26.9.13

Tem gente olhando

Experiência: procure qualquer fotografia publicada em rede social em que várias pessoas apareçam juntas.

Desça até os comentários e provavelmente você vai encontrar várias pessoas falando sobre como estão feias. A foto pode ser linda, um grupo de amigos sorrindo felizes, mas os comentários de "Apaga, tô horrível!" vão estar lá, pode ter certeza.

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Já não participamos mais direito das coisas, tá todo mundo mexendo no celular o tempo todo. Tudo bem, agora o que vale é o registro e não a experiência, mas conseguimos piorar o que já era terrível: só vale o registro em que eu me acho bonito. Uma foto feia ou um check-in em um lugar fora de moda é mais temido que a morte.

Tratamos as redes sociais como nossas avós tratavam suas panelas: esfregamos até ficar brilhando, pra vizinha não ver defeito. Infelizmente, não sai comida gostosa nenhuma do meu Facebook.

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O pai de uma amiga lhe deu um conselho que eu adotei pra mim mesmo: "Sempre que você vir uma foto sua em um grupo de pessoas, a última pessoa que você deve reparar na foto é você."

Tente fazer isso. É quase impossível.

Pode ser a foto de todos os funcionários da empresa em que você trabalha, quatrocentas pessoas lado a lado, com a Rita Cadillac de peitos de fora (ela trabalha na mesma empresa que você), pode ter um Mustang neon estacionado na frente.

O primeiro instinto é procurar a si mesmo. Conferir se o cabelo ficou legal.

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Eu demorei pra entender o conceito de rede social.

Quando eu tinha dezesseis anos, a moda era ter Fotologs. Era muito difícil fazer um fotolog. A procura era tanta que apenas 500 novos usuários eram permitidos por dia, e você poderia publicar uma foto só por dia (e ela poderia ter no máximo dez comentários). Mais do que isso, só com uma conta VIP.

Eu não entendia porque todo mundo usava o endereço do Fotolog,  sendo que havia tantos outros serviços de hospedagem de fotografia sem todos os limites que o Fotolog impunha. Quis dar uma de pioneiro, mas pouca gente reconheceu minha inovação e minha conta no Photobucket morreu por falta de visitas. Acabei me rendendo e fazendo um Fotolog pra mim também.

Outro problema que eu tinha era não ter uma câmera fotográfica digital, o que me atrapalhava pra cumprir o requisito de uma foto por dia. Resolvi isso comprando uma câmera-chaveiro no Mercado Livre por 35 reais. Uma grana razoável, perto do que eu ganhava na época.

Não adiantou muito: as fotos saíam mais granuladas que um brigadeiro feito por uma pessoa com Mal de Parkinson.

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Pra não ficar refém da minha câmera terrível, comecei a grudar em pessoas que iam para a escola de câmera digital na mão e a tirar foto com elas.

Assim, não só eu teria fotos novas com frequência como também fingiria que tinha amigos. Era o plano perfeito.

Uma das pessoas que caíram no meu plano era uma das meninas mais populares da sala de aula. Pra você ter uma ideia do quanto ela era relevante, ela não tinha só um, tinha DOIS Fotologs.

Tiramos uma foto juntos. Quando ela me enviou (via MSN Messenger, outro defunto), me disse: "Editei a foto e deixei mais azulada, pras suas espinhas não aparecerem tanto."

Ou ela era uma pessoa que seguia a regra de se ver por último na foto, ou minhas espinhas eram realmente um problema.

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O motivo das pessoas aceitarem as inúmeras restrições de um serviço de hospedagem de fotografias era a moda. Não era só um site de fotos, era um embrião de rede social. (Aliás, até hoje a descrição site do Fotolog é "the world's leading photo-blogging and social networking website". Acho que eles estão mal informados.)

As pessoas estavam lá para se mostrarem, para se sentirem vistas. Era um medidor de popularidade. Ter um Fotolog era fundamental para ser relevante no mundo online.

Hoje, ter um Fotolog é tão obsoleto quanto carregar fichas telefônicas no saquinho de moedas.

Nada daquilo, que parecia tão importante, existe mais.

Dá pra entender porque eu não quero fazer um Instagram, agora?

18.9.13

Julgamentos

Não sou petista, mas quando alguém comenta sobre política e usa as palavras "petralha" ou "corruPTos", eu já não consigo ouvir a sua opinião do mesmo jeito.

Fica uma impressão de que a ideologia está à frente do julgamento. Se eu não gosto do partido e parte do partido é corrupta, generalizo que o partido todo é corrupto. E o ideal realmente seria esse: qualquer ato de corrupção de um partido queimando a imagem de todos os seus membros.

Mas, infelizmente, quem pensa dessa maneira costuma usar a generalização só para os casos que convém.

