20.7.13

Muchas gracias, pero soy fea

"Você tá escrevendo pra caralho!"
Por mais que o ambiente da boate não fosse dos mais silenciosos, foi difícil não me assustar um pouco com a voz que veio de trás de mim. Um colega meu dos tempos de ensino médio surgiu, me cumprimentando aos abraços e repetindo o elogio para quem quisesse ouvir.

Fiquei meio bobo e sem resposta. É muito difícil receber um elogio quando você não quer fazer pouco de si, um "muito obrigado" não corresponde a alegria que você sentiu e o lugar é impróprio pra fazer sexo oral na pessoa que te elogiou.

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A única coisa mais difícil do que não receber reconhecimento nenhum é justamente receber o reconhecimento que você queria. Mesmo que você passe o dia resmungando que seu trabalho não é reconhecido, a hora em que se é elogiado sempre é constrangedora.

Talvez o embaraço causado por um elogio venha da surpresa que se sente quando alguém tem uma visão positiva daquilo que achamos ruim em nós mesmos.

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Também não concordo com retribuir um elogio com falsa modéstia. Nada é mais desesperado do que alguém que passa quatro horas em frente ao espelho antes de sair de casa e responde um "Que bonito você está!" com um "Imagina, tô nada".

Se você fez um esforço pra conseguir alguma coisa e esse esforço é recompensado com um elogio, o mínimo que você pode fazer - em respeito ao próprio esforço que fez - é aceitar com gratidão o resultado.

Se não, você é equivalente a uma menina que mendiga atenção postando fotos tiradas na frente do espelho, fazendo biquinho, com os peitos de fora e a legenda "Sou feia =/".

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Gratidão é um sentimento realmente difícil de descrever. E de provocar, também, já que é quem recebe algo de bom que provoca gratidão em quem lhe deu essa coisa, e não o contrário.

No chavão de que é melhor dar do que receber, é de gratidão de que se fala. Roubando um exemplo do Luiz Gasparetto (que fez fortuna fazendo palestras de auto-ajuda e programas de rádio para um público composto de velhinhas donas-de-casa e eu), peço ao leitor que se coloque na seguinte situação:

Você tem um filho prestes a completar cinco anos de idade. A grana está curtíssima, mas você se esforça para dar uma festa de aniversário. Com todo o amor do mundo, você vira a madrugada fazendo salgadinhos e enrolando brigadeiros. Com os olhos pesados de sono, você gasta seu fôlego enchendo bexigas e machuca a coluna pendurando a decoração no teto.

Na hora da festa, você prefere que:
a) Seu filho corra até você e diga "Muito obrigado!", mostrando a boa educação que recebeu de você.
b) Seu filho perca completamente a cabeça, corra de um lado para o outro com os amiguinhos, passe mal de tanto comer doce e passe a semana perguntando quando vai ser seu aniversário de novo.

A primeira opção mostra a gratidão expressa, que é até bacana, mas na segunda opção a gratidão é sentida - pela criança que gozou tudo o que pode da festa e pelo pai que se esforçou para fazer a festa acontecer e ficou feliz com o brilho nos olhos do filho.

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Por isso que a melhor maneira de agradecer alguma coisa boa é sempre aproveitar ao máximo aquilo que recebeu - seja um elogio, o apoio de um amigo ou um dia bonito.

Isso, é claro, quando fazer sexo oral na pessoa que lhe presenteou não for uma opção válida.

4.7.13

Doutorzinho

A casa dos meus avós sempre foi mais parecida com um cassino pobre do que com uma casa normal. Talvez por falta de outra opção na cidade pequena, dezenas de velhinhos se revezavam nas visitas para jogar uma rodada de canastra ou truco, temperada com histórias do passado e competições acirradíssimas de quem estava mais doente.

Numa das vezes que apareci de surpresa para uma visita, minha avó se apressou a me exibir para a amiga.
"Esse é o meu neto, tá morando lá pra Curitiba. Vai ser médico. Doutor."

Fiquei sem jeito mas não vi problemas em corrigir o engano da minha vó.
"Médico não, vó. Eu faço psicologia."

A decepção foi pior do que se eu tivesse dito que ia me tornar alcoólatra profissional. Visivelmente envergonhada diante da amiga, ela tentou disfarçar:
"Bom, o importante é estudar, né?"

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A reação de alguns médicos quanto à possibilidade de trazer médicos cubanos para o Brasil é interessante de se observar. Falam que os profissionais cubanos são mal preparados (o equivalente a um enfermeiro brasileiro, dizem). Que não há planos de carreira decentes. Que falta estrutura para o atendimento.

Entretanto, numa questão de emergência como essa, a maior questão é: um atendimento simples é pior do que atendimento nenhum?

Em paralelo com os protestos dos médicos, outras categorias (como enfermeiros, fisioterapeutas, psico e fonoaudiólogos) reclamam do Ato Médico, que faz com que qualquer diagnóstico precise ser feito por um médico, ignorando os conhecimentos das outras categorias da área da saúde.

