29.10.13

Desvios

Falando sobre sexo numa mesa de bar, um dos assuntos que mais pegam fogo é o "desvio" - isto é, gente que, na hora de fazer amor, precisa de um incentivo diferente do que as propagandas de cerveja dizem ser o normal.

Sejam desvios mais comuns (como o homem que prefere fazer amor pelo bumbum) ou incomuns (o que precisa ser pisoteado por uma moça de salto alto vermelho que lhe chame de "meu neném"), todo mundo tem uma história pra contar de alguém com uma tara esquisita.

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Em uma madrugada numa sala de bate-papo, recebi de um homem a oferta de mil reais em troca de deixá-lo lamber meus pés.

Nunca tive a capacidade moral para conseguir aceitar dinheiro em troca de sexo (prefiro moedas de troca menos dignas, como um aumento temporário na auto-estima ou escutar alguém mentir que me ama), mas resolvi dar corda para o rapaz.

O problema é que ele foi aumentando o número de exigências: depois de cinco minutos de conversa, ele disse que não queria apenas uma sessão de lambimento em troca dos mil reais, e sim duas.

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Quinhentão por cada meia hora de lambidas seria nojento, mas eu realmente precisava de grana. Continuei dando corda. Ele seguiu:

"Eu gosto de pé fedido, sabe? Se você não se importar de passar uns dois dias de meia molhada antes da gente se encontrar..."

Comecei a achar que os mil reais não seriam um bom negócio. Ele continuou com as exigências, sério como um presidente de multinacional prestes a concluir uma fusão:

"E aí, depois de eu lamber seus pés, você pode montar nas minhas costas e me tratar feito um cavalinho. Pode me bater, pode me fazer andar de um lado pro outro no quarto, pedir pra eu limpar o chão com a língua, sabe? Coisas assim."

Cortei a conversa por ali mesmo. O que me assustou não foi nem o cavalinho. Foi o "Coisas assim." Que tipo de coisa bizarra entra no conjunto de coisas similares a montar numa pessoa feito cavalo e fazê-la passar a língua nas suas frieiras?

Melhor ficar sem os mil reais.

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Tá certo, nem todo mundo chega nesse extremo. Mesmo assim, basta entrar em qualquer ônibus para ver a quantidade de senhorinhas lendo 50 Tons de Cinza com a periquita em fogo para levar umas porradas. A quantidade de gente que quer coisas fora do comum na cama é imensa. Alguns por curiosidade, alguns - me parece - por trauma.

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Percebo com cada vez mais clareza que o mecanismo por trás dos desvios nas preferências sexuais é uma das coisas mais bonitas da vida.

É como se a vida estivesse fluindo no seu curso normal, até ser interrompida por um trauma qualquer. Aí, essa energia vital - vamos chamar de amor, pra ficar mais bonito - não pode ficar parada. Ela precisa continuar correndo. Como não consegue mais correr do jeito que corria antes, faz como a água de um rio que desvia uma rocha e encontra uma nova direção.

Por isso, por exemplo, um homem que foi forçado a ser exageradamente masculino em alguma área da sua vida pode precisar equilibrar sua energia recebendo prazer ao ser penetrado por sua parceira. É o fluxo do amor achando um caminho para fluir.

Ou ainda, para uma pessoa que não teve a chance de aprender as sutilezas do carinho no decorrer da sua vida, achar um parceiro que lhe dê porrada na cama pode ser justamente sua salvação. Quanto mais insensível é o mundo que cerca alguém, mais agressivo o toque vai precisar ser para que o recado do amor chegue onde precisa.

Por isso me recuso a chamar essas tangentes sexuais que tantos de nós temos de perversão. Não é perversão. É salvação.

Como uma planta que cresce com o caule torto para conseguir alcançar a luz do Sol,  o desvio é a maneira que a vida encontrou para que uma pessoa seja capaz de receber amor, apesar dos traumas que tenha sofrido.

Aliás, muito esperto da natureza fazer isso. Se os traumas são inevitáveis, o amor também é - ainda que precise sofrer desvios no caminho.

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Agora, que eu gostaria muito de saber que tipo de trauma sofreu a pessoa que entrou no blog procurando no Google por "freiras lésbicas taradas de quinze anos chupando um martelo coberto de chantilly", eu gostaria.

O que a mãe dessa pessoa fez, Jesus?

25.10.13

Sexo Casual

Nunca fui uma pessoa de fazer sexo casual.

