11.2.14

Para ter segurança

Eu tinha quinze anos.

Mudava de canal freneticamente até ver uma cena que me chamou a atenção. Era sobre um menino que abandonava suas luvas de boxe e, apesar do preconceito, decidia dançar balé. 

Era Billy Elliot, um clássico do cinema gay, e o menino passava o diabo durante o filme inteiro até enfim conquistar a aceitação da sua família.

No fim do filme, eu estava em êxtase. Era uma história de orgulho, da diferença vencendo barreiras, de aceitação. Eu nunca tinha visto aquilo antes.

Quase um abraço em forma de filme, para um garoto que ainda precisava aceitar a própria diferença.

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O entusiasmo foi tanto que não aguentei ficar em casa. 

Agarrei um livro que eu tinha pego emprestado de uma amiga que morava do outro lado da cidade. Com o filme ainda na cabeça, ia ser bom dar uma volta e pensar na vida.

Nem vi o tempo passar. Acho que carregava comigo a possibilidade de perder a vergonha de quem eu era. Quase chegando na casa da minha amiga, comecei a escutar alguém me chamando.

- Ei, viado. Vem aqui. 

Dois meninos, de uns dezessete anos, sentados no meio-fio.

- Não finge que não tá ouvindo, não, viadinho. Tá com medo, é?

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Eu estava. 

O modo de emergência foi ativado naquele momento, e todo o sangue do meu corpo se direcionou para endurecer o corpo, caminhar duro e apertar o passo o máximo possível.

Os meninos me seguiam, sem parar de xingar de viadinho o viadinho que tentava escapar deles. Lembro de pensar que, se eles quisessem mesmo me alcançar, já teriam conseguido.

O que eles queriam era me deixar em pânico. Quem sabe se eu chegasse em uma parte mais movimentada do bairro eles me deixariam em paz. Qualquer coisa, era só entrar em algum comércio e esperar.

Não deu tempo.

Quando eles me alcançaram, eu estava em um quarteirão sem casas, apenas barro e mato.

- Por quê você fingiu que não ouviu a gente, seu viado?

Fiquei gelado. Tentei conversar. Pedi desculpas. Olhei pra baixo. Rezei para aquilo terminar logo.

Alguns chutes e socos depois, terminou.

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Cheguei em casa chorando de raiva, mas tentando disfarçar. 

Eu não podia contar o que aconteceu para ninguém. Ninguém podia saber por que eu apanhei. Antes que quebrassem a minha cara do que quebrassem meu armário.

Lavei o rosto vermelho, coberto de terra e lágrimas. Sentia ódio de ser quem eu era, medo de apanhar de novo, raiva do filme que me fez pensar que eu era normal.

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Foi uma longa jornada até eu conseguir vencer esses medos e assumir o que, hoje, parece ser uma parte tão pequena da minha personalidade. 

Aos poucos, fui aprendendo a conviver melhor com quem eu era, e a me defender melhor de quem tentava me impedir disso. 

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Lendo as dicas que a Folha de São Paulo deu para os gays que querem evitar a violência homofóbica, lembrei do adolescente que passou dias sem sair do quarto pra ninguém reparar o olho roxo e perguntar o que era aquilo. 

Lembrei dele sentindo pânico, e lembrei que era bem isso o que aqueles meninos queriam.

O agressor tem tesão em ver o medo nos olhos da vítima. Quer se sentir superior. Tem prazer em usar a violência para fazer o outro calar a boca.

Não, evitar lugares abertos e não dar pinta não é uma estratégia de segurança capaz de combater isso. 

Como cachorros treinados, as pessoas que usam da violência sentem o cheiro de quem tem medo deles. 

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A maior estratégia de segurança que eu aprendi desde então foi a seguinte: Exponha-se.

Quando seus colegas estão falando das namoradas, fale do seu namorado. Você não tem por quê se esconder. 

Quando se sentir agredido por um comentário, mostre isso claramente. Não fique em silêncio. Não finja ser quem não é. 

Você não precisa fazer um anúncio formal para cada pessoa que encontra. As oportunidades são várias e se apresentam no dia-a-dia. Falar da própria vida é natural, e a naturalidade é maior inimiga do medo.

Fale abertamente sobre ser gay com a sua família, com os amigos, com o conhecido que faz piada e acha que viado é xingamento, com a vizinha que reclamou do beijo gay na novela. 

Erga a sua bandeira. Defenda seu ponto de vista. 

Trabalhe suas inseguranças. Faça algum curso de defesa pessoal. Conheça seus direitos.

Estando seguro de si, você está mais seguro do mundo. 

E essa é a única estratégia que conta.

3.2.14

Derrubando paredes

Estar inspirado é estar disposto a correr em direção a uma parede de tijolos.

Na falta de inspiração, isso também pode ser feito. Talvez com mais de cautela, talvez com menos velocidade. Talvez procurando uma pedaço de parede que pareça mais fácil de derrubar.

Com inspiração, você pode derrubar uma parede que, sem ela, poderia parecer intransponível.

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Não que haja garantia dos poderes libertadores de agir inspirado.

Você pode estar inspiradíssimo, alinhado com os seus sonhos mais selvagens, com a fúria de mil rinocerontes em fuga, e dar de cara com a parede de uma forma que te derruba tão feio que a queda parece ser definitiva.

Mas não se derruba uma parede de tijolos com uma pancada só, não tão fácil.

Você pode teimar, e retornar à parede com a cabeça mais dura do mundo, e com a maior violência, só para encontrar uma parede ainda mais resistente do que da última vez.

E então, lágrima nos olhos e sangue escorrendo da tampa da sua cabeça teimosa, corre ainda outra vez em direção à ela.

E falha.

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Você corre mil vezes e continua falhando. E isso lhe desespera, e lhe desinspira.

E você começa a quase achar a graça na parede, e começa a duvidar de correr em direção a paredes, e decide que, se esse caminho fosse para você, a parede não estaria ali.

Com o afeto de uma despedida, você passa as mãos pela parede com delicadeza. Se apóia na parede como quem está descansando de uma jornada longa.

Encosta sua testa nos tijolos, como quem entrega os pontos em uma luta impossível de vencer.

E então, a parede desaba.

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Alguns tijolos caem na sua cabeça, mas tudo bem. Ela já está acolchoada pelos galos que a sua teimosia deixou.

A parede, ao cair, ergueu um poeirão que ainda te engasga. Fica difícil enxergar qualquer coisa, o horizonte nublado por poeira e surpresa.

Aquilo que você tentou por tanto tempo aconteceu. A parede que te confinava não existe mais. Finalmente você pode correr pra onde quiser.

E a parede dá saudades.

E isso te inspira.

E é hora de encontrar outra parede pra dar cabeçada.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...