27.2.13

Dor de ouvido


Quando eu tinha dezessete anos, li um livro da Louise Hay chamado “Você pode mudar sua vida”. O livro fala sobre como as doenças que temos no corpo provém de padrões de pensamentos que temos, e como uma simples mudança de pensamento cura até uma perna amputada.

Passava horas olhando uma tabela, no livro, que relacionava a doença com o pensamento que a gerou e com o que pode curá-la. Eram coisas como “DOR NO ÂNUS – Dificuldade de deixar as coisas do passado irem embora. Repita para si mesmo: “Deixo o que não me pertence ir embora livremente. Me permito seguir a vida com leveza”.

Com o tempo, fui percebendo que essa história de Activia mental não era tão preto-no-branco quanto o livro fazia pensar. Ainda assim, a ideia de que as doenças têm a ver com os nossos pensamentos ressoou profundamente comigo.


Flávio, você pode vir aqui um pouquinho?

A voz veio de trás da mesa da professora. Eu tinha seis anos de idade, e já era pedante o suficiente para atravessar a sala de aula com a certeza que ela me chamava para fazer um elogio. Eu era o seu aluno queridinho. O puxa-saco. O estudioso. O CDF. Só podia ser um elogio.

Minha confiança foi destruída quando, quase sussurrando, a professora continuou:

Querido, quando você for tomar banho, pede pra sua mãe esfregar melhor a sua orelha? Ela tá toda encardida.”

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Fui de gênio a porco mais rápido do que o Fábio Jr vai de uma esposa a outra.

A questão era a seguinte: apesar de precisar de ajuda para alguém abrir a torneira pra mim, eu já era praticamente independente na minha higiene pessoal.

Eu já sabia tudo: que ao lavar o cabelo não era pra deixar entrar espuma no olho, que é importante secar entre os dedos dos pés com a toalha, que se você lava o pingolim mais de três vezes é porque já está brincando com ele... Enfim, eu era um profissional do banho.

Só não sabia que da importância de lavar a orelha.


Mas isso ia mudar, e rápido. Eu ia deixar minha professora tão orgulhosa quanto na vez que ela perguntou “De onde você copiou essa poesia?” e eu respondia “Não copiei, prôfe, fui eu que fiz!”.

Eu ia lavar tão bem aquela orelha que a professora ia dizer algo como “Que trabalho de profissional, Flávio! Sua mãe é uma limpadora de orelha e tanto!”.

Eu ia rodar os olhos e dizer, com ar de indiferença: “Professora, fui eu mesmo que lavei...”. Ela ia ficar tão impressionada com minhas capacidades higiênicas que eu só tiraria dez, o resto da vida.


Outro dia, já com vinte e dois anos de idade, estava com uma dor de ouvido terrível.

Lembrei do livro que juntava pensamento com doença. “O que é que eu não estou querendo escutar?”, fiquei pensando.

Depois de muito refletir e repetir para mim mesmo “Me permito ouvir o que a vida tem a dizer. A voz do outro não é mais capaz de me ferir”, como dizia o livro, a dor de ouvido não foi embora.

Tive de ir ao médico.


Você faz natação?”, perguntou ele. Confirmei que fazia. “É normal isso acontecer quando entra muita água no ouvido. Só toma cuidado para isso não acontecer de novo.

Dentro de mim, um pensamento gritou “COMO ASSIM NÃO PODE ENTRAR ÁGUA NO OUVIDO?”.

Desde os seis anos de idade eu me enfiava debaixo do chuveiro, ensaboava as orelhas, deitava a cabeça pro lado e enchia o ouvido de água. Que é pra ficar bem limpinho.


Então, se for ver bem, o livro estava até certo. Tinha mesmo uma coisa que eu não queria ouvir: alguém falar que a minha orelha estava suja.

De hoje em diante, vou corrigir meus procedimentos e limpar a orelha da maneira correta. Tem que enfiar o cotonete bem lá no fundo, certo?

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