30.5.13

Os Incurtíveis

As redes sociais nos deram o que nossos antepassados apenas sonhavam vir a ter. Não, não é feijão na mesa e escola para os filhos: é a possibilidade de exibir uma vida perfeita para os outros.

Sim, você já leu pelo menos mil e quatrocentos textos sobre como as pessoas projetam na internet aquilo que gostariam de ser. E é impossível negar isso. Metade dos meus amigos no Facebook gostariam de ser um hambúrguer do McDonald's com um filtro ruim do Instagram sobreposto.

--

O grande negócio de uma rede social não é o controle que temos sobre como nos mostramos - com a luz certa e a câmera desfocada o suficiente, você fica parecendo que quase não tem barriga na foto do perfil. Também não é a possibilidade de nos mostrar pros outros - você chama muito mais atenção saindo na rua com alguma coisa presa nos dentes do que com quinze publicações no Facebook.

O que nos interessa é o feedback.

Não tem a menor graça você passar horas projetando o queixo para frente, as pálpebras para cima e o nariz para a sombra antes de tirar uma foto se você não receber pelo menos um ou outro curtir e um comentário falando que você tem a aparência dos anjos e só está solteiro porque quer.

--

Minha avó precisou ser a única mulher alfabetizada da cidade, na sua época, para chamar atenção suficiente e conseguir um marido alcoólatra. Hoje, bastaria ela fingir ser alcoólatra ela mesma, publicando fotos de minissaia ao lado de uma pilha de latas vazias de Skol, seguidas pela hashtag #ousada.

Mas como eram outros tempos, ela precisou dar aula por quarenta anos para que hoje, quando vai à farmácia medir a pressão, algum cinquentão barbado a interrompa e diga "Dona Alba, lembra de mim? A senhora foi a melhor professora que eu já tive!".

Ela já não faz questão de fingir que reconhece a pessoa, mas tenho certeza que ela acha o elogio delicioso.

--

O feedback, que demorava muito para acontecer, agora aparece mais rápido. Uma frase certeira na sua timeline e já aparecem os "Curtir", dizendo que você é uma pessoa válida para esse mundo. Ótimo. Afinal, qual a graça de ser genial se ninguém aparece pra te dizer isso?

Não estou fora do que eu critico. Quase dez anos atrás, quando comecei o blog, achei "Comentários Abertos" um nome muito bom. Até hoje, é muito pouca gente que comenta os textos, mas pelo menos o meu motivo para escrever está explícito. A outra opção de nome era "Sorvete de Ego", que permanece no cabeçalho do blog. Serve pra provar que sou um autoabsorvido crônico.

--

Infelizmente, o feedback de rede social é muito efêmero. Provavelmente, quando eu estiver com 84 anos de idade, ninguém vai me interromper na farmácia para dizer que eu fiz uma diferença na sua vida.

Então, vou tirar uma foto de mim mesmo e publicar na rede social que estiver na moda. "Na farmácia, medindo a #pressão. #geraçãosaúde."

E vou curtir meu próprio link.

26.5.13

O Sobrevivente Dependente

Você é um sobrevivente. Pode assumir, você tem orgulho do que fez na vida. Você enfrentou sua família, a sociedade, os seus medos. Vez após vez, você encarou a solidão em busca de um objetivo e conseguiu. Você olha para o passado e sorri. Você é foda.

É fácil arrotar as conquistas do passado como se elas fossem medalhas de uma aquisição impossível de perder. Olhar para a vida, ver quantas vezes você foi corajoso e arredondar para cima como se isso fosse definitivo: "Eu sou corajoso".

Sobreviver dificuldades é o melhor combustível para o otimismo. Você olha para os obstáculos que já superou e percebe que isso pode se repetir.

Você fica com uma perspectiva bonita. "Sobrevivi ao que eu achava que seria impossível, não sobrevivi? Então, não importa o que continuar vindo de pedrada na vida, pode vir, eu aguento."

--

Nada é tão bom para destruir uma certeza como um coração partido. As pessoas mais fortes e corajosas que eu já encontrei foram, ao mesmo tempo, as mais carentes.

--

Ter passado por situações difíceis te fez perceber a força que tem, mas também desejar não precisar usar essa força o tempo todo. Desejar que alguns momentos da vida não sejam tão complicados, permitir-se ser frágil.

Aí aparece alguém com quem você se sente capaz de demonstrar fragilidade. É uma coisa tão maravilhosa que você mal percebe que despejou uma caçamba de vulnerabilidade na outra pessoa, e que esse peso é difícil de carregar, mesmo com todo o amor do mundo.

--

Foi tão difícil se abrir com alguém, que você passa a tolerar quando a pessoa ultrapassa um limite seu. Afinal, é mais fácil se tornar mais elástico com alguém do que perder a única pessoa com quem você é capaz de mostrar seu lado vulnerável.

Você começa aceitando falhas - ótimo -, começa a perdoar defeitos - muito cristão da sua parte, parabéns -, e termina engolindo traição e mentira - e se perguntando se isso compensa.

Concessão após concessão, você percebe que não sobrou mais nada de seu em você. De repente, você está implorando pela presença de alguém que - olha a ironia - se apaixonou por você por você ser independente.

