28.11.12

Menos progresso, por favor

Depois de uma série de mudanças de endereço, há mais ou menos quatro anos me estabeleci em um lugar só, aqui em Curitiba. Um bairro bacana, tranquilo, perto o suficiente do centro para ir caminhando e longe o suficiente para um amigo estacionar o carro na rua sem se preocupar muito.

Claro que o maior motivo de vir morar aqui foi o aluguel, que na época era uma pechincha. Apesar de ser um dos cartões-postais da cidade, o Jardim Botânico - a duas quadras da minha casa - demorou a ser descoberto pela especulação imobiliária.

Meu aluguel mais do que dobrou desde que me mudei para cá, mas a paixão pelo bairro pacato foi mais forte do que o buraco no bolso.

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Li no jornal, hoje, que vão construir um shopping center imenso quase na esquina de onde eu moro. Fiquei triste. Vai ser prático? Vai. Vai ter um hipermercado imenso em vez de um supermercado humilde em que eu pergunto pra operadora do caixa se o filho dela melhorou de saúde? Também.

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Não entendo porque as pessoas enxergam shopping centers com tanta boa vontade. São caixas imensas de concreto e vidro, em que você não sabe se é dia ou noite - a não ser que seja funcionário, aí você sabe que é noite (e também que você não tira dois dias seguidos de folga do seu emprego de salário mínimo há quase um ano).

Eu gosto de morar num bairro que muita gente nem conhece o nome. Eu gosto de precisar caminhar cinco quadras para comer cachorro-quente numa barraquinha que está quase falindo por falta de movimento.

Enquanto isso, o novo shopping vai ser construído a toque de caixa: a obra toda deve ser concluída em menos de cinco meses. Vai gerar muito emprego, que é bacana. Vai ser mais um megatemplo do consumo, que é menos bacana. Pelo menos não é uma megatemplo da Universal, que é muito bacana e pelo menos coloca as coisas em perspectiva.

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No processo de construção do shopping, também vão demolir uma farmácia, que tem uma atendente com distúrbio bipolar adorável.

Num dia ela me interrompeu a compra pra dizer: "Você tem certeza que vai levar essa caixa de bombons da Arcor? Eles são uma bosta."

No outro, ela me falou que é muito rica e faz medicina.
No outro, ela me abraçou no ônibus e perguntou se eu não tinha me arrependido de comprar aquelas bostas de bombons.
No outro, encontrei ela na rua, chorando e com o rosto completamente rabiscado com batom vermelho.

Uma figura. Não vai sobreviver num shopping center.

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Já consigo imaginar a inauguração. Adolescentes gritando, mães segurando bebês de colo que choram e tentando acalmá-los dizendo "Vou meter a mão na sua cara", filas imensas em lojas de fast food, o cenário todo estéril, modernoso e padronizado. Tudo para a fazer o povo consumir se sentindo como se estivesse nos Estêites.

Tudo muito sem graça. Posso fazer um protesto? Menos progresso, por favor. Menos McDonalds, mais amor.

25.11.12

A palavra errada

Escolher as palavras corretas para transmitir exatamente o que você está sentindo é provavelmente a parte mais difícil do ofício de escritor. Uma palavra errada, uma margem que se deixe a uma interpretação dúbia já é capaz de derrubar um texto erguido com muito carinho.

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Não que o texto da Black Friday, de sexta passada, tenha sido escrito com tanto carinho assim, mas fiz uma piada que acabou se tornando o foco de quase todos os comentários do texto. Brincando, traduzi o "black" da sexta-feira como "afro". Uma piada sem muita graça insinuando uma tradução ruim, que já na hora de escrever o texto me incomodou a ponto de querer tirar. Resolvi manter a piada.

Por conta de um link na página do Facebook do Tecnoblog, esse foi o texto mais lido e comentado que eu já escrevi. Recebi muitos elogios, muitos chamamentos de burro e alguns de racista.

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Na terapia, uma vez, comentei que uma atitude que tive com uma pessoa me dava remorso.

A terapeuta tratou a questão com tanta seriedade que só então me caiu a ficha que remorso, para mim, é só sinônimo de arrependimento, e que ela pode ter interpretado a palavra "remorso" como se eu ficasse na cama, suando frio, sofrendo e tendo flashbacks do que fiz, de tanta angústia.

Não era o caso.

