28.4.13

Geografia

Uma estatística que eu ouvi de alguém que provavelmente tinha acabado de inventá-la foi de que 90% dos casamentos são entre pessoas que moram a menos de 400 metros de distância. Sete bilhões de pessoas no mundo, e a maior parte das pessoas decide que a filha do dono do açougue do bairro é a mulher de sua vida.

Imagino que um número parecido se aplique às bandas de rock: quase sempre os Behind The Music começam contando sobre os garotos que estudavam na mesma escola e resolveram fazer barulho juntos, em busca de cocaína e prostitutas.

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Alguns anos atrás, uma série da Globo, Toma Lá Dá Cá, tinha um personagem que repetia que era de Pato Branco, minha cidade natal. Os efeitos foram os seguintes:

1 - Não preciso mais explicar para desconhecidos que Pato Branco é uma cidade. Preciso explicar, entretanto, que a cidade existe de verdade.

2 - Me surpreendi com a quantidade de gente que confunde televisão com vida real. Os diálogos são mais ou menos assim:

"Você é de onde?", a pessoa pergunta.
"Pato Branco."
"Tipo a Bozena?"
"Sim", eu brinco, "ela é minha prima!"
"JURA MESMO?"

3 - A autoestima da cidade aumentou violentamente. Fomos de uma cidade conhecida por exportar Rogério Ceni, Alexandre Pato e a bandeira mais feia do Brasil para uma cidade citada na televisão.



"Voa, pássaro-moeda! Ou eu te dou um peteleco!"



Nada mudou na cidade. A Alessandra Maestrini, que fez o papel, recebeu uma homenagem da prefeitura. Tudo continuou exatamente igual. Ainda assim, os 15 minutos de fama que experimentamos coletivamente foram muito bem recebidos. Reconhecimento é tudo.

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É muita coincidência os Beatles todos terem nascido tão próximos. Será que a banda seria melhor se eles tivessem procurado um baterista decente na internet em vez de deixar o vizinho tocar só por ter um nome bacana? Pode ser que a vizinhança seja proposital, feito de uma consciência cósmica que faça os talentosos nascerem próximos uns dos outros pra cumprir uma missão.

Nesse caso, vou comprar uma guitarra e voltar pra Pato Branco. A filha do açougueiro e eu seremos os novos Lennon e McCartney.

23.4.13

Comprometimentos


a vida da gente 
é sempre um transtorno
é seguir em frente
e fazer o contorno
é fundir-se torrente
e cair-se em um torno
passar frio e o calor 
pra encontrar-se no morno

e se esquenta, e se esfria 
e se fica contente
porque a vida da gente
é um bolo no forno:
metade partida, metade retorno

Me assusta um pouco ver como meus amigos de infância já estão quase todos casados. Vários já tem filho e alguns já estão no segundo da prole. Tudo bem que eu posso não estar tão maduro quanto eles e que nem todos passam pelas fases da vida ao mesmo tempo. 

Ver meu vizinho que comia minhoca (enquanto eu comia areia) já no terceiro filho, se dividindo para comprar fraldas e pagar a parcela do carro, enquanto pego o ônibus rumo a um apartamento vazio, me faz pensar.

Admiro quem tem esse tipo de comprometimento. Sim, depois de se decidir exatamente o que se quer, em geral a gente encontra recursos pra fazer o desejo acontecer. Dá-se um jeito. A decisão é que é difícil.

Nem sempre o comprometimento vem a partir de uma escolha consciente. O primeiro filho pode vir por acidente. O segundo filho também, vá lá, mas o terceiro antes dos 25 já é efeito colateral da minhoca.

Você dá mais um passo e acaba financiando um carro em 60 parcelas, porque são três filhos pra carregar de um lado pro outro. Compromissos a longo prazo que me assustam porque, honestamente, me parecem loucura de se carregar tão cedo na vida.

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Não que eu não me comprometa. Aliás, estou numa fase de terminar muitos comprometimentos que eu fiz: final de faculdade, sair de emprego depois de fazer o possível pra ficar por lá, terminar um namoro no qual eu era dependente demais.