Já faltam médicos. Ao evitar que outras categorias também possam fazer atendimentos básicos, a questão não é a qualidade de atendimento. É disputa de mercado.

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A visão do médico como um detentor de todos os conhecimentos sobre o corpo humano já é impossível. A quantidade de especialidades médicas já evidencia como o ser humano é extenso demais para que todas suas necessidades sejam compreendidas por uma só pessoa.

Os poucos lugares onde essa visão de médico onipotente persiste são as cidades pequenas, onde faltam médicos e o atendimento básico fica emperrado por não poder ser feito pelas categorias mais humildes da área da saúde.

É o que faz minha avó achar que um neto médico seria o maior orgulho que a família poderia ter. Um marketing muito bem feito pela medicina, que convenceu muita gente de que está acima das outras áreas, vistas como descartáveis e menos importantes. A ideia de trazer médicos cubanos para o Brasil fez a categoria médica ser tratada como sempre tratou as outras categorias da área da saúde. Claro que doeu.

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Além disso, numa cidade pequena, faltam mesmo opções. Numa cidade menor, não se pode ir ao cinema, ao teatro ou a um bar diferente a cada fim de semana.

Provavelmente esse seja o maior problema: o não haver médicos nas regiões distantes do país não diz só a respeito dos médicos, mas da falta de possibilidades. Além de faltar saúde, falta cultura e lazer. Falta diversão.

Quem diria que justo a falta de cultura causaria um transtorno de falta de saúde? A falta de possibilidades de entretenimento deixa qualquer um doente mesmo.

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Tendo morado em uma cidade do interior na maior parte da minha vida, percebi que se aprende a compensar a falta de opções. Não ter tantos lugares para sair te obriga a conhecer os vizinhos, fazer amizades mais profundas e se aproximar do povo que te cerca.

O que é, aparentemente, justo o que a categoria médica não deseja fazer.

3.7.13

Óculos

Depois de dez anos usando lentes de contato, meus olhos não aguentaram mais o tranco e pediram arrego. Desde então, tive que voltar a usar óculos para evitar que minha abundância de miopia me faça ser atropelado por um ônibus.

Procurei muito por um óculos que se adaptasse ao meu rosto e não me incomodasse tanto. Acabei escolhendo a que custava menos. Difícil viver com uma armação estampada no rosto.

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"Se você ficar forçando o olho pra ficar vesgo, vai acabar enxergando assim pra sempre!".
Mal sabia minha família que dizer isso pra mim era basicamente me mandar ficar forçando os olhos o tempo todo. Além disso, passava as noites tentando ler gibi com a luz do quarto apagada. Tudo para ficar cegueta.

Lembro bem do dia em que saí do consultório médico com uma receita de óculos pela primeira vez. Eu saí correndo, pulando e girando do consultório, tamanho era o êxtase da graça alcançada.

Para mim, naquela época, usar óculos era incrível. Um atestado para a maturidade. Finalmente as pessoas depositariam em mim a confiança que eu merecia. Afinal, quem pode contradizer uma criança de oito anos com vidro e metal pendurados na cara?

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Fiquei abismado com como as coisas eram diferentes usando o óculos. As lâmpadas tinham formato próprio, e não a aparência de um fogo de artifício que nunca termina de explodir. Tudo era uma surpresa. Minha vó ficou impressionadíssima quando eu gritei "NOSSA, VÓ, DÁ PRA VER TODAS SUAS RUGAS!". 

Quase me bateu, de tão alegre que ficou.

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Um dos efeitos colaterais de usar óculos é que os olhos, com o tempo, podem não produzir mais lágrimas o suficiente para lubrificar o olho.

Aliás, isso também é um efeito colateral de usar lentes de contato. E de fazer uma cirurgia corretiva de visão. Acontece alguma coisa num olho que enxerga mal e passa a enxergar bem que faz com que ele decida seguir a vida seco. 

Talvez porque passando a ver a vida com mais detalhes, haja menos motivo pra chorar. 
Talvez porque o olho se recuse a produzir lágrima depois de ser chamado de incompetente e coberto por uma lente que muda todo o foco que ele tinha na vida. 

Ainda assim, antes que os olhos sofram de sequeira que de cegueira.

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Hoje eu já estou acostumado a usar óculos novamente, mas odeio tirar fotos com eles. Parecer mais inteligente do que sou e ser visto como adulto era muito mais interessante aos oito anos.

A vaidade não me ajuda muito. Eu saio na foto com os olhos miúdos de tanto apertar, tentando descobrir onde o fotógrafo está. 

E nem adianta procurar ficar bonito. Se a beleza está nos olhos de quem vê, melhor que quem me vir seja míope. Somos mais compatíveis e a relação vai ter menos lágrimas.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...