Besteira minha ignorar que o significado das palavras depende tanto de quem as transmite quanto de quem as recebe. Cada leitura e cada experiência relacionada a cada palavra lhe dão um significado único para cada sujeito.

O dicionário só serve para que a nossa pátria não vire uma Torre de Babel. Ajuda a fazer os significados de cada um girarem ao redor do mesmo eixo.

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Por isso não é minha intenção justificar o uso da palavra "afro" e fazer constar que não sou racista. Isso não serve para nada. A questão que ficou comigo foi "será que só a minha intenção por trás da palavra deu conta de chegar ao destinatário?".

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Quase todo o humor que temos disponível na TV (ou nas redes sociais, onde todo mundo é um comediante) esbarra nessas questões. Humoristas às pencas reclamam que antigamente se fazia piada de negro, de gay e de loira e que isso nunca foi visto como preconceito.

É um problema de perspectiva: acredito mesmo que as intenções de uma piada com um grupo minoritário possam não ser preconceituosas. Acredito também que, às vezes, uma punchline bem sacada possa se sobrepor à moral.

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Mas é o outro lado do espectro que deve ser focado. De quantas piadas de viado eu já ri, só pra mostrar para quem contava a piada que eu não tinha problema nenhum com isso? Que eu era um viado legal, que não via problema na piada deles?

E que, por fazer isso, abaixava a cabeça em submissão e dizia amém a cada uma das piadas que emitiam a mensagem de que era a Pessoa Padrão de Deus®, homem, branco, heterossexual e cristão, que detinha o poder, e que o gay tem mais é que ser objeto de riso mesmo?

Questionando a piada, eu questionaria o poder.

E aí eu não seria mais julgado por ser homossexual: seria julgado por ser um homossexual que não sabe rir de uma simples piada. Na piada residia o poder.

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E é por isso que as minorias enchem o saco. Qualquer uma delas.

Elas questionam aquilo que nos faz rir, e o riso é o que temos de mais puro. É a resposta emocional mais direta e mais rápida, a mais sem filtro que podemos ter.

E é por isso que o riso nos denuncia. Quando tiramos o filtro que colocamos em nós mesmos para não parecermos preconceituosos, o que aparece?

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Acho muito interessante o nome dado ao dia em que se celebra a cultura afro no Brasil. "Dia da Consciência Negra".

Porque fala dos negros tendo consciência do valor que têm ao mesmo tempo que fala da puta consciência negra (no sentido de turva, pra ficar bem claro) que nós, brancos, temos.

E que precisamos passar a limpo, pra ficar negra no sentido bom - de cor e de cultura.

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Aí o papagaio do judeu disse "Comi o cu do preto viado!", e a loira não entendeu nada.

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Eu posso controlar as palavras que escrevo só através da minha própria experiência, e a minha experiência não é capaz de entender todos os lados de todas as situações. Por isso fiz questão de explicar a piada - e mesmo explicando, de pedir desculpas a quem eu possa ter ofendido.

Que é pra não ficar com remorso.

23.11.12

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo.

Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições.

Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas.

A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa.

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Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso. 

A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá.

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Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoas com duas, três televisões LCD lotando o carrinho de compras corriam de um lado para o outro, desesperadas com a possibilidade de não conseguir comprar a quarta.

"Os preços das televisões devem estar ótimos", pensei, "vou tentar roubar uma no estacionamento".

Era a Black Friday (sexta-feira afro, em bom português).*

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Ano passado, não ouvi um pio na mídia brasileira sobre a tal da Black Friday. Esse ano, de uma hora pra outra, todo mundo só fala nisso.

Ano que vem, já vai ter gente esperando pelo dia de fazer compras. As tradições tem surgido cada vez mais rápido - pelo menos quando ajudam a vender quinquilharias pra classe média.

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Depois de jogar duas pessoas no chão e empurrar uma criança para conseguir enxergar os preços, me decepcionei: estava tudo tão caro quanto no dia anterior. 

Tá certo que o conceito de caro para um estagiário de psicologia que conta o salário em múltiplos de cinquenta centavos não vale para todo mundo, mas nada justificava aquele furdunço todo - quer dizer, algo justificava: propaganda na televisão e um nome abestalhado em inglês.

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Quem vê, pensa que dinheiro é mato. Como eu saí de lá sem televisão nenhuma, talvez eu não seja realmente a pessoa mais influenciável do mundo. Pena que fiquei sem sopa.


