19.12.13

Sobre trabalho e gastrite

Você já conheceu (ou foi, ou é) essa figura. A pessoa mais trabalhadora do escritório.

A pessoa que os chefes sabem que podem confiar. Aquela que fala que faz o trabalho de três pessoas pelo salário de uma, reclamando com orgulho de si mesma.

Aquela pessoa que fica com gastrite quando a empresa passa por problemas.

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Historinha do dia: uma colega trabalhava num escritório onde abundavam essas pessoas. Uma equipe de cinco ou seis com a carga de trabalho de doze.

Todos faziam hora extra, todos abriam mão da hora do almoço porque o chefe dizia que contava com eles. O chefe, aliás, era uma figura incrível: aparentava ser o mais sofredor dos homens, dizia que todos precisavam apertar os cintos porque a economia estava difícil, enfim, fazia muito bem o papel de mártir - antes de deixar o pessoal fazendo hora extra e ir pra casa com seu carrão importado.

A carga de trabalho aumentava e a equipe não. Minha colega aparecia lá em casa de vez em quando, para reclamar do cabelo que estava caindo e da gastrite que não ia embora. "Eu sei que não é muito bom, mas eles contam comigo, né? A empresa tá quase sem gente, só eu sei fazer o meu trabalho ali... Não dá pra sair agora."

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Outra conhecida minha trabalhava num ambiente muito parecido: poucas pessoas, muito trabalho, muita exigência e um chefe que combinava exigência e hipocrisia como ninguém.

Até que ela foi cansando de ter como única recompensa pelo seu trabalho um tapinha nas costas no final do dia e uma carga de trabalho maior ainda no dia seguinte.

Foi quando ela aprendeu o que eu considero o verdadeiro mantra universal, a maior frase de perdão e consciência cósmica: o foda-se.

Passou a trabalhar um pouquinho menos. Em vez de se estressar para tentar cumprir as demandas malucas do seu chefe, começou a fazer só o que dava conta. Hora extra sem remuneração, nunca mais. Inventava uma desculpa e saía no horário. Chegando em casa, mandava currículos e saía com os amigos, coisa que não fazia há muito tempo.

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A colega da primeira história foi demitida dois meses depois. A empresa achou uma maneira de terceirizar o setor e gastar menos.

Todo o trabalho, dedicação e horas extras não foram suficientes para mantê-la no emprego. Ela levou consigo a experiência, o seguro-desemprego e uma úlcera no estômago.

A colega da segunda história conseguiu um emprego melhor. Ganha a mesma coisa, mas não precisa fazer horas extras. Está fazendo o que gosta, e é muito trabalho - mas é o trabalho de uma pessoa só.

Antes de ir embora, foi atacadíssima pelo pessoal do escritório. "Você é uma vagabunda mesmo, né?", disse uma colega mais enfurecida. "A gente aqui se matando, e você saindo mais cedo para ir em festa! E agora larga a gente desse jeito!".

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Trabalho é uma coisa ótima. Mesmo que a gente não faça exatamente o que sonhou, trabalhar ajuda a circular o sangue, botar a criatividade pra fora e os pés no chão.

Já a decisão de casar com o trabalho é muito pesada. Casar com o trabalho não é uma via de mão dupla, e você não tem nenhuma garantia de que seu investimento vai ser recompensado a longo prazo.

A satisfação de ser um bom funcionário não pode ser maior do que o prazer de ser uma pessoa livre, autônoma e capaz de tomar suas próprias decisões. Se você chega em casa e não tem energia para mais nada, se você está soterrado em trabalho e isso esgota sua força para procurar outra oportunidade... você está exagerando. Para a sua empresa - por melhor que você seja! - você sempre vai ser substituível e descartável.

E quer saber? Seu emprego também é. Você não vai deixar ninguém "na mão" que não te deixaria também se isso fosse mais econômico.

Isso significa que você precisa jogar tudo pro alto e mandar seu chefe se foder? Não necessariamente. Mas você não precisa aceitar uma pressão que é desumana, nem ficar doente por causa do seu trabalho.

Melhor escolher sofrer menos.

5.12.13

Te faço mal, mas te amo

Já fui extremamente intolerante com gente reclamando do próprio relacionamento. Bastava ouvir uma pessoa reclamar do casamento, meus olhos giravam como um pião recém-lançado.

