3.7.13

Óculos

Depois de dez anos usando lentes de contato, meus olhos não aguentaram mais o tranco e pediram arrego. Desde então, tive que voltar a usar óculos para evitar que minha abundância de miopia me faça ser atropelado por um ônibus.

Procurei muito por um óculos que se adaptasse ao meu rosto e não me incomodasse tanto. Acabei escolhendo a que custava menos. Difícil viver com uma armação estampada no rosto.

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"Se você ficar forçando o olho pra ficar vesgo, vai acabar enxergando assim pra sempre!".
Mal sabia minha família que dizer isso pra mim era basicamente me mandar ficar forçando os olhos o tempo todo. Além disso, passava as noites tentando ler gibi com a luz do quarto apagada. Tudo para ficar cegueta.

Lembro bem do dia em que saí do consultório médico com uma receita de óculos pela primeira vez. Eu saí correndo, pulando e girando do consultório, tamanho era o êxtase da graça alcançada.

Para mim, naquela época, usar óculos era incrível. Um atestado para a maturidade. Finalmente as pessoas depositariam em mim a confiança que eu merecia. Afinal, quem pode contradizer uma criança de oito anos com vidro e metal pendurados na cara?

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Fiquei abismado com como as coisas eram diferentes usando o óculos. As lâmpadas tinham formato próprio, e não a aparência de um fogo de artifício que nunca termina de explodir. Tudo era uma surpresa. Minha vó ficou impressionadíssima quando eu gritei "NOSSA, VÓ, DÁ PRA VER TODAS SUAS RUGAS!". 

Quase me bateu, de tão alegre que ficou.

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Um dos efeitos colaterais de usar óculos é que os olhos, com o tempo, podem não produzir mais lágrimas o suficiente para lubrificar o olho.

Aliás, isso também é um efeito colateral de usar lentes de contato. E de fazer uma cirurgia corretiva de visão. Acontece alguma coisa num olho que enxerga mal e passa a enxergar bem que faz com que ele decida seguir a vida seco. 

Talvez porque passando a ver a vida com mais detalhes, haja menos motivo pra chorar. 
Talvez porque o olho se recuse a produzir lágrima depois de ser chamado de incompetente e coberto por uma lente que muda todo o foco que ele tinha na vida. 

Ainda assim, antes que os olhos sofram de sequeira que de cegueira.

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Hoje eu já estou acostumado a usar óculos novamente, mas odeio tirar fotos com eles. Parecer mais inteligente do que sou e ser visto como adulto era muito mais interessante aos oito anos.

A vaidade não me ajuda muito. Eu saio na foto com os olhos miúdos de tanto apertar, tentando descobrir onde o fotógrafo está. 

E nem adianta procurar ficar bonito. Se a beleza está nos olhos de quem vê, melhor que quem me vir seja míope. Somos mais compatíveis e a relação vai ter menos lágrimas.

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