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*Eu sei que não é afro, gente. Não sabia se ressaltava a ironia, se assumia que era uma piada ruim ou tirava essa parte do texto. Resolvi fazer uma nota de rodapé, que é a coisa mais fina que se pode fazer em um blog.

16.11.12

Alfajores

Fui visitar meus pais e, ao chegar em casa, dei de cara com dezenas de pacotes de alfajores, azeites, frisantes e frescuras em geral compradas a preço de banana na Argentina.

A quantidade de doces disponíveis me deixou feliz, mas a situação em si me deixou estranhamente... triste. É esquisito poder comprar coisas muito baratas sabendo que o único motivo de você poder fazê-lo é porque algumas pessoas estão sem dinheiro para comprar nada.

A tristeza passou com o terceiro alfajor.

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Um teste para saber o quanto você se deixa afetar pela pressão social: Você está na rua, debaixo de uma precipitação forte demais para ser garoa e fraca demais para ser chuva.

Você foi esperto e carregou um guarda-chuva consigo quando saiu de casa pela manhã. Decide se proteger e abre o guarda-chuva. Segue caminhando orgulhoso de si mesmo.

Entretanto, várias pessoas pelas quais você passa no caminho estão com um guarda-chuva na mão, só que todos fechados. Todos que passam por você olham para o seu guarda-chuva aberto, olham para a sua cara, olham para o guarda-chuva de novo, olham para baixo e seguem em frente.

Você fecha o guarda-chuva ou não?

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O que eu percebo em algumas pessoas da minha idade pra menos é que não se tem muita perspectiva do que é aperto financeiro de verdade. Quando eu nasci, o Plano Collor tomou conta da poupança que meus pais fizeram por anos para poderem ter o segundo filho. Minha mãe ficou putíssima, porque pensou que dessa vez ia ter grana para usar fralda descartável.

O que é uma depressão pós-parto perto de uma depressão pós-fralda, né?

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Alguns anos mais tarde, já com a situação bem mais tranquila, eu lembro de algumas reuniões de família em meu pai falava que precisávamos diminuir as despesas. Não adiantava. Estávamos todos apegados demais ao supérfluo para fazer concessões de verdade.

"Então ficamos assim: cortamos todos os HBO da DirecTV, e pay-per-view só no final de semana. É assim, tem que apertar o cinto!".

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Uma vez atravessei a rua para não precisar passar por um ponto de ônibus cheio de gente. O outro lado da rua era completamente deserto. Se alguém se desse o trabalho de olhar para a frente, poderia me ver sem obstáculo nenhum - mas pelo menos eu não cruzaria com ninguém.

Exceto que... cruzei. Com um quero-quero. Que dava rasantes na minha cabeça e gritava (grasnava? grunhia? o que um quero-quero faz?) desesperadamente, enquanto eu corria batendo com as mãos na minha cabeça.

O "Gasp!" feito por todas as pessoas do ponto de ônibus foi audível a quilômetros.

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Uma colega de trabalho me contou que algum tempo atrás foi visitar uma família pobre para cadastrá-los em um programa social. Chegando lá, deu de cara com uma geladeira velha, mas brilhosa; um fogão antigo, mas sem um pingo de gordura. A casa toda era simples, mas nada faltava.

Até que ela viu, no quintal da casa, uma buraco cheio de cinzas e com alguns gravetos empilhados.

"A senhora vai fazer churrasco?", perguntou minha colega.

"Não, não, é aí que eu cozinho."

Os móveis eram todos inúteis, que a dona da casa encontrava na rua, limpava até ficarem em estado de novo e trazia para dentro de casa. Talvez para que a falta e a pobreza não ficassem tão explícitos. Talvez por vergonha de não ter aquilo que tanto se diz ser necessário para ser feliz.

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Aí você escuta alguém reclamando do Bolsa Família e quer matar.

Mas tudo bem. É só comer um alfajor que a vontade passa.

1.11.12

O Pastorzinho Camarada

"Eu vou fornicar esse bandido, esse safado. (...) Essa baixaria do movimento gay é coisa de bandido e de mau caráter… Eu vou arrombar com esses…" - Silas Malafaia, na Revista Época, em resposta a um militante gay que criticou suas declarações em rádio e TV.