Peraí, colega. Você se botou nesse relacionamento, continua com a pessoa por vontade própria, e ainda tá reclamando? Se manca. Se a pessoa que está contigo te maltrata, a culpa é toda sua por deixar que isso aconteça. Coisa de gente fraca.

Pelo menos era o que eu pensava.

O que não é mentira, se você for ver bem. A pessoa realmente se colocou nessa situação.

Então eu tive a sorte, sorte mesmo, de viver um relacionamento desses.

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Nem sempre a gente recebe o amor que precisa, do jeito que precisa, desde criancinha. Para uma criança que acabou de nascer, tudo o que lhe é apresentado é amor. Leite é amor, toque é amor, beliscão é amor.

Se a pessoa que cuida da criança apaga cigarros no braço dela enquanto lhe dá comida, a criança vai achar que as queimaduras são parte de ser amado.

Claro que esse é um exemplo extremo, mas ninguém tem um modelo perfeito de amor. Vários de nós tivemos pais distantes, violentos, dramáticos ou instáveis demais. Aprendemos que o amor é distante, violento, dramático ou instável, ou tudo isso num pacote só.

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Quando a gente cresce e vai procurar amor longe da teta da mãe, é impossível procurar uma coisa que nunca se conheceu. Se o primeiro exemplo de amor foi de distância, os amores da vida adulta também tendem a circular ao redor de pessoas distantes.

É o amor que se reconhece fácil. Amor com gostinho de comida caseira. São tantas as histórias de "Te faço mal, mas te amo", que essa fórmula parece quase inescapável.

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Por isso julgar alguém que se encontra preso numa relação abusiva é uma atitude cruel.

Sair de uma relação abusiva não é sair só de um mundo de agressões: é sair de um mundo em que se tem um amor conhecido e seguro, mesmo que acompanhado de uma porção de sofrimento.

Sair de um relacionamento abusivo - mesmo que ele não pareça ser de amor - ainda é abrir mão de algo que se ama.

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Claro que não dá pra culpar os papais e mamães do mundo e dizer que tudo para por aí. A pessoa presa em um relacionamento abusivo costuma ter a auto-estima muito machucada, também.

Entendendo cada agressão como um gesto de amor, e juntando isso com a sensação de não se merecer amor, o diálogo interno fica ainda mais violento. "Você diz me amar, mesmo eu sendo a porcaria de pessoa que eu sou. Eu aceito que você seja uma porcaria de pessoa comigo. Pode me bater. Eu sou tão ruim quanto apanhar, e você me aguenta. Pelo menos você me aceita."

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Antes de pregar as mãos da pessoa abusiva no relacionamento na cruz, vale lembrar que essa pessoa também teve uma referência infeliz de amor. Falta repertório, falta saber amar.

E como uma criança que apronta para chamar atenção da mãe (para que essa lhe dê carinho em forma de bronca ou coisa pior), o agressor usa da violência - é que sabe fazer.

Isso pode acontecer de infinitas formas: xingamentos, ameaças de abandono, distanciamento emocional, manipulação afetiva, comer sua irmã, aquilo que for machucar mais no momento.

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É estranho demais eu ver algo de bonito em tudo isso?

São maneiras de amar! É a luta do ser humano para dar e receber amor, ainda que disfarçado de outra coisa. Só nos falta saber fazer isso de um jeito que machuque menos.

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O mais difícil de um relacionamento abusivo é que, para quem está acostumado com um amor violento, as coisas precisam ficar extremamente ruins para se perceber que há algo de errado.

Que os momentos de puro afeto são muito poucos e as migalhas de amor não conseguem mais te alimentar.

Que mesmo sendo uma porcaria de pessoa, você pode merecer outra coisa.

Ou, mais difícil, perceber que existe outra coisa. Que é possível um amor em que você não fique à mercê da loucura de outra pessoa.

Quanta força se precisa ter para se afastar de uma fonte estável de "amor", enfrentar a própria auto-estima demolida, suportar a solidão, manter a esperança de amar novamente, isso tudo enquanto se reinventa no caminho pra não cometer os mesmos erros no futuro.

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E aí, uma pessoa presa em um relacionamento abusivo é fraca?

Pode até ser. Mas, quando conseguir sair, vai ser uma pessoa muito, muito forte.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...