16.11.13

A Família na Brasília

Um dos melhores companheiros para o pobre moderno é o Amigo com Casa na Praia™.

Na falta de um, é sempre importante investigar seu círculo de relações e arranjar pelo menos um Amigo de Amigo com Casa na Praia ou Chefe que Tem Apartamento na Praia e Não Usa Muito.

É isso ou não ver o mar nunca.

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Falam que na morte todo mundo é igual, mas não acho que essa seja a única hora. Num engarrafamento, por exemplo, a Brasília com pneus carecas e o Jaguar andam lado a lado.

Claro, a Brasília não tem ar condicionado e o motor é barulhento, mas ricos e pobres precisam esperar do mesmo jeito pra chegarem a seus destinos.

A não ser que o rico tenha um helicóptero. Esse tá de boa.

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Mas me dói o coração ver que o carro ao meu lado no engarrafamento rumo ao litoral é um carro velho e cheio de gente simples. Impossível não imaginar a história:

O homem, que dirige, fabrica calhas. Tem um dedo faltando na mão esquerda, que serviu para aparar uma queda de um telhado. Há quatro anos ele não tira férias.

A mulher, no banco do passageiro, parou de trabalhar com costura depois de uma trombose na perna. Há um ano e meio, sua rotina é limpar a casa pela manhã., preparar o almoço da família, deitar no sofá e sentir dores durante o Vale a Pena Ver de Novo.

A menina, no banco de trás, tem 17 anos e é a alegria da casa. Estuda bem, é bonita e não fica pedindo roupas de marca porque sabe que os pais não tem condições de pagar. Está com um pouco de vergonha de estar parada na estrada dentro de uma Brasília, cercada de SUVs por todos os lados. Olha para as pessoas nos carros ao lado e se afunda no banco.

A senhora ao seu lado é a avó da garota. Fazia faxina pra viver até precisar operar uma hérnia de disco. Não fazia questão de ir pra praia, porque acha que não dá pra folgar o cinto enquanto não conseguir se encostar pelo INSS.

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É muito injusto, tudo isso. O mundo inteiro acontecendo e sendo lindo, e a única chance dessas pessoas conseguirem ver o mar é passando sete horas engarrafados dentro de uma Brasília, durante um feriado, e levando comida e bebida de casa.

Eles ficam na casa de um parente que tem casa na praia, uma variação do amigo do primeiro parágrafo. O problema de ficar em casa de parente é que você se torna vítima da generosidade alheia.

Como os donos da casa abriram mão da própria cama pra acomodar os hóspedes, a mãe da família passa os dias arrumando a casa e fazendo comida para todos. Passa os três dias que teria de descanso tomando todas as providências possíveis para não ser um incômodo. Vai até a praia rapidinho, em um dia, e só pra molhar os pés.

O homem que dirigia a Brasília passa os dias conversando com o cunhado, mesmo sem ter muito assunto. Recorre a todo o repertório de abobrinha a que tem direito, enquanto escuta o cunhado falando de como tá difícil bancar a reforma a casa e que se ele tivesse uma ajudinha com a calha, ia ser muito bom. Todo o processo acontece com uma cerveja na mão.

A filha vai à praia com a prima, e aprende que o próprio corpo não é bonito o suficiente pra chamar atenção. Além disso, se dá conta que é pobre quando precisa fazer um copo de suco render uma tarde inteira por não ter grana de pedir outro.

A avó sente dor na coluna, porque o banco da Brasília não fez muito bem pra hérnia.

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Imagino a situação deles porque a minha é muito melhor. Estou de frente para o mar, escutando as ondas batendo e escrevendo esse texto direto do apartamento luxuoso do meu Amigo com Casa na Praia™.

Enquanto escrevo, meu amigo, dono do apartamento, está na sacada com a cabeça entre os joelhos e chorando por amor.

Acho que todo mundo sofre, mesmo, e não há feriado que dê conta de parar com isso.

Não há quem não precise de um momento de descanso. A família da Brasília pode não estar com muito luxo, mas ralou muito pra conseguir passar o feriadão na praia. Pode não ser perfeito, mas esse é o momento que eles vão lembrar pelo resto do ano com saudades.

Meu amigo tem um apartamento aqui e pode vir quando quiser. Eu posso me convidar e vir junto.

Todos nós com alguma dificuldade, todos com prazer de estar em um lugar diferente. Todos prestes a se encontrarem num próximo momento de igualdade. Seja num outro engarrafamento, seja na morte.

Ou no inferno, que é um engarrafamento interminável em que você está preso numa Brasília.

Um comentário:

  1. Anônimo5:48 PM

    Muito bem sacada a história....e olha que você descreveu certinho como se sente o pobre....já me vi inúmeras vezes nesta situação...
    e assim mesmo deixa saudade!

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