Sempre fui mais de ter relacionamentos casuais, no sentido de conhecer uma pessoa casualmente e depois passar cinco anos com ela.

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Uma vez, entre um relacionamento longo e outro, resolvi dar uma chance ao acaso e experimentar transar sem compromisso. Não fui a uma boate porque a grana e auto-estima estavam curtas. Entrei em um bate-papo online para caçar.

Como sou tagarela até por escrito, acabei fazendo amizades naquele dia que duram até hoje. Depois de umas duas horas conversando com pessoas e aprendendo sobre seus fetiches, uma pessoa foi particularmente insistente comigo. "Não, não vamos marcar pra amanhã. Eu quero agora", ele disse.

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Em pânico, recorri ao método mais eficaz de tomada de decisões disponível para o ser humano hoje: o Tarô online. Não lembro mais que carta saiu, mas ela dizia alguma coisa como "Meu, aproveita logo essa vida. Deixa de ser cagão. Saia da sua rotina e você vai ter histórias para contar para o resto da vida".

Já que estava amparado cientificamente em minha decisão, mandei o menino vir para o meu apartamento.

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Já eram umas duas horas da manhã. Encontrei-o no portão do prédio (caso eu reconhecesse o garoto de algum retrato falado que eu tivesse visto nas duas vezes que assisti ao Cidade Alerta, eu poderia correr pra dentro).

Era bonito, ele. Subimos o elevador conversando tranquilamente, o que explica o susto que eu tive quando fechei a porta do apartamento e ele ficou pelado instantaneamente.

Ok, o combinado era esse. Vamos transar.

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Uma coisa interessante sobre namorar homens é que você nunca tem certeza de como é o pinto do fulano só por ver a cara. É sempre um suspense a hora de tirar a cueca.

Enfim, vocês já viram um pinto piramidal? Tipo, grosso e meio quadrado na base, afinando até a ponta e terminando em uma cabecinha que parece ter passado por um apontador de lápis?

Pois era mais ou menos assim.

Mas tudo bem, quem sou eu pra falar que o meu pinto é mega-simétrico? Nada de errado naquele pinto até que o guri respirou fundo, olhou fundo nos meus olhos, olhou para o meu corpo, fez carinha de safado e... cuspiu no próprio pinto.

Assim, do nada. Só cuspiu no próprio pinto. E fez cara de safado de novo.

"Eu... eu... eu não curto isso...", respondi. Ele se decepcionou, mas não cuspiu mais em nada.

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Vou poupá-los dos piores detalhes - ah, sim, tem detalhes piores - e vou direto para o pós-coito, que foi realmente o ponto alto da noite.

Estavamos deitados, lado a lado, juntando fôlego, depois de pelo menos umas duas horas juntos. Lembrei de uma coisa importante e resolvi perguntar.

"Você me desculpa eu não ter perguntado antes, mas... qual o teu nome?"

Ele pareceu desapontado. Tentei adivinhar e dar uma aliviada no ambiente com uma piada.

"Não é Cleisson, né?", e ri.

"É Cleiton.", disse ele, muito sério.

Ops.

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A situação foi piorando, mas eu não desisti de levantar o clima. "Teu mamilo é bem firme, né?"

"É."

"Tem que ver se você não tem câncer de mama, né?", e ri novamente, como um idiota.

"É."

"Agora você diz que sua mãe morreu de câncer de mama e eu fico me sentindo péssimo."

"Minha avó morreu de câncer de mama."

"Putz, Cleiton. Desculpa."

"Minha mãe morreu atropelada. Mês passado."

considerei a possibilidade de ele estar sendo sarcástico só pra brincar comigo, mas aí ele começou a chorar.

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Depois disso, foi o resto da noite bocejando para ele se mancar e ir embora.

Não sei porquê, mas nunca mais voltamos a conversar. Ainda assim, o Tarô online estava certo. É uma boa história para contar.

Principalmente quando eu tiver netos.

21.10.13

Vamos falar sobre sexo

De cada 10 comentários que eu recebo de gente que convive comigo, em média seis são falando que eu falo demais sobre sexo.

Faz sentido. Estranho é que eu escreva tão pouco sobre isso.

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Existem dois tipos de pessoas, e elas se distinguem pela maneira que reagem a uma crítica.

As mais autoconfiantes e defensivas tem como reagem a uma crítica pensando "essa pessoa tem algum problema, e por isso me criticou". Os mais reflexivos e de auto-estima mais baixa pensam "eu tenho algum problema, por isso fui criticado".