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Se eu tivesse uma câmera decente, um canal no youtube e força de vontade suficiente para levantar dessa cadeira, escovar os dentes e tirar o feijão que está agarrado no meu dente desde o almoço, eu faria questão de filmar uma esquete interpretando um personagem fictício, completamente original e cujas quaisquer semelhanças com a realidade fossem mera coincidência.

Esse personagem teria, provavelmente, um dos seguintes nomes: Silas Vai Lacraia, Silas Cláudia Raia, Silas Usassaia, Silas Levavaia, Silas Cinta-Caralha. 

Ele seria um pastor evangélico, porque Silas é um nome bíblico. 

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Cena 1: 
O pastor Silas (insira o seu sobrenome de preferência aqui) está no púlpito, fazendo sua pregação:
- Vocês conseguem imaginar, irmãos? Que coisa nojenta! Dois homens na cama! 

O público fica boquiaberto com a forte imagem descrita pelo pastor. Ele segue:

- Vocês sabem como Deus vê isso? Dois homens peludos, robustos, suados? Só de cuequinha, empilhados em cima um do outro? 

As pessoas se abanam com a Bíblia. "Só mesmo o pastor Silas para nos defender disso!", pensa uma senhora, preocupada com o estranho corrimento que lhe molhava a calcinha naquele momento. "Acho que tô com infecção urinária", jusfitica. O pastor continua:

- Que nojo! Dois homens fazendo abominação, colocando o pênis um do outro na boca? Isso não é de Jesus! O que vocês acham que Jesus pensaria de dois homens nus, um pesando nas costas dos outros, acariciando a bunda do outro, dando beijinhos do pescoço até a virilha um do outro?

A plateia já começa a estranhar a minúcia do discurso do pastor.

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Cena 2:

O pastor Silas chama seu ajudante, o pastor Cezão. 

- Olhem o Cezão, gente. Já pensaram que coisa horrível se dois homens como eu e o Cezão resolvessemos subverter as leis de Deus e nos deitarmos juntos? Vocês conseguem imaginar eu e o Cezão na cama?

Nenhuma cabeça da plateia fica imóvel, todas chacoalham de um lado para o outro, apavoradas com a possibilidade. Para chocar, o pastor senta-se no colo do Cezão e fala, imitando o estereótipo:

- Ui, gente! Olhem só! Eu sou um homossexual, quero ser fêmea do Cezão! 

Ele volta a fazer voz grossa:

- VEJAM QUE ABOMINAÇÃO, IRMÃOS. Pensem no Cezão me abraçando por trás, que nojo! Vem cá Cezão, me abraça por trás, mostra pra eles. Pode apertar. Aperta bem meu corpo contra o seu. Isso, Cezão! OLHA QUE COISA MAIS ABSURDA! UMA CRIANÇA NÃO PODE VER ISSO! 

O pastor Cezão fica sem jeito. Silas fala, firme:

- Não solta, Cezão!

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Cena 3: 

O nosso pastor prega contra a Igreja Católica, dizendo o quão inapropriadas são as imagens de Jesus nas igrejas 

- Ficam todos diante daquele homem nu! Todos falando de Deus, mas diante do corpo nu de um homem! Um homem nu, preso a uma cruz, numa posição indefesa, sem saída daquilo, sem poder se defender, à mercê de qualquer coisa que fizerem com ele. Uh, que loucura!


O pastor tenta disfarçar a onda de prazer que passou pelo seu corpo lhe dando calafrios. Ele remexe o corpo forte demais e algo estranho cai de sua calça.

É um vibrador. Enorme, roxo, com veias maiores do que a da testa do pastor Silas, que entra em pânico:

- IRMÃOS, NÃO SEJAIS ILUDIDOS! ISSO É COMO OS FÓSSEIS DE DINOSSAUROS! NÃO FUI EU QUE BOTEI ISSO NO MEU BUMBUM, FOI SATANÁS! PRA TESTAR NOSSA FÉ. 

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Não sei até que ponto isso seria prejudicial para o (fictício) pastor Silas. 

Afinal, o que importa é ser polêmico. Assim, mais gente frequentaria sua igreja. Com sorte, ele seria convidado para um debate polêmico no Superpop.

Quanto mais fama, mais crentes - e mais dinheiro.


Esse post foi escrito com a colaboração do historiador, colecionador de GI Joes e portador do sobrenome mais foda da história Gabriel Palitos.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...