O problema do comprometimento é que ele te amarra numa situação e impede outras possibilidades. 
O problema de não estar comprometido com nenhum projeto é que as possibilidades te soterram. 
O problema das possibilidades é que elas só vão pro real quando você se compromete. 

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Não julgo os meus amigos que estão casando e tendo filhos, numa idade em que eu não me comprometo nem com um cachorro por medo de precisar abandonar o bicho depois. 

Também não me julgo por não saber muito bem o que é que eu vou fazer da vida. Tem horas que é melhor não saber mesmo, e caminhar às cegas pode resultar num acaso feliz. 

Talvez eu demore a me comprometer porque me comprometo demais quando decido. 

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De qualquer modo, acho que estou evoluindo nesse sentido. Não sei nem se vou morar na mesma cidade daqui a três meses, mas negociei o cartão de vale transporte da minha amiga (que não gastava as passagens por ir trabalhar de carona).

São quinhentas passagens, que eu vou comprar a preço menor do que os 2,85 que se cobra em Curitiba. É, no momento, o maior comprometimento da minha vida. Minha maior dívida. 

Não chega a ser, assim, um filho. Mas já é alguma coisa.

E enquanto meus amigos financiam seus carros, eu financio minha liberdade. 
De ônibus, sim. Nada que me comprometa.

13.4.13

No vestiário


Toda polêmica de hoje em dia costuma seguir a mesma sequência de acontecimentos: um grupo, próximo do comportamento dominante, recrimina algum comportamento de um grupo menos influente. A minoria se defende e o outro grupo diz se faz de vítima, dizendo que tem a razão e que a minoria tem mais é que ter vergonha na cara.

Foi assim com o discurso homofóbico e racista do Feliciano, foi assim com quem defendeu a Nicole Bahls do machismo do Gerald Thomas, é assim a cada vez que um grupo de funcionários faz greve. Enxágue e repita a operação.


Uma das atmosferas mais interessantes que tenho frequentado é o vestiário da academia onde faço natação. Nenhum lugar é mais propício para se observar o comportamento humano do que aquele em que todos ficam pelados, molhados e secando os dedos do pé ao mesmo tempo.

Um dia desses, enquanto saía do banho, escutei o rapaz que ocupava o chuveiro ao lado cantar a plenos pulmões. Achei corajoso. Costumo achar bonito quando alguém tem os colhões para fazer o que eu não faço por ter medo de alguém achar feio.

Ele não cantou nenhuma música reconhecível. Ficou no larará clássico de chuveiro, improvisando, como se estivesse em sua própria casa, como se não tivesse medo do vizinho escutar.

Quando terminou o banho e abriu a porta da casinha que ocupava, pareceu tomar um susto com a minha presença lá. Parou de cantar e não disse nada.


Menos de uma semana depois, a cena se repetiu. Enquanto eu me vestia para tomar a rua, escutei uma voz de criança cantando. Poucos sons são tão genuinamente alegres quanto esse.

O rapaz que cantou no outro dia também estava por lá. Foi até a criança e falou “Dá pra parar de cantar, por favor?”.

Depois de receber um ou outro olhar reprovador dos outros homens do vestiário, tentou consertar escorregando para uma brincadeira. Soltou uma gargalhada. “Brincadeira, pode cantar sim. Criança é o máximo, né? Nem aí pra quem tá ouvindo. Mas tem de fazer umas aulinhas, hein?”

O menino que cantava, com uns seis ou sete ano de idade, ficou constrangido e se calou.


Num outro dia, escutei a conversa desse mesmo cara com um homem, também no vestiário.

Sabe porque eu gosto de estudar Direito? Porque me garante poder. Ninguém mais fode comigo, porque eu sei como eu posso foder com a vida de quem me incomoda.”

Eu sorri, preferindo ficar em silêncio perante a onipotência do rapaz.  