--

É quando o amor passa a ficar cheio das matemáticas: "Vou sumir por um tempo para ele sentir minha falta". Você some e a pessoa não sente. Você cede outra vez, procura novamente o seu amor, e reforça a sua dependência da pessoa. "Não sou capaz de ficar sem", você pensa.

--

Finalmente você percebe que do jeito que está não está mais funcionando. Você decide botar um fim na história. Você termina o relacionamento, chora três oceanos e consegue se afastar. Percebe que, quem diria, você até que consegue ficar bem sozinho.

É quando o telefone toca e seu coração bate muito mais rápido. É a pessoa. Diz que sente sua falta. Que te quer. Que te ama.

E você cede outra vez.

--

Duas semanas depois, você percebe que já está completamente estragado no sentido romântico. Confiar já não é mais por inteiro, porque tudo o que se ouve tem o eco do que você já ouviu de mentira antes.

E você percebe pistas de que seria melhor não ter abortado o plano de se afastar.

Você se questiona. Se analisa. Porque não pode ser tudo culpa só do outro, né? A culpa também deve ser sua. Você investe para ser menos dependente. Você volta a rezar, depois de anos de ceticismo. Você pede forças para tomar a decisão certa.

Mas continua cedendo. De dor em dor, vai apanhando tanto até que cansa.

E não sabe se termina o relacionamento e enfrenta a solidão mais uma vez ou se aguenta mais um pouco na esperança de que a pessoa mude e você receba o troféu de toda a sua paciência.

--

Você ainda não sabe como vai resolver essa história, mas olha para trás novamente e pensa "Eu sobrevivi aos desafios de antes". Pede a Deus para que sobreviva a esse também - e para que a próxima pessoa tenha a chance de te conhecer tão disposto a se entregar quanto a última.

E que, da próxima vez, seja mais fácil.

12.5.13

Mamãe no Pedestal


Ouvi um professor comentar, uma vez, que quando a mãe é superprotetora com o filho, ela só encontrou um disfarce inconsciente para a própria rejeição. Depois de nove meses ouvindo falar que o que vai sair da barriga dela vai ser maravilhoso e que ela vai amar cada segundo, acontece que o que sai é só um bebê.

A recém-mãe se vê com aquela coisinha enrugada no colo e se sente culpada por não sentir tudo aquilo que a vizinha disse que sentiu quando o filho dela nasceu. A culpa é tanta que ela decide - inconscientemente, é claro - que a coisinha enrugada vai ser tudo na vida dela.

E isso dá merda.

--

Me parece que as propagandas de TV que falam das mães como se fossem seres iluminados, incapazes de errar, um poço de candura e mais nada, estão fazendo a mesma coisa.

Tá certo que um comercial falando "Mãe, eu casei com uma histérica por sua causa" não vai vender tantas máquinas de lavar quanto um que fale "Mãe, a mulher que peida cheiroso por amor aos filhos". Mas isso vai além do que passa nas propagandas.

Por que nós precisamos tanto endeusar nossas mães? Sim, o amor maternal é lindo. Sim, ela te levaria sacolas cheias de comida se você fosse preso.

Mas talvez, só talvez, essa história de colocar as mães no pedestal tenha um fundinho de rejeição. E por mais que sua mãe possa ficar muito feliz com os elogios infindáveis que ganha uma vez por ano, pode ser que ela sinta falta de uma coisa mais sincera.

--

Eu lembro da maior demonstração de amor que eu dei para minha mãe quando era criança.

Meu irmão e eu, pré-adolescentes, corríamos gritando pela casa. Ela, exausta depois de um dia de dar aula de história em um colégio, perdeu a paciência.

Tirou a pantufa do pé, mandou ficar de costas e bateu na gente com toda a força que pôde.

Só que toda a força que ela tinha, no final do dia, era muito pouquinha. A pantufa era macia, e tanto eu quanto meu irmão já éramos bem maiores que ela.

A surra não doía absolutamente nada, mas aí vem a demonstração de amor. Eu e meu irmão trocamos um olhar e, juntos, começamos a chorar aos berros.

Minha mãe, satisfeita, falou "Doeu mais em mim do que em vocês! Agora vão dormir!".

Eu e meu irmão concordamos com ela, em silêncio. Ainda assim, aquietamos nosso facho. Porque, tadinha, ela merecia uma noite de sono.

Isso é amor.

--

Tratar a relação de pais e filhos como se fosse só amor e nenhum problema cria uma distância desnecessária. O amor de verdade existe quando você reconhece que nem tudo é perfeito.

Quando uma mãe olha para o filho recém-nascido e pensa "Credo, essa coisa esquisita é meu filho?", mas toca o barco mesmo assim, ela descobre um amor muito mais bonito do que o que aparece no comercial de fraldas.

Da mesma maneira, quando você entende que sua relação com sua mãe pode ter mágoas e raivas escondidas, mas ainda assim lembra de telefonar para ela todos os dias, você encontra um amor muito maior do que o que está na propaganda do Boticário.

--

Um amor que se demonstra todos os dias, mesmo com dificuldade, é melhor do que um endeusamento que se dá de vez em quando por obrigação.

Mas como não somos filhos de chocadeira, dá pra trapacear no dia das mães e falar que ela é a pessoa mais perfeita do mundo.

Porque - mesmo não sendo - ela é.

Sem cinismo

Uma criança brinca. Corre como se não tivesse limites, desbrava a sala como se fosse um campo de guerra e cai no chão como quem cai numa emb...