26.11.13

O machismo da Lulu

Aconteceu com um amigo de um amigo meu:

Ele namorava há quatro meses com uma moça. As coisas andavam rápido, a namorada praticamente acampada na casa dele, o maior amor.

Até que um dia, enquanto ele dormia, ela começou a passar a mão no seu pênis. Ele resmungava e continuava dormindo, ela avançava mais um pouco. Ele acordou com um boquete dela. Disse que estava cansado e não queria. Ela, com o orgulho ferido, entrou em parafuso.

Agarrou o saco dele e torceu com força. Ele gritou. Ela, ofendidíssima, não parou. Ele gritou "Sua louca!", ela deu um soco na cara dele. Saiu chorando do apartamento pra nunca mais voltar.

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A nossa sociedade, machista por excelência, criou as regras: a mulher deve ser pudica e fingir que não trepa, o homem precisa ser louco por sexo e querer xoxota o tempo todo.

Duas mentiras violentas. As mulheres pagam uma conta muito mais alta, com a parte de serem estupradas e tudo mais. Não preciso nem ir fundo nisso. É mais difícil ser mulher, ponto final.

Mas isso não significa que os homens também não paguem um preço por viver numa sociedade machista. Quando o sistema é vil, o algoz também pode ser vítima.

A história do começo do texto foi contada pra mim por um rapaz segurando as lágrimas, depois de beber várias cervejas pra tomar coragem e arriscar ser ridicularizado. A ex-namorada do meu amigo era extremamente machista (além de completamente maluca, of course).

Foi ensinada que se um homem não quer sexo com ela, é ela que está com um problema. Meu amigo também foi vítima do machismo, ao ser visto como um ser que devia morrer de tesão o tempo todo, sob o risco de não ser "homem de verdade".

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Por isso, quando aparece um aplicativo como o Lulu, com mulheres dando notas e avaliando os homens, duas coisas me passam pela cabeça:

Primeira: grande coisa. É moda de internet, que daqui a pouco todo mundo esquece. Tem a mesma relevância de um Candy Crush, com um público mentalmente parecido com o que preenche os testes da Capricho.

Segunda: eu entendo o incômodo de um homem julgado no Lulu. O aplicativo, todo disfarçado de feminista e empoderador de mulheres, me parece tão machista quanto a ex-namorada do meu amigo, porque julga os homens pelas mesmas categorias que o machismo definiu que os homens devem ser julgados.

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Além disso, as relações de casal, por mais inseridas num contexto social que estejam, sempre vão passar por óticas muito particulares e únicas.

Se você procura reviews de alguém que te interessa romântica/sexualmente através de um aplicativo de internet, como faria antes de comprar um forno de microondas, você pode jogar fora a chance de achar alguém interessante de acordo com o seu gosto.

Você nunca sabe se a louca da história não é justamente a pessoa que criticou seu interesse romântico. O fato de outra pessoa não ter gostado não quer dizer que você vá gostar. Melhor confiar na própria percepção do que no aviso alheio.

A não ser que o cara esteja em uma lista de agressores sexuais ou coisa assim. Nesse caso, melhor correr.

16.11.13

A Família na Brasília

Um dos melhores companheiros para o pobre moderno é o Amigo com Casa na Praia™.

Na falta de um, é sempre importante investigar seu círculo de relações e arranjar pelo menos um Amigo de Amigo com Casa na Praia ou Chefe que Tem Apartamento na Praia e Não Usa Muito.

É isso ou não ver o mar nunca.

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Falam que na morte todo mundo é igual, mas não acho que essa seja a única hora. Num engarrafamento, por exemplo, a Brasília com pneus carecas e o Jaguar andam lado a lado.

Claro, a Brasília não tem ar condicionado e o motor é barulhento, mas ricos e pobres precisam esperar do mesmo jeito pra chegarem a seus destinos.

A não ser que o rico tenha um helicóptero. Esse tá de boa.

