10.9.13

Cortador de Grama

Estava indo almoçar hoje quando vi, no pátio de um salão de beleza chique do bairro, uma mulher ajoelhada no chão. Reparei bem: suas roupas estavam rasgadas, a boca travada como se estivesse com raiva, a pele que parecia um pêssego (se o pêssego estivesse apodrecendo).

Nas suas mãos, um canivete. A mulher estava cortando a grama de todo o pátio do salão de beleza com um canivete de dez centímetros.

Não quis imaginar quanto ela estava recebendo pelo seu serviço. Provavelmente uma fração do que se cobra por um corte de cabelo naquele salão.

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A minha geração foi alimentada com facilidades desde o útero. Ver uma pessoa num subemprego é terrível, mas ótimo pra botar em perspectiva o olhar travado pela vida na classe média.

Já reclamei muito sobre como queria poder ganhar a vida escrevendo. Realmente, passar anos e anos burilando um estilo, se dedicando a um ofício, e não poder receber o sustento dele tem sua dose de frustração. Mas a frustração é sempre fruto do mimo: como é que a vida ousa não me dar o que eu queria?

E aí aparece alguém cortando a grama com um canivete por menos do que você pagou pelo almoço.

E volta a questão com que todo mundo se depara em algum momento da vida: ir atrás de um sonho ou se contentar com um lugar mais acessível na cadeia produtiva?

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Meu vizinho sustentou a família por anos vendendo espetinho na rua, mas resolveu correr atrás do próprio sonho e se tornar detetive.

Hoje, ele se divide em uma identidade dupla: durante o dia, trabalha com o seu carrinho de espetinhos, mas à noite entra em seu Palio 96 (coberto de adesivos com uma lupa gigante e as palavras DETETIVE PARTICULAR estampadas em uma fonte tão grande que fariam uma fachada de hipermercado passar vergonha) e vai combater o crime.

Não sei vocês, mas eu pensaria duas vezes antes de entrar em um motel com uma amante se esse carro estivesse me seguindo.

Talvez a estratégia seja essa mesmo. Em vez de fotografar os segredos dos seus investigados, ele simplesmente os constrange até que parem de fazer o que faziam. Melhor um detetive que diga "Seu marido parou de te trair" do que um que diz "Seu marido tá te traindo."

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Por isso é tão fascinante assistir alguém se dando mal. Não é à toa que tanta gente assiste a primeira fase do American Idol. Parte do fascínio de ver alguém indo a um concurso de calouros e mandando mal é o alívio de pensar "Pelo menos não sou eu".

É fugir do próprio ridículo e se livrar da culpa de não ter se exposto quando desejava. Ajuda a fingir que não fracassamos. Por isso acho muito mais honrado quem assume o próprio sonho (e seu próprio fracasso) do que quem nem se arrisca a dizer o que sonhava pra si e faz papel de satisfeito com a vida.

Melhor fazer papel de Sherlock Holmes. Ou de cortador de grama.

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