16.1.14

Professor Linguiça

Ato-falho: nome que o Freud deu para aquela situação em que você quer dizer uma coisa e acaba dizendo outra, que era o que você realmente queria dizer o tempo todo.

Ou, como diria o Chaves, fazer algo "sem querer querendo".

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Sei que eu já cometi tantos erros assim que eu mesmo poderia ser um personagem do Chaves. Na faculdade, os atos-falhos eram tantos que já me chamavam de ato-Flávio.

Por exemplo, toda vez que eu brigo feio com um namorado (não briguinha qualquer, briga feia mesmo), eu acabo o chamando pelo nome do meu irmão mais velho.

- Você nunca atende o telefone!
- Você que não pára de ligar!
- OLHA AQUI, PLÍNIO!
- Plínio?
- NÃO DISTORCE O QUE EU TÔ FALANDO!

Acho que isso é mais explicável pelo fato de eu ter passado a infância brigando com o meu irmão do que por qualquer aspecto relacionado à libido. Chaves 01, Freud 0.

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Mas o pior ato falho da minha vida foi na minha formatura da faculdade.

Fui escolhido para fazer a homenagem aos professores. Três minutos de puxação de saco, uma piadinha ou outra, apelar pro emocional, coisa fácil. Sem muito onde dar errado.

Uma das minhas tarefas era escolher uma música, de preferência instrumental, para tocar durante a homenagem. Depois de escutar várias músicas e não achar nenhuma muito adequada, lembrei da versão instrumental de uma música da Aimee Mann que eu tinha no computador.

Não muito agitada, melódica o suficiente pra não ser monótona, perfeita para ser fundo do meu discurso metido a engraçadinho.

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Chega o dia da formatura e eu estou com os nervos à flor da pele. É hora do discurso. Os professores todos aguardando a homenagem, a plateia lotada. Enquanto eu caminho em direção à tribuna, começa a tocar a música.

Era a música errada. Mesmo conferindo logo antes de enviar o email, mandei o arquivo de outra música, chamada Nothing is Good Enough. Traduzindo livremente uns trechinhos da letra:

"O que começou com tanto ânimo, agora eu orgulhosamente termino com alívio. Porque nada é bom o suficiente pra pessoas como vocês. Os piores críticos jamais poderiam criticar da maneira que vocês fazem. Ninguém é capaz de destruir uma esperança assim como vocês."

Ops.

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Essa eu não sei se dá pra culpar nas brigas com meu irmão - só se for com base nas pancadas na cabeça de quando a gente saía no soco.

Mas nem eu sabia que tinha todo esse rancor inconsciente dos meus pobres professores, que eu (juro!) admiro demais. Ok então, ponto pro Freud.

Chaves 01, Freud 01.

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Na hora, o engano acabou passando batido. O sonoplasta deixou o volume bem baixinho, pra não atrapalhar o discurso.

Ainda bem que ninguém percebeu. Mas se tivessem percebido, a resposta estaria na ponta da língua: "Foi sem querer querendo, professor Linguiça!".

Chaves 02, Freud 01. Vitória do Chaves.

12.1.14

Antes de dormir

Pergunte para qualquer serial killer ou cientista social: o ser humano é perfeitamente fatiável. Entre orientais e ocidentais, religiosos e céticos, os que preferem Trakinas de chocolate e os que preferem de morango - é possível dividir a humanidade em infinitas categorias para compreendê-la melhor

Nenhuma divisão, entretanto, é tão poderosa quanto a entre pessoas que dormem rápido e pessoas com insônia.

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Se você é capaz de deitar numa cama, fechar os olhos e só abri-los novamente no dia seguinte, você não tem ideia de como é invejado. Você é visto como o possuidor de um superpoder, como alguém que não precisa enfrentar a morte.

Porque a pessoa que deita na cama e demora pra dormir... só essa pessoa tem noção do que é a eternidade.

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Você deita.

A cama está confortável, a temperatura está ideal. Você está cansado. Você acordou às cinco da manhã e agora já passou da meia-noite. São as condições perfeitas para cair no sono.

Aí você lembra que precisa passar no supermercado no dia seguinte. Coisa rápida, você perde uns minutinhos fazendo uma lista de compras mental e se prepara pra dormir novamente.

Mas não adianta. Como engrenagens de um relógio gigante que começam pouco a pouco a girar, seu cérebro começa a pegar no tranco. Quando você vê, está processando mais dados por segundo que um computador da NASA.

Você pensa no que precisa fazer no trabalho no dia seguinte. Você corrige seus deslizes na apresentação que na sala de aula na sétima série. Você tem ideias de invenções que poderiam revolucionar a humanidade.

Puta merda, você nunca foi tão genial quanto nesse momento de insônia.

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Mas você sabe que isso é tudo artifício do seu cérebro, que acha que dormir é para os fracos e quer te convencer disso. Você sabe que as ideias geniais não vão render o mesmo entusiasmo pela manhã.

Você tenta se aquietar um pouco. Foca na respiração, tenta frear o raciocínio.

Mas seu corpo luta até o fim: o coração acelera feito doido, a perna chuta sozinha. Você pensa que vai conseguir pregar os olhos e - segura! - lá vem a sensação de estar caindo, e você volta a estar mais acordado do que nunca.

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Quando você finalmente dorme, já passam das seis horas da manhã.

Você acorda ao meio-dia, exausto, e aquela pessoa que fecha os olhos e dorme instantaneamente cruza contigo no corredor. E dispara, orgulhosa:

- Cacete, você é dorminhoco, hein? Eu acordo às seis da manhã e já tô ótimo!

Sorte que você se sente como se tivesse sido atropelado por um caminhão carregado com outro caminhão em cima. Porque senão você matava - e  depois ia tomar seu café, sorrindo.

Sem cinismo

Uma criança brinca. Corre como se não tivesse limites, desbrava a sala como se fosse um campo de guerra e cai no chão como quem cai numa emb...