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Mas me dói o coração ver que o carro ao meu lado no engarrafamento rumo ao litoral é um carro velho e cheio de gente simples. Impossível não imaginar a história:

O homem, que dirige, fabrica calhas. Tem um dedo faltando na mão esquerda, que serviu para aparar uma queda de um telhado. Há quatro anos ele não tira férias.

A mulher, no banco do passageiro, parou de trabalhar com costura depois de uma trombose na perna. Há um ano e meio, sua rotina é limpar a casa pela manhã., preparar o almoço da família, deitar no sofá e sentir dores durante o Vale a Pena Ver de Novo.

A menina, no banco de trás, tem 17 anos e é a alegria da casa. Estuda bem, é bonita e não fica pedindo roupas de marca porque sabe que os pais não tem condições de pagar. Está com um pouco de vergonha de estar parada na estrada dentro de uma Brasília, cercada de SUVs por todos os lados. Olha para as pessoas nos carros ao lado e se afunda no banco.

A senhora ao seu lado é a avó da garota. Fazia faxina pra viver até precisar operar uma hérnia de disco. Não fazia questão de ir pra praia, porque acha que não dá pra folgar o cinto enquanto não conseguir se encostar pelo INSS.

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É muito injusto, tudo isso. O mundo inteiro acontecendo e sendo lindo, e a única chance dessas pessoas conseguirem ver o mar é passando sete horas engarrafados dentro de uma Brasília, durante um feriado, e levando comida e bebida de casa.

Eles ficam na casa de um parente que tem casa na praia, uma variação do amigo do primeiro parágrafo. O problema de ficar em casa de parente é que você se torna vítima da generosidade alheia.

Como os donos da casa abriram mão da própria cama pra acomodar os hóspedes, a mãe da família passa os dias arrumando a casa e fazendo comida para todos. Passa os três dias que teria de descanso tomando todas as providências possíveis para não ser um incômodo. Vai até a praia rapidinho, em um dia, e só pra molhar os pés.

O homem que dirigia a Brasília passa os dias conversando com o cunhado, mesmo sem ter muito assunto. Recorre a todo o repertório de abobrinha a que tem direito, enquanto escuta o cunhado falando de como tá difícil bancar a reforma a casa e que se ele tivesse uma ajudinha com a calha, ia ser muito bom. Todo o processo acontece com uma cerveja na mão.

A filha vai à praia com a prima, e aprende que o próprio corpo não é bonito o suficiente pra chamar atenção. Além disso, se dá conta que é pobre quando precisa fazer um copo de suco render uma tarde inteira por não ter grana de pedir outro.

A avó sente dor na coluna, porque o banco da Brasília não fez muito bem pra hérnia.

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Imagino a situação deles porque a minha é muito melhor. Estou de frente para o mar, escutando as ondas batendo e escrevendo esse texto direto do apartamento luxuoso do meu Amigo com Casa na Praia™.

Enquanto escrevo, meu amigo, dono do apartamento, está na sacada com a cabeça entre os joelhos e chorando por amor.

Acho que todo mundo sofre, mesmo, e não há feriado que dê conta de parar com isso.

Não há quem não precise de um momento de descanso. A família da Brasília pode não estar com muito luxo, mas ralou muito pra conseguir passar o feriadão na praia. Pode não ser perfeito, mas esse é o momento que eles vão lembrar pelo resto do ano com saudades.

Meu amigo tem um apartamento aqui e pode vir quando quiser. Eu posso me convidar e vir junto.

Todos nós com alguma dificuldade, todos com prazer de estar em um lugar diferente. Todos prestes a se encontrarem num próximo momento de igualdade. Seja num outro engarrafamento, seja na morte.

Ou no inferno, que é um engarrafamento interminável em que você está preso numa Brasília.

1.11.13

Mas você não sai?

É muito constrangedor quando alguém me pergunta se eu tenho o hábito de sair.