Porque eu tenho conhecimento”, ele continuou, “e quem tem conhecimento se dá melhor do que esse povo aí, que não sabe nada. É fácil passar por cima dessa gente

O amigo dele também estava em silêncio – talvez também estivesse constrangido com o que ouvia. O discurso continuou:

Eu luto pelo meu conhecimento, sabe? Na faculdade, se eu tiro um oito eu já fico indignado. Oito pra mim é pior do que zero. É medíocre. Eu não admito tirar nada menos do que dez.”

Já pensou em procurar um psicólogo?”, me ocorreu dizer. Não disse.


Eu ia falar sobre como a própria reprovação por ter se deixado cantar no chuveiro pode ter feito o meu colega de academia reprovar tanto o canto da criança. Eu poderia falar sobre como as pessoas inseguras com o que são censuram quem não demonstra a mesma insegurança, como o Feliciano e os reacionários de plantão costumam fazer.

Só que isso seria irônico demais, sendo que eu me incomodei e reprovei o comportamento do rapaz do vestiário de se achar melhor do que os outros. Afinal, pode muito bem ser eu mesmo o invejoso. Pode ser que eu simplesmente deseje ser como uma dessas pessoas que, se fossem a Lua, chamariam o Sol de coadjuvante.

Pode ser, também, só medo de levar um processo. Afinal, ele fez questão dizer “Eu posso foder com a vida de quem me incomoda”. Melhor eu ficar quieto.

Espero que a criança cantarolante, que é mais forte que eu, mantenha a resistência.

8.4.13

Psicobus


A partir do momento em que você assinala a opção “Psicologia” na inscrição do vestibular, é como se um ímã implantado fosse implantado em você, para atrair qualquer pessoa que queira abrir o coração, mesmo que nunca tenha te visto antes – e principalmente se estiver alcoolizada.

Mesmo se você morar em Curitiba, como eu, onde as pessoas ficam perdem a capacidade de fazer contato com desconhecidos em qualquer espaço em que sejam obrigadas a conviver, seja um elevador ou uma sala de espera, o ímã vai funcionar.

Para você que não é da área, experimente pegar um ônibus com uma mochila em que esteja escrita a palavra Psicologia. Alguma das situações seguintes, com toda a certeza, vai acontecer:



“Oi, moço! Cê faz psicologia, é?”

Sem tirar os fones de ouvido, você acena que sim. A pessoa insiste: “Meu sobrinho faz psicologia também.”

Você fica sem jeito de cortar o assunto por aí, tira os fones de ouvido e arrisca: “É mesmo? Onde?”

“Porto Alegre”, a pessoa responde, sem saber que nós não conhecemos todos os colegas de profissão do país.

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Algumas elogiam o seu curso, mas desqualificam todo o seu trabalho: “Meu bairro tem um pastor que é, assim, melhor que um psicólogo”. Ou ainda: “Eu faço tricô com as colegas, e olha... não tem terapia melhor”.

Outra comum: “Psicologia é lindo, viu? Um dia ainda vou fazer, sabe? Pra me conhecer melhor!”.

A pessoa fica toda orgulhosa do sonho, e você engole a vontade de responder que quem quer se conhecer melhor tem é de fazer terapia e não faculdade.



Minha situação preferida é quando a pessoa já se antecipa “Psicologia? Não vai me analisar, hein?”

Vale responder de bate-pronto: “Meu amigo, eu sou preguiçoso. Só analiso quando tão pagando.”



Agora, o mais comum é a pessoa contar uma história que começa no primo, passa pelo vizinho, vai para alguns momentos de “A minha mãe não me abraçava” e termina subitamente com “Moço, meu ponto é esse. Vou descer aqui.”

Mas se o ponto que estiver chegando for o seu, e não o da pessoa, arrisque dizer “Senhora, eu tenho que descer no próximo ponto. A consulta ficou em 250 reais.”

Ninguém mais vai lhe perturbar - só é difícil se recuperar da bolsada.

Eufemismos

Eufemismos são lindos. A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fa...