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Mostrando postagens de Dezembro, 2012

Superstições

Minha família nunca teve dessas superstições de fim de ano. A única tradição que tínhamos no dia 31 de dezembro era reclamar do Show da Virada da Globo e contorcer o pescoço na sacada para ver os fogos da praça da cidade.

Não que eu não tivesse as minhas superstições:  "Vou aproveitar que tô comendo uva e mandar umas sete pra dentro", eu brincava. Gargalhava. E contava bem certinho sete, que era pra dar sorte.

"Peguei por acaso no guarda-roupa", eu falava, enquanto vestia a única roupa branca que eu tinha.

Coisa de supersticioso que não se assume.

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Esse ano, pela primeira vez, resolvi bancar que gosto desses rituais bestas. Gosto mesmo, e assumi minhas bichices de fim de ano.

Preparei todo um visual: camisa amarelo ovo, que é pra assumir que eu quero dinheiro, camiseta branca, por baixo, para garantir a paz, e uma calça jeans, porque eu não tenho nada de colorido para a parte de baixo do corpo.

Ficou faltando algo vermelho. Nada no meu guarda-roupa combinava com …

Como cometer suicídio

Nos meus tempos de adolescente obrigado a ir para a igreja, eu não sabia o que era pior: assistir os discursos prolixos que vinham do púlpito ou esperar a boa vontade dos meus pais de irem embora depois do culto.

Eu ficava em pé, olhando as pessoas se cumprimentando e torcendo para ir pra casa logo. Não era fácil fazer amigos da minha idade naquele ambiente em que, se eu comentasse com alguém que eu batia punheta de vez em quando, eu seria 'denunciado' e uma reunião seria feita - com todo o amor cristão, é claro - para debater meus hábitos sexuais com a Bíblia na mão.

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Foi mais ou menos nessa época que uma família nova se mudou para a nossa congregação. Um homem mais velho, oriental, afetuoso apesar da aparência rígida, sua esposa, uma mulher cuja permanente poderia ser vista da Lua, e três filhas.

Foram se tornando amigos da minha família. Com a proximidade, veio a descoberta que o pai da família era afetuoso sim, mas só com quem não era da família. Para cada filha, ele tin…

Cachorro-quente

Para alguns, Natal é uma coisa importantíssima. Devem ser muitos, imagino, já que o natal é uma onda geral de maluquice que acontece todos os anos e dura três meses.

Já para mim, o natal nunca fez tanta falta. Não fui em uma ceia de natal em toda a minha vida: nasci em uma família de Testemunhas de Jeová e, depois de crescido, não quis invadir a ceia de família alguma só para ver qual era a do peru.

Também nunca me fez falta acreditar em Papai Noel. Acho até meio bobo você criar a ilusão de que o tiozão barbudo existe só pra fazer uma criança chorar desdizendo isso depois.

Mais produtivo a criança crescer sabendo que o seu brinquedo novo veio do esforço do papai e da mamãe em trabalhar para ganhar dinheiro e em acotovelar estranhos em uma loja lotada na véspera.

Ainda assim, por algum motivo, eu tenho muito mais facilidade em aceitar quem adora o natal do que quem é fixado em outras tradições religiosas.

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Quando eu tinha 13 anos, fui comer cachorro-quente numa barraquinha perto de c…

Na redoma

Até agora, minha vida foi mais ou menos um trajeto fácil. Um momento ou outro de dificuldade maior, um draminha ocasional que me faça encher a boca pra dizer "enfrentei tal situação", cheio de orgulho. Ainda assim, quase tudo se resolveu facilmente. Sou branco, homem, de classe média e com uma saúde de ferro.

A situação em que boa parte da população mundial gostaria de estar.

Dei mais sorte ainda: consegui uma bolsa de estudos numa faculdade boa, meu pai pôde me ajudar a me manter numa cidade distante sem sacrifícios enormes, pude fazer um estágio na área social que, se não pagava bem, cobria meus supérfluos e me deixava arrotar algum grau de independência.

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Minha mãe é uma figura. Quando levei o primeiro chifre da minha vida - se você nunca foi traído, pegue sua senha e vá para o final da fila: um dia você vai ser. Idosos e gestantes tem direito a atendimento preferencial - telefonei para ela que, sem titubear, passou oito horas no ônibus seguinte, só com a roupa do corpo…

A Fraude e a Foca

Eu sou um péssimo nadador, mas persistente o suficiente para acreditar que, eventualmente, vou ser enquadrado como ruim ou, com sorte, medíocre. Uma vez tentei fazer uma travessia a nado no mar. Não dei conta de terminar o feito: nadei quatrocentos metros rumo à linha de chegada antes de entrar em pânico. Achei que não seria capaz de completar a prova e nadei os mesmos quatrocentos metros para voltar para o lugar de onde saí.

A prova era de setecentos e cinquenta metros. Seria menos trabalho terminar a prova do que perder tempo entrando em pânico e voltando.

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Seja por persistência ou chatice, voltei ao mar para tentar nadar uma segunda vez. Pleno inverno. O céu de Santa Catarina estava nublado e a água, geladíssima.

Não era, definitivamente, as condição ideal pra nadar. Enquanto criava coragem com os pés na areia, olhei para o lado e vi algo que parecia ser um cachorro.

“Que gozado, um cachorro nadando no mar!", pensei. “Se um cachorro consegue nadar nesse frio, eu também cons…