Como assim sair? Eu saio de casa. Eu não sou um eremita, eu não tenho uma horta na minha casa que me permita viver do que eu mesmo cultivo. Se eu tivesse, provavelmente eu não sairia (a não ser que não desse pra pagar a conta da internet pelo site do banco).

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Mas não é como se eu ficasse em casa o tempo todo. Eu saio de casa. Eu encontro pessoas. Eu faço cursos. Mas não é disso que a pessoa está falando. Se eu respondo que eu saio, sei lá, para praticar montanhismo, a pessoa geralmente me corrige:

"Não, não. Eu digo sair sair, sabe?"

"Como?"

"Tipo, sair à noite?"

Entendi.

Bom, o supermercado aqui perto de casa é 24 horas, e às vezes eu tenho uma vontade súbita de comer uma Trakinas de morango, então a resposta seria... sim?

Não, não seria.

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Isso quando a pergunta não é ainda mais confiante:

"Você sai pra onde?"

A pessoa parte da absoluta certeza de que meus fins de semana são gastos em alguma boate qualquer. E, sinceramente, eu costumava ficar chateado com isso. Eu até me justificava:

"Pois é, né? Sei lá, faculdade e tal. Não dá muito tempo."

Ou, quando eu estava mais sincero:

"Ah, não curto tanto sair pra boate. Sou mais um barzinho..."

O que não é uma resposta adequada. É como se a pessoa perguntasse se eu costumo ir ao McDonald's e eu respondesse que não, mas que de vez em quando eu frito um pedaço de frango. As duas coisas são vagamente relacionadas à alimentação, mas são coisas profundamente diferentes.

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O pior é quando é um convite:

"Me diz, o que que você acha de ir no Wonka esse sábado?". Ou ainda pior "Ei, vamos pegar um James essa quarta?".

O que eu realmente escuto é:

"Ei, que tal você gastar um quarto do seu salário vestindo sua melhor roupa, pegando um táxi, ficando numa fila por duas horas e meia para entrar numa caixa cheia de gente?"

Quando eu resmungo alguma coisa parecida com um não, a pessoa fala:

"Ai, que antissocial! É bom pra conhecer gente, sabia?"

Ok, então a gente vai até um lugar onde tem muita gente, com o objetivo de conhecer gente. Muito bem, como é que eu vou conhecer alguém se está tudo escuro e a música é tão alta que não me deixa conversar?

Eu sei que provavelmente esses lugares vão estar cheios de pessoas que tem o gosto musical parecido com o meu, que tem coisas interessantes a dizer e são agradáveis de se olhar. Mas que preguiça isso me dá!

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"Ah, é mais pra beber e se soltar... Ouvir música, dançar!"

Uma boate não é a melhor escolha para qualquer uma das alternativas. Você bebe cerveja por nove reais a garrafinha, tentando dançar e dividir o mesmo metro quadrado com seis outras pessoas ao mesmo tempo, enquanto se esforça para parecer bonito durante o exercício.

Se uma banda estiver presente a experiência se justifica, mas você faz isso pra escutar uma gravação? Que você pode escutar no conforto do seu sofá?  Que você baixar pela internet e ouvir dançando só de cueca, sem ninguém te julgar se você faz o passo do elefantinho ou solta um pum?

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Repito, isso não quer dizer que eu não tenha amigos.

Por incrível que pareça, com o tempo você tem a sorte de encontrar pessoas que gostam da mesma coisa que você. Que também prefiram pagar menos na cerveja e escutarem a música que bem entendem enquanto conversam num volume aceitável sobre coisas que te interessam.

E aí, de vez em quando, vocês vão olhar uns pros outros e falar "Ei, vamos na *baladinha da moda da semana*". Vão concordar. Vão sair todos juntos, vão se divertir sem poder dançar nem conversar.

E depois vão se encontrar no dia seguinte e falar "Pô, amanhã a gente faz um churrasco, que tal?"

Você se sente menos alienígena - e nem precisou pagar ingresso pra entrar.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...