4.7.13

Doutorzinho

A casa dos meus avós sempre foi mais parecida com um cassino pobre do que com uma casa normal. Talvez por falta de outra opção na cidade pequena, dezenas de velhinhos se revezavam nas visitas para jogar uma rodada de canastra ou truco, temperada com histórias do passado e competições acirradíssimas de quem estava mais doente.

Numa das vezes que apareci de surpresa para uma visita, minha avó se apressou a me exibir para a amiga.
"Esse é o meu neto, tá morando lá pra Curitiba. Vai ser médico. Doutor."

Fiquei sem jeito mas não vi problemas em corrigir o engano da minha vó.
"Médico não, vó. Eu faço psicologia."

A decepção foi pior do que se eu tivesse dito que ia me tornar alcoólatra profissional. Visivelmente envergonhada diante da amiga, ela tentou disfarçar:
"Bom, o importante é estudar, né?"

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A reação de alguns médicos quanto à possibilidade de trazer médicos cubanos para o Brasil é interessante de se observar. Falam que os profissionais cubanos são mal preparados (o equivalente a um enfermeiro brasileiro, dizem). Que não há planos de carreira decentes. Que falta estrutura para o atendimento.

Entretanto, numa questão de emergência como essa, a maior questão é: um atendimento simples é pior do que atendimento nenhum?

Em paralelo com os protestos dos médicos, outras categorias (como enfermeiros, fisioterapeutas, psico e fonoaudiólogos) reclamam do Ato Médico, que faz com que qualquer diagnóstico precise ser feito por um médico, ignorando os conhecimentos das outras categorias da área da saúde.

Já faltam médicos. Ao evitar que outras categorias também possam fazer atendimentos básicos, a questão não é a qualidade de atendimento. É disputa de mercado.

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A visão do médico como um detentor de todos os conhecimentos sobre o corpo humano já é impossível. A quantidade de especialidades médicas já evidencia como o ser humano é extenso demais para que todas suas necessidades sejam compreendidas por uma só pessoa.

Os poucos lugares onde essa visão de médico onipotente persiste são as cidades pequenas, onde faltam médicos e o atendimento básico fica emperrado por não poder ser feito pelas categorias mais humildes da área da saúde.

É o que faz minha avó achar que um neto médico seria o maior orgulho que a família poderia ter. Um marketing muito bem feito pela medicina, que convenceu muita gente de que está acima das outras áreas, vistas como descartáveis e menos importantes. A ideia de trazer médicos cubanos para o Brasil fez a categoria médica ser tratada como sempre tratou as outras categorias da área da saúde. Claro que doeu.

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Além disso, numa cidade pequena, faltam mesmo opções. Numa cidade menor, não se pode ir ao cinema, ao teatro ou a um bar diferente a cada fim de semana.

Provavelmente esse seja o maior problema: o não haver médicos nas regiões distantes do país não diz só a respeito dos médicos, mas da falta de possibilidades. Além de faltar saúde, falta cultura e lazer. Falta diversão.

Quem diria que justo a falta de cultura causaria um transtorno de falta de saúde? A falta de possibilidades de entretenimento deixa qualquer um doente mesmo.

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Tendo morado em uma cidade do interior na maior parte da minha vida, percebi que se aprende a compensar a falta de opções. Não ter tantos lugares para sair te obriga a conhecer os vizinhos, fazer amizades mais profundas e se aproximar do povo que te cerca.

O que é, aparentemente, justo o que a categoria médica não deseja fazer.

4 comentários:

  1. É o que faz minha avó achar que um neto médico seria o maior orgulho que a família poderia ter. Um marketing muito bem feito pela medicina, que convenceu muita gente de que está acima das outras áreas, vistas como descartáveis e menos importantes.
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    excelente seu Flávio

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