Eu costumo fazer parte do segundo grupo.

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Vai aqui uma análise breve de porque eu posso estar errado em falar tanto sobre sexo:

Primeiro, pode ser attention-whore-ismo. É tipo alcoolismo, mas o que você precisa ingerir com frequência é o olhar do outro. Se o outro te olha com enfado, você não percebe, embriagado com a atençãozinha que recebeu. A ressaca costuma vir quando você lembra do que fez no dia seguinte, tipo soprar as velas do bolo de aniversário de uma criança de seis anos, em um excesso de ousadia.

Se bem que, pra quem já está nesse nível, não há mais nem essa reflexão, e a manhã seguinte é passada gritando com algum vizinho que reclamou da música alta às seis da manhã.

Em minha defesa, não acho que seja esse o meu caso, porque falar de sexo não chama mais atenção nenhuma, a não ser que você seja um aluno de quinta-série gritando "xoxota!" no meio da aula. No círculo de amigos que eu frequento, eu chamaria mais atenção enchendo a cara e falando "EU LEIO NIETSXGZE!".

Não que meus comentários sobre sexo sejam equivalentes a gritar "XOXOTA!" - costumam ser menos elegantes.

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Segundo, pode ser deslumbre. Bem possível, já que eu fui criado numa religião tensíssima quanto a sexo e posso estar tentando recuperar o tempo perdido para falar de sexo o tempo todo.

"Esse peixe está delicioso!", alguém fala. "HIHIHI CURTE BACALHAU, NÉ!!!", eu respondo.

Pode ser isso, mas já faz um bom tempo que eu não sou religioso - e mesmo quando era, na adolescência, me lembro bem de bater uma punheta ou outra no banheiro da igreja. Não, não deve ser compensação pelo tempo de repressão. Nunca me deixei ser tão reprimido assim.

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Se a resposta não está em mim, vale considerar a possibilidade do problema estar no outro, que reclama. Vamos ver o que pode ser:

1 - Desconforto. Claro, se o outro reclama é porque alguma coisa o incomoda. As pessoas que reclamam de eu ser muito sexual quase sempre são pessoas mais fechadas, e que me procuram em particular pra conversar sobre seus problemas na cama.

Aí, quando eu falo sobre alguma coisa sexual sem exigir privacidade, isso incomoda. Isso quando não é um amigo hétero que não se incomoda em ter um amigo gay, mas não suporta ouvir um comentário sexualizado dele. Sim, pode ser isso.

2 - Maturidade, só que não. O roteiro é o seguinte, e deve ser seguido à risca: você não pensa sobre sexo quando criança, só pensa em sexo quando adolescente, e depois que vira adulto não toca mais no assunto. O argumento é de que quem faz sexo não precisa falar sobre ele. Quem fala, não faz.

O mais curioso é que quem pensa assim não precisa de mais de dois copos de cerveja pra desatar a falar putaria. Provavelmente precisa beber pra conseguir transar, também. A relação entre fazer e falar não existe.

Ou você diz que sua vizinha que passa o dia inteiro trocando receitas não sabe cozinhar? Quem faz sexo com saúde sabe falar, e fala, sobre sexo. Não falar é se render ao que foi ensinado e é manter o sexo na caixinha dos tabus - e a gente já sabe o tipo de merda que isso causa.

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Mas provavelmente a resposta não está cem por cento em nenhum dos lados.

Todos nós estamos sob o mesmo guarda-chuva de pressão na vida. Somos pressionados a ter o melhor emprego, o corpo mais bonito, o sorriso mais branco e a vida sexual mais intensa possível.

Como não podemos disfarçar as crises financeiras nem os quilos a mais na balança, a vida sexual passa a ser a única coisa que podemos esconder. Sempre vamos ter a opção de não falar a respeito, ou de mentir a respeito.

Quando uma pessoa saudável fala sobre sexo, não precisa fingir que tudo é maravilhoso - assim como um bom cozinheiro costuma assumir que já errou uma receita ou outra.

Falar da vida sexual sem se vangloriar e sem se esconder, com direito a tratar dos gozos e falhas de cada dia, é romper com a ideia de que esse lado da vida deve ser perfeito. É lembrar que nós somos humanos, e que mesmo sem o corpo perfeito e o melhor emprego, todos fodemos.

E se não pudermos falar que fodemos, estamos fodidos.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...