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Para as Testemunhas de Jeová, existe a figura do ancião. O ancião é uma espécie de pastor e guia dos fiéis daquela localidade. Se você comete um pecado, deve (ao menos teoricamente) confessá-lo para essa pessoa. Se você falar que está arrependido, tudo bem. Se o pecado foi muito grave, você pode ser repreendido de alguma maneira.

Se você não se arrependeu, ou foi descoberto sem confessar e não pretende mudar seu comportamento, você é desassociado - isto é, as outras Testemunhas de Jeová não podem se comunicar com você. Sua família, seus amigos e as pessoas que antes você chamava de irmãos deixam até de te cumprimentar, até que você perceba seu "erro" e peça para voltar para a organização.

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O primeiro sinal de que alguém não entende de política é quando ela comenta qualquer coisa sobre política no Facebook seguida pelas palavras "ACORDA BRASIL!".

Fica parecendo alguém que está em um hotel e acabou de acordar assustado, tarde demais, e levanta gritando pra quem mais estiver no quarto: "Acorda, gente, vão tirar o café-da-manhã daqui a pouco!".

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Sei que, lá pelos meus dezesseis anos, um dos anciãos da congregação de Testemunhas de Jeová que meus pais frequentavam foi até o trabalho do meu pai para demonstrar seu amor cristão, dizendo que sabia que eu tinha comportamentos "afeminados" na escola, e que meu pai deveria tomar uma atitude.

Mal sabia ele que eu já tinha contado para os meus pais que sou gay, e que eu já achava aquela história de prestar contas da minha vida sexual uma grande idiotice.

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Meus comportamentos afeminados, dos quais o ancião foi carinhoso o suficiente para alertar meu pai, consistiam em ter amizade com meninas. Apenas isso.

Uma das meninas, inclusive, era a filha dele, uma das pessoas mais deliciosamente promíscuas que eu já conheci.

Algum tempo depois, fiquei sabendo (via fofoca, não tenho certeza de nada) que ele perdeu seu cargo de ancião depois de ser descoberto dando um calote financeiro alto em uma empresa.

Pobrezinho.

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É incrível, mas antes de terminar esse texto, fiquei extremamente ansioso. Com as mãos tremendo, telefonei para a minha mãe e, apesar dos pedidos dela para não falar da sua religião e correr o risco de ser desassociado, resolvi publicá-lo.

Pensando melhor, publicar esse texto é difícil não por medo de que a minha família seja proibida de falar comigo.

É difícil porque eu não conheço o ponto de vista da pessoa dedurou minha sexualidade ao meu pai. Eu não sei se realmente ele deu calote em alguém. É possível que filha dele, infelizmente, não seja tão promíscua quanto eu me lembro da adolescência.

Por mais mágoa que essa pessoa tenha me causado, não tenho interesse de retribuir essa mágoa à ele ou à sua família. Eu estaria fazendo uma generalização grosseira, como quem sai criticando os "petralhas" em comentários de internet.

Mas honestamente? Desejo do fundo do meu coração que a filha dele, promíscua ou não, lhe dê um neto muito, mas muito, mas muuuuito gay.

12.9.13

Economia

Eu sou, entre os meus amigos, um notório pão duro.

Não que eu negue pagar a rodada de cerveja quando chega a minha vez, mas antes de sair todos já sabem que eu vou fazer campanha pra irmos ao bar mais barato.

Não me interessa o som ambiente, os móveis de designer famoso ou "gente bonita". (Parênteses: quando me falam que um lugar é bom porque tem gente bonita, eu já sei que o lugar é ocupado por gente branca - quase sempre se sentindo especialpor estar uma camisa de duzentos reais igual a que todos ao redor estão usando.)

O que me interessa é a promoção de duas cervejas por cinco reais.

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Estudando psicologia, você se aproxima e cria distância da própria saúde mental ao mesmo tempo.

Não dá pra ficar analisando tudo o que se sente o tempo todo, então você se assusta quando percebe que não está legal não pelo próprio sentimento, mas por observar os sintomas que tem apresentado:

"Peraí, já é o terceiro dia em que eu não consigo sair da cama e choro antes de dormir."
"Opa, tô pegando pesado no doce ultimamente."
"Esse comercial do Itaú é tão emocionante, né?"

E, por último, somando todas as alternativas:

"Puta que pariu, será que eu tô triste?"

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Estava fazendo um sanduíche de queijo e presunto pro café da manhã e reparei que o presunto é mais barato, por quilo, do que o queijo. Aliás, o quilo de carne é mais barato que o queijo.

O que me deixa confuso, já que a vaca leiteira é reaproveitável e o boi morto não.

Na minha pirâmide alimentar, a felicidade trazida por uma fatia de queijo é muito mais importante que a proteína trazida por uma fatia de carne.

Como todo bom pão duro, fui aos cálculos: segundo os especialistas gabaritadíssimos do Yahoo Respostas, uma vaca produz em média 30 litros por dia.

Por não poder exagerar no café preto por conta de uma gastrite, só eu bebo sozinho um litro de leite por dia.

