A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa.
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Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso. 
A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá.
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Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoas com duas, três televisões LCD lot…

Alfajores

Fui visitar meus pais e, ao chegar em casa, dei de cara com dezenas de pacotes de alfajores, azeites, frisantes e frescuras em geral compradas a preço de banana na Argentina.

A quantidade de doces disponíveis me deixou feliz, mas a situação em si me deixou estranhamente... triste. É esquisito poder comprar coisas muito baratas sabendo que o único motivo de você poder fazê-lo é porque algumas pessoas estão sem dinheiro para comprar nada.

A tristeza passou com o terceiro alfajor.

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Um teste para saber o quanto você se deixa afetar pela pressão social: Você está na rua, debaixo de uma precipitação forte demais para ser garoa e fraca demais para ser chuva.

Você foi esperto e carregou um guarda-chuva consigo quando saiu de casa pela manhã. Decide se proteger e abre o guarda-chuva. Segue caminhando orgulhoso de si mesmo.

Entretanto, várias pessoas pelas quais você passa no caminho estão com um guarda-chuva na mão, só que todos fechados. Todos que passam por você olham para o seu guarda-chu…

O Pastorzinho Camarada

"Eu vou fornicar esse bandido, esse safado. (...) Essa baixaria do movimento gay é coisa de bandido e de mau caráter… Eu vou arrombar com esses…" - Silas Malafaia, na Revista Época, em resposta a um militante gay que criticou suas declarações em rádio e TV.

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Se eu tivesse uma câmera decente, um canal no youtube e força de vontade suficiente para levantar dessa cadeira, escovar os dentes e tirar o feijão que está agarrado no meu dente desde o almoço, eu faria questão de filmar uma esquete interpretando um personagem fictício, completamente original e cujas quaisquer semelhanças com a realidade fossem mera coincidência.

Esse personagem teria, provavelmente, um dos seguintes nomes: Silas Vai Lacraia, Silas Cláudia Raia, Silas Usassaia, Silas Levavaia, Silas Cinta-Caralha. 

Ele seria um pastor evangélico, porque Silas é um nome bíblico. 

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Cena 1: 
O pastor Silas (insira o seu sobrenome de preferência aqui) está no púlpito, fazendo sua pregação:
- Vocês conseguem imaginar, irmãos? Qu…