11.3.14

Cadernos

Foi algum tempo atrás.  Eu mal acreditava na sorte que estava tendo naquele momento.

Não é sempre que, no meio da pior semana da sua vida, se topa com um cara daqueles. Muito mais bonito do que os que costumam cruzar o meu caminho.

Veja, eu sou um cara normal. Me cuido na medida do possível mas não sou de dizer não a um pedaço de pudim. Ou de qualquer outro ítem alimentar, mas isso não vem ao caso.

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Só sei que aquilo parecia um presente.

Aquele peitoral, aqueles braços. Aquela sensação de que ele está ali por falta de uma opção melhor. Aquele corpo, aqueles olhos.

Intimidado sim, mas não derrotado, eu utilizava todos os meus esforços para ser o mais charmoso possível. Não conseguia.

Ele disse que não se importava com meu corpo imperfeito. Eu, tentando acreditar.

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Sexo casual já não é uma coisa que eu faça com frequência, mas quando faço, o ambiente costuma ser o meu próprio apartamento. Pelo menos se eu for assassinado, encontram o corpo mais fácil.

Mas fomos ao apartamento dele. Obviamente um apartamento de solteiro, porque homens solteiros só sabem acampar, não viver decentemente.

Na cama não havia lençóis, só uns cadernos empilhados. A vida de um homem solteiro é uma vida de improviso.

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"Não vou pedir pra apagar a luz", eu pensava. "Não vou ficar encolhendo a barriga. Não vou. Não tem nada de errado comigo."

Era uma questão de aproveitar o momento de sorte.

Entre um beijo furioso e outro, joguei uma piadinha:

"Deixa eu tirar esses cadernos daqui... Bonito assim, você não precisa ser inteligente."

Ele sorriu estranho.

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Muito tempo depois me dei conta que eu estava sendo algoz do mesmo mal que me fazia tentar disfarçar a barriga o tempo todo.

Usufruí da boa vontade daquele Apolo versão pé-de-boi, que realmente aparentava não estar nem aí com meu corpo. Eu, todo preocupado pra ele não me julgar pela minha aparência, fiz isso com ele.

Reduzi o moço a só um corpo bonito, que não teria nada mais a oferecer, enquanto tento me convencer que, apesar de não ter tanquinho e músculos, posso ser atraente.

Na inteligência eu não sei, mas no quesito superficialidade, eu ganhava de longe. Além de mais bonito, aquele menino era muito menos frívolo do que eu.

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Depois ele me repassou umas correntes de internet super sem graça, coisa que eu não faria nem morto.

Vou tomar isso como uma grande vantagem, que é pra não deprimir demais. Já me basta ser feio.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...