Se cada pessoa em Curitiba tomar metade do leite que eu tomo, precisaremos de cinquenta mil vacas dando o melhor de si todos os dias, só pra abastecer a cidade.

Isso sem contar o que vira queijo e iogurte. É um exército de vacas.

Pobres bezerrinhos.

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O pão-durismo é o maior indicativo de pessimismo que uma pessoa pode ter. Por trás da fachada de fazer bons negócios, mora o fantasma de que não há o suficiente para todos. Mora a necessidade de economizar tudo, pra economizar a si mesmo diante do sofrimento que a vida pode trazer.

É uma fantasia quase apocalíptica para quase tudo.

O preço do litro de leite no supermercado vira desculpa para se preocupar com as vacas, com a quantidade de pasto, com os bezerros. O litro de leite caro indica que está tudo errado, e pode levar a uma crise de choro ainda mais potente do que a causada pelo comercial do Itaú.

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Leite de soja definitivamente não é a mesma coisa que leite normal. Acredito que a solução seja produzir um pequeno animal transgênico que consiga dar leite custando pouco.

Você acorda, vai à cozinha, sua gata ronrona pra você. Você faz um carinho no pescoço dela, ela deita, você pega sua xícara e tira duzentos mililitros de leite para o seu café.

E depois cai no choro por estar explorando sua pobre gatinha, que nada tem a ver com seu vício em cafeína.

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Ainda assim, o litro de leite a três reais ainda é mais vantajoso do que duas cervejas por cinco. Primeiro, porque quase não existe mais bar que venda duas cervejas de 600ml por cinco reais. Segundo, porque quando vende, o que você bebe não pode muito bem ser chamado de cerveja.
Terceiro, porque o litro de leite a três reais pode te dar uma vontade de chorar que só se atinge normalmente depois da sexta cerveja.

É uma questão de economia.

10.9.13

Cortador de Grama

Estava indo almoçar hoje quando vi, no pátio de um salão de beleza chique do bairro, uma mulher ajoelhada no chão. Reparei bem: suas roupas estavam rasgadas, a boca travada como se estivesse com raiva, a pele que parecia um pêssego (se o pêssego estivesse apodrecendo).

Nas suas mãos, um canivete. A mulher estava cortando a grama de todo o pátio do salão de beleza com um canivete de dez centímetros.

Não quis imaginar quanto ela estava recebendo pelo seu serviço. Provavelmente uma fração do que se cobra por um corte de cabelo naquele salão.

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A minha geração foi alimentada com facilidades desde o útero. Ver uma pessoa num subemprego é terrível, mas ótimo pra botar em perspectiva o olhar travado pela vida na classe média.

Já reclamei muito sobre como queria poder ganhar a vida escrevendo. Realmente, passar anos e anos burilando um estilo, se dedicando a um ofício, e não poder receber o sustento dele tem sua dose de frustração. Mas a frustração é sempre fruto do mimo: como é que a vida ousa não me dar o que eu queria?

E aí aparece alguém cortando a grama com um canivete por menos do que você pagou pelo almoço.

E volta a questão com que todo mundo se depara em algum momento da vida: ir atrás de um sonho ou se contentar com um lugar mais acessível na cadeia produtiva?

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Meu vizinho sustentou a família por anos vendendo espetinho na rua, mas resolveu correr atrás do próprio sonho e se tornar detetive.

Hoje, ele se divide em uma identidade dupla: durante o dia, trabalha com o seu carrinho de espetinhos, mas à noite entra em seu Palio 96 (coberto de adesivos com uma lupa gigante e as palavras DETETIVE PARTICULAR estampadas em uma fonte tão grande que fariam uma fachada de hipermercado passar vergonha) e vai combater o crime.

Não sei vocês, mas eu pensaria duas vezes antes de entrar em um motel com uma amante se esse carro estivesse me seguindo.

Talvez a estratégia seja essa mesmo. Em vez de fotografar os segredos dos seus investigados, ele simplesmente os constrange até que parem de fazer o que faziam. Melhor um detetive que diga "Seu marido parou de te trair" do que um que diz "Seu marido tá te traindo."

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Por isso é tão fascinante assistir alguém se dando mal. Não é à toa que tanta gente assiste a primeira fase do American Idol. Parte do fascínio de ver alguém indo a um concurso de calouros e mandando mal é o alívio de pensar "Pelo menos não sou eu".

É fugir do próprio ridículo e se livrar da culpa de não ter se exposto quando desejava. Ajuda a fingir que não fracassamos. Por isso acho muito mais honrado quem assume o próprio sonho (e seu próprio fracasso) do que quem nem se arrisca a dizer o que sonhava pra si e faz papel de satisfeito com a vida.

Melhor fazer papel de Sherlock Holmes. Ou de cortador de grama.

Pra quê serve a adolescência?

Nem todo choro é igual. Existe aquele choro comum, um choro de cotidiano, pras angústias do dia-a-dia, e existe o choro sentido, vindo do f...